Melhores Filmes de 2018

Pantera Negra, Projeto Flórida, Roma, O Processo, Em Chamas, A Forma da Água e Nasce Uma Estrela são alguns dos nomes da lista. 

Presidentas depostas. Brigas pelo trono. Fábulas modernas. Um ricaço, um pobretão e uma moça. A inocência da infância em meio a um universo adulto conturbado. Racismo. O caos em meio ao simples cotidiano. Traições. Ataques alienígenas. Fetiches estranhos. Mães em meio a contextos completamente distintos. Opressão. Ação espetacular. Saúde mental. Filmes inacabados finalmente finalizados. Amores, lágrimas e conforto. Ao longo de 2018, o circuito comercial e os serviços de streaming no Brasil nos ofereceram uma lista variada de filmes, abraçando várias visões de mundo, narrativas, representatividade e nacionalidade. E o Previamente fez o possível para fazer um recorte que justificasse a excelência do cinema no ano que passou nas telonas e telinhas brasileiras.

20. Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi (Mudbound, 2017)

Direção: Dee Rees
Roteiro: Virgil Williams, Dee Rees
Elenco: Carey Mulligan, Garrett Hedlund, Jonathan Banks, Jason Clarke, Mary J. Blige, Rob Morgan, Jason Mitchell, Dylan Arnold

Nas mãos da diretora Dee Rees, Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississippi é um épico visceral. O estilo da cineasta americana é vívido e urgente, abraçando os muitos temas do livro de Hillary Jordan sem hesitação ou método aparentes. E não são temas fáceis: Mudbound escava as raízes mais profundas do racismo, encontra os pontos de intersecção e divergência entre ele e o machismo, difere e inter-relaciona a opressão sistêmica e individual, e as formas concorrentes em que elas desumanizam o oprimido. Seu olhar é afiado, e seu ataque é direto, preferindo sempre manifestar em fisicalidade e ação do que se estender em discursos — Rees e seu corroteirista Virgil Williams só encontram utilidade nas narrações em off do livro na hora de tecer poesias brutais sobre as situações em que seus personagens se encontram. Milagrosamente, ao mesmo tempo em que se mostra a estupendamente fotografada (por Rachel Morrison), musicada (por Tamar-Kali) e atuada (especialmente por Jason Mitchell, Carey Mulligan e Mary J. Blige) análise de todos esses temas, Mudbound dá um jeito de nunca perder de vista que é também uma história de dois soldados retornados da guerra, que se unem em parte pelo trauma que nenhuma outra pessoa pode entender, e são separados por linhas sociais que pouco sentido fazem para eles. Equilibrar tanta coisa em um filme que não soe calculado e não nos distraia com sua óbvia maestria técnica é uma tarefa em que muitos cineastas falharam. Dee Rees não. — Caio Coletti

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Diamond Films

19. Três Anúncios Para Um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, 2017)

Direção: Martin McDonagh
Roteiro: Martin McDonagh
Elenco: Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell, John Hawkes, Peter Dinklage

Cru, cáustico e doloroso. Talvez sejam três palavras mais apropriadas para definir Três anúncios para um crime. Não apenas a motivação principal que leva Mildred, sua protagonista, a colocar três outdoors para escancarar um crime e a consequente vergonha que o cerca por causa da polícia local, o filme faz questão de retratar ali tipos extremamente interessantes que fazem a história borbulhar o ódio e a vingança estampados na sempre excelente Frances McDormand. Além disso, Três anúncios para um crime conta com sequências cinematográficas elaboradas, como a da grande discussão que se passa entre um policial e outro personagem, culminando em consequências as quais apresentam o principal motivador da população de Ebbing: o preconceito. — Ewerton Mera

