Melhores Discos de 2020

Álbuns de Lady Gaga, The Weeknd, Dua Lipa, Jessie Ware e Phoebe Bridgers estão entre os melhores ano.

Uma das maneiras para sobreviver a um dos piores anos da história da humanidade foi mergulhar na música. Se 2020 foi péssimo em vários aspectos, em termos musicais foi excelente e acima de qualquer expectativa. Foi quase um modo de compensar os últimos 12 meses.

Com o pop em alta, bem como as influências dos anos 80, os artistas se arriscaram, se expuseram, se libertaram. Com álbuns frutos do isolamento social ou mesmo antes desse período maldito, os artistas listados a seguir ofereceram a nós um modo de escapar da realidade que nos cerca, fosse essa a intenção ou não.

Confira nossa lista com os 20 melhores discos de 2020.

20. Hayley Williams — Petals For Armor

Hayley Williams - Petals For Armor | Amazon.com.br

Quem segue Hayley Williams por conta de sua carreira frente ao Paramore pode até estranhar sua sonoridade em seu primeiro álbum solo. Em Petals For Armor, a cantora oferece um som que logo de cara se distancia do período da banda. Durante as 15 faixas, vemos Hayley desabrochar como uma artista mais sofisticada e arrojada do que alguns davam crédito. Em letras em sua maioria enigmáticas, porém notavelmente inerentes ao seu âmago, ela fala sobre fúria, tristeza, depressão, amizade, amor, luto, medo, frustrações e novas chances. — Rodrigo Ramos

Faixas de destaque: “Dead Horse” / “Why We Ever” / “Simmer”.

19. Charli XCX — how i’m feeling now

Charli XCX - how i'm feeling now Lyrics and Tracklist | Genius

Em meio aos efeitos sonoros futuristas de sua música pop, Charli XCX entrega com how i’m feeling now um retrato do status do seu relacionamento com o namorado Huck Kwong em meio à pandemia. Segundo a própria cantora, ela e o namorado, juntos desde 2014 (e amigos desde 2012) chegaram próximo do término por conta da distância — tanto física quanto emocional. Com a pandemia da Covid-19, eles decidiram morar juntos e isso salvou a relação. Saber desse fato ajuda a elucidar o que ela diz nas letras. Enquanto entrega uma sonoridade experimental, o que é costumeiro de Charli, ela também oferece um mergulho emocional, revelando as inseguranças, as alegrias, minúcias do seu relacionamento amoroso, além da saudade de sair na noite e curtir com os amigos. Um retrato válido sobre o período de isolamento social. — Rodrigo Ramos

Faixas de destaque: “enemy” / “claws” / “party 4 u”.

18. Tom Zé — Raridades

CD TOM ZÉ - RARIDADES

Idealizado e produzido pelo jornalista e pesquisador musical Renato Vieira, Raridades de Tom Zé traz 14 faixas registradas entre 1969 e 1976, que pertenciam aos catálogos das gravadoras Continental (adquirida pela Warner em 1993) e RGE (o acervo pertence hoje à Som Livre) e que foram reeditadas nessa compilação. O destaque do álbum fica por conta da versão ao vivo de “Jeitinho Dela” com a participação de os Novos Baianos no V Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, em 1969. Destacam-se ainda “Dói”, “O Anfitrião” e “A Dama de Vermelho”, gravação feita para a trilha sonora da novela Xeque-Mate, da TV Tupi, em 1976. A ideia de prestigiar o eterno Tropicalista com as gravações antes apenas lançadas em compactos, projetos especiais e canções publicadas pela primeira vez foi o maior acerto da Warner em 2020. Para os fãs, que não possuíam os compactos originais lançados na época, esse disco é realmente uma raridade. Infelizmente, o Brasil é um país sem memória, um país que não tem um cuidado com os acervos de cultura e com a música não é diferente. O mercado fonográfico é um dos que mais sofreu com material perdido devido ao descaso com os acervos das fitas master que continham gravações inéditas de inúmeros discos da MPB. Os fonogramas de Raridades (seis retirados de matrizes já digitalizadas e os demais extraídos de cópias de discos de vinil), foram remasterizados por Ricardo Garcia. — Paulo Henrique de Moura

Faixas de destaque: “Jeitinho Dela” / “Dói” / “O Anfitrião”.

