Melhores Filmes de 2013

Lá se foi mais um ano. E com ele, várias obras cinematográficas nos marcaram de alguma maneira. Os blockbusters decaíram (dá pra contar os bons nos dedos) e os longas-metragens com foco no público adulto ganharam mais espaço. Fomos inseridos numa ditadura televisionada, deixados à deriva no meio do espaço; tivemos um vislumbre da escravidão, experimentamos as dores do amor na saúde e na doença, e demos de cara com a inquietação num ambiente aparentemente pacato. Assistimos famílias chorarem, viajamos pelo passado e pela fantasia, sentimos a tensão a flor da pele em alto mar, acompanhamos a maior caçada terrorista da história e nos envolvemos em temas polêmicos como religião e pedofilia. Os filmes que passaram pelos cinemas e festivais brasileiros em 2013 tiveram muito a oferecer e, juntamente com um corpo de jurados de primeira, o Previamente separou os 20 maiores destaques. Foi trabalhoso, demorou, mas o resultado final compensa. Confira os melhores filmes de 2013.

20. Amor Pleno (To the Wonder)

Direção: Terrence Malick

To The Wonder seria mais um romance se não contasse sua história através de imagens. Com poucos diálogos, algumas narrações em off e contando com uma bela fotografia, Terrence Malick passeia pelos momentos doces e pelas brigas e arranhões de um casal. Como é costume em suas obras, o diretor eleva a imagem para o primeiro plano, dispensando as palavras para narrar os sentimentos dos personagens. É uma bela experiência notar que, por exemplo, a discordância do casal protagonista é representada, em dado momento, em um único plano, em que enquanto a esposa entra em um cômodo, o marido sai do mesmo – formando uma sincronia que denuncia uma instabilidade. É com esse tom que Malick registra os altos e baixos de um dos sentimentos mais intricados para se representar em qualquer arte, tornando Amor Pleno uma das gratas surpresas do ano.

To the Wonder

19. O Lugar Onde Tudo Termina (The Place Beyond the Pines)

Direção: Derek Cianfrance

O segundo trabalho do ator Ryan Gosling com o diretor Derek Cianfrance, autor de Namorados Para Sempre, ousa construir uma estória densa, dividida em três capítulos, com diferentes protagonistas e temáticas que envolvem do drama familiar à corrupção na sociedade, que, como em um efeito borboleta, todos estão interligados.

A trama inicia-se a partir dos olhos de Luke (Ryan Gosling), um homem excluído da sociedade, que decide assaltar pequenos bancos para sustentar seu filho. Na segunda parte acompanhamos o policial novato Avery (Bradley Cooper), que percebe que seus colegas de trabalho fazem parte de uma rede de corrupção que alimenta o crime o qual Avery quase perdeu a vida tentando combater. Este deslocamento da visão que o diretor dá ao espectador, primeiramente de fora da sociedade, para depois uma visão de um ângulo de 180º oposto, totalmente contrária da primeira, lembra os dois filmes da franquia Tropa de Elite, do diretor brasileiro José Padilha, onde, no segundo filme, vemos a criminalidade a partir de um outro olhar em relação ao primeiro filme; uma visão mais ampla, justificando a cascata de crimes até chegar na periferia da sociedade.

Se em Namorados Para Sempre Derek Cianfrande brinca com o universo atemporal, indo e vindo na estória, aqui o diretor demonstra total controle do tempo, que agora é linear, apresentando continuidade através das consequências dos atos de um passado que foi densamente evidenciado no primeiro ato. Em 1960, quando Hitchcock lançou Psicose, o público se viu desorientado quando a protagonista da trama é assassinada nos primeiros 20 minutos de filme, pois os espectadores não sabiam qual personagem seguir pelo resto do longa. Este sentimento também é compartilhado em O Lugar Onde Tudo Termina, que além disso, questiona e analisa, de forma não julgadora, o crime marginal, a corrupção policial e as consequências de atos que irão repercutir em um futuro inesperado.

The Place Beyond the Pines

18. Os Suspeitos (Prisoners)

Direção: Denis Villeneuve

Os Suspeitos muito me lembra Zodíaco. Não só pelo fato de ter Jake Gyllenhaal, mas por se tratar de uma história policial angustiante, que não se apressa para desenrolar a narrativa e traz consigo um elenco disposto a ir até seu limite. Paul Dano apanha melhor do que ninguém (alguém lembra dele em Sangue Negro levando uma surra de Daniel Day-Lewis? Ah, e ele apanha em 12 Anos de Escravidão também!), Hugh Jackman está numa performance eletrizante como o pai de família que tem sua filha pequena raptada, enquanto Gyllenhaal faz sua parte como o responsável pela investigação. Há muito drama, tensão e viradas na trama, em que só temos a resposta nos 47 minutos do segundo tempo.