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Fox Film do Brasil

18. O Processo (2018)

Direção: Maria Augusta Ramos
Roteiro: Maria Augusta Ramos

No cinema documental, tanto quanto no ficcional, o diretor é apresentado com uma série de escolhas, caminhos criativos e narrativos que ele pode ou não pode tomar. Embora seja o retrato da realidade, o documentário também é arte, e reflete fundamentalmente (ainda que de forma tão mais sutil) o artista que a conduz. Maria Augusta Ramos se firmou como um dos nomes mais notáveis desta forma de arte no Brasil contemporâneo ao transformar o impechment de Dilma Rousseff em O Processo, um filme que vibra em propósito narrativo tanto quanto em peso político e social. Com uma abordagem fly-on-the-wall, que confia na observação e na não-interferência (o que significa, essencialmente, que não há entrevistas para a câmera, imagens de arquivo, reconstruções dramáticas ou outros recursos no filme), O Processo ainda assim cria, através da engenhosa edição de Karen Akerman, uma estória a ser contada dentro do pedaço de história que ele retrata. Escolhas aparentemente pequenas são as que acabam moldando o filme: por exemplo, a escassez de cenas com a própria Dilma, que apresenta uma face estoica ao desafio político e moral colocado contra ela; o mergulho nas estratégias internas do PT, que mostram uma fundamental miopia social do partido e de sua líder (e “estrela” do filme), Gleisi Hoffmann; a persistência em dar tempo igual para as manifestações públicas daqueles que pediram e ajudaram a tramitar o impeachment, que reafirmam o valor do filme como documento histórico. Com 2h20 de duração, O Processo pode ser exaustivo, mas só porque quer ser — a cada curva do caminho, o filme nos ensina a confiar no propósito de cada uma de suas escolhas. — Caio Coletti

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Vitrine Filmes

17. Vingadores: Guerra Infinita (Avengers: Infinity War, 2018)

Direção: Anthony Russo, Joe Russo
Roteiro: Christiphoer Markus, Stephen McFeely
Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Chris Hemsworth, Mark Ruffalo, Scarlett Johansson, Don Cheadle, Benedict Cumberbatch, Tom Holland, Chadwick Boseman, Josh Brolin, Zoe Saldana, Karen Gillan, Tom Hiddleston, Chris Pratt, Paul Bettany, Elizabeth Olsen, Dave Bautista, Bradley Cooper, Vin Diesel, Pom Klementieff, Anthony Mackie, Sebastian Stan, Danai Gurira, Idris Elba, Peter Dinklage

A efemeridade das tendências comerciais materializada em personagens que se transformam em cinzas. Vingadores: Guerra Infinita é o ápice de construção do universo Marvel, mas também é um presságio sobre o seu fim. Os méritos da obra são menos relevantes do que a importância dela para entender um aspecto industrial do cinema pós-moderno. Não é uma grande surpresa o Marvel Studios ter anunciado que seus próximos filmes serão mais independentes, sem depender tanto dessa grande narrativa envolvendo diversos personagens. A importância como produto é inegável, mas precisamos destacar também os méritos da própria obra. Os irmãos Russo adotam abordagens visuais distintas para cada arco narrativo. Isso fica evidente em aspectos mais imediatos como cor e fotografia. Isso reforça a noção de que se tratam de histórias distintas que estão chegando em seu ponto de encontro. Conforme os personagens se encontram mais envolvidos nessa grande narrativa apresentada pelo filme, essa abordagem visual vai se homogenizando.

Megalomaníaco e apocalíptico, Vingadores: Guerra Infinita é o melhor filme do Marvel Studios, existente no espaço entre a concepção e a destruição completa de universo ficcional.  — Fellipe José Souza

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Disney/Buena Vista

16. O Outro Lado do Vento (The Other Side of the Wind, 2018)

Direção: Orson Welles
Roteiro: Orson Welles, Oja Kodar
Elenco: John Huston, Oja Kodar, Peter bogdanovich, Susan Strasberg, Norman Foster

Shot ‘em Dead.

Orson Welles retratou em seu filme póstumo o surgimento de um novo método de produção, uma destruição ética necessária perante a Hollywood clássica. O filme que começa a ser idealizado em 61, período bem interessante de explosão criativa no cinema norte-americano e que pode ser pontuado em dois acontecimentos: três anos após o primeiro filme de John Cassavetes que serve como um dos alicerces para a construção da Nova Hollywood, e também começam a surgir frutos no cinema experimental norte americano em cineastas como Kenneth Anger e Andy Warhol. Influências palpáveis em O Outro Lado do Vento, principalmente se considerar que as gravações são iniciadas apenas em 1970, começo do fervo da Nova Hollywood no mainstream e também com um número maior de obras experimentais no underground. Welles se insere no diretor interpretado por John Hunston, ambos frutos da Hollywood clássica, e tenta entender esse período criativo e externalizar esse entendimento, tanto no universo ficcional como no real, essa leitura é materializada em O Outro Lado do Vento.

O clássico enxerga o novo, tenta o entender, e por fim o reproduz. Existe apego às estruturas que estão sendo desestabilizadas e isso cria um ruído pontual nessa reprodução, deixar ela nova e original, os elementos clássicos são recontextualizados. Uma transição no olhar perante o cinema e a moral. O filme ficcional que está sendo gravado na obra soa como Lucifer Rising em toda uma ritualística de encenação, repetições que criam um senso místico, mas acaba se desenrolando como Easy Rider. O mockumentário por outro lado, me remete a uma continuação espiritual de F For Fake.

