Melhores Séries, Episódios e Atuações da TV na Temporada 2016/2017

The Leftovers, The Handmaid’s Tale, Master of None, Atlanta e Rectify estão entre os destaques da tevê nos últimos 12 meses. 

A Era de Ouro da TV parece não ter mais fim. As séries não param de chegar e nenhum ser humano mais consegue acompanhar os episódios que saem diariamente, nem mesmo quem trabalha especialmente para vê-los a avaliá-los. Em mais um ano recordista, 2016 foi o de maior produção de programas roteirizados na história em Hollywood — 455 ao todo. Há mais variedade de gêneros e de vozes do que nunca. Com isso, felizmente, a qualidade continua altíssima e talvez seja uma das melhores temporadas da história recente. Porém, é difícil saber o que assistir em meio a tanta oferta.

Portanto, este listâo é mais do que necessário não só para guiá-lo, caro leitor, mas para também reconhecer o suprassumo da TV estadunidense. Pelo sétimo ano consecutivo, o Previamente traz uma seleção dos melhores desempenhos individuais, episódios e séries da televisão na temporada 2016/2017. Nesta oportunidade, 17 jurados participaram da votação, entre profissionais da área, jornalistas, críticos, estudantes e aficionados por séries. A seleção foi realizada utilizando os mesmos critérios do Emmy Awards: entram as obras que foram exibidas em sua totalidade ou mais de 50% de sua temporada entre 1º de junho de 2016 até 31 de maio de 2016. E pelo segundo ano, os nossos leitores também puderam eleger suas séries de comédia e drama favoritas.

E é isso. A partir de agora, aproveite o nosso listão dos melhores da tevê na temporada 2016/2017.

Melhores Atores Coadjuvantes

Tituss Burgess (Unbreakable Kimmy Schmidt)

A segunda temporada de Unbreakable Kimmy Schmidt foi uma grande decepção para boa parte de seu público. A terceira temporada, por sua vez, não traz o alto nível da primeira, porém possui momentos para sua verdadeira estrela brilhar: Tituss. O conceito do personagem continua sendo explorado, mantendo sua faceta diva e o ego inflado, o que ao mesmo tempo o torna querido e detestável. Há frases icônicas, situações engraçadíssimas (a versão de Lemonade e “Boobs in California” são alguns dos pontos altos do terceiro ano da série) e, pela primeira vez, o vemos evoluir como pessoa. Burgess mantém o frescor no papel e retorna à lista dos melhores da TV na temporada do Previamente.

John Turturro (The Night Of)

Possivelmente o melhor papel de Turturro desde O Grande Lebowski, o advogado de porta de cadeia John Stone é um personagem riquíssimo. O ator pratica seu humor tradicional para dar uma leveza no ar, porém ganha contrastes mais dramáticos conforme a trama revela seus problemas – desde a relação com a família, sua vida profissional ferrada, a procura pela verdade em relação ao caso que conduz a trama, e seu relacionamento quase suicida com um gato e a constante alergia. Em atuação equilibrada, das coceiras aos discursos no tribunal, Turturro dá conta do recado e de certa forma lembra o trabalho de Bob Odenkirk em Better Call Saul – e isto é um grande elogio.

Scott Glenn (The Leftovers)

“Crazy Whitefella Thinking” nos entrega um forte estudo sobre mais uma vertente da busca por propósito. O protagonista da vez é Kevin Sr., um personagem que conhecíamos pouco, mas que logo de cara mostrou-se muito bem escrito, com suas motivações bem definidas. Scott Glenn estava muito seguro no episódio, transitando do drama para comédia (mesmo que involuntária) com uma facilidade incrível (impagável ele vestido de aborígene e dançando o ritual ouvindo rádio) com seus monólogos engraçados, porém importantes para o personagem. Outro momento brilhante é a sequência do deserto e a impressão que fica é que o personagem realmente caminhou quilômetros por horas e horas. Kevin Sr estava acabado e a garganta do espectador secou junto com a do personagem. Das conversas com Matt à cena final, dava pra sentir uma montanha de sentimentos no rosto do ator.

Clayne Crawford (Rectify)

Ted Talbot Jr. é um perfeito exemplo de jornada de personagem. Definitivamente, ele inicia num ponto A na primeira temporada de Rectify para chegar no ponto E na quarta e derradeira temporada. Se no princípio era o perfeito antagonista, impulsionado por ciúmes e por acreditar na culpabilidade de Daniel, da metade pra frente da série seu personagem vai se transformando conforme vai perdendo tudo o que tinha na mão, inclusive a sua esposa. Antigamente, era fácil vê-lo raivoso e vingativo, porém ao longo da quarta temporada o que se enxerga na interpretação de Crawford é tristeza e dor, um sentimento de abandono e falta de importância no mundo. Da luz que surge em seu rosto ao ver Tawney, passando pela inquietude ao beber uma cerveja enquanto ouve a verdade sobre Hanna e Daniel, até o momento de explosão e melancolia dando tiro em um boneco inflável, Crawney consegue transpor na tela uma gama de emoções, a ponto de criar um elo poderoso com o espectador e fazer com que este goste do personagem, talvez o que teve a maior jornada, a maior metamorfose ao longo da série. É um trabalho primoroso. E a torcida é que ele consiga ganhar papeis tão poderosos quanto este no futuro e não seja escalado para sitcoms ruins.

John Lithgow (The Crown)

Defender uma performance que já rendeu ao ator um Critics’ Choice Award e um SAG Award parece um poucoboj desnecessário, certo? Mas vamos aos motivos que levaram John Lightgow a figurar aqui nesta lista, caso você os desconheça. Winston Churchill é definitivamente um personagem bem recorrente, seja na televisão, seja no cinema, e até mesmo no imaginário coletivo. Em The Crown, o Churchill retratado está já no fim de sua carreira política, tão reconhecido e respeitado quanto a própria monarquia, e Lightgow consegue nos trazer atuações poderosas tanto quando está interpretando o primeiro-ministro autoritário, quanto quando é revelado em seu aspecto mais vulnerável.

Michael McKean (Better Call Saul)

Michael McKean é um veterano e polivalente artista, mas provavelmente você o viu poucas vezes. Ator, comediante, compositor, músico e escritor, aos 70 anos, o reconhecimento merecido vem do fruto de um trabalho intenso, através de três temporadas. Resultado de uma personalidade forte e difícil, Chuck McGuill não é um personagem de fácil identificação. Tampouco alguém que já conhecíamos, como Jimmy. Houve de fato, por três anos, a construção de um laço com o espectador com alguém novo, mas que agora parece que sempre esteve orbitando este universo. Contando com uma grande entrega de McKean, vimos através das expressões inspiradas do ator uma gama de sentimentos, ora contidos em um passado rancoroso, ou que explodiram em tela e no irmão mais novo, como no poderoso monólogo em “Chicanery”. Sem dúvida alguma, o trabalho cênico de McKean facilitou a compreensão das motivações de Chuck.

É interessante notar que até então, mesmo com toda esta bagagem, este é o trabalho mais dramático na carreira de Michael McKean. Tal qual a série, a qualidade de suas atuações e o crescimento de seu personagem vieram com o tempo, progressivamente através das três temporadas. O terceiro ano foi, indubitavelmente, a melhor temporada deste ator na pele de Chuck e admitir isso torna-se fácil, após memoráveis performances.

Christopher Eccleston (The Leftovers)

Matt é um homem de fé e suas crenças sempre o dirigiram. Ele sempre creu no sobrenatural divino. Após um longo período de penitência enquanto via sua esposa paralítica e fora do ar, Matt é recompensado pelo que acredita. Isto, contudo, não foi o suficiente para então dar mais atenção à família e à esposa. Pelo contrário. Matt quis acreditar que era seu destino ajudar a escrever um novo testamento, sobre um novo messias, e ele seria um de seus discípulos. Matt sempre deixou-se guiar pela fé cega, sem nunca se questionar. Na pele de Matt, Christopher Eccleston explora com sucesso a obsessão religiosa acima de qualquer coisa ou pessoa. O desespero por estar certo e fazer a vontade (que ele pensa ser) de Deus é o que o consome e Eccleston é certeiro ao trazer essas nuances para o personagem, apenas mais um dos que estão completamente perdidos em The Leftovers e buscam em algo um sentido para viver. Novamente, Eccleston entrega-se de corpo e alma para um papel difícil de desenhar, mas atinge a nota mais alta possível, contribuindo para a excelente temporada da série.

Melhores Atrizes Coadjuvantes

Kelly Bishop (Gilmore Girls: A Year in the Life)

Apesar de nunca ter sido reconhecida em grandes premiações ao longo dos sete anos de Gilmore Girls, Kelly Bishop parece uma forte candidata ao Emmy deste ano (mas se for esnobada de novo, ao menos eu irei ao Twitter reclamar muito). Isto se dá ao fato de a atriz ter mais tempo de tela e usá-lo da melhor maneira possível. Emily Gilmore está passando pelos maiores desafios da sua vida, que é lidar com o luto de seu marido com quem ficou junta por 50 anos e tudo o que vem junto, como redescobrir sua identidade vivendo sozinha, a falta de ter o que fazer, além da relação problemática e cheia de ressentimentos com a filha Lorelai. Bishop está no topo do seu jogo, sendo engraçada em suas falas ríspidas, com seu modo mandona e dramática, e trazendo uma dose especial de emoção durante as discussões com Lorelai e ao lembrar de seu falecido marido Richard.

