Melhores Séries da Década de 2010

Breaking Bad, Veep, Mad Men, Atlanta, The Leftovers, BoJack Horseman e Fleabag estão presentes na lista. 

A década de 2010 foi muito importante para a história da televisão. Seguimos na terceira Era de Ouro da TV, com a ascensão dos dramas protagonizados por homens difíceis e protagonistas que vivem em uma área cinzenta onde nem sempre se fica do lado deles, mas ainda assim você consegue entender suas motivações. Também vimos a TV a cabo consolidar-se como o local das grandes narrativas, além de termos o advento dos serviços de streaming, que rapidamente estão tomando conta do mercado e deram vida a uma nova prática cultural: o binge watching (o equivalente ao nosso “maratonar”).

Os anos 10 também foram marcados pelo Peak TV, quando basicamente todos os canais estão produzindo conteúdo roteirizado — só em 2018, 495 programas roteirizados foram produzidos nos Estados Unidos. A quantidade nem sempre se traduziu em qualidade, mas com toda certeza, dentro e fora dos EUA, o grande volume de séries e vários meios de transmissão puderam contribuir para uma pluralidade maior de vozes, seja à frente ou atrás das câmeras.

Tudo isso é para dizer que nunca tivemos tantas opções — e tão pouco tempo para assisti-las. Com tanta oferta e produções de alta qualidade, fica difícil escolher apenas alguns destaques em um único ano, quiçá em 10 anos. Contudo, aceitamos a tarefa e fizemos aqui a lista definitiva do que houve de melhor na TV durante a década de 2010, entre episódios, atuações e séries.

Caso você procure alguma categoria específica, facilitamos a sua vida e separamos as categorias individualmente — você pode as ler clicando nas imagens correspondentes abaixo. Ou pode conferir o post completo a seguir.

 

MELHORES SÉRIES (NÃO-FICÇÃO)

7. RuPaul’s Drag Race

A década de 2010 na cultura pop provou ser das drag queens. Nunca tivemos tantas presentes na TV e na música — inclusive, elas vêm salvando a música pop no Brasil, obrigado Pabllo Vittar e cia. RuPaul’s Drag Race definitivamente ajudou na popularização da cultura drag e na aceitação desse grupo. A série não é um mero reality show competitivo, mas também um fenômeno, com humor ácido, shades, momentos icônicos, além de ser uma janela para a representatividade (não apenas pessoas LGBTQ+, mas também de origens e cor de pele diferentes) e contar histórias comoventes de seus participantes, trazendo o elemento humano para o programa, o que certamente contribui para seu sucesso — e seus 13 troféus Emmy. — Rodrigo Ramos

6. America To Me

Longe de procurar um jeito de “salvar” uma turma ou uma escola ou de tentar brincar de forma por vezes mais intensa, por outros mais singela com o difícil cotidiano escolar dos alunos das escolas públicas dos EUA como muitos filmes e séries fizeram ao longo dos anos, America to Me tomou o desafio de mostrar o que se passa no cotidiano dos mais diferentes atores do cenário educacional da escola pública mais desigual racialmente dos EUA. Pensando a educação de uma forma ampla, a série documental de 10 episódios acompanha principalmente alunos, mas também professores e equipe pedagógica não somente pela escola, mas entre as suas famílias e grupos de amigos, para entender, da maneira mais ampla possível, como tais situações são refletidas no ambiente escolar. A opção por mostrar de maneira crua a dor de estudantes que não conseguem aprender, dos considerados problemáticos ou dos que passam necessidades materiais no início da série em contraste com dos que a cada dia se veem mais perto do que é esperado para eles, com ajuda familiar e não sendo vítimas de preconceito por conta da raça e origem social na metade da temporada, parece ter a intenção de diminuir o sentimentalismo sobre o tema e mostrar como a educação é uma das principais engrenagens da produção de desigualdades. — Cristian Dutra

5. Full Frontal with Samantha Bee

O mundo dos late night talk shows é tomado por homens — em sua vasta maioria, homens brancos. As mulheres, infelizmente, sempre tiveram um espaço bem pequeno — Joan Rivers, Wanda Sykes, Mo’Nique, Robin Thede, Chelsea Handler e Busy Philipps são os nomes que tiveram chance de estrelar seus próprios late night shows desde a década de 80 até os anos mais recentes, mas poucas conseguiram passar sequer dos dois primeiros anos. Em 2019, Lilly Singh conseguiu o seu próprio na NBC. A canadense Samantha Bee, correspondente de maior longevidade no The Daily Show — foram 12 anos! — , a partir de 2015, se tornou a única mulher (na época) a estar apresentando um late show, ainda que fosse somente uma vez na semana ao ar. Full Frontal with Samantha Bee foi ficando marcado pela sua maneira nada formal e bastante crítica (sem papas na língua para criticar tanto Barack Obama quanto Donald Trump) em abordar os assuntos, mas principalmente dando uma visão mais representativa, seja pelos olhos das mulheres quanto de outras minorias (seu quadro de roteiristas é bastante diverso). Isso, é claro, sempre com bastante humor, por vezes bem debochado. Além disso, ela apresenta esquetes, entrevistas e reportagens fora da curva do que normalmente é produzido pelos late night shows atuais. Hoje, seu programa é referência no gênero e se mantém como um dos mais relevantes no ar. — Rodrigo Ramos

4. The Jinx: The Life and Deaths of Robert Durst

A minissérie dirigida e roteirizada por Andrew Jarecki contou em seis episódios a história de vida e detalhou os crimes ao que o magnata da construção civil Robert Durst foi acusado. Quase sempre num tom levemente cômico — ideal para contar uma história que beira o absurdo — a série documental percorre mais de 60 anos da vida pública e privada de Durst, além das personagens que conviveram com o mesmo e os diversos homicídios a que foi acusado — mas até então sempre provando sua inocência. Percorrendo casos que envolvem desde momentos curiosos como sua relação com personalidades e o establishment de Nova York e esconder-se no interior americano durante muito tempo vestido como mulher, até momentos tensos como ter sido testemunha de um suicídio e ser acusado de ocultação e mutilação de corpos, a série, mesmo que sendo documental, segue para um dos maiores desfechos da história da TV. Uma história tão inacreditável que jamais poderia ter sido uma obra de ficção. — Cristian Dutra

3. O.J.: Made in America

O documentário de sete horas e meia, dividido em cinco partes e vencedor do Oscar de melhor documentário (possivelmente a única série a ter vencido o Oscar) é essencial para entender a América que temos hoje. Enquanto a série limitada The People v O.J. Simpson foca-se mais na questão do circo midiático criado durante o julgamento de O.J. Simpson, o doc vai mais a fundo, avaliando toda a vida de O.J. e criando um paralelo sobre sua ascensão e queda dentro do período histórico em que esteve inserido, onde o racismo deliberado (civil e judicial) cobrava um preço exorbitante da população negra dos Estados Unidos, preço esse que até hoje ainda está sendo pago e está longe de ser quitado. — Rodrigo Ramos

2. Making a Murderer

O público se mostrou mais interessado do que nunca em casos criminais reais, e especialmente naqueles que expunham falhas no sistema judicial, na década de 2010. Boa parte da culpa pelo sucesso de séries como The Act, American Crime Story e Wild Wild Country, entre outros, no entanto, é de Making a Murderer. Um verdadeiro fenômeno quando a Netflix liberou a primeira temporada, em 2015, ela é também a melhor da avalanche de séries documentais produzidas pela plataforma.

As documentaristas Moira Demos e Laura Ricciardi trouxeram uma abordagem pragmática, exaustivamente completista, para a história de Steven Avery. Embora pipoquem sites por aí apontando contradições à alegação de inocência do protagonista, Demos e Ricciardi são exemplares ao basear o seu documentário não nessa alegação, mas na colocação, quase incontestável, de que a polícia agiu de má fé, ou ao menos com grossa incompetência, no caso.

Ainda melhor é o segundo ano da produção, lançado em 2018, que se foca no tortuoso processo de apelação a uma sentença dentro do sistema judicial norte-americano. Mais punitiva do ponto de vista burocrático do que a primeira temporada, a volta de Making a Murderer provou que poucas peças de televisão foram mais importantes do que ela na última década. — Caio Coletti

1. Last Week Tonight with John Oliver

A proposta de Last Week Tonight já tem um viés cômico por si só, que é debater o que aconteceu na semana passada. O formato do programa mexeu com as estruturas dos late shows. O formato de apresentação de telejornal além de servir de recap para o que houve de melhor (ou pior, na maioria dos casos) na semana nos Estados Unidos e no mundo (o Brasil já apareceu por lá, seja para falar do impeachment de Dilma Rousseff até os perigos de se ter um presidente como Bolsonaro), também traz temas relevantes (alguns nem tão atrativos à primeira vista, mas que agregam), com vasta pesquisa e ótimas piadas para quebrar o formato jornalístico padrão. Desde 2014, o programa tratou de temas como crise migratória, a ascensão do autoritarismo no mundo, movimento anti-vacina, leis relacionadas ao aborto, leis eleitorais, o débito estudantil nos EUA, segregação nas escolas, Edward Snowden e vigilância do governo, como é fácil abrir igrejas, entre outros. Há espaço para muita comédia, como o musical no segmento dos SLAAP suits, a compra de bonecos de cera de presidentes estadunidenses (e criação de curtas estrelados por eles e Laura Linney, Anna Kendrick, James Cromwell, e Tom Hanks), os quadros de chacota feitos especialmente para o público do Reino Unido já que é proibido o uso de imagens do parlamento em programas de comédia por lá, e presentear uma das últimas locadoras Blockbuster com o Jockstrap usado por Russell Crowe em A Luta Pela Esperança.

Last Week Tonight virou uma espécie de referência, que é sentida em vários late night shows da atualidade, com quadros mais segmentados e que investem tempo para desenvolver com mais qualidade o tema tratado, como é possível notar em Late Night with Seth Meyers (em especial, no quadro “A Closer Look”), Patriot Act e Full Frontal with Samantha Bee, mesmo que nem todos sejam apresentados atrás de uma mesa.

Por conta da excelente escrita, o vasto trabalho de pesquisa, pautar as conversas no meio político e social, a transformação no formato dos late shows, além da capacidade de se manter sempre atual, são detalhes que fazem de Last Week Tonight with John Oliver o talk show e também a série de não-ficção mais importante desta década. — Rodrigo Ramos

Menções honrosas: Wild Wild Country, Chef’s Table, Queer Eye, The Late Show with Stephen Colbert, The Daily Show with Trevor Noah.

MELHORES ATORES COADJUVANTES

10. Josh Charles (The Good Wife)

The Good Wife é uma série que sem dúvida tem como um dos seus pontos fortes seu elenco. A química de seus atores eleva o ótimo roteiro da série, e Josh Charles, como um dos personagens masculinos mais importantes da trama, traz uma riqueza inigualável para a série. Will Gardner é um personagem de diversas nuances. Ele não é o típico mocinho, mas ao mesmo tempo passa longe de ser vilão. Na verdade, ele é um daqueles personagens humanos, com grandes falhas e por isso mesmo tão carismático. E tudo isso só é possível pela forma excepcional da interpretação do Josh, um ator capaz de interpretar desde um apaixonado romântico quanto um advogado que faz tudo para conseguir um cliente. Seu talento faz de Will Gardner um dos melhores personagens da última década. — Carissa Vieira

9. Michael McKean (Better Call Saul)

Michael McKean é um veterano e polivalente artista, mas provavelmente você o viu poucas vezes. Ator, comediante, compositor, músico e escritor, com mais de sete décadas de vida, o reconhecimento merecido vem do fruto de um trabalho intenso, através de três temporadas em Better Call Saul (e até uma pontinha na quarta temporada). Resultado de uma personalidade forte e difícil, Chuck McGuill não é um personagem de fácil identificação. Tampouco alguém que já conhecíamos, como Jimmy. Houve de fato, por três anos, a construção de um laço com o espectador com alguém novo, mas que agora parece que sempre esteve orbitando este universo. Contando com uma grande entrega de McKean, vimos através das expressões inspiradas do ator uma gama de sentimentos, ora contidos em um passado rancoroso, ou que explodiram em tela e no irmão mais novo, como no poderoso monólogo em “Chicanery”. Sem dúvida alguma, o trabalho cênico de McKean facilitou a compreensão das motivações de Chuck.

É interessante notar que até então, mesmo com toda esta bagagem, este é o trabalho mais dramático na carreira de Michael McKean. Tal qual a série, a qualidade de suas atuações e o crescimento de seu personagem vieram com o tempo, progressivamente através das três temporadas. O terceiro ano de Better Call Saul foi, indubitavelmente, a melhor temporada deste ator na pele de Chuck e admitir isso torna-se fácil, após memoráveis performances. — Leonardo Barreto

8. John Lithgow (The Crown)

Winston Churchill é definitivamente um personagem bem recorrente, seja na televisão, seja no cinema, e até mesmo no imaginário coletivo. Em The Crown, o Churchill retratado está já no fim de sua carreira política, tão reconhecido e respeitado quanto a própria monarquia, e Lightgow consegue entregar uma atuação poderosa seja nos momentos como o primeiro-ministro autoritário, como também quando é revelado em seu aspecto mais vulnerável, seja ao abordar a saúde frágil ou o conflito interno por conta da própria idade. Diferente de um certo ator vencedor do Oscar pelo mesmo papel, Lithgow traz mais nuances para o personagem e é bem menos escandaloso, explodindo nas horas certas. Numa década que Lithgow também entregou um dos antagonistas mais interessantes da TV em Dexter, o papel de The Crown apenas ressalta todas as qualidades que já sabíamos existir nele, mas que são potencializadas por um roteiro bem escrito e também por uma fome aparente de alguém que não mostra cansaço na carreira. – Rodrigo Ramos & Rafael Bürger

7. Giancarlo Esposito (Breaking Bad)

Walter White foi, por anos, o anti-herói que muitos aprenderam a amar. Seja pela humanidade sempre em xeque, ou as falas icônicas, a verdade é que muitos de nós torcíamos por Walter. Bom, pelo menos até a chegada de Gus Fring, vivido por Giancarlo Esposito. O ator conseguiu a façanha de nos apresentar um vilão tão complexo e rico que muitas vezes nos vemos torcendo por ele. A atuação de Giancarlo é tão rica, indo da frieza profunda a lágrimas debulhadas por seu amor, que é impossível não ao menos entender o personagem. A verdade é que Breaking Bad se divide entre antes, durante e depois de Gus Fring. Todos sabíamos que seu destino seria, uma hora ou outra, a morte, mas nenhum de nós estava preparado para aquela ajeitada na gravata, que em segundos diz muito sobre o personagem. Não é fácil marcar uma era em uma série já tão famosa e aclamada, mas Giancarlo Esposito conseguiu e, por isso, merece figurar entre os melhores atores coadjuvantes da década. — Breno Costa

6. Christopher Eccleston (The Leftovers)

Carregando um dos arcos mais complexos da série, Eccleston sempre viveu seu Matt de forma bastante intensa. Era possível ver o brilho da fé inabalável em seus olhos quando acreditou até o último momento na recuperação de sua esposa na segunda temporada — algo contagiante de acompanhar — para logo em seguida deixar transparecer os primeiros indícios de uma obsessão e um desvio de propósito, até presenciarmos o personagem atravessar de vez a linha do aceitável com seus amigos e com as convicções de outrora dele próprio.

