Melhores Clipes da Década de 2010

Beyoncé, Lady Gaga, Childish Gambino, Radiohead, Rihanna e Sia são alguns dos nomes presentes na lista.

Desde 2011, de forma sagrada, o Previamente traz a sua lista anual de melhores clipes do ano. Pois bem, chegou a hora da decisão mais difícil a ser tomada por esta redação, que é ser pedante o suficiente para dizer quais são os melhores videoclipes da década que está se encerrando. Gosto é subjetivo e você naturalmente pode adorar as escolhas ou detestá-las.

O fato é que os últimos 10 anos foram de virada para os videoclipes, afinal a MTV como conhecíamos morreu no início da década de 2010 e a indústria fonográfica teve de se adaptar, vivendo principalmente na internet. Com isso, mais pessoas tiveram chance de serem notadas e alguns explodiram em meio a essa democratização no meio, a exemplo do fenômeno do k-pop. Vale também citar que mais vozes foram ouvidas e ganharam espaço, com críticas sociais cada vez mais contundentes e minorias ganhando o holofote.

Em suma, foi uma grande década para os videoclipes e o Previamente presta homenagem a eles com esta lista. Confira abaixo nossa seleção.

30. Rihanna feat. Calvin Harris — We Found Love

Direção: Melina Matsoukas

Gostaria de acreditar que essa música e esse clipe não são sobre Chris Brown, pois Rihanna certamente merece mais do que isso. Porém, apesar disso, a colaboração com Calvin Harris é um dos maiores hits da cantora, uma das suas melhores músicas e um dos clipes mais marcantes. Trata-se de uma narrativa sobre os ótimos momentos de um relacionamento até o momento da sua derrocada, potencializado principalmente pelo uso excessivo de drogas. Poderia ser apenas mais um entre tantos vídeos com essa temática, mas a edição do clipe é tão frenética e com timing perfeito que não há como não amar.

29. Paul McCartney – My Valentine

Direção: Paul McCartney

A música é uma graça e prova que Paul McCartney ainda tem muito a oferecer para a indústria fonográfica. O clipe é tão gracioso e bonito quanto a canção. Natalie Portman e (infelizmente) Johnny Depp foram escalados para ficar sentadinhos num banquinho, com um fundo escuro, e nada mais. O que resta aos dois a fazer é interpretar a letra de “My Valentine” em linguagem de sinais (libras). O resultado é sublime.

28. Charli XCX & Troye Sivan — 1999

Direção: Ryan Staake & Charli XCX

Uma grande homenagem ao final dos anos 90. E lembrar que todos nascidos na década em questão já são maiores de idade hoje… No final da nossa década de 10, nada melhor do que fazer essa viagem nostálgica de 20 anos atrás.

27. P!nk – Try

Direção: Floria Sigismondi

“Try” não tem muito mistério. P!nk e o dançarino Colt Prattes formam um casal com problemas no relacionamento (casando com a canção). A relação conturbada é desenhada através da coreografia interpretada pelos dois, numa espécie de combate corpo a corpo através de movimentos sofisticados e elaborados. A coreografia, criada por Golden Boyz e Sebastien Stella, é incrível e de tirar o fôlego. Além de serem esteticamente bonitos, os movimentos traduzem com fidelidade os versos da canção. É o clipe mais corajoso da carreira de P!nk e um dos melhores de sua videografia.

26. Radiohead — Daydreaming

Direção: Paul Thomas Anderson

Dirigido por Paul Thomas Anderson (diretor de filmes como Sangue NegroEmbriagado de Amor e O Mestre), o vídeo para a faixa “Daydreaming” é praticamente um sonho filmado (é a sensação que se tem), com Thom Yorke passando de cenário a cenário através de cada porta. Trabalho primordial de edição. A descrição termina aqui. Tem que assistir para sentir.