17. Yves Tumor — Heaven To A Tortured Mind

Yves Tumor é rock star futurista em “Heaven to a Tortured Mind” – Comunidade Cultura e Arte

Ainda que tenha uma pegada com um quê experimental, Heaven to a Torture Mind é um trabalho muito mais palatável de Yves Tumor, que lança este projeto com um viés mais comercial, e com claras influências de Prince, mas abrindo as portas para um “Gospel” de uma Nova Era. No entanto, nem por isso deixa de lado a experimentação. O disco é uma experiência mutável e, acima de tudo, etérea. É um álbum que pode ser o que você quiser, como diz a letra de “Kerosene!” — uma das canções de rock mais marcantes dos últimos tempos. É só deixar-se incendiar por cada detalhe do brilhantismo de Yves Tumor aqui. — Renan Santos

Faixas de destaque: “Gospel For A New Century” / “Kerosene!” / “Medicine Burn”.

16. Pabllo Vittar — 111 Deluxe

Pabllo Vittar on Twitter:

Ensinando Dua Lipa e The Blessed Madonna como se faz um álbum remix, Pabllo Vittar remodela o já ótimo 111, transformando todas as versões originais em remixes. No entanto, Vittar não segue o caminho óbvio de transformar tudo em um batidão maluco. Ela consegue encontrar novos caminhos para as canções, adicionando novos versos, alterando os ritmos, extraindo participações do álbum original e inserindo novas parcerias. A essa altura da carreira, Vittar poderia escalar pessoas mais famosas para repaginar suas faixas, contudo a escolha aqui é dar a oportunidade para artistas menos conhecidos do mainstream e alguns que fazem parte da comunidade LGBTQI+ (seja a escolha intencional ou não neste tocante, não deixa de ser fato), como A Travestis, veronicat, Lucas Boombeat e Getúlio Abelha. Jaloo é o nome mais conhecido dessa seleção, mas podemos concordar que ele não faz parte do mainstream da música brasileira. Além disso, também traz duas faixas inéditas, que são tão inspiradas quanto o resto do álbum original. 111 Deluxe é uma prova inegável da versatilidade de Pabllo. Podem gostar ou não, mas ela ainda é o momento. — Rodrigo Ramos

Faixas de destaque: “Bandida (feat. Pocah)” / “Eu Vou” / “Rajadão (Alice Glass Remix)”.

15. Waxahatchee — Saint Cloud

Saint Cloud | Amazon.com.br

Na voz de Katie Crutchfield e em suas melodias, que mesclam um pouco de Country com o Indie Rock e Alternativo — que se destacaram em seus outros trabalhos –, Saint Cloud denota o amadurecimento da artista ao longo dos anos, nos levando numa jornada às suas agruras pessoais, num tom crescente e visceral, que nos eleva assim como a artista protagonista supera seus males e os exorciza em suas letras e na poderosa sonoridade que Crutchfield constrói com singular sobriedade. Talvez, não se tenha mais nada a temer, finalmente. Talvez, a vida seja mesmo esse fogo brando com o qual temos que aprender a lidar enquanto explodimos em raiva, tristeza, solidão ou alegria. Talvez, Saint Cloud tenha as respostas… — Renan Santos

Faixas de destaque: “Fire” / “Lilacs” / “Can’t Do Much”.

14. HAIM — Women in Music Pt. III

HAIM – Women In Music Pt. III – Monkeybuzz

Danielle, Este e Alana Haim são um absoluto sucesso há anos, mas é apenas em Women in Music Pt. III, o terceiro álbum das irmãs, que surge o trabalho que elas estavam devendo. Não ao público, mas a si próprias. Nunca houve dúvida do potencial das Haim, e aqui elas entregam tudo que o talento delas demonstrava ser capaz de atingir. Ao invés de se sustentar nos singles, o álbum funciona como um todo, orgânico, pincelando no rock e no folk, mas enraizado nas origens das irmãs. É o álbum mais Haim possível. Pop, mas introspectivo, dançante, mas relaxante. Uma bem-vinda brisa de verão em um 2020 infernal. — Renan Santos

Faixas de destaque: “The Steps” / “Don’t Wanna” / “Gasoline”.

