Os discos que você deveria ter ouvido em 2021

(mas tudo bem, pode ouvir agora)

Em mais um ano caótico, é natural que não tenha dado tempo de ficar em dia com o que as artes criaram. Pandemia, trabalho (muito, por sinal), família, boletos (diversos, mais do que damos conta), estresse no teto, ansiedade e negligência governamental. Há pouco espaço para tomar fôlego. Já entramos em 2022 sem mal conseguir raciocinar e planejar o que queremos para os próximos meses. Porém, o que pedimos aqui é que você tire um tempo para ouvir os melhores discos lançados ao longo de 2021, independente se já ouviu um ou outro. É o que você deveria ter ouvido no ano passado, mas tudo bem, sabemos a limitação temporal desses tempos modernos. De qualquer forma, reconsidere nosso pedido. Leia esta lista, preparada com muito carinho, e não deixe de escutar os sons e palavras de conforto de artistas que, apesar de terem vidas completamente distintas das nossas, são humanos. Confira. Vai te fazer bem e pode te ajudar a encarar o que vem pela frente. 

20. Little Simz – Sometimes I Might Be Introvert

Você quer 15 anos ou 15 minutos? Inspira, expira. Respira. E é assim que Simbiatu Ajikawo faz sua escolha, no épico Sometimes I Might Be Introvert, quarto álbum de Little Simz e o melhor trabalho de sua carreira, mesmo que fosse uma missão quase impossível superar seu trabalho anterior. Eis aqui a prova de que era muito capaz, e para isso Little Simz se alça a proporções extraordinárias. É um trabalho, como a própria alega na música de abertura, sobre a jornada de ser mulher. Mas ser uma mulher negra é diferente. Não que seja obrigada a representar esse recorte, mas Little Simz faz uma escolha. Simz, a artista, e Simbi, a pessoa, entram em sintonia, e por que não deveriam? O conflito entre ego e talento reproduz uma reflexão de perspectiva única, singular. Se suas letras arrebatam, a maneira como Little Simz constrói suas músicas as potencializam ainda mais. A complexidade de suas composições, aliada à sua entrega das rimas e as inserções de samples, criam camadas que são desvendadas e se tornam mais ricas a cada nova vez que se ouve as canções. Algumas vezes, porém, a simplicidade é o fio condutor, mas com tal sutileza que mal se percebe as entonações nas quais Little Simz nos manipula entre os versos de “I Love You, I Hate You” e os sentimentos conflitantes em relação ao seu pai. E é com esse poder artístico que parece ostentar com tanta facilidade que ela nos leva pela jornada de pouco mais de uma hora. E enquanto conversa com si própria e tudo isso que ela se vê capaz de construir, ela conversa com quem a ouve e toca profundamente em sentimentos que são difíceis de descrever. Seja através do Hip-Hop, Rap, Clássico, Jazz, Soul, ou o que mais for capaz de ser inserido, Little Simz transforma o álbum em algo que em nada tem de introversão, pelo contrário. Sua grandeza fala pelos cotovelos, e com certeza falará muito mais do que por apenas 15 anos. Little Simz é eternizada por suas próprias mãos, e sua voz. Um poder só seu. Algo que ela fez por merecer…

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19. Fernanda Abreu – 30 Anos De Baile

Pop/dance eletrônico, funk, música black e samples. Fernanda Abreu, há mais de 30 anos, inaugurou a música brasileira verdadeiramente dançante, que já era moda nos EUA vários anos atrás, mas agora em português. Depois de seu período na Blitz, a cantora partiu para seu rumo próprio e ajudou a levar o funk para a casa das pessoas, quando o movimento ainda era criminalizado e, nem de longe, poderia sonhar-se com a consolidação do gênero que temos atualmente. Pioneira e queridinha dos DJs, ela devolve o amor a eles celebrando os 30 anos de carreira com um álbum que repagina alguns de seus principais sucessos pelas mãos de DJs e a participação de dois rappers, incluindo Tropkillaz, Emicida, Projota, Bruno Be, Vintage Culture, Dennis DJ, Ruxell, Memê, Gui Boratto, entre outros. O resultado é uma bela homenagem, ao seu legado e também às pistas. Além disso, suas letras ainda são tão relevantes quanto na época de seu lançamento, como “Rio 40 graus, cidade maravilha, purgatório da beleza e do caos”. 