Abigail Spencer (Rectify)

Amantha é a personagem mais gente como a gente de Rectify. Adulta, em situação financeira complicada, problemas com a mãe, tem relacionamentos estranhos, e sempre que pode arranja um tempinho para o seu baseadinho. A incansável defensora do irmão Daniel encontra um tempo para ela nesta temporada e começa a reatar alguns laços e criar outros. Abigail Spencer traz leveza e sabedoria ao papel, mostrando que é mais do que um rosto bonito e merece algo melhor do que uma série de TV aberta mediana (estou falando com você, Timeless). Com muita garra, água nos olhos e um sotaque arrastado, a atriz garante momentos inesquecíveis no final da série e também esta menção na lista do Previamente.

J. Smith-Cameron (Rectify)

Janet ficou parada no tempo. Enquanto o filho Daniel ficou 19 anos preso injustamente, a mãe não deixou de pensar numa realidade com ele. Tal decisão impactou toda sua vida e das pessoas ao seu redor – inclusive a do marido Ted. Tão focada em proteger a honra do filho, buscar defende-lo na Justiça e manter as coisas da mesma forma que eram duas décadas atrás (a ponto de recolher os pertences do filho no lixo mesmo após ele descarta-las), Janet acabou negligenciando todos. Janet não deixa o filho de lado, porém começa a ter a consciência dos seus erros e é nessa janela que J. Smith-Cameron consegue extrair os melhores momentos de sua personagem, com aquela retratação minuciosamente calculada de mãe super protetora – afinal de contas, independentemente da idade de seus filhos, uma mãe nunca deixa de sê-la – e ao tentar reparar as relações com os demais familiares, resultando em algumas das cenas mais tocantes da temporada, em diálogos com Amantha, o esposo e o próprio Daniel.

Aubrey Plaza (Legion)

Aubrey Plaza já mostrou ser capaz de ser assustadora em Parks and Recreation no papel de April, porém era sempre dentro de uma piada. Contudo, o que a atriz faz em Legion chega a ser horripilante e de engraçado não tem nada. É bizarro e arrepiante. Mudando completamente de comportamento, de amiga com problemas mentais e drogada do protagonista, passando por terapeuta até mostrar a sua verdadeira faceta e assumindo-se a vilã da história, Plaza dá um show de interpretação que certamente pegou todos os espectadores de surpresa. Visivelmente, Plaza se diverte no papel. Sua performance é hipnotizante e é um ponto fora da curva do tipo de interpretação tradicional da maioria das séries. É insano, assim como seu papel.

Alexis Bledel (The Handmaid’s Tale)

Conhecida pelo papel de Rory em Gilmore Girls, Alexis Bledel nunca teve a chance de sair da sua zona de conforto – o mais próximo disso foi a participação em Sin City – A Cidade do Pecado. De qualquer maneira, ela ainda não havia provado que poderia sair do seu status quo. Ainda que seja um papel menor (que deve ser aumentado na segunda temporada), Bledel aproveita bem cada momento seu em tela em The Handmaid’s Tale. No episódio “Late”, ela é desafiada a interpretar sem dizer uma palavra, passando o tempo todo – exceto pelos últimos instantes do capítulo – amordaçada. Os olhos azuis da atriz não são o que seguram o espectador, e sim o seu poderio cênico, dizendo tudo o que precisa somente com o olhar, grunhidos e linguagem corporal. Ela protagoniza uma das cenas mais impactantes e tristes da história recente da TV americana. Com pouco, Bledel faz muito e se coloca num patamar altíssimo de atuação a qual ainda não pertencia.

Thandie Newton (Westworld)

Um dos principais temas de Westworld gira em torno da consciência e do livre-arbítrio, e Maeve, a personagem interpretada por Thandie Newton, é quem melhor os encarna. A atriz brilha ao mostrar as transições entre um leve despertar de consciência, o desafio à autoridade, a confusão e negação ao perceber que ainda está seguindo sua programação e, finalmente, um princípio de despertar ao fazer sua primeira escolha consciente ao sair do trem (apesar do debate que gerou, Jonathan Nolan confirmou que ela estaria, sim, improvisando). Ela apresenta toda uma gama de emoções em suas performances e entrega uma personagem complexa que mistura charme, inteligência, sofrimento e brutalidade.

Amy Brenneman (The Leftovers)

Brenneman sempre entregou atuações muito interessantes desde a primeira temporada quando ela ainda nem falava. Seu episódio solo da segunda temporada também é muito bom, mas em “Certified” o nível subiu absurdamente. Uma das coisas mais difíceis das boas performances é conseguir reagir às situações com naturalidade e verossimilhança, usando mini expressões faciais que às vezes passam até despercebidas, porém isso é o mais incrível, pois em vários momentos é possível prever até o que o personagem está pensando tamanha é a sintonia com o roteiro e os outros personagens (percebam na cena final, alguns segundos antes dela colocar a máscara de mergulho, a sensação de paz), Amy Brenneman faz isso de forma incrível nesse episódio. Dos momentos mais tensos reagindo às provocações de Nora, passando pelos mais dramáticos na despedida delas e chegando às conversas simples, porém carregadas de sinceridade e sentimento como a dela com Kevin, tudo isso faz desta uma das melhores performances (não choradas-gritadas) de uma coadjuvante nos últimos anos.

Melhores Atores

Jeffrey Tambor (Transparent)

Jeffrey Tambor continua dando o sangue para interpretar Maura Pfefferman. Em tempos de visibilidade LGBT, o papel de Tambor mostra-se relevante, ainda que o próprio ator desde o ano passado venha dizendo que uma pessoa trans deveria estar interpretando a personagem. De qualquer maneira, é uma interpretação delicada do ator, que encontra a sutileza que lhe faltava em papeis anteriores – seja porque não buscava ou simplesmente não precisava em seus trabalhos cômicos. Um dos pontos mais positivos, que a série ainda insiste (ora acertadamente, ora não), é retratar Maura como uma pessoa cheia de falhas, defeitos, e extremamente confusa sobre o que realmente quer pra sua vida. Ou seja, ela é igual a qualquer outra pessoa.

Jude Law (The Young Pope)

Após vários anos de atuações não muito memoráveis, Jude Law finalmente nos entrega uma das melhores performances da década, e com certeza a melhor de sua carreira. Seu Papa Pio XIII é extremamente ambíguo, calculista, pragmático, irônico e um pouco cínico. Apesar de em um primeiro momento seu personagem ser de difícil identificação e aceitação pelo público, a série não perde o brilho graças ao carisma de Law. Ele magistralmente brinca com o amor e o ódio que seu papa americano desperta, e assim como o personagem contorna as tentativas de manipulação dos cardeais do Vaticano, ele contorna as expectativas dos espectadores e faz do personagem uma verdadeira entidade incontrolável acima de tudo, porém ainda sim humano suficiente para que ao final o amemos.

Anthony Hopkins (Westworld)

Elogiar uma atuação de Anthony Hopkins é algo bastante óbvio, mas nessa produção da HBO que se destacou criativamente e tecnicamente, o seu trabalho vai além da criação de personagem. É ele que muda os rumos da série mais de uma vez, passando de gênio excêntrico a vilão e, por fim, mostrando-se como redentor. Seu personagem e sua performance expressam nas mais diversas nuances os principais conceitos filosóficos da série, que constantemente nos pergunta o que aconteceria se as pessoas pudessem fazer o que quiserem sem sofrer as consequências. E constrói um raro personagem que, através de camadas de interpretação, mostra o peso de ter que aprender com os próprios erros e aceitar que algumas coisas não podem ser controladas.

Bob Odenkirk (Better Call Saul)

Bob Odenkirk vem se destacando desde a primeira temporada de Better Call Saul. Interpretar um personagem conhecido e carismático facilita as coisas, mas por si só não poderia sustentar o sucesso da produção. As atuações nesta série têm garantido seu crescimento exponencial, fazendo com que a simples alcunha de spin-off seja algo já esquecido. É justamente ai que Odenkirk se encaixa, pois é dele a grande responsabilidade em ser o cerne deste seriado.

