Melhores da TV na Temporada 2014/2015

Mad Men, Orange is the New Black, Jane the Virgin e Better Call Saul estão na lista

Pelo quinto ano consecutivo, o site Previamente ousa se arriscar a elencar o que houve de melhor na TV na temporada passada. Desta vez, trouxemos 14 jurados para fazer um recorte mais preciso e justo do que aconteceu entre junho de 2014 e maio de 2015 no mundo seriático. Tivemos gratas surpresas, algumas decepções e belíssimas despedidas. A Era de Ouro da televisão continua e a tarefa de escolher quem é “melhor” se torna injusta e cada vez mais árdua. Entretanto, esses fatores não nos impediram de comprovar novamente que a TV é o lugar certo para contar uma boa história, desenvolver personagens e criar um elo sentimental com o público.

Ao todo, foram contabilizados em nossa votação 48 episódios, 43 atores coadjuvantes, 34 atrizes coadjuvantes, 28 atores principais, 28 atrizes protagonistas, 25 séries de comédia e 31 séries de drama. Diante disso, separamos os mais citados na eleição e os melhores segundo nosso júri seguem na nossa lista abaixo. 

Atriz Coadjuvante

Kate Mulgrew (Orange is the New Black)

Faz tempo que Orange is the New Black deixou de ser somente sobre Piper e a segunda temporada da série foi centrada praticamente no conflito entre Red e Ve. Sendo assim, é impossível não destacar o talendo da atriz que interpreta a incansável cozinheira russa. Kate Melgrew teve a díficil tarefa de nos fazer entender esse personagem complexo que, assim como outras detentas, não serve para mocinha, mas passa longe de ser a vilã normal da ficção. A rivalidade antiga das duas veteranas na prisão poderia ser estereotipada e previsível, mas passou longe disso: foi o que moveu a trama do segundo ano da série.

Kate Mulgrew (Orange is the New Black) - season 2

Uzo Aduba (Orange is the New Black)

Pobre Crazy Eyes. Manipulada por Ve, a nossa querida Suzanne deixou de ser tão querida e passou a mostrar um lado cruel. Como fazer com que a maluquinha mudasse sem perder suas características clássicas? Só Uzo Aduba pode responder. A transformação, sutil, também é mérito do roteiro, mas a atriz com certeza deixou tudo mais sensacional. Impossível explicar o misto de sentimentos que ela gerou, comprovando assim o talento de Uzo.

Uzo Aduba (Orange is the New Black) - season 2

January Jones (Mad Men)

Betty é aquela mulher que sempre teve tudo, de certa forma, mas nunca teve o que sempre quis. Com o rótulo de esposa perfeita, sempre a tomaram com intelecto abaixo dos outros, porque ela era apenas uma dona de casa. Nas últimas temporadas, Betty provou ser mais do que mãe e casada. Quando finalmente obteve o que queria – a faculdade de psicologia, seu sonho – na reta final da série, já era tarde demais. Um câncer de pulmão datou sua vida e marcou de vez a personagem. January Jones faz do penúltimo episódio da história de Mad Men algo triste, impactando o espectador não só pelo choque, mas principalmente por sua atuação delicada. Se no passado, Betty se mostrara mimada, ela amadurece com a notícia. A personagem toma conta da situação e Jones da tela. A atriz faz o espectador chorar com seu drama e sua atuação perfeccionista e comovente faz com que seu nome figure na lista dos melhores da temporada, após tanto tempo deixada de lado. Bye bye, Birdie.

January Jones (Mad Men) - season 7.2

Christine Baranski (The Good Wife)

Não é à toa que The Good Wife é a melhor série da TV aberta americana – quem sabe até de toda a televisão. Utilizando um roteiro único e capaz de sustentar a história por 22 episódios ao ano, o show ainda conta com um elenco que alcança a perfeição. Christiane Baranski é uma grande amostra disso. Diane Lockhart é uma mulher de personalidade forte, extremamente feminista e liberal, além de ser independente. Seus melhores momentos nesta temporada estiveram envolvidos com suas crenças políticas. Diane foi colocada em uma situação difícil, tendo de lidar com um cliente conservador e grande financiador do Partido Republicano – totalmente o inverso de sua ideologia. A atriz correspondeu as diversas chances que teve para brilhar, entregando uma atuação que mistura o sutil com o feroz.

Christine Baranski (The Good Wife) season 6

Carrie Coon (The Leftovers)

Antes de brilhar em Garota Exemplar, dirigido por David Fincher, Carrie Coon mostrou seu talento com força total em The Leftovers. Em meio a um elenco eficiente, a atriz conseguiu se sobressair com pouco tempo de estrada. Nora Durst é uma personagem extremamente complexa, possuindo uma angústia descomunal. Fica difícil conhecer uma história mais triste do que a sua naquele contexto. Imaginem como deve ser perder a família inteira do dia pra noite, sem receber resposta alguma. O episódio dedicado à personagem é um dos melhores de toda a primeira temporada, tornando impossível não se apegar à sua trama. Um dos destaques da atuação, foi no nono episódiodo primeiro ano, “The Garveys at Their Best”, quando é mostrada a hora da Partida Repentina. Controlar as lágrimas ao ver a desolação de Nora beira o impossível.

Carrie Coon (The Leftovers) - season 1

Christina Hendricks (Mad Men)

Já faz tempo que Christina Hendricks provou a que veio: assim como Joan, a atriz mostrou que sua competência supera em muito sua (imensa) beleza. A personagem sempre teve que lidar com o comportamento machista em seu local de trabalho, mas na última parte da sétima temporada de Mad Men isso culminou em uma difícil decisão profissional. A Joan que escolheu sua carreira, que não quer ser apenas a esposa dedicada, que decidiu não aceitar o assédio de seu chefe, é a que representa melhor a mudança da época. E a atriz, assim como sua personagem, deu um banho de interpretação e conquistou, merecidamente, o singelo prêmio do Previamente.

Mintz/AMC

Ator Coadjuvante

Mandy Patinkin (Homeland)

Todos sabemos que não é fácil se sobressair com uma das protagonistas mais loucas da TV atual, Carrie Mathinson (Claire Danes). Entretanto, Mandy Patinkin conseguiu deixar todos com o coração na mão em um dos melhores episódios da série. Após ser capturado por terroristas no Paquistão, o ex-chefe da CIA consegue escapar com o auxilio de Carrie, um telefone e o sistema de drones americano. No entanto, a resposta dos terroristas foi rápida e Saul acaba encurralado numa das cenas mais tensas do programa, e sugere se matar para manter todas as informações que ele sabe a salvo. Porém, Carrie o manipula e o entrega de volta para os terroristas sabendo que conseguiria recuperá-lo. A aprendiz superou o mestre, mas, como o season finale mostrou, esse mestre ainda tem muitos truques e segredos na manga.