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18. Tyler, The Creator – CALL ME IF YOU GET LOST

Criativo como de costume, Tyler continua em alto nível após o lançamento do impecável IGOR, de 2019. Em CALL ME IF YOU GET LOST, o artista decide fazer uma ode à era das mixtapes do hip-hop, de onde ele mesmo se originou. Simboliza essa temática a presença do DJ Drama, veterano das mixtapes nos EUA. Brincando com as palavras, mandando rimas rápidas e misturando sonoridades (influências de reggae, jazz e até bossa nova), por oras o álbum parece extremamente pessoal, e em outros momentos soa como um deboche. Talvez seja o modo de lidar com a fama, o sucesso e a vida de luxo que hoje leva, bem diferente daquela do início da carreira. Independentemente do motivo, Tyler mostra-se confiante e ciente da arte que produz, o que resulta em mais um álbum divertido e de imensa qualidade.

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17. Marisa Monte – Portas

Após um hiato de 10 anos desde seu último álbum solo de inéditas, Marisa Monte retorna triunfal em Portas. Para quem torcia por alguma guinada sonora, pode se frustrar, pois a cantora retorna para o mesmo ponto, entregando exatamente aquilo que estamos acostumados em sua irretocável carreira: belas melodias, suavidade, classe, algumas dores e até um pingo de otimismo. A artista é pura brasilidade e poesia aqui, com composições em parceria com Marcelo Camelo, o amigo de longa data Arnaldo Antunes e Chico Brown, substituindo a presença do pai Carlinhos Brown, que pela primeira vez não participa de um álbum de Montes desde 1994. É para ouvir e relaxar. 

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16. Jão – PIRATA

Em PIRATA, Jão celebra os amores efêmeros. É uma coleção de canções que trazem as aventuras e desventuras de encontros, lances e relacionamentos, mas que não se aprofundam tanto – o que não quer dizer que sua abordagem seja superficial. Entre meninos e meninas, o cantor entra em uma jornada de autoconhecimento e o álbum acaba por retratar as relações de um jovem adulto, sendo compatível com a sua idade. É um disco pop bastante competente, sincero, com ares de juventude, e que põe definitivamente Jão na lista dos artistas brasileiros para ficarmos de olho.

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15. Tony Bennett & Lady Gaga – Love for Sale

A antiga vontade de Tony Bennett em fazer um álbum somente com covers do compositor Cole Porter é realizada neste trabalho em parceria com Lady Gaga. Love For Sale é um disco extremamente bem produzido, com performances excepcionais do grandioso intérprete que é Bennett e Gaga, que aqui ousa menos do que na parceria anterior do duo, contudo, parece ter amadurecido em voz e performance, entregando uma interpretação mais jazz do que as estranhezas de seus álbuns solo (nada contra, inclusive, porém, digamos assim, agora está mais adequado para o que se pretende). 

Love For Sale também é o último álbum de estúdio da carreira de Bennett. Aos 95 anos, o cantor sofre de mal de Alzheimer há algum tempo. No entanto, sua voz continua firme, expressiva, aveludada, afinada e emocionante. Apesar de a memória sofrer nesse processo, é durante a música que o cantor volta a ter o brilho no olhar — basta assistir às performances dele com Gaga durante a divulgação do álbum para saber do que estou falando. Como tenho uma avó que sofre de demência e mal de Alzheimer, aos 91 anos, sei bem como é ter alguém próximo tendo de passar pelo processo de apagamento. Porém, com algumas pessoas pontualmente e com a música, vejo como ela reage, como se não houvesse enfermidade nenhuma. Dada a proporcionalidade da comparação, sinto isso na relação de Bennett com Gaga e, principalmente, a música. Não somente por, mas também por isso, Love For Sale acaba se tornando um disco tão tocante para mim. É qualidade inquestionável somada a fatores sentimentais. É arte. 