Prisoners

17. A Espuma dos Dias (L’ecume des jours)

Direção: Michel Gondry

Engraçado, ácido e saudosista, A Espuma dos Dias é a adaptação de Michel Gondry que refresca o antigo romance de Boris Vian. Atual, mas utilizando-se de ferramentas mecânicas para construir seus efeitos visuais, o filme cria uma aliança entre boas interpretações, personagens carismáticos e situações cartunescas. Não adianta assistir a L’ecume des jours se submetendo a condições realistas: o filme fará questão de mostrar que não é preciso ser verossímil para contar verdades universais.

L'ecume des jours

16. O Som Ao Redor

Direção: Kleber Mendonça Filho

Não é comédia global, nem o relato de uma figura notória de nossa história, tampouco a trama se passa numa favela. O Som Ao Redor foge da mesmice do cinema nacional e se foca em explorar a classe média brasileira, e o faz de maneira condizente com a realidade. O cotidiano pacato, os problemas se resumindo no porteiro que dormiu durante o serviço e a Revista Veja que foi roubada, e até a cara de pau de pedir um desconto no apartamento porque alguém se matou no condomínio. É um retrato perfeito do brasileiro acomodado. Mas não só isso. O longa de Kleber Mendonça Filho explora diversos gêneros dentro de sua obra, além de criar um clima de inquietação em meio ao silêncio. É o suspense mais puro de todos. Uma obra que exemplifica a evolução do nosso cinema e que se desprende do eixo Rio-São Paulo.

o som ao redor

15. Django Livre (Django Unchained)

Direção: Quentin Tarantino

Quentin Tarantino explorando o western spaghetti e escravidão no mesmo filme. O resultado? Genialidade. O diretor continua provando ser mestre em criar diálogos afiados, em preparar seu elenco e em montar as cenas mais exageradas, impactantes e inesperadas do cinema. Escravidão com bom humor? Só Tarantino é capaz de tal feito. Na história do escravo em busca de resgatar sua amada, somos jogados em um poço de ironia, sangue pra tudo quanto é lado, mas sobriedade na hora de mostrar sobre os maus-tratos com os escravos – Tarantino não pesa a mão e exibe tamanha crueldade com o desconforto que tem de ser. Destaque para as atuações de Leonardo DiCaprio e Christoph Waltz e Samuel L. Jackson, todos fantásticos em cena.

Django Unchained

14. Tabu

Direção: Miguel Gomes

Não sou familiarizado com o cinema português, mas Tabu acabou aparecendo no meu caminho. O diretor Miguel Gomes cria uma estória que é um misto de fantasia, romantismo, melancolismo, perdição, memória e até mesmo colonização dos portugueses e africanos. Tabu começa com um conto fantástico sobre um homem se suicida atirando-se num rio onde é engolido por um crocodilo, um ato desesperado interpretado como uma desilusão amorosa. De acordo com a lenda, por vezes uma bela dama é avistada no meio da floresta acompanhada pelo animal. A partir daí a narrativa se destrincha em dois capítulos: Paraíso Perdido e Paraíso. No primeiro ato, conhecemos Aurora, uma senhora nos seus 80 anos, que vive acompanhada da solidão e memórias que se confundem com o que aconteceu ou não. Certo mesmo só uma coisa: Gian Luca-Ventura, seu grande amor do monte Tabu. No segundo ato, em flashback, conhecemos a estória de amor entre os dois. Tabu é marcado por um sentimentalismo forte, nos responsabilizando por nossas decisões, os caminhos que escolhemos e como isso ecoa pelos anos através de memórias inventadas, lembranças imprecisas e emoções genuínas.