O lançamento póstumo soa como uma parte da ritualística palpável no filme e leva ao seguinte questionamento: é um filme de Orson Welles? A montagem não distorce as intenções da obra? Não consigo responder isso, no fundo só o próprio diretor conseguiria dar qualquer veredito válido perante a pergunta. Por ora, o mistério sobre uma obra moldada pelo tempo é mais interessante que qualquer busca desnecessária e intransigente por autorismo. É maravilhoso que Welles termine sua filmografia com um filme que possivelmente é dele, talvez tenha alguma verdade nisso. — Fellipe José Souza

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Netflix

15. Um Lugar Silencioso (A Quiet Place, 2018)

Direção: John Krasinski
Roteiro: John Krasinski, Bryan Woods, Scott Beck
Elenco: Emily Blunt, John Krasinski, Millicent Simmonds, Noah Jupe, Cade Woodward, Leon Russom

Em meio a um mar de filmes inúteis que cada vez mais mancham o gênero terror, é muito revigorante ser brindado com gratas surpresas como Um lugar silencioso. Surpreendente não apenas pelo fato de revelar o ator John Krasinski como um excelente e promissor diretor cinematográfico, o filme faz o espectador temer a presença do som – que, mais do que a imagem em um filme de terror, é essencial para a trama se desenvolver -, o que já o torna um interessante exercício de cinema de gênero. Além da história original, é impossível deixar de admirar as atuações de Emily Blunt e, principalmente, dos filhos, Millicent Simmonds e Noah Jupe. O que uma ótima direção não faz para que um filme flua de maneira impecável. — Ewerton Mera

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Paramount Pictures

14. Ponto Cego (Blindspotting, 2018)

Direção: Carlos López Estrada
Roteiro: Rafael Casal, Daveed Diggs
Elenco: Daveed Diggs, Rafael Casal, Janina Gavankar, Jasmine Cephas Jones

Em um ano cheio de filmes que tratam sobre a questão racial, Ponto Cego é um exemplo que aborda o tema a partir de uma situação particular. É um tema macro, sim, mas trabalhado de maneira mais íntima, dentro do drama daquele pequeno grupo de personagens. Não tem KKK aqui. O longa é um verdadeiro crescendo, dono de um roteiro afiado, contando com atuações precisas e visual caprichado. A história de Colin (Daveed Diggs), que está há três dias para terminar o período de liberdade condicional, parece apenas mais uma, mas o trabalho do diretor estreante em longas-metragens Carlos López Estrada vai dando um golpe atrás do outro no espectador ao explorar com criatividade e competência diferenças raciais, opressão, brutalidade policial mirando a população negra, apropriação cultural, amizade e lealdade. É uma obra sem arestas, ora engraçada, ora extremamente dramática, carregada de tensão e com uma mensagem urgente nos tempos atuais. — Rodrigo Ramos

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Paris Filmes

13. Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman, 2018)

Direção: Spike Lee
Roteiro: Spike Lee, Charlie Wachtel, David Rabinowitz, Kevin Willmott
Elenco: John David Washington, Adam Driver, Laura Harrier, Topher Grace

Um dos filmes mais adequados para os nossos dias atuais é Infiltrado na Klan. Aqui, Spike Lee utiliza as memórias reais do policial negro Ron Stallworth, que investigou a Ku Klux Klan no final dos anos 70. A história é impressionante por si só. Stallworth (John David Washington) foi primeiro e único negro a integrar a força policial de Colorado Springs na década de 70. Pouco depois de sua admissão, ele revelou seu desejo de se tornar um agente disfarçado. No setor de inteligência, após ver um anúncio da Ku Klux Klan, ele telefona para a organização e passa a manter contato constante. Junto com Flip Zimmerman (Adam Driver), um policial judeu, os dois se tornam infiltrados no grupo sob a mesma identidade, com o intuito de coletar mais informações.