Episode 409

Nick Offerman (Parks and Recreation)

Ron Swanson é um dos personagens mais marcantes da TV na última década. Isso é incontestável. Parks and Recreation deu uma decaída nas últimas temporadas e, no mesmo ritmo, Ron foi se tornando ligeiramente menos especial. No entanto, o último ano da série deu conteúdo para Ron, o amante da carne e hater do governo, mostrar todo o seu valor. Nick Offerman tem um timing cômico ímpar e consegue nesta temporada trazer momentos hilários e fraternos, seja brigando com Leslie (um dos melhores momentos de toda a série), mostrando seu apreço por April, construindo coisas, exibindo seu ódio pelo governo, lamentando o fechamento da sua lanchonete favorita e ficando de luto pela morte de seu barbeiro. Definitivamente, vamos sentir sua falta, Ron.

Parks and Recreation - Season 7

Peter Dinklage (Game of Thrones)

São raros os anões na dramaturgia do passado e na atualidade. O único que vem à cabeça é, ironicamente, o grandioso Peter Dinklage. O ator não teve tantos momentos emblemáticos quanto na quarta temporada – o episódio de seu julgamento jamais será esquecido. Apesar disso, Tyrion Lannister teve uma temporada bem turbulenta, dando a chance para Dinklage brilhar. Seus principais momentos envolveram as interações com Daenerys Targaryen, com a não tão talentosa Emilia Clarke. Os dois personagens se completaram em cena, ajudados por ótimos diálogos – e o talento de Peter, é claro. A amizade/sociedade com Lord Varys rendeu ótimas situações também, sempre com uma forte química. Ainda assim, esperamos um material ainda melhor na próxima temporada para que Dinklage volte a chutar bundas com seu papel.

GOT508_100814_HS__DSC3227[1].jpg

Jaime Camil (Jane the Virgin)

Jane the Virgin, por si só, já é um sucesso improvável. Ainda mais improvável era Jaime Camil, ator saído das novelas mexicanas, algumas exibidas no SBT, inclusive, como A Feia Mais Bela, se dando bem nos EUA. A escalação dele, no entanto, é perfeita para o que pede o papel. É quase uma sátira própria: o astro de telenovelas egocêntrico. No entanto, ele é pai e se apaixona pela mãe da sua filha, duas décadas depois de saber da existência de sua cria. Interpretando Rogelio De La Vega, Camil é charmoso, extremamente divertido, com expressões faciais que são a causa de muitas risadas na série e caricato na medida certa. É o papel de sua vida, não há dúvidas.

Chapter Fourteen

Jonathan Banks (Better Call Saul)

De forma tímida, Mike apareceu em Better Call Saul como o responsável pela guarita de um estacionamento. No entanto, ao longo dos dez episódios da temporada, o personagem ganha força. Jonathan Banks desempenha seu papel tão bem que o melhor episódio da série tem foco em seu personagem, “Five-O”. A gente acaba conhecendo mais sobre o ser carrancudo e paciente que conhecemos em Breaking Bad. A cada cena, de maneira sutil, Banks rouba o holofote pra si. Quando explode, se faz de cínico, se emociona e até chuta bundas, ele consegue ganhar ainda mais o respeito da plateia. O fato é que o ator é mesmo sensacional e tem noção da responsabilidade que é continuar dando vida ao personagem. E, pelo menos por enquanto, ele está sobrando em tela.

Jonathan Banks (Better Call Saul) - season 1

Tituss Burgess (Unbreakable Kimmy Schmidt)

Titus Andromedon é, de longe, a melhor coisa em Unbreakable Kimmy Schmidt. O personagem é o que costumeiramente dá vida à série, sendo o dono das melhores falas. Logo na primeira temporada, já existem frases e cenas memoráveis, como “mas eu já fiz alguma coisa hoje”, suas tentativas frustradas de ser uma estrela, sua ida à biblioteca para assistir ao julgamento do pastor louco e as irmãs toupeiras, a entrevista fracassada dele ao vivo na TV e, é claro, a antológica canção “Peeno Noir”. Tituss Burgess se expressa ao máximo, utilizando a seu favor tanto o humor físico quanto na forma como diz cada linha do roteiro. O quanto ele improvisa é incerto, mas dá pra ter uma grande dimensão do que ele é capaz de fazer com um bom material. Pelo pouco que se conhece dele, é possível colocá-lo no patamar dos melhores comediantes atualmente na TV – além de ser o melhor de toda a nossa lista.

Tituss Burgess (Unbreakable Kimmy Schmidt) - season 1

Atriz

Taraji P. Henson (Empire)

Empire é um dos maiores fenômenos da TV americana nos últimos anos. Semana após semana, sua audiência subia e nem a Fox sonhava com tanto barulho. Muito se dá pela trilha sonora supervisionada por Timbaland, mas é inegável que a alma do negócio é Taraji P. Henson. Cookie Lyon constantemente rouba a cena quando aparece. O carisma dela é incontestável e cada barraco por ela causado é um deleite ao espectador. No entanto, a personagem vai além dos escândalos e prova ter várias facetas, sendo vingadora, amante, profissional e até mesmo sensível. Eis um papel que define uma carreira.

Empire

Gina Rodriguez (Jane the Virgin)

Gina é a revelação feminina deste ano. A atriz estadunidense, com pais porto-riquenhos, de 30 anos é quem conduz Jane the Virgin, uma das melhores coisas da temporada. Vencedora do Globo de Ouro de melhor atriz (comédia), Rodruiguez provou ser capaz de tudo nesta primeira temporada. Em 22 episódios, ela exibiu uma volatilidade ímpar entre o drama e a comédia, sabendo equilibrar os dois elementos, além de não ter medo de passar por situações até mesmo constrangedoras, porém engraçadas – o episódio em que ela vira uma lutadora grávida é hilário. Rodriguez é sutil, carismática, adorável e engraçada. Impossível não sentir todas as emoções de sangue latino da personagem, muito bem atenuadas por sua atuação. A performance de Gina é envolvente e comprova a força das mulheres como protagonistas absolutas na TV.

Gina Rodriguez (Jane the Virgin) - season 1

Robin Wright (House of Cards)

Com o maior foco na relação entre Claire e Frank Underwood, a personagem de Robin Wright ganhou mais espaço nessa temporada. Até neste momento Claire vinha cada vez mais deixando seus interesses pessoais de lado e focando em levar Frank para a Casa Branca. Agora ela está decidida em criar sua própria trajetória, mesmo que para isso tenha de enfrentar o próprio marido. Juntando isso com a incrível atuação e sua presença em cena, ela foi capaz até de deixar seu companheiro Kevin Spacey em segundo plano em alguns momentos. Depois do desfecho da temporada, Robin Wright tem grandes chances de aparecer novamente por aqui na edição do próximo ano.