Especialmente no último ano de The Leftovers, Eccleston protagonizou momentos de grande emoção. Conseguia com seu personagem arrancar sensações impressionantes como quando se despede da irmã no início de “The Book of Nora”, mas principalmente quando é confrontado com sua fé. No quinto episódio, em um confronto direto com o criador (ou quem ele achava que era), é possível sentir a montanha de acúmulo de expectativa que aquele personagem carregava, no olhar atento de curiosidade do ator, no desespero da tentativa de receber um mínimo sinal com respostas, algo hipnotizante de acompanhar, para logo em seguida tomar um balde de água fria e vermos o esvaziamento interno de um ser humano: o choque de realidade, de alguém de carne e osso, que falha, que não tem todas as respostas. Tudo isso sentido e transmitido com toda a intensidade e pungência que sempre o acompanhou. Um dos melhores arcos de personagem da série para um dos melhores atores da década. — Douglas Couto

5. Andre Braugher (Brooklyn Nine-Nine)

Ao interpretar o Capitão Ray Holt em Brooklyn Nine-Nine, Andre Braugher tem uma tarefa difícil. Ele é o personagem sério no meio do caos, o que segue as regras, o “chato” da turma. Explorar esse lado indiferente, frio e sem emoções humanas foram as saídas que fizeram com que ele seja, muitas vezes, o personagem mais interessante da série. No meio do exagerado e inverossímil, ele se destaca justamente por sua expressão impassível em qualquer situação, onde é impossível identificar se está no pior dia de sua vida ou se ganhou na loteria. Aos poucos, foi ganhando um lado cômico diferente, onde a qualidade da sua atuação foi essencial para que ficasse na medida certa. Além disso, seu personagem, que é gay na trama, foge dos estereótipos desse tipo de papel. Braugher, que veio de papéis sérios em Homicide e The Wire, mostra seu grande talento para a comédia e nos deixa na torcida para que siga nesse segmento após Brooklyn Nine-Nine. — Rodrigo Ramos

4. Tony Hale (Veep)

Tony Hale tem um talento especial para ser capacho. Pode parecer extremamente fácil e que qualquer um poderia fazê-lo, entretanto ficar tão em segundo plano assim e servir realmente como coadjuvante é trabalho para poucos. A dupla que ele faz com Julia Louis-Dreyfus é uma das melhores que a década produziu na TV. Apesar de haver pouco espaço para um desenvolvimento pessoal — especialmente quando tudo na vida dele se resume à sua chefe — seu Gary consegue mostrar gentileza, devoção, preocupação, ciúmes, incompetência como funcionário e incapacidade de ser outra coisa além da sombra da mulher que ama. — Rodrigo Ramos

3. John Noble (Fringe)

Aceitar que poucas pessoas lembrem do Walter Bishop de John Noble quando estão montando as listas de melhores da década ainda é algo doloroso para mim. Quem acompanhou a subestimada e espetacular Fringe – ou o sci-fi da década, para os íntimos –, nunca vai esquecer do que Noble fez a gente sentir durante cinco temporadas. Numa atuação que só pode ser descrita como visceral, o velhinho nos fez chorar inconsoladamente diversas vezes, e em questão de minutos era capaz de nos botar para rir de forma descontrolada, com alguma piada envolvendo milk-shakes, LSD ou assentos aquecidos.

Tendo parceiros de cena como Leonard Nimoy, John Noble nunca se deixou engolir, roubando toda e qualquer sequência em que estivesse. A série achou no ator a melhor forma possível de representar sua história principal: um conto de amor sobre até que ponto um pai estaria disposto a ir para salvar o seu filho. Deem uma chance para Fringe no futuro e entendam o porquê de ser um pecado esquecer o trabalho do ator. Vocês não vão se arrepender. — Zé Guilherme

2. Nick Offerman (Parks and Recreation)

Muitas coisas tornam Ron Swanson um dos melhores personagens já criados em qualquer comédia. O bigode incrível, o modo de falar particular, o cinismo bem dosado, o jeito “cool” somado a momentos de surto completo, suas manias muito particulares/esquisitas e o disfarce desinteressado que ele trata as suas relações para esconder um coração gigante e um afeto imenso para todos aqueles que estão ao seu redor ao compor esse que talvez seja o único libertário que realmente vale a pena. E eu não consigo imaginar um ator melhor do que Nick Offerman para compor todas essas características tão especiais de um personagem tão único, adicionando inclusive uma colaboração criativa para criar detalhes específicos dentro do seu personagem. Ele brilha tanto sendo hilário nas aparições das suas ex–mulheres (uma delas interpretada pela sua esposa na vida real Megan Mullally com quem divide uma química impecável) até o seu relacionamento tão bonito com os seus amigos do trabalho. Com a sua amizade tão especial com Leslie Knope, da genial Amy Pohler, Offerman faz com que que essa relação entre um homem e uma mulher heterossexuais totalmente platônica seja um dos grandes relacionamentos da série. O ator ainda insere uma comédia física precisa na série e expressões que vão do hilário até surpreender com a tamanha gama de emoções. Simplesmente genial, sendo tão incrível quanto hilário, Offerman oferece uma das criações mais icônicas de qualquer série, sendo ela de comédia ou drama. — Diogo Quaglia

1. Aaron Paul (Breaking Bad)

Jesse Pinkman sempre foi o coração de Breaking Bad e é engraçado como a ideia original era matar o personagem ao fim da primeira temporada. Felizmente não foi o que aconteceu, e muito disso é pelo fato de Aaron Paul ser incrível no papel e entregar ao longo de cinco temporadas performances que vão se superando a cada novo episódio. Do traficante atrapalhado, passando pelo aprendiz de cozinheiro de metanfetamina, até sócio do crime e por fim sendo escravizado, Aaron Paul passa por vários testes na pele de Pinkman e sofre — caramba, ele sofre demais! É interessante notar como ele e Walt são polos opostos. Enquanto Walt vai entrando cada vez mais a fundo no mundo do crime e sua bússola moral fica corrompida, Jesse vai criando consciência com todas as coisas erradas, sente culpa, remorso, raiva, repulsa. Na quinta temporada, é notável no olhar de Paul o cansaço do personagem, a perda da esperança, a decepção por nunca ter tido um retorno emocional de Walt. No fim das contas, é com Jesse que nos importamos e ele que dá a gravidade que a série precisa para não se tornar apenas uma narrativa criminal. Dividir cena após cena com Bryan Cranston (brilhante do início ao fim da série) e conseguir manter o nível, por vezes até sobrepô-lo, é coisa de gente grande. O epílogo El Camino, inclusive, serve para nos recordar quão grandiosa é a interpretação de Paul e como ele merece ser lembrado por ter entregue uma das atuações da década. — Rodrigo Ramos

Menções honrosas: Clayne Crawford (Rectify), Rory Kinnear (Penny Dreadful), Peter Dinklage (Game of Thrones), Tobias Menzies (Outlander), Sterling K. Brown (American Crime Story: The People v. O.J. Simpson).

MELHORES ATRIZES COADJUVANTES 

10. Lena Headey (Game of Thrones)

Game of Thrones é uma daquelas séries onde não há constância. Isso pode ser afirmado em termos da trama (afinal, reviravoltas e mortes chocantes viraram características da série) como também na qualidade do roteiro ao longo dosx anos. O mesmo acontece com as atuações. Talvez, a performance mais constante durante as oito temporadas tenha sido a de Lena Headey. Cersei Lannister é fácil de detestar, mas a complexidade da personagem, parte do roteiro (até acabar o material dos livros, diga-se de passagem) e parte da atuação de Headey, faz com que ela seja mais do que apenas uma vilã que quer ver o circo pegar fogo e a morte de seus inimigos. Headey incorpora todas as nuances de uma mulher implacável, cruel, mas que ainda assim é movida a partir do amor que sente, seja os filhos, o irmão/amante e até a si própria. Com a capacidade de beber vinho como ninguém, matar com apenas um olhar e destruir seu oponente com meia dúzia de palavras e tom de desprezo e desdém, Cersei se tornou uma das personagens mais icônicas da década e uma das poucas coisas de Game of Thrones que nos faz sentir saudade. — Rodrigo Ramos

9. Amy Brenneman (The Leftovers)

Amy tem a sorte de ter em mãos uma personagem bastante complexa que ao longo de três temporadas enfrenta uma montanha russa de acontecimentos, mas que perderiam a força caso não tivessem uma atriz à altura do grande texto de Damon Lindelof e Tom Perrota. Uma coadjuvante que na primeira temporada do show pouco falava e precisava demonstrar suas emoções apenas através de reações e gestos, passando por uma abrupta mudança na segunda temporada, chegando à uma terceira temporada com a leveza da razão que sempre lhe foi muito cara, trazendo a mediadora de conflitos para o meio do furacão emocional dos personagens.

Seu episódio de destaque na última temporada da série acentua a essência da personagem: um ser humano que ouve e reage. Reagiu mal com a confusão mental esperada após um evento como a Partida Repentina, como acompanhamos na abertura deste mesmo episódio seis, a face da confusão que mal consegue se colocar nos eixos tendo que lidar com a paciente da vez. Para no final do próprio episódio vermos de novo aquela aproximação na mesma face, desta vez muito diferente, a personagem estava em paz consigo mesma. E Amy sempre foi assim, nas ações e reações, carregadas de significado, era onde nos conectávamos com ela e era como sabíamos o que ela sentia mais do que qualquer linha de diálogo poderia descrever. A excelência em performance faz com que a atriz esteja entre as melhores atuações da década. — Douglas Couto

8. Uzo Aduba (Orange is the New Black)

Uma mulher negra, gay e com problemas mentais. Quando se estabelece o que é o papel de Crazy Eyes, em Orange is the New Black, nota-se a complexidade da personagem por si só e certamente é um desafio pegar essa função e transformar em algo que consiga ser bem-humorado sem ser desrespeitoso, e ainda ter a gravidade que toda a circunstância precisa. Uso Aduba, até então desconhecida do público, vestiu a camisa (ou melhor, o uniforme de presidiária) e transformou Crazy Eyes em uma personagem memorável por conseguir entregar tudo o que um papel como este requer, trazendo alívio cômico nas horas certas e dando aquele golpe emocional quando necessário. Mesmo sendo uma figura bem-humorada, é quando insere a sensibilidade no papel que Crazy Eyes cresce e Uzo Aduba mostra seu talento. Orange is the New Black dispõe de um grande elenco feminino, com alguns nomes em especial que merecem muito reconhecimento, mas no fim das contas quem carregou a série, nos melhores e também piores momentos, e teve os maiores desafios nas mãos com uma personagem foi ela. — Rodrigo Ramos

7. Archie Panjabi (The Good Wife)

Falar de The Good Wife é também falar de Archie Panjabi. A inglesa de ascendência indiana apesar de não ser a protagonista da série, sem dúvida é um dos grandes destaques da série dos King. Kalinda é a personagem que brilha independentemente da situação. A forma de andar, de se expressar, a composição criada pela atriz ultrapassa o bom roteiro dos criadores da série. Kalinda é ótima desde a sua concepção, mas ela só teve vida por causa da criação da Panjabi. A atriz transformou uma boa personagem em uma personagem brilhante, e assim pôde mostrar o quão talentosa é. — Carissa Vieira

6. Christina Hendricks (Mad Men)

Uma das coisas mais especiais de Mad Men talvez seja o fato que nenhum personagem é inicialmente o que parece. Todos os personagens da série têm uma fachada externa que cria um contraste com as suas características internas e quem eles realmente são ou também são. Joan Holloway com certeza é um dos melhores exemplos disso. Apresentada inicialmente como um estereótipo de “mulher fatal” ou “objeto de desejo”, o que vemos na verdade é que Joan é uma mulher que tenta sobreviver e crescer num mundo extremamente misógino e injusto. E a interpretação de Hendricks é de uma sutileza tão gigante consegue demonstrar todos os baques emocionais que Joan conforme a série e são vários. Joan é inteligente, perspicaz, uma mente nos negócios, sensível, dura quando quer, inteligente, divertida e possui um encanto que vai além da sua aparência, e Hendricks consegue impor tudo isso no papel sem nunca subir o tom nos momentos dramáticos que ela enfrenta. O crescimento de Joan o seu desenvolvimento com o passar da série é uma das demonstrações de umas das principais temáticas de Mad Men: o “novo” florescendo e o “velho” morrendo ou tentando sobreviver. — Diogo Quaglia

5. Christine Baranski (The Good Wife)

A eterna coadjuvante Christine Baranski entrega durante sete temporadas de The Good Wife um belíssimo trabalho como, bem, coadjuvante. Conhecida por papeis mais extrovertidos, alguns escandalosos, Diane Lockhart é uma personagem mais reservada, séria e chiquérrima. Quando entra em cena, Baranski traz para a tela um ar de imponência. A postura, o tom da voz, os figurinos e joias, tudo exala elegância e profissionalismo. Queria ser assim. E apesar de tamanha seriedade, Baranski também consegue transparecer emoção, seja por conta do cônjuge Kurt, dos companheiros de escritório, durante os julgamentos na corte e em especial quando o assunto é Will Gardner. A atuação de Baranski é contida e ela libera reações a conta gotas, de forma calculada por conta do perfil de sua personagem. Esse tipo de abordagem é uma virtude e que mostra a capacidade de atuar da atriz e assumir papéis distintos. Ela não precisa roubar a cena, mas estar nela já é mais o que suficiente. Porém, quando dão a oportunidade para ela destruir alguém com um discurso afiado, ela o faz com êxito. Rainha né. Baranski dá o equilíbrio que ajudou a fazer de The Good Wife o último grande drama da TV aberta. E, felizmente, posteriormente, se tornou protagonista em The Good Fight, dando continuidade à narrativa de sua personagem mais importante no audiovisual. — Rodrigo Ramos

4. Ann Dowd (The Leftovers, The Handmaid’s Tale)

Ann Dowd é um doce de mulher. Ela é tão simples que nem parece estar inserida em grandes produções da TV como The Leftovers e The Handmaid’s Tale. Tampouco parece capaz de entregar performances tão carregadas e cheias de nuances. Na dobradinha que fez com as séries da HBO e depois da Hulu, ela interpreta duas personagens que facilmente podem ser odiadas, e o público ganha munição para usar contra elas. A interpretação magnética e de vasto alcance de Ann Dowd é o que captura a atenção do espectador e o faz não torcer, mas entender essas figuras e ter empatia por elas. Ela oferece uma dimensão de emoções, passando por autoridade, brutalidade, sensibilidade, melancolia, até sarcasmo e deboche (este, em especial, encontrado em Patti Levin, em The Leftovers), mudando de um humor para o outro em questão de segundos, como se estivesse trocando de canal pelo controle remoto. Uma das grandes atrizes atualmente em atividade e que esperamos poder ver mais também na próxima década. — Rodrigo Ramos

3. Regina King (The Leftovers, American Crime, Seven Seconds)

Mesmo tendo sido vencedora de um Oscar em 2019, foi na televisão que Regina King mais brilhou, nas mais variadas séries e com perfis bem diferenciados de personagens. Em The Leftovers, American Crime e Seven Seconds, ela cravou o seu nome na história da televisão com atuações memoráveis uma trás da outra, sem dar chance ao público recuperar o seu fôlego. Nestas três séries, Regina interpretou cinco personagens diferentes, mas que tiveram em comum a sua entrega completa. Desafio alguém a não se emocionar com Erika de The Leftovers, não julgar a sua Terri LaCroix da segunda temporada de American Crime ou a não chorar com dor da perda de Latrice Butler de Seven Seconds. Brilhando incansavelmente com tantas personagens coadjuvantes, Regina King foi alçada à protagonista de Watchmen, fechando com chave de ouro uma década de já muito respeito. — Diogo Pacheco

2. Anna Gunn (Breaking Bad)

Uma das coisas mais tristes dessa década é, após entregar uma das melhores performances femininas na TV nos últimos 10 anos, ainda assim Anna Gunn não ter o mesmo volume de trabalhos que seus companheiros de elenco, desde Aaron Paul e Bryan Cranston até Bob Odenkirk, Jonathan Banks e Giancarlo Esposito. Skyler foi uma personagem de difícil aceitação. Ok, no início ela era meio xarope, mas vai dizer que ela não tinha razão no fim das contas? Se meu marido fosse um lixo como Walter White acaba se revelando, também seria um pé no saco. Talvez a personagem seja incompreendida. Ao longo da série, Skyler foi se libertando do papel da esposa questionadora e foi se tornando uma aliada — meio que por escolha, meio que por conta das circunstâncias — de crime, ainda que numa esfera bem mais amena, de seu esposo. De uma atuação apenas suficiente para tocar a trama até os momentos de grandes desafios cênicos, Gunn mostrou-se extremamente eficiente e talentosa ao encarar um elenco de alto nível em cena. Sendo uma mãe protetora, dona de um estabelecimento que lava dinheiro (curiosamente, o lava-jato criminoso aqui veio antes mesmo da Operação Lava Jato, possivelmente deu ideia e nem recebeu os créditos, Breaking Bad à frente de seu tempo mesmo), uma amante convicta e depois arrependida, até uma mulher ora deprimida ora desesperada pela situação impossível de se livrar, Gunn acerta todas as notas com maestria. Especialmente na quinta temporada, Gunn se expõe de tal maneira que é impossível ignorar sua competência, desde os gritos para salvar sua filha até o olhar de desprezo para o marido enquanto ainda sofre com o luto da perda. — Rodrigo Ramos

1. Maggie Smith (Downton Abbey)

Quem cresceu vendo Harry Potter nos anos 2000, sempre vai lembrar da atriz veterana como a eterna Professora Minerva McGonagall. No entanto, antes de dar vida ao ícone da transmutação, Maggie Smith já tinha em casa duas estatuetas do Oscar e algumas indicações que já adiantavam o que seria a sua parceria com o criador de Downton Abbey, o ótimo Julian Fellowes.