Tabu

13. Blue Jasmine

Direção: Woody Allen

As figuras femininas são marca registrada do cinema de Woody Allen e Blue Jasmine cuida bem do retrato dessas mulheres maduras, seguindo por duas vertentes: a mulher rica e fútil, com marido infiel e falcatrua, mas que fechava os olhos preferindo sustentar a imagem de casal perfeito e toda a ostentação; e a segunda é uma mulher de coração gentil, que rala dia após dia, sempre acostumada com pouco – tanto em questão pessoal quanto profissional – e de pés no chão. As duas irmãs acabam voltando a se relacionar porque Jasmine (Cate Blanchett) perdeu tudo. É uma jornada de recomeço para a protagonista, que vive se iludindo, vivendo uma realidade paralela em sua mente e que Allen retrata com todos os tiques nervosos possíveis, coisa que o diretor e roteirista adora explorar. Uma mulher à beira de ataque de nervos. Pode não ser tão bom quanto alguns dos últimos longas dele (Vicky Cristina Barcelona, Match Point, Meia Noite em Paris), mas se tem algo que ele acerta em cheio é seu elenco – Blanchett está surtada de um jeito que nem uma caixa de lexotan é capaz de resolver. Ela é a alma do negócio aqui, em uma atuação impecável e que norteia o longa.

Blue Jasmine

12. Azul é a Cor Mais Quente (La vie d’Adèle)

Direção: Abdel Kechiche

Todos falam desta película como o filme de sexo lésbico. O sexo é um elemento constante em Azul é a Cor Mais Quente, mas não é exatamente o que permeia a narrativa. O longa-metragem de Abdel Kechiche trabalha de maneira honesta neste conto sobre a descoberta da sexualidade na adolescência e como o amor pode afetar toda a nossa vida. O diretor é intimista e fecha o close na cara de seus atores, impedindo uma atuação falseada. As emoções estão estampadas nos rostos de seus personagens e isso transforma Azul é a Cor Mais Quente numa película sincera, com emoções genuínas. Todas as cenas de sexo são realmente necessárias? Não. Mas foi a maneira que Kechiche encontrou para contar esta estória, mesmo que seja de maneira pouco ortodoxa.

La vie D'Adèle

11. Capitão Phillips (Captain Phillips)

Direção: Paul Greengrass

Há anos não se via uma atuação tão verdadeira de Tom Hanks. Não que ele tenha feito muitos filmes ruins desde Filadélfia e Forrest Gump – ele faturou seus dois Oscars de melhor ator por estes. Aparentemente precisava de um diretor que ama o realismo para fazer do tal capitão do título um personagem crível, tridimensional, que parece tão real quanto eu e você a partir de um ator do porte de Hanks. Um dos pontos positivos aqui é não tratar os terroristas somalianos como os “bandidos”. Eles têm suas motivações, que não necessariamente justificam o ato, mas nos faz compreender o lado deles. Eles são apenas humanos. O longa é tenso do começo ao fim, com direção impecável num estilo quase documental – marca registrada do diretor.

Captain Phillips

10. A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty)

Direção: Kathryn Bigelow

O grande trunfo de A Hora Mais Escura é não se render às armadilhas comuns dos filmes que tratam de conspirações e longas de temática semelhante. Mark Boal é bastante sincero ao não escrever um roteiro que exagere nos tons de heroísmo diante do contexto envolvendo a caçada e eventual morte de Osama bin Laden. Toda a perseguição envolvendo o terrorista consegue transcender a simplicidade de um antagonista comum, elaborando em volta dele uma imagem abstrata que permite que os outros personagens possam ter sua obsessão explorada de forma ainda mais plausível. A personagem de Jessica Chastain abraça sua inquietude para que a narrativa mantenha seu ritmo tenso sem o abuso de cenas didáticas envolvendo os sentimentos dela. Sua obsessão nunca se torna mecânica graças ao cuidado que se tem em humaniza-la quando possível. Tudo isso para culminar em sequências sublimes que constroem a reta final do filme, um trabalho de direção exemplar por parte de Kathryn Bigelow para ilustrar a ação militar no Paquistão que funciona como o clímax. O reconhecimento da magnitude desse evento é o ponto chave para que a diretora seja capaz de criar um momento especial, aumentando a agitação da câmera (um dos principais elementos do filme) ao longo do desenrolar das ações antes de colocar os personagens aliviados (estado que é alcançado somente nos instantes finais do filme) por finalmente conseguirem cumprir o objetivo.