Em um terceiro ano que apostou na introdução e participação mais ativa de figuras como Gus Fring e Hector Salamanca, Jimmy poderia ser preterido, com sua simples trama jurídica e familiar. No entanto, estamos acompanhando uma verdadeira mudança em curso, e nada disso seria possível sem a grande contribuição de Bob. O Jimmy das duas temporadas anteriores não foram como este, pois ele tem se modificado a partir de vários acontecimentos, ao ponto de chegar ao fim do terceiro ano totalmente diferente de quando começou. Bob Odenkirk nos dá esta exata sensação, com um aparente cansaço de tudo e todos, ao fazer o certo e receber somente decepção em troca. Não duvidamos da imoralidade de seus atos mas podemos gostar de quando ele se redime com a senhorinhas do Sanpiper, após, é claro, termos tido muita raiva do que ele fez com Irene. Jimmy hoje é metade Saul Goodman e irá cruzar esta linha em breve. Odenkirk nos faz enxergar isso e entendermos, mesmo se não concordarmos, porque ele será o conhecido trambiqueiro que no futuro não terá uma vida tão agradável assim.

Matthew Rhys (The Americans)

Ofuscado pela força da personagem de Keri Russell, muitas vezes Matthew Rhys é injustamente esquecido. Philip pode não ser tão bad ass quanto Elizabeth, mas sua dúvida ou hesitação que faz o personagem ser o equilíbrio necessário para a série não ser clichê. Sim, ele é o homem, ele é um espião e precisa atuar, enganar e matar. Mas é visível o quanto isso o machuca e o impasse que o personagem parece sentir o tempo todo dentro dele. E Matthew consegue demonstrar isso de forma perfeita, sendo o ponto seguro e ao mesmo tempo instável, parecendo que irá desabafar. A atuação melhorou com o passar das temporadas e nessa última é mais do que merecido ele constar nesta lista.

Aden Young (Rectify)

É necessário talento de sobra para conseguir carregar uma série baseado somente em tons de cinza em termos de emoções. O que o protagonista de Rectify passa ao longo da série raramente pula para palhetas mais coloridas. Alegrias são raras. Os 19 anos na prisão e os demais fora dela não foram os melhores e Daniel não sabe exatamente como se adaptar do lado de cá da cadeia após tanto tempo em solitária e sendo abusado e violentado durante o cárcere. E Aden Young representa essa falta de sentido em existir no mundo do personagem com perfeição. O ator transmite os traumas, os receios, as dores, e a melancolia de seu personagem de maneira introspectiva, discreta e ainda assim poderosíssima. Quando o ator desaba em cena, é digno de aplausos – e há algumas situações dessas na derradeira temporada de Rectify. Se a série é um sucesso de crítica, boa parte disso é de seu protagonista, um dos personagens mais difíceis, complexos e humanos que já passaram pela TV.

Justin Theroux (The Leftovers)

Obsessão e crença. Cada personagem de The Leftovers tem as suas. E Kevin não é diferente. Por algum motivo, após tudo o que passou em Miracle e do outro lado, ele anseia por um sentimento que seja igual – e por isso quase se mata sufocado diariamente no seu quarto. A tendência autodestrutiva de Kevin continua ao ir à Austrália e revê um rosto conhecido. Após a discussão com Nora abre-se a maior ferida entre o casal. Quando nota que simplesmente fugiu e largou o que mais prezava, Kevin abraça sua loucura a ponto de decidir ir para o outro lado novamente, para mais tarde perceber o que mais importa à ele. Kevin tem uma jornada inacreditável, da vida ordinária ao sobrenatural, e Justin Theroux transita entre a paranoia completa, a loucura, a tranquilidade e o sentimentalismo. Antes pouco requisitado, Theroux mostrou ter competência o suficiente para carregar uma série – ao lado da excelente Carrie Coon – e entregar momentos dos mais variados, da explosão dramática até as pequenas sutilezas, de um olhar a um sorriso cheio de emoção e significado, a exemplo do último episódio da série. Como nos anos anteriores, sua performance fica ainda melhor quando confronta na cena Coon e Ann Dowd, porém ao encarnar duas versões de si mesmo em uma única cena, nota-se como, definitivamente, Justin é um ator de alto escalão e The Leftovers não seria a mesma obra prima que é sem ele.

Melhores Atrizes

Reese Witherspoon (Big Little Lies)

Por trás da faceta de amiga da comunidade, mulher casada e feliz, Madeline tem seus segredos. Um, em especial. E Reese Whiterspoon sabe muito bem como escondê-lo e fingir para todo mundo estar extremamente feliz e satisfeita com seu casamento, porém evidentemente não está. Ela explode, cria confusão, sente ciúmes do ex-marido, se faz de perdida para o seu esposo, ao mesmo tempo em que se rende à paixão carnal, apoia suas amigas e confronta constantemente sua filha mais velha. A rainha da moralidade, porém sem moral alguma. Esta é Madeline, aquela que passa a imagem de perfeitinha, porém não o é. E Whiterspoon é excelente em fazer a combinação perfeita de doce e estressada, cara de meiga e furiosa.

Susan Sarandon (FEUD: Bette and Joan)

Há tempos Susan Sarandon não se destacava no cinema ou na televisão. Na última década, o papel que mais me chamou atenção da atriz foram as participações nos vídeos de The Lonely Island, grupo musical formado por ex-integrantes do Saturday Night Live. Assistam “Motherlover” e “3-Way”, por favor. Mesmo assim, ainda que nunca tenha parado – todo ano tem algum título do qual faz parte do elenco – Sarandon não vinha brilhando como nos anos 80 e 90. Assim como o papel que interpreta em Feud — a grandiosa Bette Davis — Sarandon não deixou o talento de lado. Entretanto, Hollywood não lhe deu as mesmas oportunidades que no passado e a idade começou a pesar na hora de encontrar papeis melhores e dignos de reconhecimento. Dito tudo isso, é um presente de Ryan Murphy tê-la escalado para Feud. É quase como se Sarandon tivesse baixado o espírito de Davis em si para vive-la em tela, pois desde os trejeitos, olhares, risadas, até mesmo o visual (ainda que não sejam tão parecidas normalmente), a forma de falar e atuar parecem psicografados da própria Davis. Susan está incrível em cena e destrói a cada fala que dispara, impecável do começo ao fim da série, encarnando com garra todos os problemas, virtudes, dilemas e brigas que fizeram de Davis um ícone do cinema e a maior rival de Joan Crawford.

Nicole Kidman (Big Little Lies)

A esposa perfeita. O casal perfeito. Ela mais velha, ele mais novo. Celeste e Perry e seus filhos parecem aquela família típica de foto de porta retrato que se encontra na loja. Porém, como mais vezes acontece do que se quer acreditar, a verdade nua e crua vive atrás dessa imagem de comercial de margarina. Celeste é uma das milhares mulheres que vivem um relacionamento abusivo, prestes a explodir. Ela largou o trabalho e a dignidade em nome de um amor torto. Não que Nicole Kidman, a essa altura carreira, tivesse algo ainda a provar ao público. Porém, se alguém ainda achava que a australiana já tinha feito o melhor que podia, engana-se. Sua interpretação de Celeste é assustadora por encarnar essa mulher sendo submetida a constantes abusos e agressões, físicas e psicológicas. É um tema extremamente em alta e Nicole faz um retrato palpável de alguém que está tão perdida no abuso que não consegue sequer diferenciar mais o normal do anormal. De coadjuvante de luxo, a personagem acaba roubando o holofote da minissérie. Perfeição define.

Jessica Lange (FEUD: Bette and Joan)

Assim como Big Little Lies, Feud parecia ser uma série que não iria agregar, sendo as atuações, dado o elenco reforçado, o único ponto forte. Engano duplo. Feud mostrou-se ser pontual e um dos títulos mais feministas recentes da TV. A rivalidade entre Bette Davis e Joan Crawford, afinal, surgiu não porque naturalmente as duas mulheres não se gostavam. Pelo contrário. A admiração ocorre e é mútua. Porém, assim como ocorre ainda nos dias atuais, Hollywood não valoriza as mulheres e elas têm data de validade para a indústria, salvo algumas exceções. A briga entre as duas estrelas foi ocasionada porque Hollywood lucrava com essa treta e todos os problemas que tinham como fundamento o machismo e o sexismo fizeram com que elas descontassem uma na outra suas frustrações. A personagem de Jessica Lange é um grande exemplo disso. Mais conhecida pela beleza estonteante, Joan Crawford teve longa vida no cinema enquanto ostentava os traços de uma jovem mulher. Com a idade avançando, a procura por ela diminuiu e cada vez mais era esquecida. Tanto Joan quanto Bette foram humilhadas, do início ao final de suas carreiras, tendo que lutar constantemente para conseguir emprego, fosse ele bom ou ruim. Jessica Lange, a rainha que é, consegue atribuir à Joan múltiplas facetas, sendo a pessoa que precisa do holofote para se sentir bem, que tenta se vingar da maneira mais cruel possível de Bette, vive das glórias do passado (lembra até um pouco da protagonista de Sunset Boulevard), ao mesmo tempo em que tem seus problemas de autoconfiança, financeiros, e a solidão. Da metade da temporada em diante, Lange troca de posição com Sarandon e comanda o show, entregando uma performance tão poderosa que deixaria Crawford honrada. Possivelmente, o melhor desempenho dela desde que iniciou sua parceria com Ryan Murphy.