13. Taylor Swift — folklore

Taylor Swift: Folklore — Album Review | by Paul Enicola | Medium

Que Taylor Swift é uma das maiores artistas do mundo da música que estão em atividade é algo que não se dá para negar, seja você um fã ou não. E com folklore, seu primeiro trabalho em plena pandemia da Covid-19, ela mostrou uma nova faceta. Apesar de ser detentora de uma série de álbuns com diversas canções autobiográficas e extremamente pessoais, folklore é o mais maduro da sua carreira. Fugindo do pop que a acompanha faz alguns anos, com a pandemia Taylor se voltou para algo mais minimalista e com pegada mais folk. E deu muito certo. Com canções que criam uma macro narrativa ao mesmo tempo em que contam histórias únicas por si só, o álbum traz faixas que se afastam das composições autobiográficas da artistas, mas que dialogam com todes nós pela universalidade de temas, além dos arranjos, que em um momento de isolamento como o que vivemos, faz com que nos conectemos com sua nudez. folklore é diferente de tudo o Taylor havia feito até então, e apesar de todos os seus trabalhos anteriores serem consistentes, este álbum, sem dúvida, traz algo da artista não tínhamos visto antes. — Carissa Vieira

Faixas de destaque: “cardigan” / “the last great american dynasty” / “exile (feat. bon iver)”.

12. Adrianne Lenker — Songs

songs | Adrianne Lenker

A voz melancólica e o violão de Adrianne Lenker. Precisamos de algo mais? songs é um estudo introspectivo, e de um lirismo extraordinário, que se faz envolvente do início ao fim, como um abraço que nos acolhe no peito de Lenker com toda a segurança do mundo. Parece de uma simplicidade banal, ainda que não o seja. Há muito mérito de Lenker aí, ao desemaranhar com cada um de seus poderosos acordes uma miríade de sentimentos que só parecem possíveis de serem traduzidos por ela. Assim, parece nos transportar para um outro lugar, aconchegante e alentador, de uma forma angelical. Melhor que qualquer adjetivo para descrever o brilhantismo de songs, só mesmo ouvi-lo. — Renan Santos

Faixas de destaque: “two reverse” / “anything” / “zombie girl”.

11. Róisín Murphy — Róisín Machine

Róisín Murphy – Róisín Machine – Monkeybuzz

“Eu sinto que minha história ainda não foi contada / Mas farei o meu próprio final feliz”, declama a veterana Róisín Murphy no início da etérea “Simulation”, a primeira faixa do Róisín Machine. São versos que ela revisita em “Murphy’s Law”, ainda que em um contexto bem mais dançante, quando o melhor álbum de sua carreira já foi anunciado, confirmado e solidificado na cabeça do ouvinte. E ela tem razão: aos 47 anos e na ativa desde 1994, Róisín é talvez a artista pop mais importante e influente que o mainstream ainda precisa descobrir.
Se o seu Overpowered (2007) antecipou em anos o trabalho transformador de Lady Gaga no visual e na sonoridade do pop dos anos 2010, o Róisín Machine se agarra com força na tendência do revival disco e parece passar uma mensagem para todas as popstars mais jovens simulando o venerado subgênero: “é assim que se faz, meninas!”. Cintilando em sintetizadores flautados, pacotes de cordas e flutuações de ritmo, o álbum se estende e se delicia em seus arranjos, esticando canções para 4, 5 até 8 minutos – em um cenário todo dominado pelas faixas curtas feitas sob medida para o Spotify, é uma decisão criativa de audácia deliciosa. Pelo caminho, ela entrega pérolas grudentas e filosóficas como “Incapable” (“Nunca tive um coração partido / Sou incapaz de amar?”) e “Narcissus”, que anuncia “a história mais triste já contada” ao lamentar o destino de alguém que “só ama o que consegue ver em seu próprio reflexo”.
Profeta, provocadora e deusa platinada do pop, tudo ao mesmo tempo, Róisín Murphy merece mesmo o seu final feliz. — Caio Coletti

Faixas de destaque: “Simulation” / “Incapable” / “Narcissus”.