Zero Dark Thirty

9. Frances Ha

Direção: Noah Baumbach

A identificação com Frances Ha para quem vive de profissões nas áreas humanas (especialmente ligadas à arte) é imediata. É a história de uma garota que mora em Nova York, mas não tem um apartamento próprio. Ela dança numa academia de dança, mas não é dançarina profissional. Ela quer viver da arte, mas não tem tido muito sucesso, mesmo depois de se formar na faculdade. Ela tem uma melhor amiga que amadureceu e seguiu em frente. Não é necessariamente falta de ambição o que lhe falta, o problema é o mal da minha geração: a adolescência prolongada. A vida adulta não chega mais aos 18 anos – ela se prolonga. E Frances vive dessa síndrome. Afinal, o que ela está fazendo com a vida dela? Ela nem tem um emprego, enquanto outras pessoas na idade dela já são bem sucedidas, com relacionamentos estáveis e até mesmo filhos. O longa trata todos esses assuntos de maneira sutil, divertida, com uma trilha sonora impecável, fotografia de primeira e uma atuação adorável de Greta Gerwig.

Frances Ha

8. Rush – No Limite da Emoção (Rush)

Direção: Ron Howard

Filmes sobre esporte costumam agradar só um nicho e não costumeiramente se sobressaem em qualidade. É normal se focar muito no esporte em si e o desenvolvimento dos personagens fica prejudicado. Não é o caso de Rush – No Limite da Emoção. Ron Howard faz um de seus trabalhos mais inspirados ao construir o duelo perfeito entre os corredores de Fórmula 1 Nikki Lauda (Daniel Brühl, um dos maiores esnobados pelo Oscar deste ano) e James Hunt (Chris Hemsworth). Os protagonistas e sua rivalidade são construídos de maneira consistente pelo roteiro, que toma conta para que nada caia nos clichês de longas esportivos. Nem sou fã do esporte, mas é impossível não se contagiar com as corridas, ainda mais quando elas são tão realistas (em alguns momentos, o diretor utiliza imagens da época e nem dá pra perceber). É adrenalina pura – de verdade.

Rush

7. Um Estranho no Lago (L’inconnu du Lac)

Direção: Alain Guiraudie

Um dos clichês mais usados nas opiniões sobre obras audiovisuais é o clássico que diz que determinada obra não é indicada para qualquer um. Dentre os filmes listados aqui, Um Estranho no Lago é aquele que mais se encaixa nesse raciocínio, atirando o pudor pela janela da forma mais selvagem possível. Alain Guiraudie não elabora um filme complicado para criar um magnífico suspense. Ele se apoia em uma relação puramente carnal envolvendo dois homens e constrói um contexto social extremamente forte ao explorar quais limites que alguém pode atingir quando apaixonado. O resultado disso é um filme seco, que transita de forma natural por fazer com que os instintos humanos mais puros venham à tona ao longo das cenas, aproximando luxúria e instinto de sobrevivência envolvidos em um erotismo que transforma um aparentemente inofensivo lago em uma armadilha fantasticamente arquitetada. Além de criar um roteiro marcante, que é capaz de entregar muito através de diálogos simples e sutis que se mostram como ameaças cínicas quando necessário, Alain Guiraudie também tem uma visão fantástica na direção, atirando com precisão e beleza a câmera subjetiva ao redor do protagonista sempre que necessário antes de prendê-lo em sua hipocrisia por ver o que não deveria ser visto e guardar aquilo para si próprio por motivos egoístas. Um entrosamento fantástico em todas as áreas.

L'inconnu du Lac

6. Jogos Vorazes: Em Chamas (The Hunger Games: Catching Fire)

Direção: Francis Lawrence

O único exemplar de franquia blockbuster nesta lista é Jogos Vorazes: Em Chamas. O antecessor foi um dos melhores filmes de 2012 e em 2013 repete a dose de sucesso e excelência tanto em enredo quanto em atuação. Jennifer Lawrence continua sendo o que mais chama atenção, no entanto há muita substância no conteúdo. É possível criar um paralelo entre a nossa realidade com a mostrada na película. Extrema pobreza, violência desenfreada (só no Brasil, ocorrem 50 mil homicídios por ano), falta de liberdade de expressão, governos ditatoriais e corrupção exacerbada são os principais itens da ficção que se confundem com a nossa realidade. Em Chamas tem ação de primeira, mas não deixa de explorar o lado político, o emocional, até o bom humor, além de construir uma mulher forte como protagonista com quem as garotas mais novas e até as adultas podem se identificar e admirar.