_DG22845.NEF

Gillian Anderson (The Fall)

Que Gillian Anderson é um arraso, ninguém discute. Desde Arquivo-X sabemos disso. Mas com uma produção de qualidade, com roteiro excelente e uma personagem de destaque, ela conseguiu nos surpreender. No drama britânico The Fall, a série mais feminista no ar hoje, ela se supera. Gillian consegue apresentar uma detetive densa, complexa, inteligente, decidida, competente e imperfeita. Ela não é apenas a protagonista da série: ela é The Fall. Uma personagem excelente merece uma atriz excelente. E The Fall conseguiu os dois.

Gillian Anderson (The Fall) - season 2

Elisabeth Moss (Mad Men)

Peggy me cativou desde sua primeira cena em Mad Men. Ela sempre conseguiu expressar todo o desconforto que é ser uma mulher nos anos 60, vivendo num ambiente dominado por homens. Todas as sutilezas, tentativas, erros e conquistas pareceram extremamente reais e isso é mérito de Elisabeth Moss. Diferente de outros personagens, que demoraram anos para evoluir (estou olhando para você, Don), ela sempre conquistou, junto com o seu espaço na agência, a simpatia e a torcida de de todos. Chega a ser impressionante como Moss consegue transitar por diferentes ambientes e parecer natural, seja criticando a roupa de Joan – que mostra como ela não é perfeita, apesar de tudo -, ou andando de patins. Sentiremos sua falta, Peggy.

Elisabeth Moss (Mad Men) - season 7.2

Julia Louis-Dreyfus (Veep)

Ano após ano, Julia Louis-Dreyfus prova ser aquela atriz indispensável na lista de qualquer pessoa. Em mais um ano de Veep, a atuação de Julia é fenomenal. Ela mantém o talento de formar frases com ofensas impensáveis, continua uma política que não sabe o que fazer (assim como toda sua equipe, um mais incompetente do que o outro) e incorpora o cinismo como poucos. Na quarta temporada, sua Selina Meyer traz menos tolerância, vive mais situações embaraçosas, realiza discursos ainda mais estranhos (a equipe de Dilma Rousseff parece escrevê-los), podendo expressar ira e alegria, frustração e celebração de um segundo para o outro. Após quatro anos no ar, Veep e Meyer continuam tão empolgantes quanto em seu início, prova do talento dos roteiristas e, é claro, de Louis-Dreyfus, mais do que nunca impecável.

Julia Louis-Dreyfus (Veep) - season 4

Julianna Margulies (The Good Wife)

Julianna Margulies continua estupenda no papel de Alicia Florrick. O sexto ano da série sofreu um pouco com o rumo na segunda metade da temporada, ainda que não tenha colocado o todo a perder. Alicia passou por situações das mais diversas, entre trabalho, colegas e família. E se a série teve de respirar um pouco fundo para recuperar o fôlego, Margulies nunca deixou de entregar o máximo de si. Pode ser que nos bastidores Margulies tenha suas diferenças com certos companheiros de elenco (estamos do seu lado, Archie Panjabi), mas diante das câmeras ela é soberba. Ela fica confortável quando se vê em cenas mais leves e com cunho humorístico (a relação com Eli é baseada nisso), como se vira muito bem ao precisar se impor e até explodir diante de quem quer que seja, especialmente Peter. Margulies impressiona mesmo nos momentos mais emocionantes, como provou na temporada passada ao ter de lidar com a morte de Will. Neste sexto ano, Alicia está um tanto confusa, perdida – isso reflete em seus sentimentos e suas decisões. Em “Oppo Research”, “Mind’s Eye” (este, por sinal, tem uma linguagem particular, ao explorar a mente da personagem) e “Winning Ugly”, Margulies se entrega de corpo e alma à personagem, no primeiro se impondo e lidando com o próprio passado, no segundo encarando a própria mente e suas vontades, e no terceiro dando de cara com o lado negro da política e caindo, enfim, em sua fragilidade. A educação de Alicia Florrick continua, com a personagem trilhando caminhos por motivos errados e voltando à estaca zero. Para simular tudo isso com êxito e manter o nível de atuação ao longo de 22 episódios, é preciso muito talento e disciplina. E, aparentemente, Margulies tem tudo isso.

Don't Fail

Ator

Jeffrey Tambor (Transparent)

De comédia, Transparent não tem nem 2% em sua essência, o que não lhe tira méritos. É um drama extremamente relevante na sociedade atual e serve para gerar e ampliar a discussão em torno dos transgêneros. O tema é tratado com a seriedade devida (mas tão rara). A direção é importante para isso, mas quem transforma o programa em algo icônico é Jeffrey Tambor. Ele não muda tanto em termos de atuação, mas certamente se arrisca por emprestar-se ao papel. O ator é conhecido por sutileza e aqui ele aumenta o nível de delicadeza, mas sem perder os trejeitos masculinos por baixo das roupas femininas. É aí que a discussão se torna mais inteligente e complicada. Seu personagem gosta de usar vestimentas designadas a mulheres, porém ele continua heterossexual. Como explicar isso? Pode não ser simples, de antemão, mas Tambor faz com que isso se torne normal dentro do possível para a nossa sociedade, que ainda é preconceituosa, trata o tema com chacota e se fecha para o que é diferente, algo que o seriado demonstra em sua primeira temporada. Transparent pode não ser incrível, mas certamente traz um assunto delicado e urgente, que deve muito à atuação de Tambor.

TRANSPARENT_102_04012 (1)A.JPG

Freddie Highmore (Bates Motel)

Apesar da inconstância de Bates Motel, há três anos Freddie Highmore vem fazendo um trabalho invejável como Norman Bates. A performance de Freddie teve seu ápice na terceira temporada, com suas atitudes ficando cada vez mais perturbadoras. Finalmente foi dada a chance de vermos Norman incorporando sua mãe, com todos os trejeitos e roupas da mesma. Um ator extremamente jovem, que consegue imprimir uma profundidade gigantesca na atuação. Sozinho, o rapaz já é ótimo, mas quando está em cena com Vera Farmiga, a qualidade é multiplicada 10 vezes. A química construída entre eles é uma das melhores relações da TV, tanto que acabam ofuscando o resto do elenco.