Violet Crawley é uma das personagens mais imponentes e marcantes da década, não só por representar a essência do que Fellowes pretendeu com Downton Abbey – todas as melhores discussões entre o velho e o novo, foram defendidas pela Condessa Viúva de Maggie Smith com um humor sarcástico perfeito –, mas também por reapresentar a diversas gerações uma das lendas do teatro britânico. Ainda existe um certo rancor por boa parte da galera que acompanhou as premiações entre 2011 e 2016 e viu Smith abocanhar tudo, sem nunca se dar ao trabalho de ir lá coletar seus troféus. Mas se você, assim como eu, viu e ama Downton Abbey, sabe muito bem que o reconhecimento que atriz recebeu, foi pouco diante do que era Violet Crawley. — Zé Guilherme

Menções honrosas: Rhea Seehorn (Better Call Saul), Abigail Spencer (Rectify), Margo Martindale (The Americans, Justified), Laura Dern (Big Little Lies), Betty Giplin (GLOW).

MELHORES ATORES

10. Matthew McConaughey (True Detective)

True Detective entrega tudo de bandeja para Matthew McConaughey. Ele tem todo o espaço que desejar para entregar monólogos reflexivos, atirar olhares profundos para as paisagens, ter uma linguagem corporal morosa, esbravejar com o seu sotaque e, lógico, como todo bom agente da lei, chutar bundas. E isso não é ruim! Na realidade, McConaughey não desperdiça a oportunidade. Entregando-se ao papel com uma intensidade assombrosa, o ator sabe usar as centenas de ferramentas que lhe são oferecidas. Por mais que True Detective possua seus críticos, é difícil não reconhecer que Matthew McConaughey foi uma bela adição — André Fellipe

9. Jharrel Jerome (When They See Us)

A melhor palavra que eu consigo encontrar para definir a atuação de Jharrel Jerome em When They See Us é “titânica”. Em tela, conforme os episódios da obra de Ava DuVernay vão passando, ele é um titã emocional. Nos momentos iniciais, em que aparece descontraído, andando por sua vizinhança em Nova York; no desespero de um interrogatório de última hora, que só aconteceu por sua diligência como amigo; na agonia de um julgamento em que a injustiça é palpável; nas muitas fragilidades que ele precisa demonstrar conforme o seu Korey é quebrado de muitas formas diferentes na prisão.

Titânica, sim, e também estonteantemente corajosa. Aos 21 anos, Jerome encarou um material mais desafiador do que qualquer ator com o dobro de sua experiência na TV norte-americana. Saiu triunfante, e coerente, sem dar qualquer passo em falso na jornada que construiu e em seu simbolismo. Se há quem hesite em classificar sua performance como a melhor da temporada, difícil dizer que não é a mais inesquecível. — Caio Coletti

8. Justin Theroux (The Leftovers)

Kevin tem uma jornada inacreditável, da vida ordinária ao sobrenatural ao longo das três temporadas da série, e Justin Theroux transita entre a paranoia completa, a loucura, a tranquilidade e o sentimentalismo. Antes pouco requisitado, Theroux mostrou ter competência o suficiente para carregar uma série – ao lado da excelente Carrie Coon – e entregar momentos dos mais variados, da explosão dramática até as pequenas sutilezas, de um olhar a um sorriso cheio de emoção e significado, a exemplo do último episódio da série. E sua performance fica ainda melhor quando confronta na cena Coon e Ann Dowd, porém ao encarnar duas versões de si mesmo em uma única cena, nota-se como, definitivamente, Justin é um ator de alto escalão e The Leftovers não seria a mesma obra prima que é sem ele. — Rodrigo Ramos

7. Billy Porter (Pose)

A TV da década de 2010 precisava urgentemente de Billy Porter. Em uma década marcada pela continuação e evolução da tendência dos anti-heróis complicados (e masculinos) dos dramas de prestígio, ele apresentou uma forma diferente de construir um personagem humano e memorável. Em Pose, Porter coopta a extravagância e a teatralidade do mundo dos balls LGBTQ+ de Nova York nos anos 1980 para criar um retrato vibrante da ânsia de vida de personagens como Pray Tell, que foram fundamentais para construí-lo.

Porter brilha tanto por trejeitos perfeitamente calibrados quanto por expressões genuínas de afeto, decepção, perda, mobilização política, resiliência. E brilha mais ainda por fazer de uma coisa a extensão da outra, criando um Pray Tell completo, cujas referências pop e comentários maldosos acontecem de acordo com os dramas e vitórias pessoais que ele vive fora do palco. A genialidade de Porter, enfim, é que ele não vê Pray Tell como um personagem “maior que a vida” — ao invés disso, expande a amplitude do seu olhar para abarcar a enormidade que Pray é capaz de perceber, sentir viver e expressar. O espectador, por sua vez, tem a própria visão ampliada ao assisti-lo. — Caio Coletti

6. Mads Mikkelsen (Hannibal)

Mads tinha uma tarefa bastante desafiadora em mãos quando recebeu esta proposta, que era viver um dos psicopatas mais conhecidos do cinema que foi brilhantemente interpretado pelo grande Anthony Hopkins. Automaticamente, como já esperado, muitos olhares de desconfiança lhe foram direcionados. Felizmente, com seu Hannibal, Mads consegue não só se diferenciar de Hopkins como também mantém o espírito do personagem e todo o seu magnetismo que fascina não só os personagens que interagem com ele como também a própria audiência. Ele cria um tipo de performance que anda cada vez mais esquecida dentre as atuações que costumam receber mais elogios: onde a preocupação em construir um personagem, com todos os detalhes que um ser humano precisa, está acima de um overreacting pontual feito como isca para premiações.

Com seu Hannibal, Mads caminha de forma única, tem uma postura e elegância só dele. Tem olhares que por vezes soam assustadores e por vezes enigmáticos; uma naturalidade, um timing perfeito de frases pausadas e consegue com suas mini expressões faciais dar o tom preciso de ironia e ameaça ao mesmo tempo, rendendo cenas deliciosas de acompanhar. Mads Mikkelsen não vive de momentos esporádicos, ele vive seu Hannibal em tela o tempo inteiro e esse é o maior atestado de grandeza que uma excelente performance pode entregar. — Douglas Couto

5. Benedict Cumberbatch (Sherlock, Patrick Melrose)

O mundo conheceu oficialmente Benedict Cumberbatch na versão moderna de Sherlock, em que o espírito dos livros e dos personagens estão presentes, mas as histórias e os próprios papeis são atualizados com a devida vênia. Diferente da versão cinematográfica mais recente (Robert Downey Jr.), Cumberbatch consegue dar vida ao personagem sem necessariamente recorrer à sua personalidade na vida real e cria um Sherlock tão original e autêntico que você diria sem pensar duas vezes, caso não soubesse da origem dos livros, que o papel foi feito pensando no ator. O distanciamento emocional (mas ainda assim sentir por dentro, ainda que de maneira distinta), o modo de pensar, de se comportar, a metralhadora de palavras, o humor britânico cru e a capacidade de conseguir ter uma química incontestável com todos no elenco (de Martin Freeman a Andrew Scott), faz com que Sherlock Holmes seja um dos papeis definitivos do ator. Entretanto, mais perto do final da década, Benedict também fez uma escolha arriscada e, mais uma vez, acertada, ao viver Patrick Melrose na minissérie homônima baseada em uma história real. Durante os cinco episódios, Cumberbatch exibe outras vertentes de sua interpretação, encarando fases diferentes da vida de seu papel, desde os excessos com drogas, a ansiedade, os problemas com o pai e a mãe, até a paternidade própria. O que Cumberbatch faz em Patrick Melrose é de deixar qualquer fã de Sherlock e do ator de queixo caído ao descobrir que ele pode ir muito além do que demonstrara até então. Por construir duas interpretações distintas, porém marcantes, é que Cumberbatch acaba sendo lembrado como um dos maiores intérpretes da TV nesta década. — Rodrigo Ramos

4. Aden Young (Rectify)

Por quatro temporadas, Rectifity percorreu a saga de Daniel Holden (Aden Young) e sua família após ser libertado depois de 20 anos na cadeia por um crime que ele pode ou não ter cometido. Daniel ter podido ou não ter executado o crime é apenas um pano de fundo para que Ray McKinnon, o showrunner da série, desenvolva com uma sensibilidade gigante e rara de se ver no audiovisual. Um estudo de personagem que toca em questões muito profunda psicológicas, familiares, estruturais, sociais, existenciais, emocionais e espirituais da humanidade. Quem nós somos? E nada disso seria possível se não tivéssemos Aden Young tão perfeito dando vida a um personagem absolutamente rico. Uma das grandes preciosidades da série é em como é difícil definir uma figura tão complexa quanto Daniel como uma coisa única. Ao mesmo tempo temos uma dessas almas doces, sensíveis, inteligentes, vulneráveis, especiais e fascinantes, com um encanto especial, que emana uma luz única e que é mercado pelo sofrimento e pelo sentimento de completa solidão por ter tido parte da sua vida privada de ser vivida, o que lhe acarretou problemas emocionais e dificuldades de socializar. E, por outro lado, temos alguém com sérios problemas psicológicos, travas emocionais e impulsos violentos com um sentimento de auto-aversão e tendências autodestrutivas que está sempre no limite de ultrapassar o caminho da melancolia e da depressão. Quem é Daniel? Inocente? Culpado? Vítima? Nenhum? Ambos? A série está mais interessada em explorar o psicológico rico e contraditório desse homem do que simplesmente responder à pergunta principal e Young consegue com o seu olhar abatido, seu jeito introspectivo, sua postura fechada em si mesma, seu jeito de falar particular e verborrágico que diferencia Daniel daqueles que estão a sua volta e mais coisas dar características únicas para esse personagem. Daniel é um perdido e Aden consegue encontrar o caminho de levar esse personagem tão conturbado e atormentado por vários demônios em uma interpretação fascinante que passa por momentos de explosões comoventes até momentos de introspecção precisos. Daniel é fruto da beleza humana ao mesmo tempo que também é resultado das nossas contradições. E Aden Young numa interpretação que foi injustamente esquecida nas principais premiações o retrata com precisão. — Diogo Quaglia

3. Jon Hamm (Mad Men)

Don Draper, de certa forma, sintetiza alguns homens da indústria do cinema, TV e música hoje em dia, né? É um homem atraente, consegue todas as mulheres que quer, é um gênio criativo, tem dinheiro, mas é ciumento, um péssimo pai, terrível como marido, trata mal as mulheres que não estão no seu radar como potenciais presas. Mesmo sendo esse lixo de pessoa, de alguma forma ainda conseguimos nos importar por esse personagem e isso se dá graças ao talento de Jon Hamm. De certa forma, amar vilões clássicos é mais fácil do que pessoas cheias de nuances com desvio de caráter e mais próximas da realidade. Ao longo da jornada de sete temporadas no ar, fomos entendendo melhor Don Draper, seu background, de onde vem essa involuntária necessidade de se autossabotar, como tomou o nome de outra pessoa em busca de uma maneira de se reinventar e tentar uma vida diferente, a incapacidade de amar, a insatisfação seja qual for o status atual da carreira ou vida pessoal. Ao apresentar um personagem extremamente falho e exemplo perfeito do machismo, Jon Hamm precisa se esforçar para fazer de Don Draper um personagem agradável ao espectador e, por estar nesta lista, significa que tem êxito na tarefa. Claro, Hamm consegue ser sedutor como poucos, todos os ternos parecem cair perfeitamente nele, durante as apresentações dos trabalhos na empresa parece o melhor profissional que já existiu em publicidade e propaganda. Contudo, é nos momentos pessoais, introspectivos, que Hamm brilha. Nos confrontos com Peggy, nos diálogos sempre desafiadores com a filha Sally, nas brigas com Betty, sentindo o peso das escolhas da vida pelo telefone ou desabando no choro ao abraçar outro homem ao se deparar com a insignificância do seu ser, o ator garante a entrega da emoção e nos comove. — Rodrigo Ramos

2. Matthew Rhys (The Americans)

Se Keri Russell tinha que escolher, cena a cena de The Americans, o quanto de Elizabeth mostrar ao espectador, Matthew Rhys foi encarregado de uma missão diametralmente oposta, mas tão complicada quanto: a de construir um protagonista masculino que, apesar dos artifícios de espionagem, sempre estampou suas emoções, sua história, seus anseios e angústias, muito abertamente.

Felizmente, a produção encontrou o ator certo para isso. Rhys é um dos intérpretes mais expressivos de sua geração, um daqueles atores que é capaz de se mostrar vulnerável sem medo do patético, de se fazer temível de uma forma que ainda, de alguma forma, quebra o coração. Se Phillip é o antídoto para a avalanche de anti-heróis da Peak TV, Rhys é também entrega a performance oposta a dos intérpretes masculinos que marcaram essa era — seu sofrimento pelos dogmas machistas que o criaram não é escondido, mas em carne viva.

Basta pensar em seu momento mais lembrado na série: quando grita com a filha, Paige, sobre sua dedicação ao catolicismo. “Você respeita a Jesus, mas não a nós?”, indaga ele, furioso. A explosão não é característica do personagem, mas rima com ele de qualquer forma, porque Rhys construiu o seu Philip com um homem de estrutura frágil, mas emoções gigantescas. O impacto da cena, como tantas outras nas seis temporadas de The Americans, é muito maior por causa dele. — Caio Coletti

1. Bryan Cranston (Breaking Bad)

No atual contexto da TV, o conceito de protagonistas brancos e heterossexuais que são anti-heróis ou propriamente vilões já foi empregado milhares de vezes, das formas mais cansativas ou interessantes. O Walter White de Breaking Bad com toda certeza é o exemplo mais conhecido dentro da cultura pop. Durante cinco temporadas, vimos o aparentemente inofensivo, bondoso e sofrido professor de química se transformar no monstruoso traficante de metanfetamina Heisenberg. Mas talvez o que torna Breaking Bad uma série que foi se tornando excepcional com o passar das temporadas e o Walter de Bryan Cranston idem sejam os fatores menos reconhecidos dentro do seu trabalho. Claro, existem razões para as frases de efeitos e as cenas grandiosas fazerem sucesso, mas o que faz o retrato de decadência moral de um homem abraçando o seu lado mais monstruoso ter êxito do ponto de vista de execução é outra coisa.

A premissa de que esse homem vai se tornar quem ele se torna só funciona maravilhosamente bem porque a série é muito inteligente em tornar totalmente palpável aquilo que acontece. São temporadas de desenvolvimento para que Walter chegue ao ponto em que chega; cada passo que o protagonista toma, revelando seu lado mais sombrio, é crível. E tudo isso cresce quando percebemos que desde o início não estávamos vendo de a história de “um homem bom que se torna mau” e sim a história de “um homem mau que se deixou ser mau finalmente”.