A dinâmica do filme faz com que Ron realize os telefonemas, e Flip encontre os membros pessoalmente. Nisso, há uma curiosidade constante sobre como isso poderá dar certo, ou, até quando. Há um tom satírico presente em tudo isso, mas o filme não é essencialmente uma comédia. Há drama, com a discussão do preconceito racial sendo colocada de maneira sagaz por Spike Lee, que não abre mão de imprimir um tom jocoso, quase que como um deboche. É nesse equilíbrio que o filme se apoia, fazendo contrapontos impressionantemente bizarros, e promovendo a catarse necessária no seu ato final. E como se não bastasse, nos momentos finais, Lee faz o espectador afundar na poltrona, estarrecido. Não tem como não ir à lona com o soco no estômago que é Infiltrado na Klan.Leonardo Barreto

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Universal Pictures

12. Pantera Negra (Black Panther, 2018)

Direção: Ryan Coogler
Roteiro: Ryan Coogler, Joe Robert Cole
Elenco: Chadwick Boseman, Michael B. Jordan, Lupita Nyong’o, Danai Gurira, Martin Freeman, Angela Bassett, Daniel Kaluuya, Letitia Wright, Forest Whitaker, Andy Serkis

O primeiro filme de super-herói indicado ao Oscar de melhor filme. Tamanha honraria não é por acaso. Alguns podem tentar diminuir esta obra de Ryan Coogler (carreira, até o momento, sem defeitos), alegando X, Y e Z. Mas o fato é que Pantera Negra é um trabalho tão importante em termos de impacto sócio-cultural que não há como compará-lo com qualquer outra película da Marvel ou da DC. Pode não ser o detentor dos melhores efeitos visuais do cinema moderno (a luta final entre T’challa e Killmonger é muito ruim), a ação às vezes pode até pecar, mas o pano de fundo e as questões políticas, muitas delas sendo refletidas na atualidade, são expressivas e se sobrepõem em relação ao tipo de avaliação que geralmente os fãs do gênero se atêm. Outros longas sobre questões raciais podem até ser melhores do que Pantera Negra, porém nenhum trabalho sobre a cultura negra teve tanto impacto global e tampouco sucesso comercial — o filme arrecadou US$ 1.346.913.161 na bilheteria mundial. O nível de representatividade negra aqui é algo nunca visto antes no cinema mainstream. Pantera Negra tem uma trilha sonora marcante (acho que é a única do Universo Cinematográfico da Marvel que alguém é capaz de lembrar), ótima narrativa, personagens bem desenvolvidos, exalta a figura feminina de maneira ímpar (rainhas, guerreiras — e carecas! — e gênias da medicina e tecnologia), nos faz torcer por um vilão que traz ideias facilmente relacionáveis, e insere um contexto sócio-político que dialoga com os problemas reais. Pantera Negra, na verdade, é um grande filme. Basta apenas tirar o preconceito da frente para enxergar sua grandiosidade e relevância. — Rodrigo Ramos

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Disney/Buena Vista

11. O Dia Depois (Geu-hu, 2017)

Direção: Hong Sang-soo
Roteiro: Hong Sang-soo
Elenco: Yunhee Cho, Ki Joabang, Min-hee Kim

Na metade do filme A Casa que Jack Construiu, de Lars Von Trier, o protagonista discorda da ideia de que uma obra considerada imoral seja fruto de um processo de exorcismo em que o artista destila sua própria imoralidade. Segundo o personagem, acreditar nisso seria negar a existência das problemáticas morais que esse tipo de material artístico aborda. O Dia Depois tem sido vendido como um exorcismo de seu autor, Hong Sang Soo. Em 2016, foi reportado por um tabloide uma relação extraconjugal envolvendo o diretor e a atriz Kim Min Hee, protagonista em O Dia Depois. Os temas da obra, traição e covardia, permitem esse olhar sobre um possível exorcismo do autor, mas me soa reducionista. O autorretrato de Hong não está comprometido com uma redenção.

A encenação de O Dia Depois é direta, o uso da câmera digital cria uma textura quase palpável, uma falsa sensação de que a realidade é distorcida pela escolha permissiva de filmar em preto e branco. Nessa noção de mise-èn-scene, o realismo passar a ser acessório, servindo como escolha estética. A câmera destrói essa roupagem sempre que necessário e destaca detalhes do espaço que buscam um ideal dramático dissonante. O zoom obsessivo do diretor, elemento que mais ilustra essa relação no filme, reduz o espaço captado pela câmera e pontua principalmente os personagens existentes nos conflituosos diálogos. — Fellipe José Souza

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Pandora Filmes

10. Em Chamas (Beoning, 2018)

Direção: Lee Chang-dong
Roteiro: Lee Chang-dong, Oh Jung-mi
Elenco: Ah-in Yoo, Steven Yeun, Jong-seo Jun