25. The xx — Islands

Direção: Saam

Se a priori o vídeo de “Islands” parece simples com uma coreografia ao fundo executada repetidamente, no decorrer da minutagem é possível notar as minúcias do que se quer contar através do vídeo. O videoclipe trata do desenvolvimento de um relacionamento e como tudo pode parecer normal a priori, mas lentamente a relação pode estar se desmoronando de uma forma que você não percebe até quando já é tarde demais.

24. Tove Lo – Habits (Stay High)

Direção: Motellet

A odisseia da cantora Tove Lo é perfeita no que se refere tentar superar um coração partido. No videoclipe do hit “Habits (Stay High)”, acompanhamos a saga diária da garota, do começo do dia até a cerimônia de se aprontar para sair em mais uma balada. As bebidas, os cigarros, as noitadas, os beijos e as transas são somente um cano de escape para adormecer a dor que ela sente. Nós da redação não recomendamos, mas compreendemos o sentimento. O clipe capta bem essa emoção devastadora presente na canção.

23. Beck – Up All Night

Direção: CANADA

Uma das maiores odisseias modernas é entrar numa festa e resgatar o seu amigo ou amiga que deu PT. O clipe é uma aventura maluca desse tipo de resgate e é a mulher que sai em busca do mocinho indefeso depois de várias doses de álcool.

22. Coldplay — Up&Up

Direção: Vania Heymann & Gal Muggia

A banda liderada por Chris Martin se esforçou durante esta década para ser cada vez mais medíocre e descartável (uma pena, pois já foi uma das minhas bandas favoritas), mas o clipe de “Up&Up”, apesar de a música não ser lá grandes coisas, é visualmente estupendo. É difícil resumi-lo, mas trata-se de uma série de belas imagens da humanidade fundida com uma montagem de outra dimensão. O resultado é embasbacante. Só resta mandar meus parabéns ao pessoal da edição e dos efeitos especiais.

21. Grizzly Bear – gun-shy

Direção: Kris Moyes

O clipe de “gun-shy” certamente poderia ter sua experiência melhorada se assistido sob efeito de psicotrópicos. O vídeo todo é passado no meio de uma locação externa, o que pode ser um parque, já que há árvores, pedras e até um lago. É o contato da natureza humana com a natureza em si. Exames de DNA (fios de cabelo, aquela raspadinha dentro da boca com cotonete, exame de sangue) para mostrar do que somos feito de verdade – moléculas. No meio disso, há muitas experiências, tanto em questão médica (cortes, soro na veia, todo o processo de um exame de sangue) quanto visualmente, afinal de contas é um clipe todo feito a partir de GIFs. As imagens podem ser agradáveis, belas, estranhas, repulsivas, entre outras terminações. É um experimento diferente de tudo o que se viu em 2013, ano de seu lançamento, em termos de videoclipe. Pode não haver uma linha narrativa clara ou até mesmo uma intenção explícita, mas o que importa aqui é a odisseia visual. Aperte o play e abra a sua mente por quatro minutos e meio.

20. Leon Bridges — River

Direção: Miles Jay

Com a calmaria que precede o início da canção, nem dá pra imaginar o turbilhão de emoções que “River” desencadeia a partir do momento em que os primeiros acordes no violão de Leon Bridges ecoa dentro de um quarto de hotel. Filmado em Baltimore, uma das cidades estadunidenses com maior percentual de negros e afro-americanos, o vídeo mostra o cotidiano sofrido dessas pessoas, desde a questão da pobreza até a opressão policial. As cenas são de uma delicadeza ímpar e a canção é poderosa a cada verso e acorde. Apesar da visão pessimista do agora, o videoclipe dá um pingo de esperança no final, a exemplo da cena do batizado em massa e o último take de Leon na sacada do quarto. Simbolicamente, somente a água é capaz de purificar e amenizar a dor que essas pessoas sentem, além do amor ao próximo.