O ego, o orgulho, o senso distorcido de “sucesso”, a misoginia, a necessidade de afirmação masculina, a distância emocional daqueles que estão ao seu redor, o desprezo por todos aqueles que julga inferior, o rancor, o recalque, o ódio pela humanidade, a falta de empatia e as relações abusivas que cria ao seu redor são traços de Walter desde o começo e que vão aparecendo aqui e ali até aumentarem e chegarem ao momento em que percebemos que estamos vendo a história protagonizada por um vilão. Essas características sempre estiveram ali e não a percebemos porque estavam disfarçadas numa camada de sofrimento que nos faz ter empatia com o personagem. Contudo, quando fica evidente que ele sempre foi essa pessoa e só precisou de um gatilho, é aí que Breaking Bad se torna algo especial. E entre muitas coisas, o que torna Walter um personagem absolutamente complexo, mesmo que ele seja um psicopata desprezível, é o fato de que mesmo sendo uma pessoa péssima, ele sempre consegue ter sentimentos muito humanos por alguns daqueles que estão ao seu redor. Ele é capaz de amar. De sentir. Só que o seu amor é doentio, distorcido, egoísta e destrutivo.

A série nunca exime o fato de que Walter é alguém tão interessante quanto asqueroso. Ao mesmo tempo que ela celebra a inteligência especial e muito específica do seu protagonista, ela mostra o quão patético aquele homem é. Completamente entregue ao papel de sua vida, Bryan Cranston oferece uma das grandes interpretações masculinas de todos os tempos. Ele, ao mesmo tempo, não tem nenhum pudor em se jogar numa construção física e corporal do seu personagem em suas diferentes fases, como também consegue oferecer esses vários contrastes e contradições que tornam Walter um personagem tão especial. Em um equilíbrio perfeito e numa sinergia completa com Vince Gilligan, Cranston coloca tudo de si nos momentos intensos em que seu personagem explode e surta sem cair num exagero, ao mesmo tempo que oferece um olhar muito sutil e naturalista dos seus conflitos internalizados. — Diogo Quaglia

Menções honrosas: Damian Lewis (Homeland), Andy Daly (Review), Will Arnett (BoJack Horseman), Donald Glover (Atlanta), Bob Odenkirk (Better Call Saul).

MELHORES ATRIZES

10. Lisa Kudrow (The Comeback)

Um ano depois do final de Friends, Lisa Kudrow co-criou e protagonizou a série da HBO The Comeback. A série narra a vida da personagem Valerie Cherish (Lisa Kudrow), uma atriz que era famosa numa sitcom da década de 90 e tenta em plena ascensão do gênero reality show em 2005 (vale ressaltar, muito antes de existir Kardashians e The Real Housewives) fazer seu retorno à indústria televisiva estrelando o seu próprio reality sobre voltar a atuar numa sitcom de comédia depois de uma grande pausa na carreira intitulado “The Comeback”. A temporada de 13 episódios foi cancelada por baixa audiência no mesmo mês que sua transmissão foi encerrada. The Comeback conseguiu adquirir uma fan base fiel o suficiente não apenas para conseguir rotular a série como “cult” e “à frente do seu tempo”, mas também para a HBO decidir trazer de volta a produção para uma série limitada em 2014. Em sua segunda temporada, nove anos depois da original, Valerie estrela um documentário da HBO que acompanha o novo trabalho da atriz, que consiste em protagonizar uma versão ficcional dos acontecimentos da série que ela trabalhou na primeira temporada. Fiz algum sentido? Não? Eu juro que tentei o meu máximo explicar da forma mais claro possível. Se não entendeu, assista! Prometo que não vai se arrepender!

Tudo isso é para falar que Lisa Kudrow, que foi indicada duas vezes ao Emmy pelo seu genial trabalho nessa maravilhosa série metalinguística na categoria de melhor atriz em série de comédia (e perdeu duas vezes para a Julia Louis-Dreyfus, por The New Adventures of Old Christine e Veep, respectivamente), é absolutamente e completamente brilhante na personagem. Valerie Cherish, que cunhou o “Hello hello hello” que hoje é usado por RuPaul, é uma das personagens mais carismáticas da década em todo o panorama televisivo. Lisa nos leva por uma montanha russa emocional, principalmente na temporada de 2014. A personagem, que é exagerada e cheia de manias que beiram a vontade de gargalhar e/ou gritar com a televisão em situações extremamente ridículas e inusitadas, também consegue ser extremamente complexa, e vemos muito desse outro lado quase que exclusivamente neste segundo ano, lado que nunca vi em outros trabalhos da atriz — ao meu ver, ela tende a se repetir e fazer personagens excêntricas. Já imaginou que Lisa Kudrow te faria chorar? Não? Então veja The Comeback, porque ela certamente vai conseguir. E para mim é isso o que justamente eleva a atuação da atriz, e consequentemente a série, para um patamar de qualidade ainda mais elevado. Espero poder rever Valerie em uma terceira temporada logo logo! (Ouviu, @HBO?) — Régis Regi

9. Susan Sarandon (Feud: Bette and Joan)

Susan Sarandon passou longos anos sem se destacar no cinema ou na televisão. Na última década, o papel que mais me chamou atenção da atriz foram as participações nos vídeos de The Lonely Island, grupo musical formado por ex-integrantes do Saturday Night Live. Assistam “Motherlover” e “3-Way”, por favor. Mesmo assim, ainda que nunca tenha parado – todo ano tem algum título do qual faz parte do elenco – Sarandon não vinha brilhando como nos anos 80 e 90. Assim como o papel que interpreta em Feud — a grandiosa Bette Davis — Sarandon não deixou o talento de lado. Entretanto, Hollywood não lhe deu as mesmas oportunidades que no passado e a idade começou a pesar na hora de encontrar papeis melhores e dignos de reconhecimento. Dito tudo isso, é um presente de Ryan Murphy tê-la escalado para Feud. É quase como se Sarandon tivesse baixado o espírito de Davis em si para vive-la em tela, pois desde os trejeitos, olhares, risadas, até mesmo o visual (ainda que não sejam tão parecidas normalmente), a forma de falar e atuar parecem psicografados da própria Davis. Susan está incrível em cena e destrói a cada fala que dispara, impecável do começo ao fim da série, encarnando com garra todos os problemas, virtudes, dilemas e brigas que fizeram de Davis um ícone do cinema e a maior rival de Joan Crawford. — Rodrigo Ramos

8. Jessica Lange (Feud: Bette and Joan, American Horror Story)

Jessica Lange sempre foi uma atriz impecável e bastante versátil. No cinema, fez comédias de sucesso como Tootsie, dramas como Peixe Grande e Céu Azul, e até algo mais aventuresco como King Kong. Até a década atual, ela nunca havia parado de fazer filmes, porém as novas gerações não estavam exatamente familiarizadas com ela, tampouco vinha ganhando papeis de grande relevância como seu talento pede. Foi aí que Ryan Murphy colocou Lange na TV em American Horror Story e a tornou uma das atrizes mais celebradas da década. No meio do terror do criador de Glee, a atriz mostrou várias facetas em personagens distintos a cada temporada, ressaltando sua versatilidade, capacidade de se transformar de papel em papel e não ter medo de se arriscar. Os trabalhos em AHS lhe renderam dois Emmys e um Globo de Ouro, além de outras indicações.

Contudo, o papel que definiu a década de Jessica Lange está em Feud: Bette and Joan, onde interpreta Joan Crawford. Na minissérie, trabalha-se a rivalidade entre Bette Davis e Joan Crawford, que surgiu não porque naturalmente as duas mulheres não se gostavam. Pelo contrário. A admiração existia e era mútua. Porém, assim como ocorre ainda nos dias atuais, Hollywood não valorizava as mulheres e elas têm data de validade para a indústria, salvo algumas exceções. A briga entre as duas estrelas foi ocasionada porque Hollywood lucrava com essa treta e todos os problemas que tinham como fundamento o machismo e o sexismo fizeram com que elas descontassem uma na outra suas frustrações. A personagem de Jessica Lange é um grande exemplo disso. Mais conhecida pela beleza estonteante, Joan Crawford teve longa vida no cinema enquanto ostentava os traços de uma jovem mulher. Com a idade avançando, a procura por ela diminuiu e cada vez mais era esquecida. Tanto Joan quanto Bette foram humilhadas, do início ao final de suas carreiras, tendo que lutar constantemente para conseguir emprego, fosse ele bom ou ruim. Jessica Lange, a rainha que é, consegue atribuir à Joan múltiplas facetas, sendo a pessoa que precisa do holofote para se sentir bem, que tenta se vingar da maneira mais cruel possível de Bette, vive das glórias do passado (lembra até um pouco da protagonista de Sunset Boulevard), ao mesmo tempo em que tem seus problemas de autoconfiança, financeiros, e a solidão. Da metade da temporada em diante, Lange troca de posição com Sarandon e comanda o show, entregando uma performance tão poderosa que deixaria Crawford honrada. — Rodrigo Ramos

7. Sarah Paulson (American Crime Story: The People v. O.J. Simpson, American Horror Story)

Quando falamos de glow up na década que se encerra, poucos se comparam a guinada na vida da atriz Sarah Paulson. Durante vinte anos de carreira, Paulson só havia conseguido destaque na subestimada Studio 60 on the Sunset Strip. Porém, ao dar vida em 2012 à sofrida Lana Winters na segunda temporada do blockbuster American Horror Story, Sarah pôde finalmente alcançar o merecido estrelato, se tornando quase que instantaneamente uma das atrizes do alto escalão da TV americana.

Com um timing inigualável para dar voz ao peso dramático de personagens femininas que passam por duras provações, a atriz acumulou indicação atrás de indicação por personagens em American Horror Story, até finalmente fazer história e ganhar todos os prêmios de atuação na TV numa mesma temporada de premiações, como a espetacular Marcia Clarke na série limitada The People v. O. J. Simpson. Ainda mantendo a parceria com Ryan Murphy, Paulson já se prepara para protagonizar, produzir e dirigir sua primeira série da Netflix em 2020, que será nada mais, nada menos, do que um prequel de Um Estranho no Ninho. Ou seja, a nova década ainda terá muito de Sarita em aclamação, coesão e carisma. Nada mais justo, não é mesmo? — Zé Guilherme

6. Claire Danes (Homeland)

Por dois anos, brincava com meus amigos de que o Emmy de melhor atriz deveria se chamar “Troféu Claire Danes”. O que motivou isso foram dois anos impecáveis de Homeland, que em ambos os anos foi tida como a melhor série no ar (ao lado das também incríveis Mad Men e Breaking Bad). A diferença aqui é que tínhamos uma mulher à frente da trama. E uma baita de uma mulher. Independente, inteligente, corajosa, ousada, a personagem Carrie Mathison era alguém para se admirar… Até que não era. Sua personagem, além de todos os atributos positivos, também tinha seu lado mais difícil. Bipolar, paranoica, obcecada, carente, com certa distância emocional (o que fica claro com relação à filha que acaba tendo ao longo da série) e dificuldade de confiar nos outros — isto mais do que justificável por tudo o que ela passa ao longo dos anos na série, onde ela é traída pelas pessoas mais próximas dela. Entre a seriedade, a loucura e a emoção, Claire Danes nunca decepcionou em sete temporadas, ainda que a série tenha sofrido com vários altos e baixos. Carrie é uma personagem bastante complexa e Danes usa todo seu poderio cênico para concebê-la com perfeição. Enquanto Homeland foi de série da década em seus primeiros anos para ser altamente esquecível (mesma escola de Game of Thrones e The Handmaid’s Tale), o que se mantém estável e continua memorável é a atuação de Danes. — Rodrigo Ramos

5. Julianna Margulies (The Good Wife)

Ainda hoje sinto aquele rancinho por Julianna Margulies, já que alguns dos rumos que contribuíram para The Good Wife ser aquém do que poderia ter sido (e olha que foi uma ótima série, sem dúvidas) foi a briga nos bastidores com Archie Panjabi, que chegou a tal ponto de Margulies se recusar a fazer uma cena com a interprete de Kalinda depois da quarta temporada (!!!). Mas sentimentos a parte, é inegável que Margulies foi peça fundamental para o sucesso de The Good Wife. Alicia Florrick foi o primeiro papel de maior relevância da atriz pós E.R., e nesta nova fase provou-se um dos maiores talentos da década na TV.

Em primeiro lugar, acho que não há atriz melhor para conseguir conversar de maneira tão convincente no telefone. Em segundo lugar, assim como a narrativa vai evoluindo, Margulies consegue emular com precisão cada fase de Alicia. Se no início da série ela é tão insegura de si e da sua capacidade como advogada, nos anos que se passam ela consegue trair o marido (Peter merece só o inferno) e enfrentá-lo, torna-se uma advogada muito melhor, cria laços, busca independência, fica cada vez mais debochada, chegando num ponto em que ela faz literalmente o que quer porque não se importa mais com a opinião alheia. E tudo isso não é apenas exposto pelo roteiro, como na atuação de Julianna, que dá conta de exibir com convicção e coesão essa evolução de Alicia Florrick. É interessante como Margulies tem a capacidade de deixar muitas emoções debaixo da pele e passar a impressão de que as sente, porém está se segurando e mantendo as aparências. Igualmente soberba ela é nas horas em que explode. Muitas vezes com sutileza e aparentemente sem esforços (ou seja, para isso, tem que ser muito boa), Margulies passa por uma gangorra de sentimentos e entrega tudo com maestria — não é de graça que venceu dois Emmys pelo papel. Mesmo quando The Good Wife eventualmente falha (fingindo até hoje que o final não é o final oficial), a performance de Margulies permanece intacta. — Rodrigo Ramos

4. Carrie Coon (The Leftovers)

Parece ser mais fácil atuar diante de grandes arroubos. Choros, gritos, risos. Nada disso define Nora, personagem de Carrie Coon nas três temporadas de The Leftovers. Diante da mais triste das histórias da série, Nora se vê após o Arrebatamento sem seu marido e dois filhos. Tirando o irmão Matt, está sozinha no mundo. Mas Coon encara uma Nora contida, que raramente chora e que, mesmo diante da tragédia, ainda se apresenta como uma mulher forte. Justamente por chorar tão pouco, é louvável que a atriz consiga carregar a personagem, tornando-a humana e empática, mesmo sem o gesto mais característico, pelo menos no audiovisual, da tristeza. Exatamente por isso, as poucas cenas de choro de Nora são tão memoráveis, porque é nelas que Coon se entrega de vez, como se ela própria tivesse contido aquelas lágrimas por tanto tempo. Para além disso, carregar cinco minutos de um monólogo nas costas na última cena da série e andar sempre na corda-bamba entre o absurdo e o crível, Carrie Coon merece figurar na lista de melhores e mais memoráveis atuações da década. — Breno Costa

3. Elisabeth Moss (Mad Men, The Handmaid’s Tale, Top of the Lake)

Quem acompanhou Mad Men por quase 10 anos, sabe a grande atriz que Elisabeth Moss. Entre ser coadjuvante e principal na série, Peggy Olsen teve vários arcos narrativos que desafiaram Moss, tendo de ser mais contida na maioria dos casos, até mesmo escondendo parte de sua emoção (desde insatisfação com o chefe Don Draper até tendo que deixar seu filho para trás). A sutileza e o equilíbrio foram chave para que Moss encontrasse sua Peggy Olsen, talvez o coração de Mad Men. Em Top of the Lake, por sua vez, ela mostrou que poderia ser sim a protagonista solo da própria série, indo para um lado mais sombrio e diferente em sua performance.