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14. Olivia Rodrigo – SOUR 

SOUR, sem dúvidas, soa como um álbum escrito por uma adolescente. Naturalmente, não haveria como ser diferente. Olivia Rodrigo tem apenas 18 anos e o seu apelo é justamente pelas energias juvenil, magoada, traída e rebelde que suas canções emanam, originárias da pouca idade – características que ainda hoje Taylor Swift carrega com sucesso, para o bem e para o mal. Em muitos sentidos, o disco ainda soa um pouco cru, talvez produto da falta de experiência dela. Ainda assim, isso é o que torna o trabalho autêntico até certo ponto. SOUR é um experimento, como se fosse o teste para ver em que caixinha Rodrigo deve ser encaixada. Os produtores, ao menos, acertam em algumas referências que buscaram para ela, como Courtney Barnett (não há como ouvir a “brutal” e não lembrar da artista), Avril Lavigne e Paramore. “drivers license” é um sucesso atípico, tendo mais de quatro minutos numa era em que as músicas não devem passar de três minutos, e possivelmente a melhor já feita pela cantora até então, trazendo tristeza e profundidade inesperadas, justamente devido à idade. Entre erros e acertos, SOUR é um experimento interessante de uma artista ainda em construção. 

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13. Duda Beat – Te Amo Lá Fora

Em seu segundo álbum de estúdio, Duda Beat exibe evolução e mais segurança em seu trabalho. Te Amo Lá Fora é um disco, em termos de produção, bem mais arrojado. A cantora pernambuquense mistura trap, pop, disco, reggae, e muito mais, tudo sem perder as referências regionalistas, o que faz com que o álbum seja bastante particular. Nas letras, Duda continua sendo a rainha da sofrência indie, com composições mais sagazes e sofisticadas, por ora até sarcásticas. O fato de Beat estar num relacionamento amoroso bem-sucedido desde o fim de 2016, com o amigo de longa data e produtor Tomás Tróia, é prova da capacidade dela de ficar imersa em sentimentos que não lhe pertencem (ou não lhe pertencem mais) e entregar canções de coração partido como poucos.

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12. ABBA – Voyage

Após um hiato de 40 anos, o maior grupo pop sueco de todos os tempos está de volta! Com dez novas faixas, Voyage nos agracia com belas e improváveis canções, repleta de autorreferências e histórias que beiram o teatral, como de costume. O ABBA soa como se o tempo não tivesse passado. Não há nada aqui que indique que quatro décadas separam o último trabalho do grupo deste. Chega a ser impressionante. E apesar de não trazer um fator necessariamente novo, temos aqui uma visita saudosa ao passado, que brilha em entender e dar um ponto final à jornada Agnetha, Björn, Benny, e Anni.

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11. Doja Cat – Planet Her 

Sucesso isolado? Aqui não. Doja Cat mostra-se preparada para assumir o posto de principal rapper feminina da atualidade nos EUA com Planet Her, um disco conceitual, sim, e impossível de parar de ouvir. Não trata-se de uma ópera rock, mas ainda assim, para conseguir sentir-se transportado para o planeta dela, é necessário ouvir o álbum em sua totalidade. Em suas performances, Doja brinca com as rimas, mesclando com as seções mais melódicas das canções, oferecendo um clima misturado de sensualidade, caos, zombaria e brincadeira. Se as cantoras pop não estiveram presentes no ano passado, Doja ocupou o posto de diva com esmero.

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10. Adele – 30

Se há alguém na indústria que podemos contar que irá entregar exatamente o que promete, esta é Adele. Uma das características da cantora é a consistência. Virtude para alguns, defeito para outros, o fato de suas músicas parecerem saírem todas do mesmo álbum é marcante. Parte do apelo talvez resida nele. De forma geral, Adele não ousa em 30 e aposta naquilo que sempre chamou atenção nela: seus vocais impecáveis. Uma das melhores vozes da atualidade, ela esbanja mais uma vez técnica e algumas notas alcançadas ainda são capazes de surpreender o ouvinte. Durante as 12 faixas, aborda as emoções oriundas do término de seu casamento, o que inclui também a experiência da maternidade. 