Freddie Highmore (Bates Motel) - season 3

Matthew Rhys (The Americans)

A injustiça sempre está presente nas indicações e premiações do ramo televisivo. Ao saber que Matthew Rhys conseguiu ser indicado – pelo menos aqui, risos -, já me arrancou um sorriso no rosto. Apesar de ser bem suspeito para comentar sobre qualquer coisa relacionada a melhor série da atualidade pra mim, The Americans, eu vejo poucos atores hoje no nível de Rhys. Você pode ter chegado até aqui sem saber quem é o ator, ou até mesmo o personagem, mas depois de dar uma pequena bisbilhotada em seu show, duvido desgrudar da tela. Com a evolução dramatúrgica da série, Matthew cresceu junto com Phillip Jennings, seu papel. O personagem vem desde o início aumentando sua carga dramática, inserido em um roteiro elaborado com um cuidado extremo, e sua jornada tem sido cada vez mais árdua e pesada. Nessa temporada, seu trabalho como um agente da KGB fez um combate contra seus princípios, estabelecendo um paradoxo sobre o “até onde posso chegar pela mãe Rússia?”. A aflição estampada em seu rosto foi arrasadora, e a atuação monstruosa de Matthew entrou em ação. Desde o princípio, The Americans prova que seu foco maior é trabalhar essa relação de um drama familiar de agentes infiltrados em uma guerra, sendo toda a sua base fundada em uma enorme mentira. Até onde um ser humano consegue suportar estar casado com alguém que não escolheu, filhos sendo uma consequência, toda sua vida construída através de uma rede de mentiras, vivendo o sonho americano, para destruí-lo sem ao menos saber as consequências? É o dilema vivido por esse grande personagem, através desse grande ator. Em minha opinião, o maior presente das premiações não se encaixa em quem ganhará literalmente o prêmio, mas sim, quem estará lá pra competir. Matthew Rhys merece sentar nessa bancada.

Matthew Rhys (The Americans) - season 3

Kevin Spacey (House of Cards)

Quem diria que chegar à presidência seria a parte mais fácil da jornada do personagem de Kevin Spacey, Frank Underwood. Como presidente interino, ele tem de lidar não só com a oposição do Partido Republicano, mas também com o próprio partido, que demonstra grande resistência a sua reeleição. Somando os opositores internos com os externos e uma crise geopolítica, nunca vimos Frank tão frágil. Kevin, mais uma vez, arrasa interpretando o personagem mais frio e inescrupuloso da TV atual, e ao mesmo tempo mostra um lado mais humano ao falar sobre seu passado com o escritor contratado para escrever sobre o programa “America Works”. Se nas outras duas temporadas, Frank era quem dava os xeques-mates e a atuação dele já era incrível, nesta em que ele passa a sofrê-los, Spacey atinge níveis de atuação ainda mais grandiosos.

Kevin Spacey (House of Cards) - season 3

Bob Odenkirk (Better Call Saul)

Poucos sabem, mas Bob Odenkirk é roteirista de comédia e já venceu dois prêmios Emmy (por The Ben Stiller Show e Saturday Night Live). Seu ofício de ator co-existia com o outro, mas ele só foi catapultado para o estrelato ao roubar várias cenas em Breaking Bad como Saul Goodman. O que poderia soar como uma piada, virou realidade e o personagem ganhou sua própria série. Arriscado, mas Odenkirk embarcou na jogada. Mal sabia ele que seria a melhor decisão da sua vida… Ele ganhou sua primeira indicação ao Emmy de melhor ator pelo papel. No entanto, não é bem aquele Saul que conhecíamos. Aqui ele encarna Jimmy McGill, um pré-Saul. No começo, parece que ele é daqueles trambiqueiros, mas Jimmy tenta ser um advogado sério, que lucra mas também ajuda as pessoas – ele se especializa em atender a terceira idade. Com ex-colegas de trabalho presentes direta e indiretamente em sua vida, um irmão que é um advogado respeitado mas que tem sérios problemas psicológicos, dificuldades financeiras e até mesmo bandidos em seu encalço, Odenkirk tem bastante espaço para desenvolver seu personagem. Nada superficial. O ator mergulha na alma de Jimmy e traz todos os trejeitos e papos enrolados, mas convincentes, do Saul que conhecemos. Ele mostra um lado “gente como a gente” ao mostrar-se um ferrado na vida, cheio de decepções, com sonhos e também sentimental. Odenkirk transita entre gêneros em sua performance, indo da pressão dramática até o humor nervoso. Uma performance que definitivamente o promove de coadjuvante à protagonista.

Bob Odenkirk (Better Call Saul) - season 1

Jon Hamm (Mad Men)

Na reta final de Mad Men, uma das melhores séries de todos os tempos, Don Draper parece ter dado certo rumo para sua vida. Ele novamente trabalha na agência e as coisas parecem estar bem. Parecem. Não importa. Por mais que Draper queira, de uma forma ou de outra o passado ressurge e o peso de ser quem ele é, uma reinvenção do que ele gostaria de ser e jamais teria a oportunidade caso continuasse sendo Dick Whitman. Por isso, em determinado momento da temporada, ele pega e deixa tudo para trás – mais uma vez. Entre o sucesso profissional e o fracasso pessoal, Don tem uma alma atormentada e solitária, e não sabe reconhecer o amor. Jon Hamm, de maneira quase sobrenatural, consegue se superar. Toda a tormenta do personagem, a autossabotagem e a frustração que possui de si mesmo são retratados com maestria por Hamm, que finalmente desaba diante das câmeras, em especial no último episódio da série. Draper é cheio de defeitos e os espectadores teriam tudo para odiá-lo, mas no fim do dia ele é apenas um ser humano. Hamm é o responsável por criar esse elo conosco, em mais uma performance formidável. Vamos sentir falta.

Jon Hamm as Don Draper - Mad Men _ Season 7B, Episode 14 - Photo Credit: Justina Mintz/AMC

EPISÓDIO

The Comeback
S02E08: Valerie Gets What She Really Wants

Direção: Michael Patrick King – Roteiro: Michael Patrick King & Lisa Kudrow
Exibido originalmente em: 28 de dezembro de 2014

Assim como o recente BoJack Horseman, The Comeback tem uma noção muito clara sobre celebridades e o meio hollywoodiano. Se na primeira temporada, lá em 2005, era sobre o “retorno” de uma estrela que sofreu a decadência de sua carreira, a segunda temporada brincou bem mais com a imagem que o artista quer passar de si e quem ele realmente é, além de explorar como o amor próprio fica de lado para que o ator consiga um novo emprego. Valerie (Lisa Kudrow, fantástica no papel) basicamente se humilha em diversos momentos, mas mantém diante das câmeras aquele sorriso de quem está gostando daquilo. Mas, por dentro, Valerie não está feliz. Ela sacrifica sua vida pessoal para obter o êxito e o reconhecimento profissional tão sonhado. Mas a que custo? O season finale da segunda temporada trouxe a noite do Emmy, quando Valerie finalmente consegue o que tanto deseja: uma indicação e, talvez, uma estatueta. Há momentos engraçados, constrangedores? Sim, como qualquer um da série. No entanto, este em específico toca o espectador. Mickey, o cabeleireiro e amigo de longa data dela, é internado por conta do câncer. Ela precisa escolher entre visitar o fiel escudeiro antes que seja tarde demais ou ficar na premiação e ser laureada da forma que sempre sonhou. O episódio nos fisga pela decisão de Valerie, que pela primeira vez na série fica longe de qualquer câmera e então surge a pessoa por trás da persona adotada enquanto está sendo filmada. Lisa Kudrow faz um belíssimo trabalho, submetendo-se a um nível de comprometimento jamais testado. Um episódio memorável, que fecha o seriado com chave de ouro.