10. Chloe & Halle — Ungodly Hour

Chloe x Halle - Ungodly Hour Lyrics and Tracklist | Genius

O que define o álbum para mim é: “melhora a cada vez que você ouve”. Impossível não ser hipnotizado pela introdução do álbum e então por “Forgive Me”, que vem logo na sua sequência. Com seu segundo álbum, Ungodly Hour, as irmãs Bailey abordam assuntos não tão angelicais assim, indo na contramão de sua capa, mas nada a ponto de se transformar em algo escândalo e que crie polêmica desnecessária. O disco melhora a cada vez revisitada. Cada play dado no disco, é possível perceber a harmonia entre as vozes das irmãs e a diferença do tom em cada tema tratado no álbum. É um trabalho consistente, seguro e com uma visão muito clara do objetivo final. É coisa de gente grande. Com certeza uma das melhores surpresas de 2020. — Darlan Brandt

Faixas de destaque: “Do It” / “Forgive Me” / “Ungodly Hour”.

9. Miley Cyrus — Plastic Hearts

Miley Cyrus anuncia sétimo álbum de estúdio,

Muito se fez da “virada para o rock” de Miley Cyrus, mas a verdade é que Plastic Hearts é simplesmente o seu maior triunfo pop até hoje. Sim, ela coopta e redireciona tendências do rock setentista e oitentista, mas basta olhar para os colaboradores que ela escolheu trazer dessa época: Stevie Nicks, Joan Jett, Billy Idol… Todos iconoclastas pop em seus corações, ícones tanto por quem são quanto pela música que fizeram — a marca indelével de um popstar. Basta ouvir como “Prisoner”, parceria com Dua Lipa, empresta estruturas melódicas do hit “Physical”, de Olivia Newton-John. Basta perceber que o gênio de Ryan Tedder está por trás dos refrãos contagiantes que adornam as guitarras pretensamente pesadas de “WTF Do I Know” e “Night Crawling”.
Plastic Hearts é uma dádiva de resgate pop, um banquete de referências e audácias de produção — e, liricamente, um disco na melhor tradição atrevida das divas que sempre passearam entre gêneros até dentro da mesma música no passado (Joan, Debbie Harry, Bonnie Tyler que o digam). Até as baladas deliciosamente tingidas de country do álbum, como “Angels Like You”, carregam unhas mais afiadas do que é normal para o gênero (“Quando mais você dá, menos eu preciso”). Miley emerge do seu novo álbum uma deusa platinada da sarjeta, uma femme fatale que, se não tem um coração de ouro, tem maçãs do rosto de matar. Plastic Hearts é uma vitória arrasadora, de goleada, da união de imagem e música – e é impossível ser mais pop do que isso. — Caio Coletti

Faixas de destaque: “Midnight Sky” / “Prisoner (feat. Dua Lipa)” / “WTF Do I Know”.

8. The Weeknd — After Hours

The Weeknd Shows Depth and Darkness in the 'After Hours' - VOX ATL

É quase impossível encontrar uma pessoa que não tenha ouvido ao menos uma vez o refrão de “Blinding Lights” neste ano, o seu famoso “Oooooooh”. Em After Hours, repleto de inspirações nos anos 80, tanto sonoramente, quanto nos clipes lançados, The Weeknd entrega um álbum coeso, sem soar monótono, bem produzido, demonstrando ser capaz de se reinventar a cada novo lançamento. Mesmo reconhecido por vários veículos especializados como um dos melhores do ano, ficou de fora do Grammy. Não que seja uma validação necessária, mas é uma pena, de qualquer forma. Ao menos, nós estamos aqui para fazer essa reparação. De nada, Abel. — Darlan Brandt

Faixas de destaque: “Blinding Lights” / “In Your Eyes” / “Too Late”.