Se tem uma canção que não poderia estar em nenhum outro álbum dela é “My Little Love” (pra mim, a melhor de 30), em que ela traz diálogos com seu filho, Angelo, sendo pura vulnerabilidade, de um modo como poucas vezes ouvi em uma música. E isso é algo bastante significativo, uma vez que ela faz álbuns inteiros falando sobre suas experiências amorosas. Mas esta é diferente. É belo e devastador. 

Em suma, 30 é mais um álbum de Adele, algo que para os fãs vai ser uma experiência satisfatória, mas para aqueles que esperam ser surpreendidos pela cantora, pode ser ligeiramente decepcionante. Ainda assim, um disco com a qualidade costumeira da britânica.

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9. Japanese Breakfast – Jubilee 

Apesar da indicação como Melhor Novo Artista no Grammy, Japanese Breakfast chega ao seu terceiro álbum com Jubilee e o reconhecimento, que rendeu uma outra indicação na categoria de Melhor Álbum Alternativo na premiação, coroa um ano especial para a banda, que também compôs a belíssima trilha sonora do jogo Sable. Prova de que Michelle Zauner vive uma fase inspirada de sua vida, não à toa aqui entrega o melhor álbum da banda, e um dos mais bonitos trabalhos do ano. Zauner escreve todas as músicas do álbum e é claramente um passo seguinte no processo de luto que deu o pontapé inicial nos dois primeiros álbuns da banda. A jovem artista perdeu uma tia e a mãe ainda novas para o câncer, e isso a influenciou de diversas maneiras. 

Jubilee parece um pouco a liberdade desse luto, pois apesar de lançado durante a pandemia, o álbum havia sido gravado ainda em 2019 e seria lançado ano passado, com a esperança de uma turnê especial como acompanhamento, antes da Covid-19 devastar o mundo. Quando se ouve logo na abertura a inebriante “Paprika”, se entende as motivações especiais da turnê, onde encontramos uma composição muito bem elaborada e de uma melodia de fluidez contagiante. Uma música na qual Zauner se vê no auge de seus poderes, mas ainda solitária e sobrecarregada com seus sentimentos. Nada melhor, então, que ter algo para acreditar, e alguém doce contigo. “Be Sweet” é um pedido simples, mas que parece difícil de se concretizar. Mais para o fim, toda a jornada tem uma reflexão, na triste “In Hell” (pessoalmente minha favorita), em que Zauner compara os momentos em que teve que submeter seu cachorro a eutanásia e o período em que aos poucos perdeu sua mãe para o câncer. Como se para ela, amar fosse um inferno. Mas não é. É uma responsabilidade que não pode ser tóxica (“Tactics”), que parte de se aceitar e se entender. É um ciclo, e em Jubilee lembramos do início: como é se sentir no auge de seus poderes e cativando todos os corações? Certamente é algo que soa tão confiante como Michelle Zauner neste álbum.

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8. Billie Eilish – Happier Than Ever

Não sei exatamente o que esperávamos da musa do ASMR, mas Happier Than Ever supera as expectativas. Em seu segundo álbum de estúdio, Billie não joga nenhum pouco seguro e percorre caminhos inesperados. Ainda mais pessoal do que o trabalho anterior e autêntico, o disco explora a capacidade da artista de se adaptar a outras vertentes, indo da bossa nova (em “Billie Bossa Nova”) ao EDM a la Nine Inch Nails (a excelente “Oxytocin” e a perspicaz “NDA”), da calmaria e da vulnerabilidade até o caos, a inquietação e a sensualidade (este ponto, em especial, sendo inteiramente novidade para ela), além de não poupar os críticos de como ela se veste e de seu corpo (“Not My Responsibility”). Não nos pegaria de surpresa se Eilish partisse para um caminho mais comercial, após o boom com o seu o debute, contudo fica evidente que ela e seu irmão Finneas continuam tendo o controle criativo da obra, porque, honestamente, não vejo executivos de gravadora ouvindo essas canções e tendo certeza que elas serão um sucesso nas paradas para ganharem rios de dinheiro.