19. Jay-Z — The Story of O.J.

Direção: Mark Romanek & Jay-Z

De forma brilhante, Jay-Z utiliza animação das antigas para ilustrar os negros — que, no passado, eram desenhados de forma estereotipada — ao longo das décadas, e mostra que não foi muita coisa que mudou. Conforme o rapper reforça na letra, independente da posição ou do tom da cor da pele, o negro ainda é negro. O clipe é primoroso no ponto de visto social e excelente em sua execução visual. Quem diria que Jay-Z ainda viveria sua melhor forma da carreira em 2017? Eu certamente não apostava nisso.

18. PSY — Gangnam Style (강남스타일)

Direção: Lee Bo Young

O sétimo vídeo mais assistido da história com YouTube, atualmente com mais de 3,4 bilhões de visualizações. PSY surgiu do nada e sua dança cavalgante cativou o mundo inteiro. O clipe de “Gangnam Style” é sacana e engraçado. Danças dentro do elevador, dentro do estacionamento, na praia, situações irreverentes no interior de metrôs e até saunas. O ritmo e a letra (o refrão, mais especificamente) são grudentas e não saem da cabeça depois do primeiro play. Quando você descobre o que significa a letra, percebe que ela realmente tem algo a dizer. No caso, ele critica o modo de viver da elite emergente da capital sul-coreana, Seul, e isso fica evidente no modo escrachado com que o vídeo é feito. Com muito bom humor, danças e cenários coloridos, “Gangnam Style” é um marco da música, da internet e dos videoclipes. E isso tudo antes do fenômeno do k-pop que atingiu o mundo inteiro nos últimos anos e veio pra ficar, até segunda ordem.

17. DJ Shadow feat. Run the Jewels – Nobody Speak

Direção: Sam Pilling

Certamente um dos clipes mais engraçados desta lista, “Nobody Speak” traz uma reunião, possivelmente de representantes da ONU, tretando fortemente. O vídeo deveria ganhar um prêmio pelo lipsync perfeito e que cai como uma luva nos lábios dos políticos. O clima de animosidade é parecido com o que enfrentamos no Brasil e até nos EUA no âmbito político, exceto pelas agressões físicas, e que com certeza iremos nos deparar ainda nos próximos anos — então vamos rir enquanto ainda podemos, porque o futuro pode ser de chorar, e com as agressões de fato ocorrendo.

16. The Blaze — Queens

Direção: Jonathan Alric & Guillaume Alric

A intenção da dupla Jonathan e Guillaume Alric aqui é divulgar e tirar o preconceito acerca da comunidade cigana. O vídeo inicia com um funeral, porém a dupla prefere celebrar a vida. Eles trabalham com um vídeo cheio de flashbacks de como foi a belíssima vida de uma dupla de mulheres (irmãs, amigas, amantes? os diretores dizem que nem eles sabem), curtindo cada segundo de sua existência. É belíssimo e lembra inevitavelmente parte da filmografia de Terrence Malick, mas confesso que prefiro assistir a esse videoclipe durante três horas seguidas ao invés de rever A Árvore da Vida, por exemplo.

15. Baco Exu do Blues — Bluesman

Direção: Douglas Ratzlaff Bernardt

O curta-metragem “Bluesman” traz um retrato preciso da vida dos negros no Brasil. Com versos poderosos, imagens marcantes e exaltação da pele negra, o vídeo é a obra-prima dos clipes brasileiros desta década. Extremamente necessário e atual.