7. Fiona Apple — Fetch the Bolt Cutters

Fiona Apple – Fetch The Bolt Cutters – Monkeybuzz

Fiona Apple se transfigurou na feiticeira louca do pop que sempre esteve destinada a ser com Fetch the Bolt Cutters, seu delirantemente experimental, deliciosamente debochado, maravilhosamente casual quinto disco de estúdio. Chegando oito anos depois do The Idler Wheel…, o disco abusa de percussão (boa parte dela realizada não com instrumentos tradicionais, mas com objetos corriqueiros) e do carisma vocal inigualável de Apple para destilar contos de liberação furiosa (“Under the Table”, uma favorita), perturbação psíquica intransigente (“Heavy Balloon”) e consternação social genuína (“Ladies”), resultando em uma explosão poética que não encontra par exato nem na música deste ano, nem na memória recente.
É um disco catártico, caótico e inegavelmente bem humorado, mas também singularmente focado na expressão da personalidade única de sua artista. Desprendido de quaisquer convenções que ainda seguravam Apple no passado, “Fetch the Bolt Cutters” a revela como uma profeta amadurecida da individualidade, do isolamento jubiloso daqueles que já têm todos com quem se importam ao redor de si. Veja a deliciosa “Cosmonauts”, que descreve uma paixão inesperada e o desespero para que ela se prove saudável: “O que eu me tornei é algo que não posso ser sem seu amor / Seja bom comigo, isso não é um jogo”. A magia do novo disco de Apple é que, cortante como sempre, ela também se mostra generosa como nunca. — Caio Coletti

Faixas de destaque: “Cosmonauts” / “Under the Table” / “I Want You To Love Me”.

6. Phoebe Bridgers — Punisher

Phoebe Bridgers' Punisher Establishes the Songwriter as a Singular Voice | Review | Consequence of Sound

O álbum perfeito para 2020, mas que não merecia o ano de 2020 para ser celebrado. A companhia melancólica necessária para o que devia ser um ano de uma solidão alentadora. Punisher é a constatação do fenômeno que é Phoebe Bridgers, que apesar de toda a tristeza de suas letras e melodias, tem uma aura extremamente acolhedora, e é um choque emocional para sobreviver ao desafio que esse ano intragável nos impôs. E qual a melhor maneira de se despedir do que a faixa de encerramento do álbum? “I Know the End” sintetiza todos esses sentimentos e evoca, de certa maneira, uma esperança de um retorno a alguma normalidade. É assim que Phoebe nos contempla, numa crescente que culmina no extravasamento de toda essa carga emocional de estarmos vivendo o que parecem ser o fim dos dias, num exaurir de fôlego de um grito que é a catarse coletiva que tanto precisávamos. — Renan Santos

Faixas de destaque: “I Know the End” / “Kyoto” / “Moon Song”.

5. Rina Sawayama – SAWAYAMA

Sawayama: Amazon.com.br: CD e Vinil

SAWAYAMA é um experiência música ímpar. Em seu debute, Rina Sawayama nos conduz para uma montanha russa de emoções e sonoridades. Por vezes, o álbum até parece caótico, mas faz parte da complexa personalidade da cantora e sua capacidade de transitar entre gêneros, fazendo parecer natural pular de um heavy metal para uma balada R&B.

O álbum pode ser traduzido como um passeio pela mente de Rina. As músicas do disco vão seguindo caminhos inesperados, assim como os pensamentos fluem naturalmente sem controle. Sawayama começa o álbum com o pé na porta, com a épica “Dynasty”, que logo ali já traz algumas de seus medos e a necessidade de se desligar de padrões familiares, criando seu próprio caminho.