Keri Russell (The Americans)

Quando assistia Felicity no SBT, lá por 2001, jamais pensaria que Keri Russell evoluiria tanto como atriz e protagonizaria uma das minhas séries preferidas. The Americans pode reunir um monte de clichês que já vimos por aí, mas o faz de forma madura, com espaço para desenvolvimento, sem pressa de criar cliffhangers gratuitos ao mesmo tempo que vai aumentando a tensão ao longo das temporadas. E isso só é possível graças ao talento da protagonista, que faz de Elizabeth uma das personagens mais interessantes da TV atualmente (e sim, estamos muito bem de personagens femininas).
A sensibilidade que Elizabeth apresenta no seu dia a dia, desde as pequenas conversas sobre como cuidar de seus filhos até em decisões importantes sobre abandonar o país (e a vida dupla), é o que diferencia o trabalho de Keri. E a calma e força que a atriz demonstra em cada cena mostra que já passou a hora das premiações enxergarem ela como merece.

Elisabeth Moss (The Handmaid’s Tale)

Quem assistiu Mad Men e Top of the Lake sabe bem que Elisabeth Moss é uma atriz com um grande potencial. Ela teve vários momentos brilhantes nas duas séries citadas, porém The Handmaid’s Tale é a série que a catapulta para o sucesso. A primeira grande série original da Hulu dá à Moss a oportunidade e a responsabilidade de brilhar constantemente, numa produção que depende dela para tudo, sendo sua personagem o fio condutor da narrativa, e são poucas as cenas em que ela não esteja presente ao longo dos 10 episódios que compõem a primeira temporada. E Moss entrega. Parte do sucesso da série é justamente sua performance arrebatadora. Manter o silêncio, dar respostas curtas sempre sob o medo de ser punida de alguma forma, trabalhar mais a linguagem corporal do que qualquer outra coisa é tarefa para poucos. Nos momentos em que coloca sua emoção pra fora, ela brilha ainda mais. Quando rolam os flashbacks, podemos ver uma faceta completamente diferente da personagem, com uma performance mais solar, cheia de vida e cor, enquanto na ambientação atual ela é exatamente o oposto. É dor e sofrimento que quase não acabam, e alguns momentos da série são quase impossíveis de serem assistidos por tamanha brutalidade, mas é Moss que mantém o elo emocional com o espectador e o mantém vidrado em tela. É um papel desafiador, visceral e cheio de nuances, que a atriz interpreta com êxito, consolidando-se de vez como uma das maiores interpretes da TV nos últimos 10 anos.

Carrie Coon (The Leftovers)

Pode parecer exagerado dizer que Carrie Coon é hoje uma das melhores atrizes trabalhando na televisão, mas não é. A surpresa é porque ela só interpretou dois papeis de tevê na vida: viveu Nora Durst por três anos em The Leftovers e a xerife Gloria na terceira temporada de Fargo. Coon entrou para a tevê tão tarde porque dedicou toda sua carreira ao teatro, inclusive sendo indicada ao Tony de melhor atriz pela peça Quem Tem Medo de Virginia Woolf?. De alguma forma, a experiência de teatro de Coon transparece na tela, porque sua força reside justamente nos momentos enraizados nos diálogos. Observar as expressões em seu rosto enquanto ela conta uma de suas longas histórias em The Leftovers ou enquanto ela ouve uma das maluquices sendo contadas a ela é sempre um deleite. Seu ótimo trabalho na série foi percebido desde o início, e então uma personagem que aparece apenas em algumas cenas do piloto passou rapidamente ao papel de protagonista, junto com Kevin, interpretado por Justin Theroux. Agora é torcer para que Carrie Coon não desista nunca mais da telinha.

Melhores Episódios

Master of None
S02E08: Thanksgiving

Direção: Melina Matsoukas | Roteiro: Aziz Ansari, Lena Whaite
Exibido originalmente em 12 de maio de 2017.

Quando Master of None estreou eu não mexi um dedo para tentar assisti-la. Preconceito bobo, preguiça e uma implicação idiota com o personagem do Aziz em Parks and Recreation não me motivaram. Diversas vezes a Netflix jogava na minha cara que eu não tinha visto e eu pensava “ah, mas ver mimimi de um homem solteiro em cidade grande não é para mim”. Como eu estava enganada: com os elogios à segunda temporada eu me rendi e devo confessar que nunca foi tão bom estar errada. Devorei a temporada de estreia alternando momentos de diversão com tapas na cara, pois cada vez adorava mais o protagonista. Mas foi na segunda temporada que a série me ganhou e “Thanksgiving” selou de vez meu amor por Master of None. Que episódio! Uma das melhores histórias da televisão contada de uma maneira sensível e engraçada, acompanhando o feriado de Ação de Graça de Dev na família de Denise ano a ano, dos anos 90 até agora. Racismo, privilégios, sexualidade e amizade são alguns dos temas que esse episódio reúne em um roteiro fenomenal. As referências, as roupas e toda a produção também não deixam por menos. Tão bom que quando termina, nos faz pensar: preciso rever essa família, nessa mesa, no jantar de ação de graças de 2018, por favor!

The Handmaid’s Tale
S01E01: Offred

Direção: Reed Morano | Roteiro: Bruce Miller
Exibido originalmente em 26 de abril de 2017.

O piloto de The Handmaid’s Tale é excelente por vários aspectos. Em primeiro lugar, ele estabelece com clareza o aspecto estético da série, o que pode não ser tão importante para alguns, mas é extremamente relevante, servindo para estabelecer o tom e também de assinatura, a diferenciando das demais produções. Não há como ver uma imagem da série e não saber que se trata dela. Particularidades assim importam. Depois disso, todos os ingredientes narrativos aqui servem de modelo para os demais episódios. Há também uma grande eficiência em conseguir estabelecer os fundamentos desse terrível mundo onde se encontra a personagem principal, que dá nome ao episódio. Junte tudo isso com atuações fenomenais, e você tem um dos melhores pilotos da história recente da TV e o início de uma série que tem tudo para ser grandiosa e extremamente relevante diante da nossa sociedade atual.

The Leftovers
S03E04: G’Day Melbourne

Direção: Daniel Sackheim | Roteiro: Tamara Carter, Haley Harris, Damon Lindelof
Exibido originalmente em 7 de maio de 2017.

O tipo de episódio perfeito, aquele que sabe a função que precisa desempenhar e trabalha do primeiro minuto ao último segundo para alcançar a forma mais precisa de conseguir o seu objetivo: separar Kevin e Nora. As pistas foram várias. O episódio começa com Nora e Kevin se separando na hora de embarcar e o mais curioso é que Nora nem sequer liga para a situação, muito menos pensou em pedir a ajuda do parceiro para transportar o dinheiro. Ambos seguem caminhos separados durante boa parte do episódio, à procura de seus objetivos e confrontando suas angustias. Mas o melhor foi deixado para o final, em um momento brilhante com performances incríveis de Justin Theroux e Carrie Coon. Anos de problemas entalados na garganta foram jogados para fora e como tiros de realidade atingiam um ao outro. Com uma carga dramática nas alturas, cada frase dita por um deles era uma facada no coração do espectador que sempre torceu muito pelo casal mesmo sabendo do histórico de mentiras que ambos carregavam. A sequência ainda é coroada com uma cena onde absolutamente todos os elementos da série ajudam a contar a história: do caminhar do roteiro para a solidão de Nora, passando pela decisão da direção de arte de colocar vários abajures na cena (que no final explodiriam deixando o local mais escuro), passando pela fotografia que (já não bastasse a ótima decisão de não usar luz no quarto) ainda no ápice do abandono faz a câmera se afastar da personagem em um travelling out — e mais a frente fecha em um plano detalhe (que a edição cortou certeiramente no início da música do A-ha) criando um dos momentos mais precisos, criativos e emocionantes que já vi na TV: quando Nora coloca para fora anos de lágrima, tudo isso contribui para o desabar de mundo que Nora sentiu naquele quarto, sendo deixada sozinha mais uma vez.

Rectify
S04E08: All I’m Sayin’

Direção: Ray McKinnon | Roteiro: Ray McKinnon
Exibido originalmente em 14 de dezembro de 2016.

Quando a história de Rectify começou a ser contada, a ânsia de quem a acompanhava era pelo fim do sofrimento causado pelas cargas que os personagens arrastavam tanto em si mesmos, em sua solidão, quanto entre os outros. Apesar de esforços genuínos, não conseguiam, com uma ou outra exceção, fazer brotar a cumplicidade tão esperada para que pudessem entender como os vínculos que existiam entre eles conseguiam subsistir depois de tantas angústias contracenadas entre a cela de Daniel e os caminhos que ele percorreu depois que saiu de lá. Quatro temporadas escritas com um pesar latejante, aquele de quem olha para a vida e para a morte enxergando-as como iguais no potencial de causar dor através de injustiças e fatalidades. Esse pesar se fez em paralelo a um desejo cortante (só não tórrido porque nada em Rectify precisou sê-lo) de reconciliação com a “beleza do mundo”, alcançável quando saímos de nós mesmos e nossas próprias dores e permitimos que outros nos conheçam. Daniel aprendeu isso com Kerwin e, com o sacrifício de sua tentativa de conformação diante de uma liberdade mais comedida que a da maioria, inquietou-se mais e aos próximos, até que puderam enxergar como os vínculos em ruínas poderiam ser reconstruídos.