14. Keane – Disconnected

Direção: J.A. Bayona & Sergio G. Sánchez

A primeira imagem do clipe de “Disconnected” traz um aviso, em italiano, dizendo que é proibida a cópia desta fita, pois se trata de pirataria. É um daqueles avisos no começo das fitas VHS. A intenção é justamente essa. Fazer um clipe de estilo retrô. O videoclipe é uma homenagem ao cinema das antigas. Em especial, ao cinema de suspense e terror. A filmagem tem os riscos e falhas que aparecem nas projeções dos rolos de filmes no cinema e também nas fitas VHS. A narrativa é a típica do gênero. Uma mulher se muda para um casarão antigo e aos poucos vai descobrindo os horrores e maldições contidos nele. Fantasmas, zumbis, túmulos, delírios, possessões, gritos, sustos, lama e chuva. As características clássicas do gênero podem ser encontradas em “Disconnected”, que conta com uma atriz (Letícia Dolera) inspiradíssima e que adiciona mais qualidade ao vídeo. É um videoclipe ágil, com edição primorosa, uma direção de arte caprichada, efeitos especiais de qualidade e uma narrativa bem elaborada. A direção da dupla composta por J.A. Bayona (dos filmes O Orfanato, O Impossível, e que na próxima década irá dirigir episódios da série de O Senhor dos Anéis) e Sergio G. Sánchez é sensacional e nos presenteia com o melhor clipe do ano.

13. Run the Jewels – Close Your Eyes (And Count to Fuck)

Direção: A.G. Rojas

Dois mil e quinze foi um ano em que o racismo ficou estampado na capa dos meios de comunicação nos Estados Unidos. Apesar de lamentáveis, felizmente a imprensa não se omitiu (completamente) em noticiar as mortes de negros inocentes pelas mãos de policiais, além de outras ocorrências baseadas puramente na cor da pele. Esse momento de exposição do racismo, cada vez mais difícil de ser ignorado, refletiu na música, a exemplo do melhor álbum de 2015 – To Pimp a Butterfly, de Kendrick Lamar. Porém, o rapper não é o único antenado nisso. O grupo de hip-hop Run the Jewels conseguiu ser preciso na crítica que o videoclipe de “Close Your Eyes (And Count to Fuck)” traz. Lançado em 2015, o vídeo em preto e branco traz dois protagonistas: um cidadão negro e um policial caucasiano. Os dois passam os quatro minutos de clipe se confrontando. Ambos estão machucados, claramente desgastados, não querendo mais aquela disputa. Porém, por alguma maneira, eles mantêm a briga. O cansaço estampado em seus rostos mostra que a razão já se foi faz tempo e apenas o ódio e a futilidade da violência, continuam servindo de incentivo para a incessante briga. Retrato infeliz, porém preciso do que acontece não só nos EUA, mas aqui no Brasil também, como no caso das nove mortes durante uma operação policial desastrosa (e criminosa) durante um baile funk no bairro de Paraisópolis, em São Paulo. Enquanto a situação neste fim de década ainda é lamentável, o videoclipe é brilhante.

12. Tame Impala – The Less I Know the Better

Direção: CANADA

Imerso nos anos 80 sonoramente em seu último disco, o Tame Impala vem sendo responsável por clipes altamente criativos na década, especialmente após o lançamento de Currents, seu terceiro disco de estúdio. “The Less I Know the Better” segue a mesma linha de surrealismo dos outros dois videoclipes do álbum, mas chega a superar a insanidade fazendo uma salada de referências de cultura pop. Indo de King Kong, aos filmes de colegiais da década de 1980, passando pela art pop, entre outros. Sem medo, o vídeo tem cheerleaders, sexo oral, gorila e muita inventividade para contar a história da garota, uma cheerleader, que deixou o companheiro um jogador de basquete, para ficar com Trevor, o mascote do time de basquete do colégio. É maluco, é nonsense, é colorido, é criativo, é arte, é sensacional. Além de ser o hino dos cornos.

11. LCD Soundsystem — oh baby

Direção: Rian Johnson

Rian Johnson não é um ótimo diretor de série (ele dirigiu emblemáticos de Breaking Bad, como “Fly” e Ozymandias”) e de filmes (Star Wars: Os Últimos Jedi, Entre Facas e Segredos) apenas. Ele mostra-se também um diretor de mão cheia para videoclipes. Em “oh baby”, Sissy Spacek e David Strathairn foram um casal de cientistas que estão trabalhando num projeto por longos anos, ao que tudo indica. Até que em um momento, depois de anos de tentativa, eles têm sucesso. Porém, o final dessa história não é feliz. Pelo contrário. É de partir o coração em mil pedaços. Direção cirúrgica, narrativa redondinha, ficção de primeira e poesia pura.