Porém, The Handmaid’s Tale é a série que a catapultou para o mainstream e o devido reconhecimento de premiações. A primeira grande série original da Hulu dá à Moss a oportunidade e a responsabilidade de brilhar constantemente, numa produção que depende dela para tudo, sendo sua personagem o fio condutor da narrativa, e são poucas as cenas em que ela não esteja presente. Parte do sucesso da série é justamente sua performance arrebatadora. Manter o silêncio, dar respostas curtas sempre sob o medo de ser punida de alguma forma, trabalhar mais a linguagem corporal do que qualquer outra coisa é tarefa para poucos. Nos momentos em que coloca sua emoção para fora, ela brilha ainda mais. Quando rolam os flashbacks, podemos ver uma faceta completamente diferente da personagem, com uma performance mais solar, cheia de vida e cor, enquanto na ambientação atual ela é exatamente o oposto. É dor e sofrimento que quase não acabam, e alguns momentos da série são quase impossíveis de serem assistidos por tamanha brutalidade, mas é Moss que mantém o elo emocional com o espectador e o mantém vidrado em tela. É um papel desafiador, visceral e cheio de nuances, que a atriz interpreta com êxito, consolidando-se de vez como uma das maiores interpretes da TV nos últimos 10 anos. Sim, The Handmaid’s Tale decaiu — e muito! — depois de sua primeira temporada, e na terceira é quase impossível de assistir, mas o elenco, incluindo Moss, é o setor que ainda oferece alguma credibilidade à série. — Rodrigo Ramos

2. Julia Louis-Dreyfus (Veep)

Quando falamos em melhor atriz, normalmente focamos nos dramas e no poder de uma atuação de emocionar o telespectador. Julia Louis- Dreyfus, com certeza, transcende este conceito, sendo uma atriz de comédia completa, que conseguiu elevar o nível sarcástico da icônica Selina Meyer sem nunca soar repetitiva ou cair na zona de conforto. Além de sumir em sua personagem, dando vida para uma das figuras mais hilárias e politicamente incorretas da história da TV, Julia não deixou de emocionar, principalmente no último episódio de Veep, quando uma cena sozinha numa sala foi capaz de partir o coração de todo o público. É normal reclamarmos quando o Emmy premia a mesma pessoa consecutivamente, mostrando falta de criatividade e até de justiça. Entretanto, Julia Louis-Dreyfus é uma exceção a esta regra, uma vez que a todo ano conseguiu trazer novidades à sua personagem, fazendo valer com muita justiça todos os seus 6 Emmys seguidos. Se ela já tinha brilhado em décadas passadas em Seinfeld e The New Adventuries of Old Christine, com Veep a atriz foi a dona absoluta da comédia na década de 2010, o que a levou ao segundo lugar da nossa lista. — Diogo Pacheco

1. Keri Russell (The Americans)

Se atuar é a arte de expressar a história toda de um personagem, todo o seu passado e o seu presente, em cada momento de tela, mesmo quando uma boa parte disso tudo está enterrada sob a superfície, ninguém foi mais atriz do que Keri Russell na TV dos anos 2010. Sua performance nos seis anos de The Americans é uma aula de construção e expressão de personagem na forma como modula os traumas e os conflitos de sua Elizabeth Jennings para cada situação em que ela se envolve.

No fim das contas, o que Russell faz aqui é escolher exatamente o quanto abrir as rachaduras na armadura de estoicismo e frieza de Elizabeth, o quanto revelar a insuspeita tempestade emocional por baixo dela, a cada cena. A genialidade do trabalho de Russell está também, no entanto, na forma como ela escolhe expressar essa tempestade — sem melodrama, ela traduz a angústia em fúria, deixando com que as veias de Elizabeth pulsem com o único sangue quente o bastante para derreter a camada de gelo que ela construiu para si mesma. Ela é aterrorizante, às vezes. Com seus olhos verdes profundos transmitindo tanto cansaço quanto determinação, é frequentemente fascinante. E, com a força nervosa e desesperada que se acumula nas últimas temporadas de The Americans, é sempre absurdamente humana. — Caio Coletti

Menções honrosas: Eva Green (Penny Dreadful), Maggie Gyllenhaal (The Honourable Woman, The Deuce), Amy Poehler (Parks and Recreation), Kirsten Dunst (Fargo), Sofia Helin (Bron/Broen).

MELHORES EPISÓDIOS

10. Atlanta – S01E07: B.A.N.

Direção: Donald Glover | Roteiro: Donald Glover
Exibido originalmente em 11 de outubro de 2016.

Consolidando a primeira temporada de Atlanta como uma série que aposta em várias frentes para contar suas histórias que passam da dramédia até a comédia de absurdo (com a ousadia de nem sempre prezar pela ligação concisa entre um episódio e outro), Atlanta chegou ao sétimo episódio da primeira temporada com “B.A.N.” apostando na influência do humor de esquetes deste século para produzir um episódio baseado num programa jornalístico transmitido num canal de TV dedicado ao público negro. Através de um debate sobre sentido (ou a falta de) de músicas e mensagens em redes sociais, reportagens e comerciais que brincam com elementos estereotipados da cultura negra americana, o episódio faz piada com interpretações do politicamente correto e a tentativa de produzir manchetes através de declarações muitas vezes desprovidas de sentido.

Além do destaque para a interpretação de Bryan Tyler Henry (Papperboi) — que tem neste episódio o seu melhor momento na série –, Atlanta se consolida-se também no panteão das comédias com esquetes ao apresentar a história de Antoine Smiles (Niles Stewart), um homem negro na casa dos 30 anos e que afirma ser branco, um caso raro de “transracialidade” ao ponto de mudar seu nome para Harrison Booth. O personagem tenta comportar-se como branco ao tentar falar com a polícia para incriminar um negro sem motivo aparente, vestir roupas caqui, tinge o cabelo de loiro, usa franja e finge interesse em golfe e arte. Sendo tratado com deboche por Papperboi, mas com respeito pelos dois outros debatedores da mesa em uma entrevista posterior, Harrison Both acaba por perder toda a credibilidade para esses quando faz uma declaração contra a transexualidade. Escrito e dirigido por Donald Glover (vencedor do Emmy de direção de comédia pelo episódio), “B.A.N.” é um herdeiro direto de outros programas aclamados como Key and Peele e, especialmente, Chappelle’s Show. E assim como ambos, possui o potencial de influenciar toda uma nova geração da comédia negra americana. — Cristian Dutra

9. BoJack Horseman – S04E11: Time’s Arrow

Direção: Aaron Long | Roteiro: Kate Purdy
Exibido originalmente em 8 de setembro de 2017.

“Time’s Arrow” é o episódio que antecede o fim da quarta temporada de BoJack Horseman, que focou em mostrar raízes e frutos da família Horseman. Nele, vemos trechos da infância de Beatrice, mãe de BoJack, de sua relação com o pai, que constantemente a criticava, comportamento que ela depois replica com seu filho. E vale destacar como é linda a forma com que o episódio transita fluidamente entre passado e presente. Vemos também sua juventude quando conheceu o pai do BoJack e o fracasso do casamento dos dois. É incrível como em menos de meia hora, a série consegue aprofundar tanto a personalidade de Beatrice e os fatos que contribuíram para ela ter sido a péssima mãe que foi para o protagonista. No entanto, um grande feito da série e que o episódio exemplifica é nunca deixar de responsabilizar os personagens por suas escolhas. Quando conhecemos suas razões de ser, o objetivo é despertar a empatia e a compreensão e não arrumar desculpas para que ajam da forma como agem.

O fato de se tratar de uma animação, dá liberdade para a série ousar e usar de elementos que não caberiam tão bem em outros formatos e que enriquecem o episódio. Como por exemplo, o fato de que os rostos da maioria das pessoas (e animais rs) são vazios e sem detalhes em alusão às memórias embaçadas da Beatrice, enquanto o rosto da Henrietta parece coberto de propósito. “Time’s Arrow” é um belo exemplar de como essa comédia animada consegue trazer episódios dramáticos se valendo de seu texto e do nível de cuidado e detalhe com os quais a animação é feita. — Valeska Uchôa

8. Watchmen – S01E06: This Extraordinary Being

Direção: Stephen Williams | Roteiro: Damond Lindelof, Cord Jefferson
Exibido originalmente em 24 de novembro de 2019.

Episódios inteiramente passados em flashback (“Across the Sea”, de Lost) ou na dentro da cabeça de algum personagem (“Flashes Before Your Eyes”, de Lost e “International Assassin” e “The Most Powerful Man in the World”, de The Leftovers) sempre estiveram presentes na obra de Damon Lindelof. O sexto episódio da primeira temporada de Watchmen, contudo, faz o quase impossível: junta os dois conceitos. Passado quase inteiramente na mente da protagonista, Angela Abar (Regina King) e ao mesmo tempo um flashback das lembranças do avô da mesma, Will Reeves (Jovan Adepo, na versão mais nova), o episódio traz consigo o melhor dos dois conceitos. Esteticamente, o episódio, quase todo em preto e branco, conta com passagens de ambiente que simbolizam o pensamento entrecortado de Angela durante sua “viagem” no que parecem ser longos planos-sequência. Há um momento específico, por exemplo, em que Reeves e sua esposa, June (Danielle Deadwyler), conversam sobre um filme significativo para o primeiro, ao passo que a câmera coloca os dois em segundo plano e passa a focar a parede da sala, onde o filme começa a ser reproduzido, como em uma sala de cinema. Para além da estética impecável, o episódio conta com um dos mais importantes discursos visto esse ano na TV: o primeiro herói americano, que na história da série é aquele que impulsiona a criação do grupo de heróis que dá nome à série, é um homem negro. Um homem negro que só colocou a máscara pela primeira vez porque, embora policial, não conseguia o respeito necessário da população e dos colegas de profissão para fazer a justiça que tanto almejava. A importância da história no contexto histórico-social em que nos encontramos (não só nos EUA, mas aqui também no Brasil) e a estética impecável tornam esse episódio o melhor de 2019 e, com certeza, um dos melhores e mais relevantes da década. — Breno Costa

7. BoJack Horseman – S05E06: Free Churro

Direção: Amy Winfrey | Roteiro: Raphael Bob-Waksberg
Exibido originalmente em 14 de setembro de 2018.

Demorei uns 10 dos 26 minutos do sexto episódio da quinta temporada de BoJack Horseman, “Free Churro”, para sacar o que estava se passando na minha tela. Quando finalmente percebi, fiquei torcendo para aquilo nunca mais acabar. Mais do que um episódio que dá adeus a um de seus mais complexos personagens, “Free Churro” é uma aula de domínio narrativo. Poucos são os roteiristas em ação (ou aposentados) que teriam a maestria de segurar um episódio de quase meia hora baseado em um grande e ininterrupto monólogo, mas Raphael Bob-Waksberg, também criador e showrunner da série, conseguiu brilhantemente. O trabalho de voz de Will Arnett, cujo monólogo, dizem por aí, foi gravado todo de uma vez sem pausas, em “Free Churro” encontra seu momento mais inspirado. Mais do que isso, o episódio é uma homenagem a tudo que a série construiu até então: seria impossível esse episódio existir se a relação entre BoJack e sua mãe não tivesse sido bem trabalhada como foi desde a primeira temporada da série. — Breno Costa

6. Fleabag – S02E01: Episode 1

Direção: Harry Bradbeer | Roteiro: Phoebe Waller-Bridge
Exibido originalmente em 4 de março de 2019.

“This is a love story”. O 2×01 de Fleabag é daqueles episódios que eu queria ter escrito. E se algum dia conseguir escrever algo próximo em qualidade, eu me considerarei uma roteirista extremamente bem-sucedida. Pra começar que ele entra na minha categoria de episódios favorita, que é a de lockdown. Lockdown episode é aquele que se passa inteiro ou quase inteiro num ambiente restrito em que o mais comum é que o personagem fique literalmente preso. E aqui já começa a genialidade desse episódio em particular: é um lockdown em que ninguém está preso de fato. A qualquer momento é só levantar e sair daquele restaurante com a garçonete irritante. Mas ao mesmo tempo não é, porque quantas pessoas de fato já simplesmente saíram de uma reunião familiar? É uma prisão subjetiva que carrega o peso de incontáveis e implícitas normas sociais, da qual só é possível escapar nas pausas pra um cigarro (é por essas e outras que eu não paro de fumar).

O episódio transcorre ao longo de um jantar. Assim são os episódios desse tipo, em que pouco de fato acontece. Muito, por outro lado, é dito sobre cada personagem ali. Presos sem escapatória uns aos outros, muito é dito e não dito sobre quem de fato são aquelas pessoas. É, logicamente, uma aula de diálogo, com espaço de sobra para pausas esquisitas, atropelamentos de fala e silêncios constrangedores. Mais do que isso, é um episódio que nega o caminho cínico (e previsível) da dramédia tradicional: tudo parece bem, mas no final BUM fica com esse drama muito dramático, profundo demais (a minha grande crítica, inclusive, à primeira temporada de Fleabag, que termina nesse tom). Na segunda, as coisas estão bem. Mesmo. Claro, haverá crises e momentos difíceis. Mas nem tudo precisa ser traumático e horrível para ser profundo. Tanto que esse episódio já estabelece a tônica do meu ponto favorito da temporada: todos os personagens são aprofundados e ganham mais camadas e complexidade, bem como se tornam mais profundas as relações que estabelecem entre si. A relação de Fleabag e Claire, que já era incrível, dá um salto nesse episódio e na temporada como um todo. Vamos da comédia ao drama de volta à comédia simultaneamente de forma orgânica e como um soco no estômago. Ou talvez esteja tudo lá ao mesmo tempo. Juro que a referência ao soco foi acidental. — Luiza Conde

5. The Leftovers – S03E08: The Book of Nora

Direção: Mimi Leder | Roteiro: Tom Perrota, Damon Lindelof, Tom Spezialy
Exibido originalmente em 4 de junho de 2017.

Quando The Leftovers chegou ao seu último episódio, era difícil adivinhar o que viria pela frente. Sendo uma série que desafiou o espectador do início ao fim, o series finale tinha várias possibilidades, porém Tom Perrota e Damon Lindelof apostaram em um episódio baseado na simplicidade, quase que em sua totalidade no imenso talento de seus protagonistas Carrie Coon e Justin Theroux. “The Book of Nora” deixa de dar tanta atenção para as suposições sobrenaturais para contar uma história de amor que sobreviveu aos anos. A jornada de Nora e Kevin é fascinante. Ambos sofreram de algum modo com a Partida Repentina. Danificados, se juntaram. Enquanto juntos, sabotavam o relacionamento, mantinham segredos um do outro, e em “G´Day Melbourne” colocaram para fora todo o ressentimento e raiva, e por fim se afastaram. Foi necessário perderem-se para notar o quanto um fazia diferença na vida do outro. Ela se escondeu do mundo. Ele passou anos à sua procura, até que o reencontro ocorreu e Kevin resolveu fingir que nada havia acontecido e que esta era a primeira vez. Contudo, o passado não nos deixa, por mais que queiramos.

De modo brilhante, a diretora Mimi Leder conduz um finale inesperado e com uma carga emocional gigantesca. Para aqueles que buscam algum tipo de resolução sobre a questão sobrenatural, da Partida Repentina, há também alguma resposta, porém isto não é Lost. A complexidade desses personagens é muito maior do que qualquer mistério e The Leftovers abdicou o rótulo lostiano para se focar no que mais importa, que são as histórias desses personagens. Aqui, Kevin e Nora completam seus arcos da maneira mais satisfatória possível. Não há nada inexplicável acontecendo, sejam dilúvios, sumiços repentinos, rituais ou visitas ao outro lado. É um episódio que baseia-se em um roteiro extremamente bem escrito (alguns dos diálogos estão facilmente entre os melhores da história da tevê) e atuações fenomenais de Coon e Theroux. Cada olhar, fala, hesitação, respirada, gole de uma bebida na xícara, expressão facial e até a linguagem corporal, são devidamente entregues com alma pela dupla, e tudo magistralmente dirigido por Leder. Durante os últimos minutos da série, com uma longa conversa, ela tem a sabedoria de deixar tudo ao natural, ao som ambiente, sem nenhuma trilha, colocando a câmera na cara desses dois monstros da atuação; Coon fantástica ao expressar emoções como poucos interpretes são capazes, e Theroux é posto em uma posição dificílima, que é reagir de acordo com tantas informações e sensações.