“All I’m Sayin’” é o final esperado para as histórias que nos inspiram, de alguma forma, a querer ver a “beleza que pode redimir o mundo”, a arte de aproximar a realidade e o sonho, o choque e a graça. Depois de alguns momentos aquém do que Rectify apresentou uniformemente desde seu primeiro ano, a series finale reafirma essa narrativa como uma das mais bem escritas para a televisão. Mais do que respostas sobre os mistérios de uma investigação ou o verdadeiro caráter dos personagens, ela nos presenteou com o exercício da contemplação.

Westworld
S01E10: The Bicameral Mind

Direção: Jonathan Nolan | Roteiro: Lisa Joy, Jonathan Nolan
Exibido originalmente em 4 de dezembro de 2016.

Em termos de construção e de roteiro, “The Bicameral Mind” é um season finale impressionante. Apesar das já esperadas revelações de que o Homem de Preto era William e de que Dolores era Wyatt, o episódio vai escalando até, por fim, transformar completamente o rumo da série para a próxima temporada. Durante seu curso, foi recheado de grandes diálogos e momentos memoráveis como os encontros de Dolores com ela mesma. E, na reta final, veio o plot twist: Ford mostra que a fuga de Dolores e Teddy era parte de sua narrativa, revela seus planos para o futuro do parque e, assim, tem início o ataque dos anfitriões, transformando o episódio em um dos mais surpreendentes encerramentos de temporada.

BoJack Horseman
S03E04: Fish Out of Water

Direção: Mike Hollingsworth | Roteiro: Elijah Aron, Jordan Young
Exibido originalmente em 22 de julho de 2016.

Ultimamente há de perceber que séries estão usando, com certa frequência, o silêncio ou a falta de diálogos para compor seus episódios. Só esse ano, The Americans, Legion, Master of None e Better Call Saul apostaram em cenas longas onde os personagens não falam nada. E na metade do ano passado BoJack Horseman fez a mesma coisa em “Fish Out the Water”, resultando no melhor episódio da animação até agora

Nesse capítulo com vibe de Encontros e Desencontros só que num mundo subaquático, BoJack se encontra fora de sua zona de conforto, em uma cidade onde não consegue se comunicar, em um festival que não liga muito, onde seus pensamentos podem assombrá-los. É um episódio muito íntimo para o cavalo já que ele sente a necessidade de se desculpar e criar uma conexão com Kelsey. Além disso, BoJack deixa de ser egoísta por um momento ao ajudar um filhote de cavalo marinho a encontrar seu pai. É um daqueles exemplares em que você precisa contemplar e sentir, em que a falta de diálogo é compensado por lindos visuais, uma trilha sonora incrível que vai se adaptando conforme o instante pede e conhecemos BoJack de uma forma que sua vidinha em Hollywoo nunca deixaria. E o final, ele descobrindo que podia falar esse tempo todo, é um dos twists mais simples e engraçados que já vi e que amarra muito bem a proposta do episódio de forma irônica.

The Handmaid’s Tale
S01e03: Late

Direção: Reed Morano | Roteiro: Bruce Miller
Exibido originalmente em 26 de abril de 2017.

Se os dois primeiros episódios de The Handmaid’s Tale foram difíceis de digerir, “Late” foi capaz de causar pesadelos até nos mais céticos. A premissa já é um soco no estômago, mas a forma como conduzem quem não segue a nova regra/religião é aterrorizadora e mostrada em uma cena chocante. Todo o sofrimento de Offred, suas lembranças e sua situação atual geraram angústia, depressão, pena e sensação de impotência. Entretanto, a sequencia de Ofglen foi o marco do episódio: seu rosto coberto com uma máscara como um animal, sua última tentativa de fuga, o veredito injusto e o enforcamento de sua namorada. Tudo isso sem uma fala, só com olhares e reações A lesbofobia, que chama o lesbianismo de “traição de gênero” na República de Gilead, ainda mutilou a personagem, mostrando que a tortura só começou. O lado bom deste episódio foi ver como Alexis Bledel cresceu como atriz e mostrar que realmente merece estar ao lado das maravilhosas Elisabeth Moss, Yvonne Strahovski, Samira Wiley e Ann Dowd.

The Leftovers
S03E08: The Book of Nora

Direção: Mimi Leder | Roteiro: Tom Perrota, Damon Lindelof, Tom Spezialy
Exibido originalmente em 4 de junho de 2017.

Quando The Leftovers chegou ao seu último episódio, era difícil adivinhar o que viria pela frente. Sendo uma série que desafiou o espectador do início ao fim, o series finale tinha várias possibilidades, porém Tom Perrota e Damon Lindelof apostaram em um episódio baseado na simplicidade, quase que em sua totalidade no imenso talento de seus protagonistas Carrie Coon e Justin Theroux. “The Book of Nora” deixa de dar tanta atenção para as suposições sobrenaturais para contar uma história de amor que sobreviveu aos anos. A jornada de Nora e Kevin é fascinante. Ambos sofreram de algum modo com a Partida. Danificados, se juntaram. Enquanto juntos, sabotavam o relacionamento, mantinham segredos um do outro, e em “G´Day Melbourne” colocaram para fora todo o seu ressentimento e raiva, se afastando. Foi necessário perderem-se para notar o quanto um fazia diferença na vida do outro. Ela se escondeu do mundo. Ele passou anos à sua procura, até que o reencontro ocorreu e Kevin resolveu fingir que nada havia acontecido e que esta era a primeira vez. Contudo, o passado não nos deixa, por mais que queiramos.

De modo brilhante, a diretora Mimi Leder conduz um finale inesperado e com uma carga emocional gigantesca. Para aqueles que buscam algum tipo de resolução sobre a questão sobrenatural, da Partida, há também alguma resposta, porém isto não é Lost. A complexidade desses personagens é muito maior do que qualquer mistério e The Leftovers abdicou o rótulo lostiano para se focar no que mais importa, que são as histórias desses personagens. Aqui, Kevin e Nora completam seus arcos da maneira mais satisfatória possível. Não há nada inexplicável acontecendo, sejam dilúvios, sumiços repentinos, rituais ou visitas ao outro lado. É um episódio que beseia-se em um roteiro extremamente bem escrito (alguns dos diálogos estão facilmente entre os melhores da história da tevê) e atuações fenomenais de Coon e Theroux. Cada olhar, fala, hesitação, respirada, gole de uma bebida na xícara, expressão facial e até a linguagem corporal, são devidamente entregues com alma pela dupla, e tudo magistralmente dirigido por Leder. Durante os últimos minutos da série, com uma longa conversa, ela tem a sabedoria de deixar tudo ao natural, ao som ambiente, sem nenhuma trilha, colocando a câmera na cara desses dois monstros da atuação; Coon fantástica ao expressar emoções como poucos interpretes são capazes, e Theroux é posto em uma posição dificílima, que é reagir de acordo com tantas informações e sensações.

The Leftovers e “The Book of Nora”, por fim, estabelecem que há sim esperança, mesmo após tanta tristeza, dor e solidão. E o amor pode ser a chave para isso. Por mais batido que tal constatação possa soar, a série conduz para esse desfecho com primor e sem soar prepotente, sem criatividade ou clichê em nenhum dos 72 minutos de episódio.

Melhores Séries (Comédia)

Better Things

Pamela Adlon pode ser um rosto familiar para muitos, principalmente para os fãs de Californication e Louie (que inclusive é co-criador e produtor executivo deste projeto), mas aqui, a atriz e criadora da série trilha seu próprio e extremamente individual caminho. A dramédia semiautobiográfica do canal FX em sua aclamada temporada de estreia narra a história de Sam (Pamela Adlon) tentando balancear sua vida como filha, mãe, (ex) esposa, trabalhadora e, acima de tudo, como mulher. Apesar de comparações, Better Things definitivamente não é uma versão feminina de Louie, como também não tem a menor pretensão de ser. E independentemente das possíveis semelhanças com a série de seu colega co-criador, Better Things se mostra muito mais sensível, humana e até mesmo mais relevante ao optar por uma abordagem mais simples e corriqueira da vida, que ao contrário do que muitos podem pensar, não banaliza o seu valor ou o seu mérito. Ao contrário. Só torna a série ainda mais especial.