10. John Legend – You & I (Nobody in the World)

Direção: Mishka Kornai

John Legend parece entender a mente feminina e por isso faz músicas que tocam fundo no coração, até mesmo na alma. “All of Me” pode ter sido uma das canções mais tocadas do 2013 e o maior hit do cantor até hoje, mas “You & I (Nobody in the World)” tem letra e melodia tão belas quanto ao single notório e o videoclipe é de emocionar qualquer um. Parece simples. Foram juntadas várias mulheres, de todos os gêneros, profissões e idades, filmadas em meio ao seu dia a dia. É fantástico, vai por mim.

9. benny blanco, Calvin Harris & Miguel – I Found You / Nilda’s Story

Direção: Jake Schreier

O melhor clipe do último ano da década reflete a atual crise migratória que temos no planeta. Os Estados Unidos exercem papel crucial nesse problema e têm, diariamente, cometido crimes inaceitáveis contra a humanidade ao separar crianças de seus pais que tentam atravessar a fronteira do país. Em novembro, foi relatado que aproximadamente 70 mil crianças ficaram sob custódia dos EUA em 2019. Parte foi deportada para o local de origem, parte ficou no país com os pais e ainda cerca de 4 mil estão em custódia. “I Found You / Nilda’s Story” conta uma das milhares de histórias de horror, traumas e desumanidade que vêm ocorrendo. Acompanhar a história é de acabar com o seu dia e te faz questionar como algo assim acontece e tudo segue normalmente como se não fosse nada. É triste de uma maneira que nem tenho palavras para descrever, mas é extremamente necessário que essas histórias sejam conhecidas.

8. Sia – Chandelier

Direção: Sia & Daniel Askill

Com apenas 11 anos, Maddie Ziegler se tornou um ícone da videografia de Sia. Ela é a incrível protagonista de “Chandelier”, uma música potente (perderam essa hein, Rihanna e Beyoncé) e que colou com gosto na mente das pessoas em 2014. O vídeo traz a garota dançando dentro dos cômodos de um apartamento. Ela se estica, pula, faz careta, gira, se joga no chão e contra a parede, rola, ou seja, faz de tudo em menos de quatro minutos. O resultado é embasbacante – e a menina sabe a coreografia de cor, como já mostrou dançando ao vivo em alguns programas.

7. Sia — The Greatest

Direção: Sia & Daniel Askill

Sim, duas vezes Sia na lista e de forma consecutiva. “The Greatest” faz parte de uma trilogia de vídeos estrelados por Maddie Ziegler, mas neste em especial há profundidade que não havia em “Elastic Heart” e especialmente “Chandelier”. Os primeiros minutos de “The Greatest” são chocantes. Pelos corredores, várias crianças estão no chão, mortas. Em poucos segundos, a câmera vai para Ziegler. Atrás dela, a tinta branca espirrada como se tivesse sido o resultado de um tiro na cabeça — o vermelho seria forte demais. A dançarina, claramente abatida, chora e marca no rosto com seus dedos a trilha das lágrimas de arco-íris. A cena é representativa, numa espécie de choro em nome de todas as pessoas da classe LGBTQ+ que morrem diariamente. A constante frase dita por Sia na canção, “don’t give up, I won’t give up, don’t give up” (“não desista, eu não vou desistir, não desista”) serve perfeitamente para os integrantes da sigla. O vídeo é uma clara menção ao tiroteio em massa que ocorreu no dia 12 de junho de 2016, quando 49 pessoas foram mortas e outras 53 ficaram feridas dentro da boate gay Pulse, localizada em Orlando, na Flórida, nos EUA. Se houvesse dúvida disso ao longo do clipe, os últimos instantes revelam que as paredes do ambiente onde as crianças dançam estão cheias de furos de tiros. Ver todas aquelas crianças fingindo estarem mortas no chão é impactante. Uma linda homenagem e um clipe de acertar o estômago.