Só um mestre como Lee Chang-dong seria capaz de fazer Em Chamas funcionar. Esticando um conto de Haruki Mukarami em um épico de 2h30 que mistura drama social e suspense hitchcockiano, Chang-dong faz um filme que vive e morre pelo ritmo impresso a ele pelo cineasta e seus colaboradores. Sorte, então, que o sul-coreano seja tão bom em criar um clima hipnotizante, com sua câmera observadora (crédito também ao diretor de fotografia Hong Kyung-pyo) encontrando cores e sombras nos lugares mais improváveis, acertando a batida de cada cena e o momento certo de nos tirar dela, enquanto o roteiro explora as profundezas insuspeitas da história do triângulo amoroso entre o pobretão Jong-soo (Yoo Ah-in), o ricaço Ben (Steven Yeun) e a efervescente Hae-mi (Jun Jong-seo). Em Chamas é tanto um filme de mistério sobre um desaparecimento e a possível psicopatia de uma figura misteriosa quanto é um drama que encara o vazio da vida no capitalismo contemporâneo, conflitando, em muitos sentidos, a experiência de pobres e ricos dentro dele. A peça unificadora desse quebra-cabeças complicado, executado à perfeição, é o desempenho de Yeun como Ben, que surge em tela como um misto de Jay Gatsby (de O Grande Gatsby) e Patrick Bateman (de Psicopata Americano). Seu charme e carisma, misturados com a frieza por trás dos olhos, o elemental tédio de suas interações sociais, carregam Em Chamas para uma conclusão dúbia e violenta que trai o quão essencial sua performance se tornou para a construção do filme em que se encontra. Por essa revelação de um astro nato, antes escondido em papéis que não o mereciam, e por muito mais, Em Chamas é um dos produtos mais inesquecíveis do cinema de 2018. — Caio Coletti

Pandora Filmes

9. Nasce Uma Estrela (A Star is Born, 2018)

Direção: Bradley Cooper
Roteiro: Eric Roth, Bradley Cooper, Will Fetters
Elenco: Bradley Cooper, Lady Gaga, Sam Elliott, Dave Chappelle

Em seu primeiro longa-metragem na cadeira de diretor, Bradley Cooper fez várias escolhas peculiares, arriscadas. A primeira delas é o fato de selecionar um projeto que seria o terceiro remake da mesma história, que vem sendo feita no cinema desde 1937. Apesar de cada uma das três versões anteriores ter uma roupagem diferente, de acordo com o momento do mundo à época, não parecia que Nasce Uma Estrela ainda poderia render algo que fosse se distinguir tanto de seus antecessores.

Cooper também apostou em Lady Gaga para protagonizar a película. São poucas cantoras com carreiras consolidadas capazes de segurar um filme inteiro. E este seria o primeiro papel principal da artista. Além disso, uma vasta trilha sonora seria composta e acompanharia a narrativa, incluindo Cooper tendo que cantar de verdade.

Se o desastre estava à espreita, ele simplesmente some nos primeiros minutos de película. Cooper mostra-se já no início um diretor de mão cheia, no modo íntimo de filmar, ciente de que cada cena conta. Ele sabe o momento em que é necessário descansar a câmera e deixar os atores fazerem sua parte — a cena no estacionamento, com Cooper olhando para Gaga enquanto sua personagem canta é um dos melhores exemplos disso. É claro, isto funciona porque o elenco (Gaga, Sam Elliott, Cooper) está impecável. As cenas musicais são os momentos de êxtase e libertação da película, filmadas por trás do palco, dando uma visão completamente distinta do que o espectador está acostumado a enxergar. As canções fazem parte da narrativa e combinam com cada situação. As performances são viscerais e são pontos de virada da trama. Todo aspecto técnico é primordial e Cooper, junto de sua equipe, executa com eficiência, sem sequer parecer um diretor iniciante. Além disso, o filme conta com uma remodelagem da trama, trazendo mais humanidade e tridimensionalidade para o personagem masculino, que é estereotipado, patético e machista nas versões anteriores. Com isso, esta versão de Nasce Uma Estrela torna-se o mais completo das quatro, abordando questões como depressão, alcoolismo e saúde mental como um todo; a indústria musical e como é fácil perder sua identidade após o sucesso chegar à porta; como uma pessoa pode fazer diferença na sua vida; e, não menos importante, o impacto da família, seja positivo ou negativo. — Rodrigo Ramos