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7. Marina Sena – De Primeira

A música “Ombrim”, do grupo Rosa Neon, já revelava a voz original e a personalidade de Marina Sena, que de cara era o grande destaque do grupo. Mas a banda era pequena para o talento da artista, que expandiu suas composições e partiu pro seu primeiro disco solo, também assinando como produtora ao lado de Iuri Rio Branco.

De Primeira abriu com os singles “Voltei pra Mim” e “Me Toca” até chegar em “Por Supuesto” que viralizou no TikTok e ganhou as plataformas de streamings. Todas as faixas do disco bebem de elementos do funk, samba e um pop chiclete viciante. Os videoclipes que exalam a sensualidade natural da cantora mineira de Taiobeiras também foram fundamentais para envelopar o conceito do disco. Marina Sena estreou com o pé direito, ganhando a admiração do público e da mídia especializada da primeira à última faixa do disco, que já é um fenômeno do pop brasileiro.

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6. Lil Nas X – MONTERO 

Montero Lamar Hill, mais conhecido pela alcunha Lil Nas X, atingiu o sucesso cedo, com o hit “Old Town Road”. À priori, parecia limitado e que era um daqueles casos de one hit wonder. Entretanto, o artista, dali em diante, não parou de surpreender. Abocanhou vários Grammys, começou a investir no visual de seus videoclipes e, provavelmente o ato mais simbólico de sua carreira, assumiu ser gay. É um desafio ser homem negro e LGBTQIA+, especialmente tratando-se de um rapper, uma vez que a cena hip hop ainda traz consigo muito preconceito – motivo, pelo qual, inclusive, nenhum outro rapper masculino e heterossexual participou do álbum, algo que o artista abordou nas redes sociais. Lil Nas X, no entanto, bateu de frente. Com MONTERO, seu primeiro álbum de estúdio, o artista escancara as questões de sua sexualidade, com muita audácia, ironia e provocação, a exemplo da música e, especialmente, o clipe do single principal, “MONTERO (Call Me By Your Name)”. E, se porventura, Lil Nas X deu a impressão de limitação no passado, ao longo das 15 faixas do disco ele dá o recado de que pode tudo, fazendo o hip hip fluir dentro de outros gêneros, colaborando com artistas de renome (sir Elton John!) e outros do momento (Doja Cat e Megan Thee Stallion). O álbum é eclético, divertido, que subverte o hip hop e suas questões machistas, e também aborda a vulnerabilidade do artista, a exemplo da excelente “SUN GOES DOWN”. MONTERO é um discaço de estreia e coloca, em definitivo, Lil Nas X no rol dos grandes artistas da contemporaneidade.

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5. Maria Bethânia – Noturno

Noturno traz uma Maria Bethânia minimalista e introspectiva. Gravado em menos de três semanas, o álbum conta com poucos instrumentais e aposta, principalmente, naquilo que é constantemente o ponto alto dos trabalhos da baiana: seu poder ímpar de interpretação. A escolha pode ter sido em função da pandemia, mas é bastante acertada. As canções poéticas trazem consigo dores, mas, no fundo, são acompanhadas também de um pingo de esperança, o que fica registrado nos vocais de Bethânia e no instrumental, bastante marcado pelos acordes de violão ou piano. Há algumas exceções, como é o caso de “Cria da Comunidade”, em parceria com Xande de Pilares, exaltando o orgulho do seu local de origem, que reluz e acaba se destacando, dando um fôlego durante a tempestade. Em meio a um Brasil carregado de escuridão, o LP trilha pelos caminhos soturnos, mas oferece também luz, acreditando que ainda há um futuro para ela e todos nós. 