The Comeback - Valerie Gets What She Really Wants (s02e08)

Parks and Recreation
S07E04: Leslie and Ron

Direção: Beth McCathy-Miller – Roteiro: Michael Shur
Exibido originalmente em: 20 de janeiro de 2015

Para qualquer fã de televisão, é difícil ver uma série terminar, especialmente se ela possuir a longevidade de Parks and Recreation. Qualquer série que amamos, mesmo com seus pontos baixos, deixará uma ficha após o seu episódio final que dificilmente cairá tão cedo. Permanecemos ali, passando por estágios como o de agradecimento as pessoas envolvidas por compartilhar aquele universo conosco até o maldoso pensamento de que a nossa visita semanal àquele lugar especial só poderá ser feita através de reprises. Quando se trata de algo pelo qual nós nos importamos, é difícil aceitar que aquilo não estará mais lá. É praticamente uma propriedade matemática que vem nessa equação chamada vida. Se isso é ruim para nós, imagine para Ron Swanson, aquele fã do lema “faça você mesmo”, distante do mundo e guardador de ouro que trabalha no governo mesmo esbravejando para todos os lados sobre a sua inutilidade. O cara durão bebedor de uísque também sofre com mudança. Afinal de contas, ele não se tornou um dos melhores personagens da história da televisão aprisionando-se a estereótipos. Ele cresceu, assim como todo mundo ali. Acompanhar “Leslie and Ron” é ter um choque de realidade fantástico. Ao longo da última temporada de Parks and Recreation, tudo mudou ou está mudando e quem ficou para trás terminou esquecido. Não porque Leslie e companhia sumariamente o descartaram, mas porque a vida simplesmente não permite que façamos tudo o tempo todo com todo mundo. Ron Swanson foi uma vítima de um contexto que muda a medida que o relógio anda.

Mas, mas… Estamos falando de Parks and Recreation! Sempre existe uma luz no fim do túnel. Não existe um problema que não possa ser resolvido e muito menos uma relação que não possa ser acertada.“Leslie and Ron” deixa sua proposta clara em seu título e entrega tudo no episódio: um ode inesquecível a um relacionamento exemplar entre duas pessoas que são capazes de conviverem e serem melhores amigas, mesmo sendo tão diferentes em suas personalidades. O mundo precisa de mais Leslies e Rons.

Parks and Recreation - Leslie and Ben (s07e04)

Masters of Sex
S02E03: Fight

Direção: Michael Apted – Roteiro: Amy Lippman
Exibido originalmente em: 27 de agosto de 2014

Antes desse episódio, eu jamais pensaria que dedicar 50 minutos à somente dois personagens, confinados em um quarto, seria algo bom de assistir. Mero engano. É aí que Masters of Sex mostra o poder de seus roteiristas. O drama da Showtime é um dos mais bem escritos da atualidade, sendo difícil não prestar atenção em tudo que se passa. Claro que um bom roteiro não faz o trabalho sozinho. É preciso excelentes atores para segurar um episódio quase sem cortes. Lizzy Caplan e Michael Sheen funcionam muito bem em cena. Isolados, já são ótimos atores, mas juntos são quase uma explosão. No ponto de vista da narrativa principal, “Fight” não agregou tanto assim. Porém, todas as contemplações e questionamentos feitos, proporcionaram para o público um entendimento maior de seus personagens, expostos como nunca neste episódio.

Masters of Sex - Fight (s02e03)

The Leftovers
S01E06: Guest

Direção: Carl Franklin – Roteiro: Damon Lindelof & Kath Lingenfelter
Exibido originalmente em: 3 de agosto de 2014

Em meio à uma excelente primeira temporada, fica difícil escolher o melhor episódio de The Leftovers. Contudo, “Guest” tem um sabor especial. Entregar um episódio totalmente dedicado à melhor personagem da série foi bem proveitoso. Nora Durst é uma persona cheia de camadas, uma das mais complexas da TV americana. Não é fácil explicar seus atos, como repor a comida que seus filhos gostavam. Todos se foram, marido, filho e filha, mas ela tenta manter tudo que a faz lembrar deles. Suas cenas na “cidade grande” foram bem trabalhadas também, mostrando para o público como funciona a tal instituição onde ela trabalha. Na verdade, tudo envolvendo Nora proporciona uma angústia profunda. Seus momentos são os que mais exalam a melancolia do show, e é algo que atrai de uma forma estranha. É natural do ser humano fugir da tristeza, mas assim como Nora, nós queremos mais e mais.

HBO  2014 The Leftovers Episode 107 "Guest" Characters- Carrie Coon-  Nora Durst Topher Nuccio- Breakout session aide

Mad Men
S07E14: Person to Person

Direção: Matthew Weiner – Roteiro: Matthew Weiner
Exibido originalmente em: 17 de maio de 2015

“Person to Person” é um adeus digno para Mad Men. Primeiramente, ele fornece um desfecho decente para todos os personagens principais, de maneira coerente. Joan abre seu próprio negócio – pela primeira vez, ela é a própria chefe e não responde a mais nenhum homem; Sally amadurece e toma as rédeas da família, para tomar o lugar de matriarca, já que Betty não tem muito tempo de vida; Peggy, da sua maneira racional, nota estar apaixonada; Pete ganha uma segunda chance para ser feliz e ter tudo o que sempre cobiçou; Roger aproveita a vida como o galã que sempre fora; enquanto Don enfrenta os demônios do passado, que insistem em persegui-lo. Autopiedade e autossabotagem falam alto, mas em certo momento, após falar com as três mulheres mais importantes de sua vida – Sally, Betty e Peggy -, Don percebe o quanto falhou como pai, esposo e colega, tendo quebrado todas as suas promessas. Draper desaba e vê-se fragilizado, sozinho, desamparado. Na roda de desabafos, um estranho, em um depoimento, faz com que o personagem perceba que nunca soube o que é o amor, o que é amar e ser amado. E nem temos como culpá-lo diante da infância problemática dele. Em um final emblemático e dúbio, Don finalmente se encontra em paz consigo mesmo – pelo menos, até ter que surgir com uma nova ideia.