Dear White People

Dear White People é uma série incômoda e isso é ótimo. Original da Netflix, a produção acompanha a história de um grupo de negros que estuda em uma faculdade onde os alunos são majoritariamente brancos. Sim, a série é protagonizada por negros, fala sobre a vida dos negros, mostra suas lutas, suas dificuldades, suas brigas internas, suas diversas maneiras de lidar com o racismo e a opressão. Mas a voz dos negros não é apenas na atuação: criação, direção e texto, tudo foi gerado por quem vive no dia a dia o preconceito. E nós, brancos, o que fazemos? Assistimos, levamos tapas na cara e refletimos, simples assim.

Com um roteiro esperto e cheia de tiradas engraçadas e referências, a série começa leve, dando alfinetadas em tudo e todos. Não se passa pano para ninguém. Inclusive, um dos aspectos mais interessantes é essa pluralidade de diferentes discursos, bagagens, dificuldade e formas de se lutar. O ativismo de camisetas e hashtags, por exemplo, é representado, bem como a militância considerada mais radical, que critica a mulher por namorar um branco. Com episódios curtos e muito deboche, a série tem seu ápice em uma cena em que apresenta o preconceito policial e uma arma é apontada para o único negro no ambiente de forma covarde e parcial. Não tem como segurar as lágrimas e pensar: precisamos de mais tapas na cara como esse, todos os dias.

Orange is the New Black

Após uma terceira temporada extremamente equivocada, em que a série resolve seguir o caminho do pastelão com comédia romântica, Orange is the New Black retornou ao seu quarto ano querendo ser levada a sério novamente – e felizmente atingiu o seu objetivo. Pela primeira vez, o programa tratou o seu ambiente com a seriedade que merece. O sistema carcerário nos Estados Unidos é caótico (não só por lá, inclusive) e como boa parte dos presídios são entregues à iniciativa privada, os empresários visam lucro. Finalmente vemos pessoas recebendo privilégios por serem famosas, pessoas sem nenhuma capacitação assumindo vagas que exigem preparo, direitos sendo violados e prisioneiras sendo tratadas como mercadoria. O ápice da temporada mostra que a ineficácia do sistema pode facilmente levar à tragédia e que as coisas não são, na maioria das vezes, justas. A violência policial, constantemente em discussão, ganha seu espaço aqui, assim como outros temas sérios. Um deles é a forma como a sociedade enxerga pessoas com problemas/distúrbios psicológicos, o que dá abertura para um retrato triste, porém real. OITNB ainda consegue trazer toques de leveza e momentos engraçados em meio a discussões mais sérias – a dosagem é extremamente bem calibrada – porém são nos momentos que falam com a realidade que a série se prova como uma das melhores da tevê e certamente uma da Netflix que não merece cancelamento.

Fleabag

Não tão ocasionalmente assim, alguma série britânica extrapola barreiras europeias, atravessa o oceano e faz sucesso também deste lado do Atlântico. Em 2016, acredito que seja unânime que a série britânica que obteve um maior destaque internacional foi Fleabag. Presente em grande parte das listas de melhores do ano, a série protagonizada e desenvolvida por Phoebe Waller-Bridge foi inspirada em um monólogo teatral apresentado pela atriz na Inglaterra durante uma de suas apresentações de stand-up. Produzida originalmente pela BBC 3 e distribuída ao redor do mundo (incluindo o Brasil) pela Amazon, Fleabag nos apresenta, de forma cômica e também extremamente trágica, uma jovem estagnada na vida e que tenta superar uma recente tragédia pessoal. A série busca retratar (e desmistificar) temas como feminismo, “unlikable woman”, a vida sexual da mulher e a relação de uma jovem mulher com mundo a sua volta sempre com bastante humor e pontuais quebras da quarta parede (inclusive durante um ato de sexo anal). E principalmente mostrar personagens (em especial as femininas) danificadas e derrotadas com nuances, complexidade e, particularmente, problemas e que além disso tudo, gastam grande parte de sua energia desviando do que a vida tenta lançar sobre elas.

Comparada diretamente com Lena Dunham, Phoebe Waller-Bridge em Fleabag trata assuntos que talvez possam ser relacionados a produções como Girls, mas talvez isso só aconteça pelo simples fato de que o número de mulheres escrevendo sobre mulheres na indústria ainda é extremamente baixo.

BoJack Horseman

“You’re all the things that are wrong with you”, afirma Todd para BoJack após este tentar se desculpar por seus atos. Quando vemos logo Todd, um personagem tão amável, que consegue perdoar tantos erros, dando a real pra alguém, você sabe que essa pessoa pisou na bola. O terceiro ano de BoJack Horseman continua a trajetória do cavalo mais famoso de Hollywoo e nos faz questionar como podemos continuar torcendo para ele. Raphael Bob-Waksberg e sua equipe de roteiristas mantêm um ótimo trabalho em nos fazer entender o emocional do protagonista enquanto o vemos, aos poucos, destruir os relacionamentos importantes que ainda tem, chegando numa resolução pesada que provavelmente perseguirá o cavalo por muito tempo.

Apesar do drama, BoJack Horseman segue sendo relevante, seja por abordar assuntos que geram discussões (como o excelente episódio sobre aborto), por brincar com premiações importantes tipo o Oscar ou por ter feito um dos melhores episódios do ano passado (que está nessa lista), além de ter ótimos momentos de humor (as piadas visuais com os animais ainda são engraçadas e dão um tom surreal ao desenho). Os coadjuvantes são tão interessantes quanto o protagonista e suas histórias são igualmente bem trabalhadas, sobretudo Tood e Princess Carolyn, que ganharam mais espaço para crescerem dentro do programa e se tornarem fan favorites.

Enfim, BoJack Horseman é um dos melhores programas da Netflix atualmente – e quem sabe, o melhor que o serviço de streaming pode oferecer – e merece com respeito estar nessa lista.

Veep

Duas vezes vencedora do Emmy de melhor comédia, Veep alcançou seu auge na quinta temporada. Portanto, a expectativa para o sexto ano da série era altíssima. Infelizmente, o nível não se manteve. Ao mesmo tempo em que saiu da zona de conforto, espalhando o seu elenco para várias partes, desde a TV até outros cargos dentro da política, a série perdeu um pouco de seu charme. Isto porque o elenco de Veep é sensacional e seus integrantes funcionam muito melhor juntos do que separados. Ainda assim, há momentos inspirados na sexta temporada que fazem com que o seriado mantivesse seu amor pelos votantes do Previamente e encontra-se aqui, sendo a série há mais tempo na lista dos melhores da TV, entre as melhores comédias desde sua primeira temporada. A viagem para a África, tudo envolvendo a Catherine, o diário perdido de Selina, qualquer situação constrangedora envolvendo Jonah e a saga da biblioteca de Selina, juntamente com sua fundação. Em uma época em que a situação política nos EUA (e no Brasil também, afinal) anda tão surreal, pela primeira vez Veep pareceu menos absurda do que a realidade. Há um paralelo óbvio com Hillary Clinton e o próprio Trump que poderia ser construído com mais esmero, não há dúvida. Entretanto, quando Veep é boa, ela fica acima de boa parte dos programas atualmente no ar, seja drama ou comédia, e definitivamente Selina Meyer garante sua vaga no seleto grupo de maiores anti-heróis da tevê, ao lado de Don Draper, Walter White e Tony Soprano.

Master of None

Quem diria que Tom Haverford de Parks and Recreation se tornaria um dos melhores nomes da comédia? Aziz Ansari é uma espécie de Louis C.K., porém muito mais aberto para as diferenças. Master of None funciona tanto como um arco narrativo de 10 episódios assim como cada episódio tem vida própria e pode ser apreciado sozinho. A segunda temporada parece uma evolução natural de quem estava apenas começando na temporada passada. Aziz acerta o tom o tempo todo neste ano, entre homenagens ao cinema italiano até uma inesperada carta de amor para Nova York. Novamente, a série percorre diversos temas, sejam eles de relevância social ou situações do cotidiano – como fingir aos pais que se pratica a mesma religião que eles para evitar a fadiga; o dia a dia de pessoas comuns como porteiros, surdos-mudos e imigrantes; como é ser homossexual dentro de uma família tradicional na comunidade negra e se assumir para ela; o medo e a necessidade de mudar ou se ater ao que já é conhecido; a amizade; além, é claro, de um bom romance, tentando fugir dos costumeiros clichês hollywoodianos e até mesmo brincando com eles. Diferente de algumas comédias da Netflix (cof, cof, Unbreakable Kimmy Schmidt), Master of None só cresceu em seu segundo ano, saindo da zona de conforto e se transformou em uma das melhores séries cômicas da atualidade.

Atlanta

Donald Glover saiu de Community para alçar voos mais altos. E conseguiu. Teve mais tempo para seguir carreira musical com sua persona Childish Gambino e deu vida à Atlanta. A série é um retrato fiel sobre um lugar de gente comum, com problemas reais do cotidiano, num cenário de quem almeja o sucesso para sair da vida medíocre através do hip hop e enfrenta a brutalidade policial constantemente. Atlanta consegue dosar os momentos cheio de críticas sociais, socos no estômago e tensão com situações hilárias, insanas e bizarras.