Ao longo do álbum, Rina vai levantando discussões sobre o relacionamento com os pais, sua crise de identidade por ser japonesa mas ter crescido no Ocidente, viaja até a adolescência, tenta injetar autoestima em si que os homens costumam já ter, relata ser uma péssima amiga, alerta aos outros para que o perdão não seja um passe para você voltar a ser usado, questiona sobre a fama e também descreve relações amorosas passadas. Trata-se de um álbum extremamente pessoal assim como é experimental. É difícil rotulá-lo e parte do brilhantismo dele está justamente nesse fato. Visceral, barulhento, divertido e emocional. SAWAYAMA é um baita dum álbum de estreia. — Rodrigo Ramos

Faixas de destaque: “Bad Friend” / “Dynasty” / “XS”.

4. Kylie Minogue — Disco

DISCO by Kylie Minogue: Amazon.co.uk: Music

Depois de lançar um álbum com inspiração no country em 2018, Kylie anunciou que retornaria às suas raízes para o álbum seguinte, o que gerou uma expectativa grande nos fãs, que aguardavam esse retorno. Seu novo trabalho tem como base a disco music, algo que não é inédito na carreira dela, mas sempre feito com êxito.

Os primeiros singles sugeriam que Kylie não estava voltando para brincar. De fato, não estava. O nome do álbum entrega o que esperar dele: todas as faixas se inspiram do gênero disco. E se tem uma artista que domina por completo essa vertente musical é a australiana. Lançado em meio à pandemia, o álbum é Kylie em seu melhor momento criativo desde Aphrodite, em 2010, e tem como único intuito fazer as pessoas dançarem e se divertirem, ao menos por um momento, sem se lembrar do caos que foi este ano. — Dan Brandt

Faixas de destaque: “Say Something” / “Magic” / “Where Does the DJ Go?”.

3. Dua Lipa — Future Nostalgia

Dua Lipa's New Album Artwork Is a Retro-Modern Mash Up | Vogue

O blockbuster pop do ano, Future Nostalgia já chega “chutando a porta” com a faixa-título, uma maravilha que (compreensivelmente, dado o alcance do restante do álbum) nunca foi apreciada como deveria. Nela, Dua Lipa passeia por versos de hip-hop com a pose cool e o faro pop de uma Debbie Harry, desaguando na confiante afirmação do refrão, deliciosamente envolvo em sintetizadores graves (“Eu sei que você está doido para me entender / Meu nome na ponta da língua, continue falando”), e finalmente em um gancho deliciosamente debochado: “Eu sei que você não está acostumado com uma fêmea alfa”.
É a introdução perfeita para a bomba de glitter e disco que o Future Nostalgia jogou, calculadamente (mas também de forma meio atrevida), no cenário pop de 2020. A partir dela, o disco é todo refrãos com queda de tom (“Don’t Start Now”), sintetizadores combinados em apoteose (“Physical”, “Hallucinate”), corais que repetem ganchos adocicados ao extremo do suportável (a genial “Levitating”, “Good in Bed”) e declarações ousadas na voz retumbante da cantora (“Love Again”). Não há faixa esquecível ou descartável no Future Nostalgia — é tudo uma interminável e confiante orgia pop de bem-vindo escapismo para 2020. — Caio Coletti

Faixas de destaque: “Physical” / “Levitating” / “Don’t Start Now”.

2. Lady Gaga — Chromatica

Lady Gaga on Twitter:

Todo álbum de Lady Gaga, na atual conjuntura do cenário artístico, é uma lembrança alarmante do poder da música pop como forma de expressão, em primeiro lugar; e como marcador social e histórico, em segundo. Em maio deste ano, quando a realidade de uma quarentena bem maior do que os titulares 40 dias se tornou indiscutível, ela nos deu Chromatica — não por acaso, uma obra de entrega e energia notáveis, que embrulha declarações audaciosas (vide a rebeldia contra a objetificação da mídia em “Plastic Doll”, ou a alusão franca à dependência química em “911”) em um papel de presente radiantemente, sofisticadamente, deliciosamente dance.
Se Dua Lipa e cia nos deram escapismo necessário por meio da pista de dança (mesmo que seja a dos nossos quartos na quarentena), Gaga encarou um ano atormentado de frente e nos colocou para bater cabelo ao som dele. Sua música é ardentemente pessoal, com declarações complexas sobre a fama (“Stupid Love”, “Enigma”) e estresse pós-traumático (a genial “Replay” e seu refrão circular), mas o Chromatica é também uma jornada universal que termina em redenção, voando alto nos tons de estádio de “Sine from Above” e na diversão debochada (até musicalmente!) de “Babylon”.
Gaga sabe que o pop é nossa válvula de escape — mas ela se obriga, e nos obriga, a fazer por merecê-lo. — Caio Coletti

Faixas de destaque: “Sine From Above (with Elton John)” / “Rain on Me (with Ariana Grande)” / “911”.