Mad Men - Person to Person (s07e14)

Mad Men
S07E13: The Milk and Honey Route

Direção: Matthew Weiner – Roteiro: Matthew Weiner & Carly Wray
Exibido originalmente em: 10 de maio de 2015

Mad Men foi uma dessas séries planejadas do início ao fim. Uma obra pensada com começo, meio e fim, sem as variáveis de acelerar a história para acabar logo ou enrolar para manter a audiência por mais tempo. Matthew Weiner pensou Mad Men e ela durou o tempo que foi necessário; cada episódio, cada ação dos personagens, cada atitude foi levada em consideração nessa história que focou tão bem nas pessoas e na relação entre elas.

Nesse sentido, “The Milk and Honey Route” foi o episódio com mais cara de final que a série teve, mesmo sendo o penúltimo. Aqui, vemos o passo final para o encerramento da história de vários personagens, especialmente Betty Draper e Pete Campbell. Betty logo no início do episódio descobre que está com câncer no pulmão – um final devidamente simbólico visto que o primeiro episódio da série foi sobre o sucesso de Don vendendo cigarros – e que tem apenas alguns meses de vida. Já Pete vê a chance de recomeçar em um novo emprego e convence Trudy a dar uma nova chance ao casamento.

No meio disso, Don seguia o seu caminho para o desaparecimento que culmina no episódio final da série. Já havíamos visto ele largar emprego, casa, família, esposa e amigos, e aqui ele termina o episódio sentado na beira de estrada vendo um rapaz levar o seu carro. E Don está feliz, ele tinha largado tudo que lhe prendia. É essa sensação de fuga que permeia o episódio e dá o tom necessário para o final incrível. “The Milk and Honey Route” foi um dos melhores episódios da série ao fechar laços para permitir os acontecimentos do finale, com a sutileza que Mad Men aprimorou a cada ano.

Mad Men - The Honey and Milk Route (s07e13)

SÉRIE (COMÉDIA)

Parks and Recreation

Passamos sete temporadas com esses personagens. Criamos laços emocionais que ultrapassam a televisão e carregaremos para o resto da vida. Vimos essas pessoas crescerem. Vimos Pawnee crescer. Vimos uma das melhores temporadas de despedida já produzidas. A última temporada de Parks and Recreation conseguiu o feito fantástico de conduzir um final individual para cada personagem ao mesmo tempo em que arquitetou um adeus em conjunto que nos atingiu em todas as camadas emocionais possíveis. Todos possuíram o seu lugar ao sol e aproveitaram ao máximo para, mais uma vez, nos sensibilizar e trazer gargalhadas. Parks and Recreation é uma das comédias mais importantes dos últimos tempos pela sua capacidade ímpar de ser otimista e hilária, e sua saudação final é mais um exemplo disso.

Parks and Recreation - season 7

Orange is the New Black

Se na primeira temporada a série se focava em Piper, o segundo ano de OITNB veio para aprofundar as histórias das demais detentas. Aliás, Piper é o ponto mais desinteressante da trama. Ao ampliar sua narrativa, a série se aprimora. Altamente feminista, o programa não fica levantando bandeiras, mas naturalmente retrata a figura da mulher da maneira que precisa ser. São deixados de lado os esteriótipos e trabalha-se na personalidade das personagens, mostrando que por trás daquela primeira impressão, da condenação de cada uma, há muita história por trás, fazendo com que o espectador não consiga julgá-las – pelo contrário, cria-se um vínculo emocional com todas, sem exceção. Orange consegue ser engraçada quando quer, mas também choca e emociona. As atrizes, por maiores ou menores que sejam os papeis, se entregam e contam com um roteiro caprichado para dar conta de uma trama que, de certa forma, se norteia por uma antiga rixa entre Red e a novata Vee, o que rende situações memoráveis na temporada. Enfim, OITNB amadurece e se prova ainda melhor nessa segunda dose.

Orange is the New Black - season 2

Silicon Valley

A série para nerds de verdade (o que é The Big Bang Theory mesmo?) continua mostrando sua força. Pode não ser logo no primeiro episódio, mas no decorrer da segunda temporada, Silicon Valley se prova sagaz e divertida mais uma vez. A corrida em busca de alguém que patrocine o Pied Piper se mantém e Richard, juntamente com seus fiéis companheiros, precisa constantemente se virar nos 30 para fazer seu negócio dar certo. Com o projeto sendo bancado por um bilionário sem noção, os momentos embaraçosos acontecem em efeito dominó e os cinco colegas precisam se submeter a situações ridículas e de extrema pressão. No meio dessa bagunça é que as piadas se engatam e de forma sutil (ok, às vezes nem tanto, como na conversa entre Gilfoyle e Dinesh no episódio “Homicide” sobre os pontos positivos e negativos de avisar ao corredor de pick-up que os erros de cálculo farão com que ele morra) e até discreta elas são entregues a nós. Nem todas são óbvias, então é preciso ficar atento. Silicon Valley é uma das coisas mais originais atualmente na TV e merece ser celebrada por sua nerdice, esperteza, absurdez e fidelidade em relação ao mundo no Vale do Silício.

Silicon Valley - season 2

Veep

Veep e House of Cards viveram um quadro semelhante neste ano. Os protagonistas das respectivas séries deixaram a vice-presidência e se tornaram presidentes, ainda que provisoriamente, tendo de provar seu valor como governantes do país mais poderoso do planeta para serem eleitos tendo a máquina em suas mãos. Enquanto o drama da Netflix partiu para um campo mais calmo, de mais falatório e menos ação (o que não é desmérito), Veep se desafiou e foi além. Não teve problemas em tirar personagens já conhecidos do núcleo da presidente Selina Meyer, fazer novas adições (incluindo o ótimo Hugh Laurie) e tirar as figuras de sua zona de conforto. Situações ainda mais constrangedoras acontecem, o que é de se esperar da série, e o debate político permanece brilhante, com aquela visão satírica ainda que muito próxima da realidade. A quarta temporada também soube mudar completamente a linguagem em seu penúltimo episódio, “Testimony”, detentor da melhor sequência de piadas de toda a série. Veep consegue mostrar que tem fôlego pra muito mais, mantendo a criatividade em alta, além de contar com atores no auge de suas carreiras.

Veep - season 4

Unbreakable Kimmy Schmidt

Essa deliciosa comédia conta a história de uma jovem que viveu 15 anos no subsolo com outras três mulheres. Todas foram enganadas por um falso religioso, que as convenceu sobre o final do mundo. Tendo que descobrir seu lugar na atual sociedade, uma delas fica em Nova York para se aventurar. A partir daí acompanhamos a vida de Kimmy Schmidt (Ellie Kempler) e suas loucuras. Não é uma série que provoca gargalhadas eternas, mas proporciona umas risadas mais leves. Tina Fey cria alguns exageros, todos eles encaixados perfeitamente e justificáveis para uma comédia. A série utiliza como artifício o flashback. Tal recurso ajuda a enriquecer a trama e proporciona maior conhecimento sobre o passado da protagonista. O elenco é excelente, conseguindo criar uma química irrefutável, mesmo dando vida a personagens tão diferentes, sem falar nas participações especiais, principalmente Jon Hamm, hilário em seu papel.