No season finale, há uma mudança drástica de tom, mas sem perder a mão. O protagonista Earn (Glover) acorda de ressaca na casa de um conhecido e nota que está sem sua jaqueta. Ele tenta recriar seus passos da noite anterior para achar a jaqueta (um Se Beber, Não Case, só que muito melhor). O caminho até encontra-la é engraçadíssimo e, de uma hora pra outra, o trio de protagonistas encontra-se no meio de uma emboscada para um traficante de drogas, o qual é baleado sem apresentar nenhum traço de violência – ele apenas saiu correndo. Enquanto a família do traficante chora, Earn está mais focado — naquele momento ao menos — em saber dos seus pertences dentro da jaqueta que lhe pertencia. Não que ele não se importe com a morte, mas os horrores que a comunidade negra enfrenta nos EUA — basicamente em qualquer lugar do planeta – faz com que ela fique anestesiada, quase que sem reação na maior parte do tempo. Pouco depois no episódio, voltamos para um momento mais leve, porém não menos real, com Earn levando o dinheiro suado para a ex/atual namorada e a filha. Atlanta é assim, vai da leveza à alta tensão em questão de segundos. É uma série adulta e que vai muito além do que o cenário da música negra americana, oferecendo debates extremamente relevantes, de forma ora real e ora surreal (como em “B.A.N.”, em que o negro transracial se diz branco, mas é extremamente homofóbico), servindo de reflexão, mas sem perder a diversão.

Melhores Séries (Drama)

Legion

“Eu não estou entendendo nada”, pensamos ao terminar o piloto dessa série baseada no personagem Legion das histórias em quadrinhos dos X-Men e provavelmente essa foi a reação da maioria nos subsequentes episódios. Noah Hawley, criador e roteirista da série Fargo e um dos melhores showrunners da atualidade, realmente nos entregou uma série pirada e difícil de entender de início já que praticamente tudo o que vemos em tela se passa dentro da cabeça de David Haller e sua mente não deve ser confiada. Nem mesmo o protagonista sabe o que é real e o que não é.

O maior destaque de Legion é modificar — e muito — a fórmula do que esperamos de uma série de super heróis e isso incomodou muitas pessoas que tentaram a série e se decepcionaram. Hawley tomou uma decisão ousada que não agrada a todos, porém, há algo excitante em ver alguém fazendo diferente. Mergulhar na cabeça de David Haller e tentar descobrir o que está acontecendo é um exercício fantástico e que merece ser feito. Legion também é uma das séries mais completas que temos, seja pela direção, roteiro, fotografia, edição e criatividade, cada capítulo é praticamente único e nunca dá a sensação de que estamos assistindo a mesma coisa o tempo todo. O ápice dessa sinergia é o fantástica sequência com o remix de “Bolero”, de Maurice Ravel, do sétimo episódio, um dos melhores momentos de 2017 até agora. E não podemos esquecer de citar Aubrey Plaza roubando a cena como a insana e perturbada Lenny, uma das melhores atrizes coadjuvantes do ano.

Legion é um programa completo e ousado e, independente se você gosta ou não de super heróis, sinta-se obrigado a ver essa ótima temporada inicial.

The Americans

A quinta temporada de The Americans foi provavelmente a mais controversa de toda a série. Enquanto alguns acharam o ritmo lento um problema, outros o consideraram a construção necessária para a sexta e última temporada, avançando de forma gradual até culminar nos três episódios finais, alguns dos mais arrebatadores da série. Enquanto Paige revelou ter um papel central na família de espiões Jennings, o casamento de Elizabeth e Philip passou por uma de suas maiores provações e, aparentemente, saiu mais forte. Cenas realmente memoráveis do casal ocorrem nesse quinto ano, como o casamento em russo e a confissão de Philip, de que quase traiu a KGB para que pudesse retornar para a casa. Se a temporada não contou com grandes cenas de ação, o crescendo emocional levou à diálogos intensos e emocionantes na reta final do que continua sendo uma das melhores séries da tevê.

Better Call Saul

A terceira temporada de Better Call Saul foi capaz de avançar consideravelmente a descida moral de Jimmy ao encontro de Saul Goodman, e também promoveu avanços significativos em torno de Mike, introduzindo Gus Fring, o Cartel e definindo o futuro como conhecemos em sua série de origem. Praticamente dividindo a temporada em dois momentos distintos, no primeiro vimos Jimmy e Chuck atingindo o limite de sua rivalidade, enquanto Mike ensaiava o início de uma parceria duradoura. Na segunda parte, foi a vez de desenvolver novos rumos para os irmãos McGill, aceitando suas condições ou lutando contras as mesmas. Foi o momento de mergulharmos de cabeça na premissa desta série, que mostra a transformação de uma pessoa através de uma trajetória controversa. Além disso, houveram consequências para todos os personagens, mesmo com uma queda visível no ritmo mas nos preparando para saber que nada fica para trás. No âmbito geral, Vince Gilligan e Peter Gould conseguiram dar profundidade e drama em larga escala, apoiados em uma cinematografia impecável e que tanto notabilizou Breaking Bad. Se antes era tido como apenas um spin-off, hoje Better Call Saul tem vida própria e se consolida como um dos melhores dramas da tevê.

Big Little Lies

Quando começou, Big Little Lies dava a impressão de que seria uma novela do Manoel Carlos, cheio de problema de gente rica. Porém, ao longo de seus sete episódios, todos dirigidos por Jean-Marc Vallée (Clube de Compras Dallas, Livre) e escritos por David E. Kelly (Ally McBeal, Boston Legal), ela se torna uma grande série feminista. Claro, os problemas de gente rica estão lá, como briga entre mães na escola, geralmente por questões que nem envolvem os filhos. Porém, por trás da faceta social, todo mundo tem seus problemas verdadeiros, em maior ou maior escala. Uma mulher é poderosíssima e respeitada na sua área de trabalho, mas o marido não a deseja mais como antes. Um homem percebe que ficou em segundo lugar na corrida pelo coração da esposa, e nota como ela sequer lhe deseja. Uma mulher precisa lidar com o fato de seu filho perguntar constantemente sobre o pai, sendo que este foi um homem que a estuprou uma noite e essa situação lhe traz dor e a assombra diariamente. Uma mulher claramente ainda sente emoções fortes pelo ex-marido, tem problemas de relacionamentos com sua filha mais velha, e ainda por cima trai o marido atual. Por último, uma mulher deixa de praticar advocacia, algo que amava, para ser a esposa/mãe ideal para o marido, que a agride constantemente, mas ela não consegue enxergar isso como algo violento e se mantém recuada, com medo. São dramas ambientados no meio de um cenário de gente rica, porém são questões reais, humanas, e a série consegue tratá-las com franqueza. É uma história com arco fechadinho e redondinho, que ressalta o quão importante é termos mulheres se apoiando, e junto com tudo isso temos atuações espetaculares de todo o elenco, trazendo os melhores momentos recentes da carreira de Shainele Woodley, Reese Whiterspoon e Nicole Kidman.

Rectify

Desde que Daniel Holden deu seus primeiros passos para além dos muros da prisão após duas décadas encarcerado pelo assassinato da namorada, com sua condenação à morte suspensa devido a uma revisão de provas, Rectify nos apresenta uma história de adaptações e, por uma extensão natural, do paradoxo do crescimento: receios e ímpetos desbravadores. Marcada por diálogos contidos em relação às suas finalidades, mas densos, considerando suas formas, foi tecida por quatro anos, respeitando a si mesma, seu próprio fôlego, lento e consistente, traduzido em personagens cativantes que compunham relações honestas. É como se cada contato que Daniel estabelecia com alguém representasse sua ânsia em escapar da solidão, em compartilhar seu pensamento, seus sentimentos com quem estivesse disposto a abraçar as experiências cotidianas, por mais singelas que fossem, pela necessidade de aprendizado e de contemplação.

Por entre caminhos sinestésicos, figuras de linguagem parecem contracenar, tornadas vivas, palpáveis, a partir do que é dito em conversas sobre espiritualidade, sexualidade, preconceitos e comportamentos; a partir do que é exibido através das atuações memoráveis e dos cenários que sempre se preocupam em comunicar e espelhar o estado psicológico dos personagens; mas também por aquilo que não precisava ser expressado, explicado, posto em lógicas e amostragens. Rectify muitas vezes se despe dessas necessidades rotuladas, quando a história tece uma singular lealdade com a personalidade do seu protagonista, deixando todos nós à mercê da contemplação do não-dito, como se pudéssemos encarar o mundo com os sentidos de Daniel.