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Warner Bros

8. Missão: Impossível — Efeito Fallout (Mission: Impossible — Fallout, 2018)

Direção: Christopher McQuarrie
Roteiro: Christopher McQuarrie
Elenco: Tom Cruise, Henry Cavill, Ving Rhames, Simon Pegg, Rebecca Ferguson, Sean Harris, Angela Bassett, Alec Baldwin, Vanessa Kirby, Michelle Monaghan, Wes Bentley

Ser uma franquia de ação em plena atividade desde a metade dos anos 90 e continuar gerando milhões e milhões de bilheteria não é um feito a ser ignorado. Mesmo para aqueles que não são amantes dos filmes de ação praticamente sem roteiro e com direito a muitas explosões sem sentido (cof, cof, Michael Bay), Missão: impossível é irresistível. Apesar de alguns tropeços terem ocorrido, como no sofrível segundo capítulo, a série de filmes parece ter ganhado um novo e revigorado fôlego nas mãos de Christopher McQuarrie, responsável pelos roteiros e direção deste e do filme anterior. Claro, não seria possível encontrar-se no patamar atual se não fosse pelo sensacional Protocolo fantasma, de 2011, dirigido por Brad Bird, é bom lembrar. Porém, é em Efeito Fallout que talvez a série Missão: impossível atinge seu ápice. Não abandonando a fórmula de misturar ação, toques de humor e sequências de tirar o fôlego, o vigor do filme só se compara à entrega completa que seu protagonista veterano, Tom Cruise, faz do início ao fim. — Ewerton Mera

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Paramount Pictures

7. Hereditário (Hereditary, 2018)

Direção: Ari Aster
Roteiro: Ari Aster
Elenco: Toni Collette, Gabriel Byrne, Alex Wolff, Milly Shapiro, Ann Dowd

Assim como Um lugar silencioso surpreendeu por sua originalidade e direção primorosa, este é exemplo de que o terror não é um gênero menor, e muito menos está esquecido pelos grandes diretores. E apesar de ser sua estreia, o diretor Ari Aster nos entrega uma obra não apenas ousada em sua frequente construção de cenários, sequências e sons com a intenção de arquitetar uma tensão pesada, mas também inventiva, seja em como apresenta os elementos de terror – reflexos de luzes representando espíritos, corpos flutuantes em meio a uma ausência de sons -, seja no trabalho cuidadoso com os atores, que se entregam aos papeis. Além de todos esses elementos, Hereditário também traz uma trilha-sonora claustrofóbico, imergindo ainda mais o espectador no terror – que, ainda bem, não é óbvio em nenhum aspecto. — Ewerton Mera

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Diamond Filmes

6. Me Chame Pelo Seu Nome (Call Me By Your Name, 2017)

Direção: Luca Guadagnino
Roteiro: Luca Guadagnino
Elenco: Timothée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel

Um filme que brinda ao verão e ao amor de verão é uma boa tentativa de definir Me chame pelo seu nome. O longa mistura a leveza e a intensidade do amor entre Elio e Oliver sem cair em clichês e tendências perigosas que tratariam o relato em mais um filme específico para o público GLBT. Me chame pelo seu nome nada mais é do que a história de um amor entre duas pessoas, acima de tudo, e uma das cenas finais, em um diálogo entre Elio e seu pai, prova a delicadeza com que o roteiro pretendia desde o início. Destaque também para a ótima trilha-sonora, que conta com composições de Sufjan Stevens. — Ewerton Mera

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Sony Pictures

5. Antes Que Tudo Desapareça (Sanpo suru shinryakusha, 2017)

Direção: Kiyoshi Kurosawa
Roteiro: Kiyoshi Kurosawa, Sachiko Tanaka
Elenco: Masami Nagasawa, Ryûhei Matsuda, Hiroki Hasegawa

Se em A Chegada, de Dennis Villeneuve, a solução do conflito consiste no entendimento de uma linguagem alienígena, Antes que Tudo Desapareça, de Kiyoshi Kurosawa, é um manifesto sobre a necessidade de entendimento da própria comunicação,  reaproximação de definições primordiais como amor, tristeza, contato, para o ser humano. Um dos traços mais interessantes do cinema de Kurosawa é a negação de um horror primordialmente sugestivo, tudo é extremamente material. O horror é motivado por angústias terrenas e se manifesta fisicamente, tudo é explícito e palpável. O horror da materialização das angústias é mais desolador que um que apenas as sugere. Antes que tudo Desapareça é uma experiência que ocorre pouquíssimas vezes em uma década. De certa forma me parece que ainda não desvendei 10% das possibilidades do filme, uma obra destinada a crescer com o tempo. — Fellipe José Souza