The Hunger Games - Cacthing Fire

5. A Caça (Jagten)

Direção: Thomas Vinterberg

Uma mentira inofensiva. Em A Caça, a proporção que uma mentirinha toma é gigantesca e causa danos irreparáveis. O professor Lucas (Mads Mikkleson, o Dr. Hannibal Lector da série de TV) é querido pela comunidade e pelos pais de seus alunos da escola primária. Ele vive diariamente com a sua solidão, passa pelo luto do seu divórcio e ainda luta pela guarda do filho. Nesta última pauta, ele está tendo boas notícias e parece ter encontrado um novo amor. No entanto, sua vida dá uma guinada quando uma de suas alunas o acusa – falsamente – de ter abusado sexualmente dela. Não era a intenção, mas a mentirinha da garota vai virando uma bola de neve, sendo a palavra dela contra a do professor. O bom cidadão perde seu emprego e vê todos da cidade o julgando, mesmo sem nenhuma prova. O longa-metragem traz um tema pesado e ao mesmo delicado. O assunto é tratado com precisão, densidade e uma atuação espetacular de Mikkleson, que sofre tanto que é impossível não se revoltar e nos fazer indagar sobre o assunto.

Jagten

4. Amor (Amour)

Direção: Michael Haneke

Amor é um soco no estômago. Se existe amor verdadeiro, certamente é algo muito próximo ao retratado nesta película, que é dolorosamente belo e melancólico. Imagine dedicar toda a sua vida ao outro. Tudo parece bem e, subitamente, uma doença atinge seu companheiro e então todas as lembranças, possibilidades de planos e felicidade se esvaíram. Enquanto ela vai definhando e cada vez menos tendo momentos de lucidez, ele precisa encontrar forças para cuidar da pessoa que mais amou em toda a vida. A devoção dele é exemplar. Enquanto isso, Emmanuelle Riva interpreta magistralmente a senhorinha. Amor não é um filme para deixar o espectador confortável. É incômodo, mas ao mesmo tempo é maravilhoso ao traduzir este sentimento tão emblemático e impossível de ser decifrado. O desfecho, controverso, é de partir o coração. Mas fica claro que tudo é feito por amor, seja lá o que for este sentimento.

Amour

3. Antes da Meia-Noite (Before Midnight)

Direção: Richard Linklater

Relacionamentos são complicados pois envolvem inúmeras variáveis. Como cada um é diferente em sua personalidade, manias, gostos, visões política e religiosa, e por aí vai. É árduo fazer uma relação dar certo. No começo, ao se conhecer, é tudo lindo. É a utopia do amor. Antes do Amanhecer é isso. É o frisson da paixão na juventude, quando tudo o que é idealizado pode ser realizado. Alguns anos depois, com os pés um pouco mais no chão, em Antes do Pôr do Sol, Richard Linkatter nos leva para o reencontro entre o casal interpretado por Ethan Hawke e Julie Delpy. Depois de viverem separados por quase uma década, a paixão retorna e eles fazem o que querem: jogar tudo pro alto e ficar juntos. A última parte da trilogia, Antes da Meia-Noite, é o melhor longa da série. Depois de quase três décadas, os atores e o diretor estão maduros e já viveram o suficiente para dar a cara e coração que são necessários para falar de relacionamentos de uma maneira tão realista, pé no chão, e por isso chega até a ser cruel. Eles agora são casados, têm filhos e vivem o tão sonhado “felizes para sempre”. Só que não nesta última parte, porque Linklater não trata isso como um faz-de-contas. Ele explora os conflitos de pessoas que se conhecem por tempo demais, que mesmo com a convivência ainda são totalmente diferentes e como isso afeta a vida um do outro. Há veracidade em cada diálogo disparado entre os protagonistas e não tem como não enxergar a arte imitando a realidade aqui. O casal é perfeito junto, o roteiro é um primor e a condução de Linklater mostra como ele é um diretor comprometido com a sua arte, nos proporcionando um estudo de caso sobre relacionamentos e o amor. Antes da Meia-Noite mostra como o cinema consegue ser fantástico quando é simples como uma história de apenas dois personagens conversando.