Sem trair a si, essa ode à capacidade de redenção humana traz uma quarta e última temporada preocupada em suscitar alegrias a Daniel, por tanto tempo imerso na desesperança, jogado contra sua crença na beleza do mundo e na bondade das pessoas. Foram oito episódios que vez ou outra tropeçaram nessa pressa da consolação, na ânsia em lhe reapresentar o amor, abrir as portas para que ele se sentisse novamente disposto a se entregar às boas expectativas sobre cumplicidade e companheirismo, respirar sem a sensação de sufocamento. Não apenas a ele, mas a todos que revisitaram suas próprias condutas, impactados por essa densa experiência de quem precisou perder a liberdade para entender sua importância. O fim da história a selou como um dos melhores dramas já escritos para a televisão, sem apelar aos grandes impactos, aos grandes acontecimentos, às reviravoltas inesperadas, mas muito fiel às profecias que iam sendo cuidadosamente lançadas em detalhes espalhados por falas e objetos entre “Always There” e “All I’m Sayin”, sobre uma terra prometida, uma nova esperança.

Westworld

Westworld, a superprodução da HBO baseada em uma história original de Michael Crichton, veio como uma grande promessa, especialmente por contar com grandes nomes como J.J. Abrams, Anthony Hopkins e Ed Harris. Sua qualidade ficou evidente logo de cara na belíssima abertura, na trilha genial de Ramin Djawadi (com suas versões de clássicos do rock e do pop na pianola), na direção de arte e no figurino. Além das grandes atuações de Hopkins e Harris, as performances de Thandie Newton, Evan Rachel Wood e Jeffrey Wright se destacam nesse universo onde os visitantes de Westworld, um parque futurista que emula o Velho Oeste, podem fazer o que quiserem com os anfitriões, androides altamente sofisticados e realistas, sem qualquer tipo de consequência.

Os conflitos entre passado e futuro, realidade e simulação, programação e livre-arbítrio vão enriquecendo aos poucos o enredo e a mitologia da série, culminando em um season finale dos mais surpreendentes. Uma daquelas raras séries com diferentes camadas de interpretações e perfeita para ser dissecada pelos fãs.

The Handmaid’s Tale

Produzida pela Hulu e baseada na obra de Margaret Atwood, The Handmaid’s Tale foi, sem dúvida, o grande destaque de 2017 entre as novatas. A série apresentou um futuro distópico aterrador em que as poucas mulheres férteis que ainda existem são transformada nas chamadas aias e cumprem uma vida de servidão com o único fim de gerar filhos à elite da Gilead, sociedade totalitária instaurada nos Estados Unidos após uma guerra civil. O enredo de pesadelo, em que mulheres e gays são desprovidos de direitos, evocando o atual período Trump, contrasta com a belíssima estética da série, que vai da fotografia, figurino, direção de arte e trilha até a impressionante interpretação de Elisabeth Moss. Uma primeira temporada praticamente impecável, que mereceu estar no topo da votação.

The Leftovers

O ser humano encontra diversas formas de lidar com a dor. Enquanto alguns conseguem seguir em frente por conta de uma perda ou de alguma situação traumática, outros não têm o mesmo sucesso. Por mais que sete anos tenham se passado desde a Partida — quando 2% da humanidade simplesmente desapareceu da face da Terra — ainda há os resquícios das dores. Mais do que nunca, The Leftovers mergulha na psique humana sem o intuito de criar várias explicações, mas faz questão de desenhar esses personagens complexos, suas crenças e como lidam com a dor. De Laurie à Kevin Sr, de Matt à Nora, cada um deles acredita em alguma coisa e a fé é que os alimenta — religiosa ou não. Uns creem que Kevin Jr representa o novo Jesus Cristo, Nora acredita que uma máquina irá levá-la para seus filhos que partiram, e há aquele que alega ser Deus encarnado. Tais crenças tem a ver com a necessidade do ser humano de se agarrar a algo, ter alguma motivação ou sentido para sobreviverem. Independente de elas serem verdade ou não, os indivíduos são responsáveis por suas ações, sempre, mas é mais fácil se escorar em livros escritos há mais de 2 mil anos, suposições e teorias não comprovadas. O conforto, afinal, vem de várias formas, e esses personagens estão em constante procura de se curarem de feridas abertas. The Leftovers dá abertura para várias interpretações e isso a torna extremamente fascinante.

The Leftovers conseguiu provar que uma série pode se renovar a cada ano, trocando de ambientação, mas sem perder a identidade e a qualidade. Programada para ser finalizada em seu terceiro ano, Damon Lindelof e Tom Perrota souberam dar o final perfeito para cada um de seus personagens principais, dando-lhes sustentação, motivação e relevância. Cada episódio tem sua cara própria e toda a equipe parece estar se superando, desde o elenco até os profissionais técnicos (fotografia, direção de arte, efeitos visuais, maquiagem e trilha sonora são apenas alguns dos destaques que atingem a excelência, além do roteiro e direção). A série se foca em contar histórias e não em explicar os motivos da Partida, deixando este entre outros mistérios em aberto para interpretação do espectador, e se encerra de maneira sublime, delicada e inesperada. Trabalhando constantemente com a dor que é estar vivo e machucado, no fim das contas The Leftovers termina em sua nota mais alta deixando uma mensagem de redenção, amor e esperança, e encerrando-se como um dos maiores dramas da história da tevê. Uma obra prima poderosa e altamente emocional.

Melhores Séries (Comédia) pelo voto popular

Melhor Séries (Comédia) - voto popular

Melhor Séries (Drama) pelo voto popular

Melhores Séries (Drama) pelo voto popular

O corpo de jurados citou, durante a eleição, 47 atores coadjuvantes, 45 atrizes coadjuvantes, 34 atores, 30 atrizes, 61 episódios, 38 séries de comédia e 31 séries de drama. Na lista final apareceram 23 séries ao todo: The Leftovers (com 8 menções), Rectify (6), The Handmaid’s Tale (5), Westworld (4), The Americans (3), Big Little Lies (3), Better Call Saul (3), FEUD: Bette and Joan (2), Master of None (2), BoJack Horseman (2), Legion (2), Unbreakable Kimmy Schmidt (1), The Night Of (1), The Crown (1), Gilmore Girls: A Year in the Life (1), Transparent (1), The Young Pope (1), Better Things (1), Fleabag (1), Veep (1) e Atlanta (1).

Textos por Rodrigo Ramos, exceto “Scott Glenn (The Leftovers)”, “Amy Brenneman (The Leftovers” e “The Leftovers – S03E04: G’Day Melbourne” por Douglas Couto; “John Lithgow (The Crown)” e “Jude Law (The Young Pope)” por Rafael Bürger; “Michael McKean (Better Call Saul)”, “Bob Odenkirk (Better Call Saul)” e “Better Call Saul” por Leonardo Barreto; “Thandie Newton (Westworld)”, “Anthony Hopkins (Westworld)”, “Westworld – S01E10: The Bicameral Mind”, “Westworld” e “The Handmaid’s Tale” por Ana Bandeira; “Matthew Rhys (The Americans)”, “Keri Russell (The Americans)”, “Master of None – S02E08: Thanksgiving”, “The Handmaid’s Tale – S01E03: Late” e “Dear White People” por Dierli Santos; “Rectify – S04E08: All I’m Sayin’” e “Rectify” por Gláucia Freire; “Carrie Coon (The Leftovers)” e “The Americans” por Ana Carolina Nicolau; “BoJack Horseman – S03E04: Fish Out of Water”, “BoJack Horseman” e “Legion” por Rafael Mattos; “Better Things” e “Fleabag” por Régis Regi.

Fizeram parte do juri
Ana Carolina Nicolau, editora do site Take 148, matemática e estudante de Jornalismo.
Dierli Santos, jornalista, já colaborou nos sites Teleséries, Ligado em Série e Lugar de Mulher, trabalha com comunicação digital.
Claudia Croitor, editora-executiva do portal G1, editora do blog Legendado.
Lorena Piñeiro, jornalista, editora e tradutora.
Dana Rodrigues, editora do site Diário de Seriador.
Mikael Melo, estudante de Jornalismo e estagiário na RIC Record.
Douglas Couto, estudante de Cinema.
Rafael Mattos, estudante de Cinema.
Rafael Bürger, estudante de Imagem e Som.
Fillipe Queiroz, aficionado em séries.
Gláucia Freire, historiadora e aficionada em séries.
Regis Regi, bacharel em Cinema e Audiovisual pela UFF.
Leonardo Barreto, editor do site Quarta Parede.
Ana Bandeira, publicitária e colunista do site Ligado em Série.
Cristal Bittencourt, pós graduada em comunicação estratégica, professora/palestrante sobre mídias sociais, coordenadora do núcleo digital da Rocha Comunicação e do site Apaixonados por Séries.
Rodrigo Ramos, jornalista, editor do Previamente e colaborador do site Culture-se.
Felipe Rocha, roteirista e estudante de Cinema e Audiovisual.

Confira também as listas dos anos anteriores
Melhores da TV na Temporada 2015/2016
Melhores da TV na Temporada 2014/2015
Melhoras da TV na Temporada 2013/2014
Melhores da TV na Temporada 2012/2013
Melhores da TV na Temporada 2011/2012
Melhores da TV na Temporada 2010/2011

Da Redação
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Uma consideração sobre “Melhores Séries, Episódios e Atuações da TV na Temporada 2016/2017”

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