6. The Carters — APESHIT

Direção: Ricky Saiz

A arte, por séculos, foi marcada por obras protagonizadas por brancos. Quando se entra em museus (exceto os de arte moderna), é normal se deparar com quadros com desenhos de caucasianos, incluindo os artistas. Beyoncé e seu marido resolveram ocupar o Museu do Louvre e se inserir em meio ao mundo da arte. Afinal, o negro também merece o seu lugar na História e dentro dos museus. O vídeo exalta os negros e nada mais justo. Reparação histórica é isso. Arte pura.

5. Beyoncé — Formation

Direção: Melina Matsoukas

Lemonade foi o álbum em que Beyoncé mostrou que pode ser politizada também — algo que ainda era inédito em seu trabalho. Claro, diversos artistas tratam do racismo nos Estados Unidos, porém quando Beyoncé fala, o mundo inteiro ouve. O sexto disco solo da cantora juntamente com o vídeo e a música “Formation” são relevantes porque é a maior estrela da música pop do planeta falando verdades inconvenientes. E como ela o faz? Exaltando a cultura negra americana, seja com sua dança, com uma parada de orgulho negro, referências aos crioulos do estado da Louisiana e à Guerra da Secessão Americana (que se originou na questão da escravidão, resultando em sua abolição durante o mandato do presidente Abraham Lincoln), racismo, repressão policial (note o garotinho dançando em frente aos policiais e, logo depois, a pichação que diz “stop shooting us/pare de atirar na gente”), além de prestar homenagem à Nova Orleans, que ainda sente os efeitos do Furacão Katrina. Sem contar que poucas frases foram tão marcantes na música na década quanto aquela em que Bey convoca as mulheres negras a ficarem em formação, ressaltando que a luta racial não é simbolizada apenas pelos homens, mas também por elas, que carregam consigo ainda outras lutas. Honestamente, tudo isso que Beyoncé faz, outros já fizeram, porém ninguém tem a força no cenário mundial como ela. Finalmente ela faz bem o uso da sua influência e o resultado é o melhor trabalho de sua carreira.

4. Kendrick Lamar — HUMBLE.

Direção Dave Meyers & the little homies

Kendrick Lamar teve uma década incrível e “HUMBLE.” simboliza parte desse sucesso. “HUMBLE.” por si só já é uma grande canção, mas não é apenas isto. O videoclipe é cheio de momentos icônicos e que brincam com o imaginário das pessoas. Kendrick vestindo a roupa papal; negros pegando fogo com cordas enroladas em suas cabeças; Kendrick e seu amigos simulando a Santa Ceia; uma mulher sem photoshop algum em cena; armas apontadas para Kedrick pela janela de uma casa. São várias cenas. Todas elas têm um peso simbólico, seja em tom de crítica à sociedade, como o negro é visto e tratado na América, e também exaltando a cultura desse povo. Em conteúdo e em visual, o clipe mostra-se competente do início ao fim. Está com o coração no lugar certo.