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4. Linn da Quebrada – Trava Línguas 

A Linn da Quebrada de 2017 certamente é diferente daquela do ano passado. Quem esperava a ferocidade intensa, navalha na carne, pode até se surpreender. Em Trava Línguas, Linn encontra um meio termo, fazendo deste um álbum mais acessível para o ouvinte médio, mas sem deixar, em momento nenhum, sua personalidade, sua história e criatividade para trás. A artista mistura sonoridades, imprimindo a marca brasileira, passando pelos ritmos afro, funk, jogando-se nas batidas eletrônicas e até flertando com o estilo vogue dos anos 90. Como atiça pelo título, Linn explora palavras que são homófonas e a dualidade daquelas homônimas, além de brincar, de forma consciente, com os vocábulos. “Se trans for mar, eu rio / & se trans for mar, água de torneira”, “Meu corpo no seu / seu corpo no mel / meu corpo no céu / seu corpo nu” e “Gente, eu tô falando sério / vocês sabem que eu não minto / eu não sei mais se еu corto / mas também não sei se eu pinto / eu corto ou pinto” são exemplos da capacidade de Linn de explorar o vocabulário português, e não somente para mostrar que ela consegue, mas de modo que contribui para dar significado e profundidade às canções. 

Apesar de modelada, Linn não abre mão de falar o que pensa, de suas causas e lutas. Ela canta suas vulnerabilidades, como em “I Míssil”, é altamente política em “quem soul eu”, e diverte-se na boca suja e sensual “Mate & Morra”. 

O fato é que Trava Línguas é um álbum que ninguém poderia fazê-lo se não fosse a própria Linn. O seu segundo disco é uma preciosidade, genuíno, honesto e autêntico. Um baita dum trabalho, de uma artista que promete continuar surpreendendo. 

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3. Liniker – Índigo Borboleta Anil

Após dois álbuns em conjunto com os Caramelows, Liniker demonstra seus anseios e reflexões em seu primeiro álbum solo. O resultado, mais do que nunca em sua carreira, é uma demonstração de carinho ao MPB, e, até mesmo, uma nova forma de o enxergar, carregando uma maturidade e poder lírico invejável. Trazendo diversas referências, e um frescor de novidade, temos participações de grandes artistas, com destaque ao grande Milton Nascimento, que está presente em uma das melhores faixas do disco, “Lalange”.

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2. Pabllo Vittar – Batidão Tropical 

Os fãs da música pop sempre foram muito bem servidos com os álbuns de Pabllo Vittar. A drag queen conseguiu a proeza de lançar trabalhos completos (e não somente singles jogados e aleatórios), ao menos um por ano, mantendo a coesão, conceito e qualidade (na maioria no caso, com uma leve queda em 111). No entanto, há algo de diferente em Batidão Tropical. O quarto disco de estúdio do artista traz um amadurecimento, seja no carinho na produção das canções como na sua capacidade vocal, bem como na paixão pelos ritmos nacionais.

Batidão Tropical baseia-se nas influências musicais de Vittar, que fizeram parte de sua juventude, especialmente nos anos 2000. O brega já influenciado pelo eletrônico, o forró e o calypso. É uma ode à brasilidade do alto do mapa, principalmente do Pará. Das nove faixas presentes no LP, as três primeiras são originais, enquanto as demais são regravações de Companhia do Calypso, Brega.com, Banda Batidão, Ravelly e Kassikó. Apesar disso, elas se mesclam e parecem terem saído do mesmo local. 

Vittar e os produtores Victor Gabriel Weber, Maffalda, Rodrigo Gorky, Zebu, Slashrr e TIN têm exito em fazer deste trabalho uma celebração da música do Norte e Nordeste, sem ter medo de soar brega (no sentido pejorativo) e trazem ao mainstream sons que muitos de outros cantos do país nunca tiveram contato. É um disco alucinante, dançante, eventualmente até melancólico, porém com um tom de escárnio (característica marcante no ex-grupo de Gorky, Bonde do Rolê), diferente de tudo que a própria Pabllo já fez e bastante distinto em comparação com o que se fez em 2021 na música pop. 

Em um momento na carreira em que Vittar poderia seguir qualquer caminho sonoro, e seria bastante compreensível se optasse por uma pasteurização para se adequar ao mercado internacional, a exemplo do que fazem vários artistas latinos, incluindo alguns brasileiros, incluindo reggaetons genéricos, a escolha é ir na contramão. Batidão Tropical é o suprassumo brasileiro e sem nenhum pingo de vergonha de sê-lo. 