Unbreakable Kimmy Schmidt - season 1

Jane the Virgin

A premissa de Jane the Virgin é digna de novela mexicana. Claramente, a ideia inicial era mesmo trazer elementos das telenovelas e parodiá-las. Contudo, a série vai muito além disso. O que era pra ser apenas uma sátira, se torna uma das produções mais ousadas, autênticas e queridas da TV. A trama é mesmo uma bagunça só, com situações que aconteceriam somente no melhor episódio de A Usurpadora feat. Maria do Bairro & A Feia Mais Bela. Os exageros tremendos acabam se tornando comuns para o espectador e uma das graças do programa. A linguagem narrativa é uma grata surpresa, com um narrador fixo, comentando, se surpreendendo e se emocionando junto com os espectadores no decorrer dos episódios. As legendas para determinadas situações e personagens são hilárias, servindo até mesmo como críticas sociais, a exemplo do episódio em que a vó da protagonista corre risco de ser deportada. Os personagens, por mais caricatos que sejam, como é o caso de Rogelio, o pai de Jane, possuem personalidade bem estruturada. Nada aqui é vazio. Pelo contrário. Jane the Virgin, além de divertido, é emocionante. Como se todo o resto não fosse o suficiente, a série cria um forte vínculo sentimental com o público e é nos momentos mais afetuosos que ela nos conquista. O seriado tem um sabor especial, sendo diferente de tudo o que há hoje na TV. Resta saber se a CW conseguirá manter o frescor e a autenticidade nos próximos 22 episódios. Esperamos que sim.

Chapter Twenty-Two

SÉRIE (DRAMA)

Game of Thrones

Com a saída de True Detective e Breaking Bad da jogada, Game of Thrones poderia ter mantido a qualidade da ótima quarta temporada e ter chutado a porta neste quinto ano, podendo conquistar até o Emmy de melhor série. Poderia. Mas isso não aconteceu (e também creio que não leva o Emmy). A quinta temporada foi a que mais se distanciou dos livros, o que não necessariamente a classificaria como um produto ruim, no entanto, David Benioff e D.B. Weiss claramente não souberam aproveitar a oportunidade. Com mudanças preguiçosas e que não contribuem para a narrativa, a temporada chegou a ter sua qualidade questionada. De fato, alguns plots foram mal desenvolvidos (Dorne e as Serpentes de Areia que o digam) ou simplesmente demoraram para acontecer. Apesar disso, há momentos memoráveis, como a incrível caminhada da vergonha de Cersei (sim, ela finalmente se ferra, mas a gente já sabe que vem vingança à frente), o encontro de Daenerys e Tyrion e a fantástica batalha de Jon Snow, a Patrulha da Noite e os selvagens contra os white walkers, no melhor episódio de toda a série. Ano que vem, caprichem bem mais. Grato.

Game of Thrones - season 5

The Leftovers

A série baseada na obra literária de Tom Perrota aborda a vida dos moradores de uma cidade americana, após o desaparecimento sem explicação de 2% da população mundial. A história se passa três anos depois do ocorrido, mostrando os efeitos a longo prazo. O grande diferencial do seriado criado por Damon Lindelof é focar nas relações das pessoas que ficaram, e não no mistério do que poderia ter acontecido com todos aqueles que sumiram. Seria muito hipócrita achar que Lost também fazia isso, até porque a todo momento éramos instigados a querer saber as respostas. The Leftovers possui um roteiro tão bem estruturado e escrito, que lá pelo terceiro episódio já não há mais curiosidade. As histórias dos personagens e suas interações chamam toda a atenção, com um elenco bem satisfatório (menos você Liv Tyler). Melancolia seria a melhor palavra pra definir o que o show nos passa, mas é algo envolvente, diria que até sedutor. É interessante como a série mexe com as referências bíblicas. São feitos diversos paralelos com o arrebatamento, mas raramente algo direto, por isso é necessário assistir com toda atenção possível.

The Leftovers - season 1

House of Cards

Não seria necessário enumerar um quilômetro de argumentos para provar que House of Cards é uma das melhores séries da atualidade, apenas um basta: Netflix. Aliás, boa parte do reconhecimento que o canal de streaming tem hoje em dia se deve a incrível produção da série. Com uma terceira temporada constante e consistente – sem muitos altos e baixos – a série mostra que sabe muito bem o que está fazendo e começa a conduzir seus personagens do ponto mais alto que se pode chegar a nível de poder mundial para a beira do precipício. Desenterrando toneladas de sujeira do passado e do presente deles, o roteiro leva os protagonistas ao extremo e contorce e distorce a relação deles. O poder vem com um preço, e os Underwoods já estão pagando a primeira parcela.

House of Cards - season 3

Better Call Saul

Vinte e nove de setembro de 2013. Para muitos essa data não significa absolutamente nada, já para uma minoria de pessoas, era o dia em que findava uma das melhores séries de todos os tempos – se não a melhor. Breaking Bad chegava ao fim de sua jornada. Para mim, que tive a honra de acompanhá-la desde seu “nascimento” e poder ver toda sua evolução, era algo bem marcante, emocionante, e triste ao mesmo tempo. A partir dali surgiu a possibilidade de podermos ver nossos queridos personagens novamente, dentro de uma nova realidade, na perspectiva do advogado mais trapaceiro de Albuquerque. Eu fui um dos muitos que não teve esperança em surgir algo do mesmo nível de BrBa, mas o spin-off Better Call Saul conseguiu superar todas minhas expectativas, sendo uma das melhores coisas desse ano. Conhecer a história de Saul – aqui Jimmy – foi uma experiência fantástica, e poder ver que sua personalidade de pilantra não foi formada por “natureza” própria, e sim por falta de oportunidades e desilusões em tentar ser uma pessoa honesta, é um tanto gratificante para nós, fãs. Mas não foi só isso. Esta não fora uma série apenas pra relembrar a sua irmã mais velha e bem sucedida. Ela tem seu próprio material, sua história, seus objetivos, não é apenas algo jogado ao vento para atrair audiência. Saul conseguiu ser cada vez mais cativante, ao lado de Mike, que também rouba a cena. O que Vince Gilligan e Peter Gould fizeram no seriado é algo mais que notável. Quando as pessoas dizem, “Ah, é exagero falar que é genial”, eu discordo totalmente. Não digo que os episódios em si foram geniais, mas a desconstrução que a dupla fez para reconstruir tudo em uma nova série, na mesma atmosfera de Breaking Bad, com um personagem já “desenvolvido”, é brilhante! Sinto-me em um novo cenário, em uma nova história, novos personagens, com pessoas que já conheço.