The Leftovers e “The Book of Nora”, por fim, estabelecem que há sim esperança, mesmo após tanta tristeza, dor e solidão. E o amor pode ser a chave para isso. Por mais batido que tal constatação possa soar, a série conduz para esse desfecho com primor e sem soar prepotente, sem criatividade ou clichê em nenhum dos 72 minutos de episódio. — Rodrigo Ramos

4. Mad Men – S04E07: The Suitcase

Direção: Jennifer Getzinger | Roteiro: Matthew Weiner
Exibido originalmente em 5 de setembro de 2010.

Existem episódios que conferem a grandes séries algo especial que refletem o sentimento que estamos vendo algo diferenciado. Algo grandioso. Toda grande série funciona assim e entra nessa barreira para se consolidar em algum momento. Mad Men teve alguns momentos assim previamente, porém, sem dúvidas “The Suitcase” é o maior deles. Por quê? Porque o conceito de um “bottle episode” de personagens juntos num só cenário durante a grande parte de um episódio pode render apenas um episódio preguiçoso ou que extrapola as possibilidades narrativas e artísticas de forma excelente. E aqui vemos a segunda opção em uma das melhores horas já feitas na história das séries de TV. Dirigido por Jennifer Getzinger e escrito pelo próprio showrunner da série Matthew Weiner, o episódio se foca em abordar o relacionamento dos protagonistas da série Peggy (Elisabeth Moss) e Don (Jon Hamm) enquanto eles trabalham juntos, sozinhos e isolados do mundo, aparentemente. Maravilhosamente bem escrito e dirigido, o episódio aproveita ao máximo a química dos dois atores e a dinâmica fascinante de dois grandes personagens oferecendo um estudo não apenas da forma que eles se relacionam mas sobre eles mesmos, extraindo ainda interpretações geniais tanto de Moss quanto de Hamm. É tudo tão bem desenvolvido que ficamos totalmente entregues em ver aqueles personagens passando um tempo juntos. É engraçado em alguns momentos, dolorosamente comovente e triste em outros, quebra expectativas e desenvolve com perfeição um dos relacionamentos mais complexos da história da TV oferecendo novas temáticas sobre a série e retomando questões antigas. É genial. Uma obra-prima. — Diogo Quaglia

3. The Americans – S06E10: START

Direção: Chris Long | Roteiro: Joel Fields, Joe Weisberg
Exibido originalmente em 30 de maio de 2018.

“Assim expira o mundo/ Não com uma explosão, mas com um sussurro”, avisa a muito repetida frase do poeta T.S. Eliot. The Americans foi fiel a si mesma até o final, e o epicamente emocional “START” era o único fim que essa história, da forma como ela foi contada, poderia ter. Seria fácil demais, atalho demais, matar os personagens como punição pela ambiguidade moral que apresentaram no decorrer da série — ao invés disso, os showrunners Joe Weisberg e Joel Fields escolheram deixá-los viver no mundo quebrado que eles não criaram, e nem tem o poder de mudar. Ainda mais magistralmente, Fields e Weisberg escolheram criar um finale fundado em compaixão, em misericórdia, daquela que Stan relutantemente concede aos vizinhos e amigos de anos a fio àquela que Philip e Elizabeth escolhem dispensar ao filho, Henry, mesmo que isso signifique uma separação definitiva da unidade familiar. É um tipo de atitude nobre e humana que só poderia ser tão agridoce assim em The Americans, uma série que buscou até o fim conciliar os efeitos destrutivos da guerra como instituição (e não dos lados ideológicos dela) em seus personagens. Com um título como “START”, o episódio final de The Americans nos comunica que essa conciliação não acabou só porque a série chegou ao fim, e provavelmente não vai acabar nunca. Só as melhores narrativas são capazes de reconhecer as próprias limitações da mídia em que se encontram e transformá-las em virtudes. — Caio Coletti

2. The Good Wife – S05E05: Hitting the Fan

Direção: James Whitmore | Roteiro: Robert King, Michelle King
Exibido originalmente em 27 de outubro de 2013.

“Isso nunca foi pessoal”. “Não tô nem aí”. Esse episódio está na lista de melhores da década simplesmente porque ele consiste em 44 minutos da mais pura perfeição televisiva (vocês lembram quando 44 minutos eram suficientes antes dos prestige dramas acabarem com nossos sonhos?). Da trilha crescente, ao ritmo cada vez mais frenético, passando por algumas das cenas de baixaria e barraco mais deliciosas já vistas (porque tudo é sim muito pessoal), “Hitting the Fan” é o clímax de uma das construções mais geniais que eu já testemunhei em narrativas seriadas, e que se inicia muito antes no episódio 4×14 (“Red Team, Blue Team”), numa semente de insatisfação plantada que vai crescendo episódio a episódio até desembocar em “Hitting the Fan”, em que Alicia e Cary finalmente saem da firma para fundar a sua própria, carregando diversos colegas e roubando alguns clientes essenciais. Como diria Will para Alicia na cena digna dos melhores melodramas em que ele varre tudo o que há em cima da mesa: “Você é horrível e nem sabe que é horrível”. E, ao mesmo tempo, não é bem assim, porque a saída de Alicia e companhia só acontece porque eles são explorados e usados o tempo todo por sócios que fazem muito menos e ganham muito mais. Mais do que isso, Will e Diane estão em vias de desfazer sua sociedade e precisam se unir agora para evitar que a Lockhart/Gardner vire pó por uma dupla de advogados que lembra muito eles próprios. E ainda tem os clientes (de uns, de outros, quem sabe?) que continuam batendo à porta. É um episódio que faz malabarismo com maestria com as 20 bolas que joga no ar (entre tramas, conflitos de personagens e a destreza de conseguir gerar empatia com todos os lados), e serve de ápice para várias tramas maiores e menores que vinham sendo construídas nesse início de quinta temporada, durante a quarta ou mesmo ao longo de toda a série (olá, Chumhum). E ainda é o propulsor de uma espiral do Will que culminará na sua morte dez episódios depois. Em suma, uma carta de amor à narrativa seriada executada com brilhantismo poucas vezes alcançado (talvez pelos próprios King no 2×10 de The Good Fight). Daqueles que a gente assiste mil vezes e de vez em quando ainda dá vontade de assistir de novo. — Luiza Conde

1. Breaking Bad – S05E14: Ozymandias

Direção: Rian Johnson | Roteiro: Moira Walley-Beckett
Exibido originalmente em 15 de setembro de 2013.

Faltando apenas três episódios para o fim da série, Ozymandias marca a ruptura total da série com suas narrativas. Os cinco primeiros minutos nos lembram de tudo como era no início, da relação de implicância entre Walt e Jesse, mas também como Walt era uma pessoa completamente diferente. Quando ele realmente pensava em sua família, a priorizava, e não havia mudado o seu mindset para chefe do crime organizado. Aí mesmo Rian Johnson e Moira Walley-Beckett, respectivamente diretor e roteirista do episódio, colocam em cena tudo o que será fundamental nos outros 40 minutos de episódio, servindo como uma espécie de foreshadowing (o foco nas facas não é gratuito, afinal, e é engraçado como o filme mais recente de Johnson se chama Knives Out – ou Entre Facas e Segredos, no Brasil – que pode ser, intencionalmente ou não, referência ao seu melhor trabalho televisivo).

Da calmaria pré-título, o episódio retorna com tiroteio. A partir daí, é tensão lá no alto até o último minuto. O episódio não teria tanto poder caso a série como um todo, em especial a última temporada, não tivesse sido concebida com tanto cuidado. Por isso a entrega emocional e o limite que cada personagem extrapola aqui encaixam tão bem. Neste episódio, Bryan Cranston é oferecido pelo roteiro afiadíssimo as ferramentas para poder usar toda a gama da sua capacidade como ator, mostrando medo, fragilidade, raiva, rancor, soberba, desespero, maldade, até o despertar da humanidade que ainda habita nele. Não só ele, mas Anna Gunn também é premiada com um texto primoroso para que Skyler brilhe, contando a verdade ao filho sobre o pai e tudo o que sabe, o confronto final com Walt (provavelmente o ponto crítico em que Walt revela a faceta do homem que se tornou) e a catártica cena no telefone. Desculpem o clichê, mas o episódio é mesmo uma montanha-russa de emoções. O passeio no brinquedo vale o ingresso e toda a espera na fila que houve até chegar nele. E após seis anos de sua exibição, “Ozymandias” ainda prova-se uma obra-prima, um marco único na TV, que nem mesmo épicos multimilionários com dragões conseguiram, quiçá chegaram perto. Conceito, qualidade e coesão. — Rodrigo Ramos

Menções honrosas: The Leftovers – S02E08: International Assassin, Sherlock – S02E03: The Reichenbach Fall, Penny Dreadful – S03E04: A Blade of Grass, Fleabag – S02E04: Episode 4, Game of Thrones – S03E09: The Rains of Castamere.

MELHORES SÉRIES (COMÉDIA)

10. The Good Place

The Good Place é a criação de Michael Schur (de Parks and Recreation, The Office, Brooklyn Nine-Nine) que mais destoa das irmãs. The Good Place tem um grupo reduzido de personagens e possui um enredo mais elaborado e seu desenvolvimento e suas reviravoltas constantemente surpreendem o espectador. Um plot interessante e bem desenvolvido nada seria sem personagens carismáticos, com os quais nos importamos e para quem torcemos. Acompanhamos esses personagens crescerem e amadurecerem e esse é um dos grandes trunfos da série. Foram construídos relacionamentos amorosos saudáveis cujo objetivo não é prender o espectador a todo custo apenas para saber se vão ficar juntos no final, mas sim como uma parte natural da vida (e pós-vida). A história partiu de um sistema que classificava as pessoas objetivamente para entender que não é uma tarefa tão trivial analisar se alguém é fundamentalmente bom ou ruim. Os seres humanos são complexos, cheios de nuances e, além disso, sofrem influência do meio em que vivem.

O humor da série é repleto de referências à cultura pop e em meio a isso ela faz críticas e comentários sarcásticos a diversos aspectos da sociedade e do modo de vida contemporâneo. Em sua reta final, The Good Place busca respostas sobre como criar um sistema melhor e mais justo para dividir os humanos em bons ou ruins e parece estar chegando à conclusão a que Michael chegou, o que importa é sempre tentar ser uma pessoa melhor do que no dia anterior. — Valeska Uchôa

9. Barry

Barry rapidamente se tornou uma das séries queridinhas do final desta década, em crítica, premiação e público. Criador, roteirista, diretor e protagonista Bill Hader é quem ajuda a série ser o que é. Inicialmente, ele vive uma espécie de caricatura de Dexter. Ele é um assassino profissional, porém aspirante a ator, que deseja pôr fim na carreira principal. Ele acaba criando vínculos emocionais, com seu professor, o pessoal da escola de atuação, e até se apaixona por uma de suas colegas. A série parodia o mundo assassino, tira casquinha de aspirantes a atores, mas também ganha densidade em seu segundo ano, colocando em pauta questões como violência doméstica, relacionamento abusivo e experiência pós-traumática, coisas que certamente não se esperava saindo da cabeça de Bill Hader. Além disso, nos proporcionou “ronny/lily”, um dos episódios mais surtados da TV na década. — Rodrigo Ramos

8. Atlanta

Após se destacar bastante em Community, Donald Glover resolveu se aventurar em trabalhos na TV e na música muito mais autorais, em que conseguiu mostrar que é um dos grandes talentos da sua geração. Assim, nasceu Atlanta, mas a série já provou ser muito mais do que o emprego de um grande astro de Hollywood. Com criatividade demais e linearidade de menos, Atlanta é uma pérola, dando voz à comunidade negra sem em momento algum cair no lugar comum ou no redundante. Com episódios antológicos como “B.A.N.” e “Teddy Perkins”, mesmo com apenas duas temporadas lançadas, Atlanta já se colocou como uma das melhores comédias da década, conseguindo ser moderna, inteligente e carismática, principalmente quando foge das tramas mais banais do seu protagonista. Assim, Atlanta mudou de patamar a carreira dos talentosíssimos Brian Tyree Henry, LaKeith Stanfield e Zazie Beetz, além de mostrar o brilhantismo dos roteiros de Donald Glover e da direção de Hiro Murai. Uma série imperdível, retrato do seu tempo e que só deve crescer em sua importância com o passar dos anos. — Diogo Pacheco

7. Master of None

Um dos melhores exemplos das dramédias modernas, Master of None, criada por Alan Young e Aziz Ansari, conta a simples história de Dev, um ator de comercial vivendo em Nova York. Na mesma pegada de outras séries do estilo, Master of None aparentemente não tem nada demais: apenas a vida de uma pessoa comum vivendo em uma cidade cosmopolita e suas questões. Contudo, Master of None consegue, melhor que grande parte das mesmas séries do gênero, passar uma realidade maior e discussões mais aprofundadas. Descendente de imigrantes, Dev lida com questões que a maioria dos millenials (claramente o público-alvo da série) já lidou ou vai lidar, como por exemplo a complexa relação entre a religião de seus pais e a sua própria (ou mesmo falta de). Além de tiradas e diálogos muito engraçados, Master of None encontra ainda espaço para discutir questões sérias em episódios emocionantes, como no impecável “Thanksgiving” da segunda temporada. Não à toa, as duas temporadas da série contam com 100% de aprovação no site Rotten Tomatoes e figura na lista de melhores comédias da década. — Breno Costa

6. Enlightened

A série co-criada e estrelada por Laura Dern e Mike White que estreou em 2011 e foi cancelada em sua segunda temporada em 2013 devido à baixa audiência é de longe uma das melhores produções do canal HBO. A dramédia que impressionou a crítica por destoar de tudo que a televisão tinha para oferecer no momento que esteve no ar é de fato bastante distinta. Enlightened conta história de Amy Jellicoe (Laura Dern), uma executiva de um alto cargo de uma multinacional, que tem um colapso nervoso no meio do expediente e passa seis meses em uma reabilitação no Havaí aprendendo uma abordagem de vida mais… iluminada. No primeiro episódio acompanhamos o retorno de Amy à sua vida depois da reabilitação, tentando colocar em prática toda a paz espiritual que cultivou durante seu tempo fora e percebendo que ser iluminada na vida real é muito, mas muito, mas muito difícil quando você tem que lidar com ser rebaixada de cargo no trabalho, com o ex-marido, com o amante, com colegas de trabalho maldosos e por último, mas não menos desafiador, voltar a morar com a sua mãe (que é interpretada por Diane Ladd, mãe de Laura Dern na vida real).

Apesar do título, poucos momentos de Enlightened são de fato iluminados. A série, muito pelos momentos de incômodo causados pela dificuldade da protagonista em ser iluminada em seu cotidiano, arranca algumas risadas, mas costuma tender bem mais pro drama do que pra comédia, e de alguma forma (não sei se necessariamente proposital) acaba conseguindo subverter ambos os gêneros, lembrando que em 2011, num contexto pré-dominação do streaming, os limites de gêneros narrativos ainda eram bastante demarcados. Mas onde Enlightened brilha de fato é em seus momentos mais íntimos e reflexivos, principalmente nos monólogos na voz sussurrada da Laura Dern, que em minha opinião, são os ápices da série. É muito interessante de acompanhar a jornada de Amy em querer ser uma pessoa melhor, sendo que a sua motivação no seu cerne é extremamente egoísta, porque além de querer ser vista e reconhecida como altruísta, ela só não quer ser quem ela era, custe o que custar. 