Before Midnight

2. O Mestre (The Master)

Direção: Paul Thomas Anderson

O responsável pelo melhor filme da década passada (Sangue Negro, obviamente) começa seu trabalho na década atual de forma nada menos que incrível. Paul Thomas Anderson aproveita-se de toda a incerteza da sociedade depois da Segunda Guerra Mundial para criar uma rede de personagens que se encaixam perfeitamente para demonstrar o quanto o ser humano é capaz de correr em círculos ao tentar escapar de características tão impregnadas de sua personalidade. Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman posicionam-se de forma incrível nessa situação, demonstrando uma relação de aprendiz e mestre que termina revelando o pior e o melhor de seus personagens, representações distintas do mesmo animal conhecido como ser humano. O segundo aproveitando-se da bestialidade do primeiro para ludibriar, lucrar e mascarar o seu complexo de superioridade. Paul Thomas Anderson demonstra aqui de forma linda sua habilidade por trás das câmeras ao coloca-los em celas e enquadrá-los separados pelas barras em uma das cenas chaves do filme. Ambos tentam um caminho que se baseia demais na esperança para alcançar sossego, uma noção que vai se deteriorando com o passar do tempo para revelar justamente as reais facetas dos envolvidos com o grupo religioso montado pelo personagem de Hoffman. Esses conflitos de autodestruição são responsáveis pelo tom de uma narrativa fantasticamente bagunçada que nos proporcionou uma experiência única no cinema em 2013.

The Master

1. Gravidade (Gravity)

Direção: Alfonso Cuarón

Alfonso Cuarón é um baita diretor e ele deixou isso claro desde o momento em que pisou em Hollywood dirigindo o melhor filme da saga Harry Potter para muitos, O Prisioneiro de Azkaban, além de Filhos da Esperança, filmaço que muita gente deixou passar despercebido. Gravidade era o seu projeto dos sonhos e a Warner Bros teve a coragem de investir nele. E que acerto. O blockbuster faturou alto não só nas bilheterias, como também foi abraçado pela crítica e é um dos favoritos ao Oscar deste ano. É tudo justificável. Em termos técnicos, Grvidade é embasbacante. O avanço tecnológico proporcionado pela produção é de grande contribuição para o cinema, além de ser belíssimo. Os primeiros doze ou quinze minutos sem um corte sequer, iniciando com uma visão da Terra, é um primor cinematográfico. No entanto, não fica só nos efeitos especiais. A estória é simples, na verdade, mas colocado num contexto como o apresentado aqui, tudo fica diferente. Sandra Bullock luta pela sua sobrevivência, sozinha no espaço. A sensação é de claustrofobia, o que soa até irônico sendo que o espaço é infinito. Bullock se sai melhor do que quando faturou a estatua dourada há uns anos atrás, afinal o longa é totalmente dela. Atuar sozinha, ainda mais nas circunstâncias em que ela foi posta para conseguir passar a veracidade da situação, é tarefa dificílima. Mesmo abandonada no espaço, a personagem encontra dentro de si a vontade de sobreviver – é da nossa natureza isso. Nesta jornada, o espectador é surpreendido a cada cena, com tensão a flor da pele, uma enxurrada de sentimentos e um dos mais belos filmes vistos nos últimos 20 anos, tanto em termos visuais quanto emocionais.

Gravity

Textos por Rodrigo Ramos, exceto O Mestre, A Hora Mais Escura e Um Estranho no Lago por André Fellipe; Amor Pleno e A Espuma dos Dias por Ewerton Mera; e O Lugar Onde Tudo Termina por Gustavo Halfen.

Fizeram parte desta eleição:
Ewerton Mera, bacharel em Letras e escreve no blog Uma Estante Reloaded
Gustavo Halfen, biólogo, escreve para o blog Sobre Cinema e Café
Marcelo Hessel, jornalista, redator e crítico de cinema do site Omelete
Daniel Medeiros, crítico de cinema, escreve em seu blog 7Marte, para o site Cine Cult Floripa, redator do site Pipoca Moderna e membro da ABRACCINE – Associação Brasileira de Críticos de Cinema
Max Cirne, jornalista, repórter do jornal Diário Popular (em Pelotas/RS) e escreve críticas para o site Culture-se
Roberto Sadovski, jornalista e crítico de cinema, escreve sobre cinema para o site UOL e é dono do canal Nerdovski no YouTube
André Felippe, estudante de Engenharia Elétrica e colunista do site Série Maníacos
Rodrigo Ramos, jornalista, repórter do Jornal O Navegantes, colunista de cinema e séries de TV nos sites Culture-se e Blumenews
Bárbara Sturm, diretora da distribuidora Pandora Filmes (responsável pela aquisição dos filmes e coordenação de lançamento) e curadora do festival Cinerama.BC
Diego Benevides, jornalista, crítico de cinema do portal Cinema Com Rapadura e membro da ABRACCINE – Associação Brasileira de Críticos de Cinema

Confira as listas individuais dos votantes clicando aqui

Confira também:
Melhores Filmes de 2012

Melhores Filmes de 2011

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