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1. Caetano Veloso – Meu Coco

Após um hiato de nove anos, Caetano volta a lançar um álbum de inéditas com Meu Coco. É um momento propício. Sendo um artista tão político quanto poético, faz sentido retornar agora. Abraçando o novo e fazendo ode ao (que há de bom) no passado, o músico comprova ser atemporal, capaz de moldar-se aos novos tempos, sons, ritmos e pessoas. 

Há espaço para canções de ninar como “Autocalanto”, homenagem ao neto Benjamin, e “Enzo Gabriel”, e também grandes romances, como na belíssima “Cobre” e “Pardo”, esta composta para a cantora Céu, presente no disco APKÁ!, de 2019. 

Em “Anjos Tronchos”, reflete sobre o meio digital, sobre as mudanças que propicia, mencionando como é possível fazer álbuns direto do quarto com o irmão (Billie Eilish e Finneas), mas sem sustos ou desesperos. “Há poemas como jamais”, cita. Nada é 100% ruim ou bom, afinal. 

“Não Vou Deixar” é uma faixa pop envolvente e que acaba se transformando em um funk carioca moderno. Em “Sem Samba Não Dá”, aposta no som de gafieira e nos teletransporta para o Rio de Janeiro, refletindo sobre os problemas que a cidade maravilhosa apresenta e o que ela poderia ser, citando nomes da nova geração da música brasileira, como a finada Marília “Maravilha” Mendonça, além de Gloria Groove, Duda Beat, Baco Exu do Blues, entre outros. 

Quando referencia os artistas surgidos no século passado, como João Gilberto, Nara Leão, Maria Bethânia, Pixinguinha, Jorge Ben, Djavan, entre outros, nas faixas “Meu Coco” e “GilGal”, Caetano dá a mesma mensagem de “Sem Samba Não Dá”. Há esperança para o Brasil. E ela está na arte, na pluralidade cultural, religiosa e racial, nas diferenças, no antigo e na novidade. O Brasil é complexo demais, não somos uma coisa só. Temos jeito. E Veloso acredita nisso, encerrando de maneira bastante sugestiva o álbum, com “Noite de Cristal”, composta para Maria Bethânia, presente no disco Maria, de 1988. “Dias de outras cores / alegrias / pra mim / pro meu amor / e meus amores”.

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Fizeram parte desta eleição:
Airton Leonardo de Oliveira Manoel, médico, Doutor em Ciências pela Universidade Federal de São Paulo. Criador da página de Instagram “The Most Underrated Albums“.
Breno Costa, roteirista.
Carissa Vieira, roteirista, formada em Cinema e Audiovisual.
Cid Souza, criador e host do SeriousCast.
Darlan Brandt, bacharel em Letras, programador e DJ.
Leandro Pexe, empreendedor e CEO do Bolachão Discos.
Paulo Henrique de Moura, Mestrando em Estudos Culturais pela USP e jornalista com especialização em Mídia, Informação e Cultura. Coordenador de Jornalismo e Conteúdo na agência Milk Conteúdo, produz o “365LPs” perfil do Instagram, canal e podcast sobre MPB e vinil. Também é professor de Comunicação e Mídias Sociais na pós-graduação em Produção Cultural e Curadoria de Conteúdo e do curso livre de Jornalismo Cultural, ambos no Centro Universitário Belas Artes de São Paulo.
Renan Santos, formado em cinema, crítico e newsposter no site Cine Eterno.
Rodrigo Ramos, jornalista e assessor de comunicação, editor do site Previamente.
Rubens Beghini, formado em Comunicação Social, coordenador de marketing digital, formado em Design Editorial no IED, jornalista cultural, dono do perfil @rubensbeghini, criador do quadro 3xQuem? com participações de Céu, Ná Ozzetti, Letrux, Fernanda Abreu, entre tantos outros nomes. Parceiro do DJ Zé Pedro do selo Joia Moderna no quadro “As canções que você fez pra mim…”.

Todos os textos por Rodrigo Ramos, exceto “Little Simz – Sometimes I Might Be Introvert” e “Japanese Breakfast – Jubilee” por Renan Santos, “ABBA — Voyage” e “Liniker – Índigo Borboleta Anil” por Cid Souza, e “Marina Sena — De Primeira” por Rubens Beghini.

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POR RODRIGO RAMOS

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