Em seus 18 episódios (sendo todos eles escritos pelo co-criador, Mike White, que possui em seu currículo o roteiro de Escola de Rock, dirigido por Richard Linklater), Enlightened nos mostra uma série inerentemente humana, com personagens falhos, aprendendo repetidas vezes como estamos à mercê da vida e que para conseguir mudar, muitas vezes, só querer não é o suficiente. Até o momento que é. — Régis Regi

5. Community

A partir de roteiros intrincados, enredo bem organizado e humor criativo, a obra criada por Dan Harmon abordou as experiências de sete amigos matriculados numa afamada Universidade Comunitária. Um dos elementos mais interessantes de Community foi ter transformado um grupo de outsiders, que vão de um ex-atleta que não consegue entrar numa universidade de ponta e uma ex-rainha de baile colegial com tendências aditivas e problema de saúde mental, até um advogado sem licença e um idoso com tendências preconceituosas em o grupo “descolado” que todos invejam e querem estar. Conhecida em seu tempo como cult, anos após o seu final a série ficou conhecida por episódios extremamente inventivos, humor à frente do seu tempo e por lançar nomes importantes do atual cenário da TV como Dan Harmon, Donald Glover e Alison Brie. — Cristian Dutra

4. Parks and Recreation

Em sua primeira temporada, Parks and Recreation surgiu como um “The Office wannabe”. Quem diria que um ano depois, em sua segunda temporada, a criação de Greg Daniels e Michael Shur (que vieram de The Office) criaria uma identidade deliciosamente própria e se tornaria uma das grandes comédias já feitas na TV, até superando The Office e a gigante maioria das séries de comédia na minha modesta opinião durante sete hilárias e tão bonitas temporadas.

Mas o que torna Parks uma série tão especial e tão majestosa? Várias coisas. Mas a mais especial talvez seja que o coração da série está no lugar mais certo possível. Parks é uma comédia que emana humanidade. Em um tempo de séries de anti-heróis, protagonistas vilões e narrativas pessimistas sendo reconhecidas e consideradas de prestigio, as comédias do Michael Shur (The Good Place e Brooklyn Nine-Nine) são uma força que vão na direção contrária a isso e Parks é o melhor exemplo disso. Entre temporadas que vão da perfeição absoluta até um sentimento de inspiração sensacional, a série consegue nos conectar de tal maneira com aquele grupo de personagens tão engraçados quanto cômicos em suas estranhezas e suas relações afetivas, construídas de forma tão engraçada quanto calorosa.

Se Veep é o retrato da política como um sistema destruidor e de agentes desprezíveis, Parks mostra como existem agentes transformadores ou bem-intencionados dentro delas, com todas as suas idiossincrasias se apoiando no otimismo inspirador e nunca ridículo da sua protagonista Leslie Knope (Amy Pohler, genial). É quase como um atestado do que superficialmente a Era Obama transmitia antes de chegarmos na Era Trump. Parks e as séries de Shur têm uma essência típica dos filmes de Frank Capra: são otimistas, esperançosos e focados no coração dos seus personagens, acreditando na bondade de todos ao seu redor, porém nunca caem no meloso, no ridículo ou no moralista. A amizade entre aqueles personagens é inspiradora, assim como os seus relacionamentos. A série acredita nas pessoas, no trabalho em grupo, na humanidade e que podemos fazer algo melhor para o mundo e para aqueles que estão em nossa volta. Ela é engraçada, cheia de esperança, com personagens cativantes, sacadas incríveis e o coração no lugar certo com um elenco perfeito que rende interpretações inspiradíssimas da já citada Amy Pohler e excelentes Nick Offerman (genial também), Adam Scott (perfeito), Audrey Plaza, Rashida Jones e por aí vai. — Diogo Quaglia

3. Veep

Com um texto ágil, inteligente, provocador e impagável, a nossa terceira melhor série de comédia da década conquistou muito prestígio e aclamação ao explorar os inescrupulosos bastidores da política com classe e irreverência. Enquanto séries de drama como House of Cards falharam ao retratar este mundo com fidelidade, foi Veep que chegou mais perto, visto que a política é realmente um grande circo e o remédio para isto é rir, mesmo que de forma tão crítica ao modus operandi dos nossos representantes políticos. Mesmo com uma protagonista que rouba completamente a cena e se destacou demais em todos os seus 65 episódios, Veep sempre foi capaz de distribuir bem o tempo de tela com todo o restante do elenco, que sempre esteve na medida certa, divertindo o público como poucas comédias são capazes. Com criatividade e ousadia, Veep conseguiu se manter no topo das comédias por sete temporadas, algo cada vez, mais raro neste mundo da televisão, fazendo jus à terceira posição entre as melhores séries da década de 2010. Uma metralhadora de piadas ácidas e implacáveis que nunca se acomodou e a cada temporada levou seus personagens a lugares inusitados e inexplorados. — Diogo Pacheco

2. BoJack Horseman

O primeiro ano de BoJack Horseman é irregular, como se a série não soubesse ainda qual era o fundamento da sua existência, apesar de clara ficar a intenção de brincar com os padrões de Hollywoo(d). Porém, a partir de sua segunda temporada, BoJack Horseman inicia uma escalada que até na primeira metade de sua derradeira temporada (ela será finalizada no dia 31 de janeiro de 2020) não teve mais quedas. Sem a pretensão de sê-lo, a animação acabou se tornando a melhor obra original da Netflix e elevou o patamar do gênero. É a primeira vez (ou a primeira em muito tempo) que uma animação adulta realmente se comporta como adulta num sentido bem amplo. Claro, há a liberdade de se falar de sexo, ter palavrões, mostrar o uso de drogas lícitas e ilícitas. Contudo, BoJack Horseman utiliza-os como elementos narrativos e não como vitrine só para mostrar que pode, diferente de outras animações.

BoJack Horseman se tornou uma série que critica com afinco não apenas Hollywoo(d), mas também comportamentos da sociedade, desde famosos que se candidatam a cargos políticos sem sequer entender coisa alguma da área até aborto, armas de fogo e como a sociedade odeia as mulheres. É incrível como ao longo dos anos a série (juntamente com os roteiristas) amadureceu tanto em temática e criatividade. O arco narrativo traz um típico homem difícil, ao estilo Mad Men, Breaking Bad, e The Wire. Entretanto, a própria série faz questão de condenar os comportamentos, ainda que o personagem principal sempre encontre uma maneira de escapar das verdadeiras consequências — ao menos, até ao fim da série, que ao tudo indica irá trazê-las. Mas, mesmo fugindo até onde conseguiu, é mais um modo de representar o que acontece com o homem lixo em Hollywoo(d), que costumeiramente ganha novas chances com o tempo — ou de imediato mesmo. Porém, independente das consequências maiores, a série mostra como o fato de BoJack ser uma pessoa tóxica — para si e para os outros — faz com que as pessoas o tratem diferente e ele acaba afastando aqueles de que gosta, alguns inclusive acabam tendo destinos até mesmo trágicos.

Da maneira descrita até aqui, parece que BoJack Horseman é um drama pesadíssimo, e por oras é. Ela trata de temas como assédio, depressão, solidão, divórcio, assexuais, maternidade, morte, relacionamentos tóxicos e abusivos (inclusive dentro da família), mas ela é igualmente brilhante no que faz dela uma das comédias mais inteligentes e engraçadas da década. Em boa parte de suas seis temporadas, os roteiristas da animação conseguem equilibrar o clima mais denso com as piadas, desde aquelas evidentes com os cenários, easter eggs e as versões humanoides de animais, até umas piadas tão idiotas (barris de lubrificante e robô sexual, só para citar duas) que é quase inacreditável que elas dividem espaço com temas tão pesados. E ainda assim faz sentido dentro da concepção do projeto.

BoJack Horseman é uma grande narrativa que, entre risadas e socos no estômago, destaca-se por dar valor aos personagens e suas jornadas. Ela é criativa, colorida, atual, bem escrita, conta com um trabalho estupendo do elenco de dubladores (Will Arnett não ter vencido até hoje um prêmio pela série é um crime) e, mesmo próxima de sua aposentadoria no início da próxima década, deixará um grande legado, não só para a animação, como também para a televisão, provando ser tão grande quanto os maiores dramas e comédias live-action dos últimos 10 anos. — Rodrigo Ramos

1. Fleabag

Fleabag foi a série que ganhou o coração de todo mundo em 2016 (inclusive entrou na lista daqui do Previamente), estreou depois de um hiato de três anos a sua segunda (magnífica) e última temporada, e acabou ganhando uma avalanche de indicações e prêmios, incluindo o Emmy de melhor comédia contra favoritas como Veep e The Marvelous Mrs. Maisel. Para quem (como eu) estava preocupado com o retorno, achando que temporadas tão redondas como a primeira de Fleabag não deveriam ser revisitadas, prepare-se para se surpreender com a capacidade de escrita e de atuação de Phoebe Waller-Bridge e todo o resto do elenco, que conseguem manter a qualidade e todo charme que nos fez gostar da série em primeiro lugar.

No segundo ano da série, por conta do casamento do seu pai com a sua madrinha, vemos Fleabag sendo obrigada a lidar com as consequências dos acontecimentos da primeira temporada e também os envolvidos, e além disso também nos é introduzido o personagem do padre que é o responsável pela cerimônia, interpretado por Andrew Scott (Sherlock), que ao passar tempo com a família, se apaixona por Fleabag. Nada ilustra melhor a série do que a temporada começando com a personagem limpando o nariz sangrando e quebrando a quarta parede nos alertando que aquela seria “uma história de amor”. Em outra curta temporada de apenas seis episódios e continuando com o tema de navegar em relações interpessoais e fazendo o melhor possível (ou ao menos tentar fazer o melhor possível), Fleabag nos leva para outra jornada com a sua personagem, e por mais que agora soe menos inovador, já que a conhecemos há alguns anos, acho que esse é justamente o motivo de nos impactar de forma mais profunda.

Um ponto que me sinto obrigado a destacar é a relação entre Fleabag e Claire. A dupla é sem dúvida a melhor interação entre irmãs que já vi em toda televisão, que na verdade, de certa forma, é a verdadeira história de amor narrada pela temporada. A confiança que Phoebe Waller-Bridge tem em sua narrativa e em suas personagens é não apenas admirável e tangível, mas também é algo que falta em muitas séries por aí (vale destacar o primeiro episódio da nova temporada, que é inteiro centrado é um jantar e todos os personagens estão o mais afiados possível). Se a primeira temporada já foi uma excelente surpresa e uma das melhores estreias do seu ano, a segunda temporada de Fleabag, ao meu ver, se consolidou como uma das melhores séries de comédia na história da televisão moderna. — Régis Regi

Menções honrosas: The Marvelous Mrs. Maisel, Brooklyn Nine-Nine, Insecure, The Comeback, Better Things.

MELHORES SÉRIES (DRAMA)

11. Feud: Bette and Joan

Quando saiu a notícia de que Ryan Murphy seria responsável por uma série antológica que falaria sobre tretas famosas, pensei: “amiga, você tá bem?”. Murphy é flamboyant demais e isso parecia o tipo de projeto que daria muito errado. Quando Feud: Bette and Joan finalmente estreou, fui assistir, mais por curiosidade mórbida e pela admiração por Jessica Lange e Susan Sarandon do que esperando algo com substância de fato. É claro que Murphy e sua equipe não deixam de lado o glamour, mas episódio após episódio nota-se que a série (que hoje é considerada minissérie já que o autor desistiu de contar novas tretas) tem realmente uma proposta que vai além do superficial e genuinamente leva a algum lugar.

Feud aborda como a indústria hollywoodiana, dos estúdios aos tabloides, trabalham para fomentar a rivalidade feminina e lucrar com isso. E como duas mulheres, Bette Davies e Joan Crawford, ambas talentosas, cada uma do seu jeito, passaram a vida se digladiando por conta de uma sociedade machista que busca isso — e infelizmente pouca coisa mudou nesse sentido. A série não está interessada apenas em mostrar as farpas entre as duas (há tempo para isso, rendendo cenas engraçadíssimas), mas também entendê-las, ver como cada uma se sentia, suas vidas pessoais minadas em detrimento à carreira, como lidavam com a indústria do jeito que era, o ageismo que enfrentaram, as mágoas e os arrependimentos. Feud toma todo cuidado para fazer o retrato mais justo possível dessas duas figuras e alcança a excelência em produção, execução e atuação. Feud: Bette and Joan é de partir o coração. Um trabalho excepcional, o melhor de Murphy até aqui. — Rodrigo Ramos

10. Fargo

Esta é uma lista das melhores séries da década, contudo acho necessário começar falando de um filme: Fargo, de 1996. Defenderei essa obra incrível até a morte. E o fato de que Noah Hawley conseguiu trabalhar em cima de algo que já era perfeito, e aperfeiçoar… Bom, não sei nem se existem adjetivos para melhor do melhor. Hawley pega o conceito, tom e parte da trama do filme original, para construir esta que é, ao meu ver, a série de antologia mais bem estruturada como tal. Levando a seu máximo potencial, o conceito de temporadas conectadas por uma temática ou um local, e com novos elencos e personagens a cada iteração. Apropriando-se de uma história que tem em seu cerne o absurdo da violência até nos espaços mais ermos da sociedade, ele constrói um universo próprio e uma saga de crimes que costura por, pelo menos, os últimos 50 anos de história americana. Mas que encorpasse também todo o passado mítico da fronteira oeste, conquistada em meio a banhos de sangue, extermínios tão ou mais bizarros quanto o Massacre em Sioux Falls, centro da segunda temporada da série, evento o qual só chega a seu fim com a misteriosa e inexplicável aparição de alienígenas.

E é exatamente nessa segunda temporada, já sem obrigações formais ou narrativas com o seu “material de origem”, que Fargo cresce e solidifica seu posto nesta lista de melhores da década. Construindo a origem da máfia de Fargo em um pitoresco 1979, onde Regan faz sua campanha presidencial por Minnesota, enquanto uma cabeleireira presa na cidade pequena sonha com seus filmes ao assisti-los na televisão e com uma fuga para a última fronteira nacional, a Califórnia, essa temporada resume todo o conceito da série em momentos e personagens icônicos: falhas de comunicação que geram guerras ininterruptas, sonhos que muito excedem nossas possibilidades, e pessoas comuns jogadas em meio ao terror descontrolado da luta por poder, tudo isso em um envelope de farsa e absurdo que apenas revela a falta de sentido de nossas vidas diárias, em meio a um esquema cósmico desconhecido, e nossas tentativas inúteis de procurar explicações para uma existência cuja única certeza é a morte (estou apenas citando a jovem Noreen, uma adolescente de Minnesota que acaba de descobrir a obra do autor francês Camus).