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Zeta Filmes

4. Trama Fantasma (Phantom Thread, 2017)

Direção: Paul Thomas Anderson
Roteiro: Paul Thomas Anderson
Elenco: Daniel Day-Lewis, Vicky Krieps, Lesley Manville, Julie Vollono

O complexo e enervante Trama Fantasma retoma parceria entre o diretor Paul Thomas Anderson e o ator Daniel Day-Lewis, em Sangue Negro, e apresenta um filme de múltiplas camadas. Um longa sobre relacionamento abusivo, mas que também discute os limites da busca pela aceitação do outro. Ambientada na Londres dos anos 1950, o longa retrata o glamour e a alta costura da época e apresenta a vida de Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis), um estilista confiante e focado que tira inspiração das mulheres que, constantemente, entram e saem de sua vida. Acostumado a vestir a realeza, estrelas de cinema, socialites e damas, Woodcock vê sua trama perder o rumo quando se envolve com Alma (Vicky Krieps), uma jovem forte que logo se torna um acessório necessário para sua vida e carreira, como musa e amante.

O longa possui um valor artístico imenso. Figurinos, fotografia e direção de arte trabalham em conjunto para recriar com detalhes a época em que o filme se passa, além da trilha sonora precisa de Jonny Greenwood. Oferecendo mais uma grande atuação em sua carreira, Day-Lewis encarna um costureiro renomado e metódico, uma pessoa de difícil convivência e hábitos bem peculiares. Não é uma figura para se amar e o brilhante ator mergulha profundamente na alma do costureiro obsessivo. A forma como se movimenta, passando por simples expressões e até mesmo o seu tom de voz (com o seu sotaque britânico inclusive), é uma composição de personagem mais uma vez impecável. Lesley Manville e Vicky Krieps, que interpretam a irmã e a musa do personagem de Day-Lewis, respectivamente, também entregam grandes atuações, sendo mulheres essenciais nesse universo que gira em torno do egocêntrico estilista. É um filme estranho, não convencional, elegante, único. — Leonardo Barreto

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Universal Pictures

3. A Forma da Água (The Shape of Water, 2017)

Direção: Guillermo del Toro
Roteiro: Guillermo del Toro, Vanessa Taylor
Elenco: Sally Hawkins, Octavia Spencer, Richard Jenkins, Michael Shannon, Doug Jones, Michael Stuhlbarg

Muita gente torceu o nariz para a última produção de Guillermo del Toro, talvez porque ela tenha sido ovacionada em praticamente todas as competições e premiações pelas quais passou. Seu apogeu, é claro, foi a consagração com os Oscar, principalmente, de Melhor Direção e Melhor Filme. Apesar de ter competido com o ótimo Três anúncios para um crimeA forma da água ser reconhecido como Melhor Filme pela Academia não foi um erro, a meu ver. Além de sua homenagem direta e indireta para a sétima arte, o filme do mexicano presta seu respeito também para as minorias. De maneira sutil e artística, A forma da águaé uma ode aos desajustados. Ao apresentar uma mulher como protagonista, cuja melhor amiga é negra e o melhor amigo é gay, e que enfrenta um vilão homem, heterossexual e branco, os subtextos da história não podem e não devem ser ignorados. Isso tudo sem contar a extrema beleza – no sentido estético mesmo – com que nossos olhos são brindados com sua fotografia, seu design de produção e também seu figurino. — Ewerton Mera

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Fox Film do Brasil

2. Projeto Flórida (The Florida Project, 2017)

Direção: Sean Baker
Roteiro: Sean Baker, Chris Bergoch
Elenco: Brooklynn Kimberly Prince, Bria Vinaite, Willem Dafoe, Valeria Cotto, Christopher Rivera, Caleb Landry Jones