Better Call Saul - season 1

The Good Wife

A sexta temporada está aquém de sua excelente antecessora. Ponto. Dito isso, a série ainda mantém o jogo em alto nível. Os 10 primeiros episódios da temporada, que tem como trama principal a prisão de Cary, formam uma sequência de excelência que não via desde a última temporada de Breaking Bad. No entanto, é inegável que alguns dos capítulos sucessores são abaixo do esperado diante da primeira metade do sexto ano. Existiram uns três episódios que estão ali apenas para o famoso “encher linguiça”. Felizmente, a temporada ainda resiste e entrega tramas e sub-tramas bem delineadas, dando mais foco para o meio político, já que Alicia parte para o campo (mesmo sem saber por quê está fazendo, mas posteriormente pagando por seu erro honesto). Como é de costume, o programa traz temas atuais para discussão, como aborto, direitos dos homossexuais, opinião pública, imprensa, os black-sites em Chicago onde os policiais mantêm pessoas sem prendê-las oficialmente, tema utilizado no season finale e que se baseia em um fato real, entre tantos outros. Com 22 episódios por temporada, é árduo manter o fôlego e o frescor, mas The Good Wife ainda consegue. Prova disso é a forma como a série ainda encontra de brincar com o estilo narrativo para se reinventar, a exemplo de “The Trial”, que se desenvolve através do ponto de vista de quatro personagens diferentes: o juiz do caso, a advogada da acusação, um dos júris e, por último, Kalinda – esta, no geral, mais sub-utilizada do que nunca. A sexta temporada não é perfeita, mas dá continuidade ao trabalho acima da média da série em relação a toda TV americana. Aguardamos ansiosos o novo capítulo da “Educação de Alicia Florrick”.

The Good Wife cast season 6

Mad Men

Em seus últimos sete episódios, Mad Men confirmou-se como uma das melhores séries já inventadas pelo ser humano. Pulando de década, entrando nos anos 70, a ambientação mudou e mais uma vez provou-se essencial para criar o clima certo. Em sua reta final, muita coisa acontece e esses personagens que aprendemos a admirar e gostar nos últimos anos recebem um desfecho digno. A impressão que fica é que nenhum deles teve um final, de fato, feliz. Diria que não foram colocados pontos, mas sim vírgulas. Não é nada definitivo e deixar essa possibilidade em nossas mentes é o maior presente que Matthew Weiner poderia nos conceder. Há momentos memoráveis envolvendo todos os personagens, mas os principais destaques ficam para o núcleo feminino e Don. É incrível ver Joan batendo o pé e se recusando a ser tratada como objeto, exibindo todo seu feminismo ao lutar pelo o que quer. Continua sendo um deleite assistir Peggy confrontando Don e se recusando a ser só mais uma funcionária; ela quer o respeito que merece. Sally mantém-se a responsável por disparar as verdades mais cruéis para a mãe e, especialmente, para o pai, vivendo sua adolescência com aquela pitada de rebeldia esperada para a idade. Betty luta para provar que não é só uma dona de casa e realiza o seu sonho de ir à faculdade – pena que sua vida é abreviada, e assim torna-se a mulher mais emblemática desse término. Don, por sua vez, volta a enxergar seus fantasmas do passado, e tenta se livrar por completo da sua vida cheia de mentiras, de promessas quebradas, partindo em busca do “eu” verdadeiro ou uma razão para sua existência – e ele encontra o que procura, dividindo com o mundo inteiro em um comercial da Coca-Cola. Seja qual for sua leitura sobre o término, é indiscutível o legado que Mad Men deixa para a TV. No fim, a conclusão que se chega é a de que sim, esta foi uma série sobre pessoas e seus relacionamentos, suas jornadas, suas mudanças, que são acompanhadas pela metamorfose histórica e cultural.

Mad Men - season 7B

Textos por Rodrigo Ramos, exceto “Kate Melgrew (Orange is the New Black), Uzo Aduba (Orange is the New Black), Christina Hendricks (Mad Men), Gillian Anderson (The Fall) e Elisabeth Moss (Mad Men)” por Dierli Santos; “Mandy Patinkin (Homeland), Robin Wright (House of Cards), Kevin Spacey (House of Cards) e House of Cards” por Rafael Bürger; “Matthew Rhys (The Americans) e Better Call Saul” por Jean Marc; “Parks and Recreation – S07E04: Leslie and Ron e Parks and Recreation” por André Fellipe; “Mad Men – S07E13: The Milk and Honey Route” por Lucas Paraizo; “Christine Barankski (The Good Wife), Carrie Coon (The Leftovers), Peter Dinklage (Game of Thrones), Freddie Highmore (Bates Motel), Masters of Sex – S02E03: Fight, The Leftovers – S01E06: Guest, Unbreakable Kimmy Schmidt e The Leftovers” por Mikael Melo.

Fizeram parte desta eleição:
Aline Diniz, jornalista, editora de séries e TV do site Omelete.
Dana Rodrigues, editora do site Diário de Seriador.
Claudia Croitor, jornalista, editora-executiva do G1 e editora do blog Legendado.
Dierli Santos, jornalista, colaboradora do site Lugar de Mulher.
Rafael Bürger, colaborador do site Diário de Seriador.
Fillipe Queiroz, aficionado em séries.
Mikael Melo, colaborador dos sites Previamente e The Series Factor.
Jean Marc, colaborador do site Diário de Seriador.
Ady Ferrer, jornalista, repórter da TV Ucpel.
Douglas Couto, aficionado em séries.
Anderson Narciso, editor-chefe do site Mix de Séries.
Bruna Brehmer, colaboradora do site Previamente.
Cristian Dutra, aficionado em séries.
Rodrigo Ramos, editor-chefe do site Previamente, colaborador do site Culture-se e da Revista Mundo Pop.
Também colaboraram:
André Fellipe, colaborador dos sites Previamente e Série Maníacos.
Lucas Paraizo, jornalista, colunista do site A Escotilha e repórter do Jornal de Santa Catarina.

Imagens: Netflix, AMC, CBS, HBO, Showtime, NBC, The CW, Fox, BBC, Amazon Instant Video, A&E, FX.

Confira também as listas dos anos anteriores
Melhoras da TV na Temporada 2013/2014
Melhores da TV na Temporada 2012/2013
Melhores da TV na Temporada 2011/2012
Melhores da TV na Temporada 2010/2011

Da Redação
Anúncios

5 comentários em “Melhores da TV na Temporada 2014/2015”

    1. Olá, Marcos. Obrigado pelo comentário. Quanto a ausência de Hannibal, explico: ela não se qualificava para a eleição porque ela ficou fora da janela de votação, que é de junho de 2014 a maio deste ano. Nem a segunda e nem a terceira temporada estiveram no ar em mais de 50% nesse tempo. A série poderá estar presente na lista do ano que vem, competindo com a terceira temporada. Abraço!

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s