1. Jessie Ware – What’s Your Pleasure?

What's Your Pleasure? [LP] | Amazon.com.br

Escapismo. Levando em consideração o árduo e conturbado ano que o planeta teve, talvez é isso que nós precisávamos. E é o que Jessie Ware entrega. What’s Your Pleasure? não tem roupagem de um disco ambicioso, nem traz grandes reflexões sobre a vida e o nosso cotidiano, tampouco fala sobre a pandemia — ele foi gravado bem antes dessa bomba explodir em escala global. O que ele oferece, no entanto, é uma viagem musical que nos retira por 53 minutos do nosso lugar comum. Por quase uma hora, a atenção vai para outro plano e a mente se transporta para esse universo onde podemos cantar, dançar, celebrar a vida.

Neste álbum, um dos diversos que mergulharam nos anos 80 em 2020, Ware e o produtor James Ford (produtor de todos os álbuns de Arctic Monkeys a partir de Favourite Worst Nightmare, de 2007) encontram o ponto perfeito de sonoridades que fazem de What’s Your Pleasure? um trabalho atemporal, que se encaixaria 40 anos atrás, no final dos anos 90, como também cai como uma luva aqui. Entre o instrumental de cordas, menções ao funk, disco e extravasando no synthpop, Ware nos conduz numa jornada de divertimento e sedução, jogando nosso tesão lá no alto assim como nossa ânsia por sair e dançar em uma balada.

A cantora britânica nos oferece um álbum extremamente bem produzido, focado, com canções bastante distintas uma das outras, mas que dialogam entre si, obedecendo a temática central. Mesmo quando as faixas são menos enigmáticas, brincalhonas e sensuais, e são mais sentimentais, o álbum nunca é deprimente. A vibe positiva é o que permanece. What’s Your Pleasure? talvez não seja a escolha óbvia para ser o disco do ano, porém, contexto importa. E o que nós precisávamos em 2020 era de entretenimento, diversão, escapismo e esperança — isto, inclusive, ela nos oferece na grandiosa faixa de encerramento do álbum, “Remember Where You Are” — e Ware cumpre esta missão, mesmo que não tivesse ideia do que aconteceria ao longo desses 12 meses. — Rodrigo Ramos

Faixas de destaque: “What’s Your Pleasure?” / “Save a Kiss” / “In Your Eyes”.

Fizeram parte desta eleição:
Breno Costa, roteirista.
Caio Coletti, jornalista e colaborador do site UOL.
Carissa Vieira, roteirista, formada em Cinema e Audiovisual.
Darlan Brandt, bacharel em Letras, Analista de Sistemas e DJ.
Junior Cândido, bacharel em Cinema.
Paulo Henrique de Moura, jornalista com especialização em Mídia, Informação e Cultura pela USP. Coordenador de Jornalismo e Conteúdo na agência Milk Conteúdo e produz o canal e os podcasts semanais “365LPs” sobre MPB e vinil. Professor de Comunicação e Mídias Sociais na pós-graduação em Produção Cultural e Curadoria de Conteúdo e do curso livre de Jornalismo Cultural ambos no Centro Universitário Belas Artes de São Paulo.
Renan Santos, formado em cinema, crítico e newsposter no site Cine Eterno.
Rodrigo Ramos, jornalista, repórter na Huna Comunicação Para o Bem, editor do site Previamente.

Textos por Caio Coletti, Carissa Vieira, Darlan Brandt, Paulo Henrique de Moura, Renan Santos & Rodrigo Ramos

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POR RODRIGO RAMOS

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