Quando o assunto são os filmes do nova-iorquino Sean Baker, muito se fala sobre a forma como ele “vira suas câmeras para os desfavorecidos” e “captura seu cotidiano e sua intimidade”. Não é mentira. Tanto neste Projeto Flórida quanto em sua (criminalmente pouco vista) obra anterior, Tangerina, Baker foca em comunidades marginalizadas e as observa com paciência e empatia o bastante para que nos habituemos com o seu mundo, e por isso entendamos suas ações, das mais compassivas e belas às mais duvidosas. O que ambos os filmes fazem também, no entanto, e Projeto Flórida provavelmente faz melhor, é incluir o fantástico, o glorioso, o mitológico, o trágico nos mundos de seus personagens. Ele está nos pássaros que Bobby (Willem Dafoe) precisa afastar da entrada do hotel, nas brincadeiras de Moonee com os amigos (“você sabe por que esta é a minha árvore favorita?”), e ressurge de forma épica e angustiante no final do filme, capaz de deixar qualquer um em pedaços por sua pureza fantástica e suas entrelinhas emocionais. Projeto Flórida não é só um filme compassivo, é um filme passional e apaixonado. Por isso que as performances de Dafoe, e da pequena Brooklynn Prince, tocam tão fundo: não exatamente por seu naturalismo, ou seu realismo, mas justamente por revelarem a chama essencialmente humana que vive por trás da rotina modorrenta (mas maravilhosa) registrada pela câmera astuta de Baker. — Caio Coletti

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Diamond Filmes

1. Roma (2018)

Direção: Alfonso Cuarón
Roteiro: Alfonso Cuarón
Elenco: Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Diego Cortina Autrey, Carlos Peralta, Marco Graf, Daniela Demesa, Nancy García García, Verónica García, Andy Cortés, Fernando Grediaga, Jorge Antonio Guerrero

Roma é o projeto mais pessoal da carreira do mexicano Alfonso Cuarón. Isto fica impresso não somente na narrativa como também no modo em que o longa se constrói: Cuarón produz, dirige, escreve, fotografa e edita a película. A demanda de trabalho é alta, mas faz sentido como execução das memórias da infância do cineasta. Se a megalomania de funções pudesse causar dano em alguns projetos, não prejudica esta obra em questão. Cuarón demonstra em pouco mais de duas horas controle total sobre os elementos que comanda, provando-se um cineasta completo, não restando dúvidas sobre sua capacidade de contar histórias que, independente da ambientação, consegue dialogar com o espectador seja por um elemento específico, as mensagens por trás do expositivo ou da narrativa como um todo.

O espectador é transportado para as memórias da infância de Cuarón num México dos anos 70. A trama acompanha a vida de uma empregada doméstica dentro da casa de uma família de classe média. De modo geral, é uma história simples e a película não oferece grandes plot twists. Cuarón não pretende inventar a roda aqui. A primeira hora do filme é calma, contemplativa, mais preocupada em estabelecer a ambientação e criar vínculo com a história, em especial a protagonista. Ainda assim, uma subtrama vai rolando em paralelo, que é explorada de maneira mais aprofundada no terceiro ato. Já a segunda metade da película é mais movimentada, dando o gás necessário para tornar desta uma história a ser lembrada.

A película, filmada soberbamente, se movimenta devagar, em um grande plano, trazendo diversos elementos dentro da fotografia. Dessa forma, há sempre histórias paralelas ocorrendo, por mais que não se saiba o contexto daquilo ou seja tão importante assim para a narrativa como um todo. Com isso, Cuarón não só enche a tela com vários detalhes, mas também nos lembra que a vida ao nosso redor continua enquanto estamos vivendo os nossos dramas. Uma das virtudes do filme habita na habilidade de tornar o cotidiano mundano em algo simultaneamente caótico. A intenção de Roma, ao que me parece, é transformar o corriqueiro em algo gigante, transformar o íntimo em algo universal. E consegue. — Rodrigo Ramos

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Fizeram parte desta eleição:
Ewerton Mera, bacharel em Letras, mestre em Semiótica, professor de português e editor do blog Uma Estante.
Marcelo Hessel, jornalista, redator e crítico de cinema do site Omelete.
Caio Coletti, jornalista e colaborador do site UOL.
Roberto Sadovski, jornalista e crítico de cinema, escreve sobre cinema para o site UOL.
Leonardo Barreto, editor do site Quarta Parede.
Fellipe José Souza, estudante de Cinema e colaborador do Previamente.
Arthur Tutuo, crítico de cinema, cineasta, ministra sobre cinema, colabora para as revistas Cinética e Multiplot!
Luiza Conde, roteirista.
Renan Santos, formado em cinema, crítico e newsposter no site Cine Eterno.
Rodrigo Ramos, jornalista, repórter do Jornal O Navegantes, editor do site Previamente.
Diego Benevides, jornalista e crítico de cinema. Presidente da Associação Cearense de Críticos de Cinema (Aceccine) e membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Mestrando em Comunicação – Fotografia e Audiovisual pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Colaborador do Jornal Diário do Nordeste.

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Por Rodrigo Ramos, Ewerton Mera, Caio Coletti, Leonardo Barreto & Fellipe José Souza

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