3. David Bowie — Lazarus

Direção: Johan Renck

Quando “Lazarus” foi lançado, no dia 7 de janeiro de 2016, parecia mais uma obra creepy e excêntrica de David Bowie. Para o público, tanto a letra quando o vídeo não faziam tanto sentido, à primeira reprodução. De qualquer forma, era o cantor em alto nível. Porém, as coisas ficaram mais claras três dias após o lançamento do videoclipe. Dia 10 de janeiro de 2016 marcou a morte de Bowie e foi revelado que ele lutava há 18 meses contra o câncer. De repente, tanto o disco Blackstar quanto “Lazarus” ganhavam um novo significado especial. Bowie, em sua genialidade particular, nos deu as pistas de que estava prestes a partir desse mundo. “Eu tenho cicatrizes que não podem ser vistas”, “estou tão chapado que meu cérebro gira”, “você sabe, eu estarei livre, igual àquele pássaro azul, isso não é a minha cara?”. A poderosa composição de Bowie casa perfeitamente com o que vemos em cena. Uma força sinistra o acompanha em seu leito de morte, e vai sugando suas energias, levando-o para outro mundo. Ao mesmo tempo, temos um Bowie que tenta encontrar forças para compôr, provavelmente numa retratação do tempo em que escrevia Blackstar, seu próprio epitáfio. Talvez não fosse a intenção de Bowie partir logo após o lançamento do vídeo, que fora gravado em novembro de 2015, porém a brusca partida contribuiu para o imaginário da lenda da música. “Lazarus”, por sinal, vem da Bíblia, e no livro o personagem Lázaro é trazido dos mortos após quatro dias. Bowie é quase um Lázaro reverso, morrendo três dias após o mundo conhecer o videoclipe. Em seu último ato, Bowie provou ser genial até mesmo à beira da morte. O clipe de “Lazarus” é único, é denso, é particular, é uma obra prima que somente Bowie poderia ter parido. E nós somos gratos por isso.

2. Childish Gambino — This is America

Direção: Hiro Murai

Por alguns meses após o seu lançamento, o clipe de “This is America” continuava levantando questionamentos sobre cada frame seu, careta e dança de Donald Glover. Interpretações minuciosas a parte, o impacto cultural do videoclipe é inquestionável e a canção se tornou a primeira de um rapper a vencer canção do ano e gravação do ano no Grammy. O vídeo é executado de maneira esplendorosa, com ideias malucas, uma atuação incrível de Glover (melhor do que qualquer minuto dele em Atlanta) e tendo como foco a violência nos Estados Unidos, o uso liberado de armas, a brutalidade policial contra os negros, e o fato de que o negro nunca está a salvo no país — não só lá, mas digamos que no Brasil e tantos outros países a lei se aplica.

1. Lady Gaga & Beyoncé — Telephone

Direção: Jonas Åkerlund

Há de se lembrar que a arte do videoclipe é entreter acima de tudo. E se tem uma coisa que Lady Gaga sabe fazer com esmero é entreter. Antes de 2010, Lady Gaga já havia se provado uma das estrelas pop mais importantes do recente século e “Bad Romance”, lançado em novembro de 2009, vinha se provando um hit atemporal. Apenas quatro meses após o lançamento do primeiro single do álbum The Fame Monster, Gaga teve a dificílima tarefa de conseguir lançar outro videoclipe que atingisse as mesmas notas que o seu vídeo mais conhecido até hoje atingiu. Além disso, a cantora também encarou um período em que a MTV estava em seu declínio completo e as gravadoras ainda não sabiam se deveriam mesmo apostar em numa plataforma chamada YouTube (inclusive, ainda hoje há clipes icônicos com qualidade 360p no site), ou seja, um momento de transição em que não se sabia ainda em que universo os videoclipes sobreviveriam.

Definitivamente, Gaga sabe causar impacto e “Telephone” se tornou um seus clipes mais marcantes. Cada figurino é icônico, as coreografias são maravilhosas, as referências são ótimas. Do ponto técnico, é sem falhas. A narrativa é divertidíssima e ver tanto Gaga quanto Beyoncé — as duas principais cantoras do década, sejamos sinceros — não se levando a sério e se curtindo em cada cena é um prato cheio. As gays agradecem, inclusive. Em 2010, não dava para imaginar o que essas duas fariam com suas carreiras e as marcas que alcançariam, mas dava para enxergar o potencial delas. É um tremendo blockbuster videoclíptico e que até hoje esperamos por uma continuação. Quem sabe na próxima década. Talvez um novo featuring de Beyoncé e Lady Gaga é o que pode nos salvar.

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Por Rodrigo Ramos

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