Se o que ocorre no universo de Fargo parece irracional, a série não nos deixa esquecer que, apesar de seu tom absurdo e, por vezes, cômico, ela está sim presa a uma realidade. Talvez mais bem costurada, com fios narrativos vivos mais bem tramados do que estamos acostumados, mas que, por fim, tudo é baseado em fatos, onde nomes são mudados para preservar os que sobreviveram, mas a história é mantida, em respeito aos tantos que morreram na jornada. — Mariana Ramos

9. Watchmen

É dezessete de dezembro de 2019; dois dias atrás, a série Watchmen terminou sua primeira temporada. É outubro de 2015; a HBO considera Zack Snyder para a adaptação de Watchmen para a TV. É setembro de 2020; Watchmen perde o Emmy de Melhor Série Dramática, trazendo ao showrunner Damon Lindelof mais uma derrota nas premiações. É vinte de outubro de 2019; Watchmen acaba de ser lançada e fãs reclamam de não entender nada. É setembro de 2017; Damon Lindelof se descobre branco em uma sala de roteiristas cheia de pessoas negras. É setembro de 2004; o vôo 815 da Oceanic Airlines desaparece. É vinte e quatro de novembro de 2019; o melhor episódio de 2019, “This Extraordinary Being”, acaba de ser lançado, trazendo mais uma vez a hashtag #wokemen às primeiras posições do Twitter. É novembro de 1985; uma lula gigante cai sobre Nova York. É dezesseis de dezembro de 2019; uma segunda temporada de Watchmen é incerta. É quinze de maio de 2021; a versão de diretor de Liga da Justiça finalmente é lançada e é um dos grandes cotados para o Oscar de 2022 em direção. É quinze de março de 2078; Regina King é uma deusa azul. É catorze de outubro de 2011; dois por cento da população mundial desaparece. É dezembro de 2019; quem lacra não lucra, mas a Variety chama Watchmen de “sucesso boca a boca” e uma das melhores temporadas da década. É vinte e três de maio de 2010; Jack Sheppard morre. É abril de 2022, a segunda temporada de Watchmen, sob o comando de Zack Snyder e Jonathan Nolan, é um fracasso de audiência e a HBO decide não renovar a série para uma terceira temporada. É vinte e quatro de abril de 1973; a música “Tie a Yellow Ribbon Round the Ole Oak Tree”, de Dawn com participação de Tony Orlando, é um sucesso nas rádios. É setembro de 2020; Regina King perde o Emmy de Melhor Atriz para Ellen Pompeo, por Grey’s Anatomy. É setembro de 2054; Watchmen é lembrada como um marco televisivo e Damon Lindelof ganha um Emmy pelo conjunto da obra. É fevereiro de 2022; Zack Snyder ganha o Oscar de direção pela versão de diretor de Liga da Justiça. — Breno Costa

8. The Good Fight

Mesmo havendo bons exemplos de spinoffs que deram certo, nem sempre é o caso. E quando você faz algo tão bom em primeiro lugar, talvez seja melhor não mexer mais naquilo. Ainda assim, esta década foi marcada por revivals, reboots e spinoffs. Com o final de The Good Wife (grande série, porém finale medíocre), não se esperava um novo caminho para seus personagens (ou parte deles) no futuro. Mas foi o que aconteceu. Robert e Michelle King se juntaram para continuar a narrativa de Diane Lockhart (Christine Baranski) e, em tese, seria algo muito parecido com a série que a originou, todavia as circunstâncias do planeta fizeram com que no meio do caminho (de maneira mais notável a partir do seu segundo ano) a série tomasse outros rumos e ganhasse personalidade própria, exatamente o que fez dela única. Devido ao clima político de extremos e personalidades poderosas infantis que mais do que flertam com o autoritarismo, os roteiristas decidiram incorporar esses paralelos da vida real na trama. Sim, The Good Wife conseguia trazer esses elementos da atualidade para dentro da narrativa, mas The Good Fight faz isso com mais frequência, ficando até longe de tribunais e seguindo seu rumo. Para alguns, o tom político e crítico contra republicanos e a direita burra pode acabar incomodando. Dentro do possível, os Kings até tentam se manter isentos (como no episódio em que traz um caso de assédio baseado naquele reportado envolvendo o ator/roteirista/diretor Aziz Ansari, de Master of None), e até creem que é possível dialogar com os dois lados (o relacionamento de Diane e Kurt e de Marissa com Julius são prova disso), mas desde que seja fogo amigo e não pura insanidade (caso da presença de Roland Blum, o advogado interpretado por Michael Sheen na terceira temporada).

Em três anos, The Good Fight experimentou muito, em especial na terceira temporada, inserindo monólogos quebrando a quarta parede, personagens cantando, curtas musicais dentro dos episódios (nem sempre necessários, mas digamos que 70% deles contribuem de fato), Gary Carr (ator conhecido por Downton Abbey) interpretando uma versão de si mesmo, uma espécie de Taylor Swift (ou Anitta, trazendo à nossa realidade brasileira) isentona politicamente, uma suposta Melania Trump, ASMR (sim!). Além disso, os Kings, com uma sala de roteiristas mais diversa do que no passado e também um elenco igualmente diverso (e excelente, diga-se de passagem), aprendeu a trabalhar com questões que eram altamente problemáticos no passado, como privilégio branco, brutalidade policial, racismo puro e o estrutural. O spinoff desafia o espectador a separar o que é real e o que é ficção e isso é lindo demais, especialmente quando nota-se que bater em nazistas não é apenas justificável ou aceitável, é o correto a se fazer. The Good Fight é uma série inesperada, atual, audaciosa e extremamente competente em 95% do que se propõe a fazer. — Rodrigo Ramos

7. Downton Abbey

Downton Abbey é uma das melhores séries da década. Ponto. Não só pelo seu apreço à estética da época que representa, como por exemplo no uso das roupas, trejeitos e expressões, mas pelo roteiro escrito ao longo de seis temporadas exclusivamente pelo seu criador, Julian Fellowes. Fellowes entende bem a aristocracia que quer repassar nas telas, mas, mais ainda, o quão risível ela pode ser. Ao dividir sua história entre a rica família cuja propriedade dá nome à série e seus empregados, Fellowes dosa bem as questões quase sempre fúteis da aristocracia e os desafios das classes mais pobres, quase sempre funcionando uma como espelho da outra. Ao mostrar a constante perda de prestígio de uma classe que vem durando tempo demais, o autor ainda passeia por questões importantíssimas à época da série, mas que também refletem os tempos atuais, como exemplo a participação da mulher na política e nos negócios, a possibilidade de as classes mais pobres ascenderem socialmente, e a constante batalha de costumes entre gerações que não entendem os anseios umas das outras. Contando ainda com atuações memoráveis, como Maggie Smith (que faz a incrível e ácida Violet Crawley), Downton Abbey possui cenas e diálogos memoráveis, que mais do que explicam como a série alcançou o posto de uma das melhores da década. — Breno Costa

6. The Good Wife

Ok, o final de The Good Wife é péssimo. Tenebroso. Um desastre. Daqueles que a gente tem que esquecer que aconteceu para não correr o risco de arruinar a série inteira. Que fez a gente se perguntar se os King entenderam a história que estavam contando mesmo e se sabiam o que estavam fazendo. Que me deixou totalmente resistente a The Good Fight, de modo que eu só comecei a assistir o melhor drama da atualidade depois da segunda temporada. A última temporada como um todo é bem inconsistente e passa longe do genial. A segunda metade da sexta temporada idem, várias boas possibilidades frustradas por decisões narrativas equivocadas. Então o que The Good Wife está fazendo nesta lista? Bom, ela está aqui por suas outras cinco temporadas e meia, e os gloriosos 120 episódios de 156, o que está longe de ser uma “boa fase”. Nada contra séries curtas, inclusive Fleabag, eu te amo, mas é inegável que sustentar seis, 12 ou 18 episódios no total é muito diferente (e sem dúvida mais simples) do que segurar a peteca por 120 (com temporadas de 22/23). Ainda mais quando a atriz que faz a protagonista é uma pessoa uó e resolve que não vai mais contracenar com a atriz que interpreta sua melhor amiga porque ela ganhou um prêmio. Mas durante esses 120 episódios, The Good Wife foi quase impecável. Não é necessariamente a série que eu considero a melhor que já vi falando friamente, mas foi sem dúvida a que mais me moveu e mais me deixou obcecada. Eu literalmente contava meu tempo em episódios de The Good Wife (“essa fila de banco tá demorando quase dois episódios já”). Eu revi a maior parte da série com uma amiga, e depois revi boa parte com outra (porque, sim, eu enchi o saco para todos os meus amigos verem). E há construções narrativas dentro de The Good Wife que figuram entre as melhores coisas que eu já vi na televisão (como da metade da quarta até a metade da quinta, ou seja, 22 episódios sem defeitos). É uma série que soube ir se adaptando, tocando em temas relevantes para cada momento e trazendo debates para a televisão aberta que poucas obras teriam coragem de sustentar (como a violência sexual contra prostitutas logo no segundo episódio da série, ou a brutalidade policial contra a população negra no momento em que o Black Lives Matter surgia, ou ainda o caso da loja que se recusou a fazer um bolo para um casamento LGBT, pouco depois do caso real), assim se mantendo fresca mesmo sendo tão longa. O mesmo aconteceu na forma: os casos da semana foram perdendo força e dando espaço cada vez maior para uma narrativa de arco de temporada. The Good Wife está aqui porque foi e continua sendo uma das obras mais relevantes para qualquer pessoa que trabalha com TV, que estuda narrativa e mercado televisivo, ou que simplesmente viveu um caso de amor com Alicia, Will, Diane, Kalinda, Cary, Eli (você não, Peter) por gloriosos 120 episódios. — Luiza Conde

5. Rectify

Rectify, a série do SundanceTV que estreou em 2013 e encerrou em sua quarta temporada em 2016, é indiscutivelmente um dos melhores dramas da década (pra mim, o melhor). Criada pelo ganhador de Oscar Ray McKinnon, Rectify nos conta a história de Daniel Holden, um homem que viveu 19 anos no corredor da morte por ter se declarado culpado pelo estupro e assassinato da sua namorada aos 16 anos. O nosso ponto de partida é quando a série começa com ele ganhando a chance de sair em liberdade para esperar pelo rejulgamento depois que sua irmã, Amantha (Abigail Spencer), consegue que a corte faça teste de DNA nas roupas da vítima e não encontra compatibilidade genética com Daniel. Mas só porque nada foi encontrado, não quer dizer que Daniel não é culpado.

A série é um retrato muito bonito, denso e muitas vezes amargo de uma história que mostra um protagonista conturbado por passar 19 anos achando que iria morrer tendo o vislumbre de uma chance de viver novamente, mostrando como essa transição não é nem um pouco fácil para Daniel, nem para a sua família e nem para os habitantes da sua cidade natal. A trama conta com um roteiro irretocável e com um equilíbrio preciso entre momentos extremamente silenciosos e contemplativos com monólogos e diálogos longos e filosóficos, e que diferente do tom de muita série por aí, Rectify consegue entregar tudo isso de forma muito natural, sem parecer que está tentando demais ou que está forçando a barra, e muito do mérito disso, além da escrita de Ray McKinnon (que escreveu 17 dos 30 episódios da série), vai para o elenco que é extremamente afiado e comprometido com a história e suas personagens.

Rectify é um dos grandes tesouros escondidos da televisão (inclusive, acho importantíssimo ressaltar que a quarta e última temporada da série é a temporada com maior nota no Metacritic), e talvez permaneça escondida, o que é uma pena, mas é uma jornada que impactou a televisão como arte de forma que poucas séries impactaram. — Régis Regi

4. The Americans

The Americans é aquele artigo dos mais raros na década da Peak TV. Uma série que não quer impressionar com pirotecnias ou ousadias narrativas, que só busca contar a sua história da maneira mais competente possível, e deixar que o poder dela fale por si próprio. E a história de Elizabeth (Keri Russell) e Philip (Matthew Rhys), espiões soviéticos que posam como uma família norte-americana qualquer em plena Guerra Fria, falou alto durante as seis temporadas em que ficou no ar.

A produção criada por Joe Weisberg e Joel Fields trouxe um tratado de complexidade em tempos de analfabetismo político e emocional. O preço pago por pessoas que entregam tudo o que têm a uma causa (“Nós temos o direito de ter uma vida, sabia?”, diz Philip no final da quinta temporada. “Eu não posso, eu simplesmente não posso”, responde Elizabeth), o amadurecimento e o envelhecimento que levam a uma desilusão com a ambiguidade moral da vida adulta (“Às vezes, você não deseja voltar a ser uma criança?”, pergunta a filha mais velha do casal, Paige, no fim do quarto ano) — tudo está aqui, borbulhando abaixo da superfície, mascarado nas artificialidades do subúrbio norte-americano.

The Americans nunca deixou que o seu apuro visual se sobrepusesse ao trabalho narrativo, mas a direção brilhou quando foi preciso: nomes como Daniel Sackheim (“Baggage”, 3×02), Larysa Kondracki (“Stingers”, 3×10), Stefan Schwartz (“Harvest”, 6×07) e até o ator Noah Emmerich (“Lotus 1-2-3”, 5×05) mostraram que um trabalho brilhante não se faz com truques de câmera ou elaborações cenográficas épicas — que, ao contrário, tudo precisa servir à história. Em uma era de TV encapsulada (infelizmente) por Game of Thrones, é uma atitude que precisamos celebrar. — Caio Coletti

3. Mad Men

No primeiro episódio de Mad Men, “Smoke gets in your eyes”, somos testemunhas pela primeira vez de um dos momentos mágicos de criação e revelação que fazem de Don Draper um dos melhores publicitários de Nova York. Ao mesmo tempo, em suas palavras, ele nos entrega toda a jornada emocional da série. “A publicidade é baseada em uma coisa, felicidade. E vocês sabem o que é felicidade? Felicidade é o cheiro do carro novo. É estar livre do medo. É um outdoor na beira da estrada que grita, reconfortante, que o que você fizer, está certo. Que você está certo”. Essa busca pela felicidade e pela forma mais atrativa de vendê-la, enquanto afirma-se que qualquer coisa que se faz para atingi-la é correto, é parte integral da série. É uma busca que envolve e escapa a todos os personagens.

Mad Men existe em um espaço de reconstrução, mudança e turbulência social, na qual uma certa América precisa morrer para dar lugar a uma nova nação, mais jovem, mais deslumbrada, mais visual, mais perdida dentro de si. E nesse cenário, Don Draper existe mais como uma ideia do que uma pessoa em si: ele é o homem que se reinventa, que renasce dos restos do primeiro conflito americano da Guerra Fria, rouba a identidade de outro homem e passa a viver a vida com a qual acha que sempre sonhou, e que tenta encapsular e (re)criar com suas campanhas. Mas essa vida é apenas uma fachada, um outdoor como qualquer outro. De forma brilhante, com texto e atuações primorosos, a série nos leva pelos anos 60, através de eventos que marcaram a década e forjaram o ideal americano. Os momentos mais inspirados da obra eram aqueles nos quais a sua fórmula básica — funcionando quase como um procedural, com uma campanha por semana –, conseguia se misturar e refletir perfeitamente a busca diária por felicidade de seus personagens. Seja Lucky Strike, nos encobrindo sob uma cortina de fumaça, que não nos permite ver a realidade dos personagens, ou Samsonite, que precisa vender o ideal de deslocamento e força em meio a negação da perda dos rastros de um passado, somos lembrados constantemente que tudo não passa de um slogan, com uma arte apropriada para o momento, tentando dissimular as fissuras e problemas da vida normal, em um faz de conta perfeito.

Todos os personagens buscam pela felicidade e tentam se reconstruir em meio aos destroços do passado, escondendo as pessoas que foram e que querem esquecer, assim como suas campanhas tentam dar novas roupagens às marcas que atendem. Mas, se a agência de publicidade que está no centro da série consegue fornecer esse serviço para seus clientes, não é algo que está disponível para os seus protagonistas. Sempre haverá um Dick Whitman, filho bastardo e pobre de uma prostituta, uma Peggy que nunca saiu do hospício, uma Betty iludida e em frangalhos, uma Joan que foi estuprada pelo homem com quem ia se casar. É dessas pessoas que eles tentam fugir, e é a impossibilidade que os move diariamente em seus trabalhos, e que faz dessa uma das séries mais perfeitas, filosóficas e melancólicas da década. — Mariana Ramos

2. Breaking Bad

Até onde você é capaz de ir pela sua família? Essa é a questão inicial de Breaking Bad, mas que aos poucos começa a modificar-se e se transforma. Até onde você é capaz de ir pelo poder? Qual é o limite da moralidade? Breaking Bad é uma espécie de teste de caráter para seu protagonista Walter White e que muita gente se depara no dia a dia, ainda que guardadas as devidas proporções. É fácil dizer que é honesto e apontar dedos, mas se dada a oportunidade, você roubaria, trapaçaria, enganaria? A maioria talvez não o fizesse, mas digamos que a vida real está cheia de exemplos contrários, a exemplo da corrupção política, que não é pouca, desde as câmaras municipais de vereadores até o mais alto escalão federal.

No começo de tudo, o intuito de Walter White vem de um lugar muito positivo. Professor de química de escola pública, ele descobre que tem câncer e que logo deve morrer. Isto porque graças ao sistema de saúde dos Estados Unidos, seria impraticável ele se tratar da enfermidade, pois a conta seria quase milionária. Ele deixaria um filho com alguns problemas, uma esposa grávida e desempregada, sem nenhum tostão. A partir daí começa a fazer metanfetamina, mas só até angariar um valor suficiente para deixar uma vida confortável para a família. Entretanto, ao longo das cinco temporadas, Walt vai deixando a fome de poder tomar conta dele. Pouco a pouco, ele vai trilhando um caminho sem volta de um jeito que a pessoa que um dia foi simplesmente não está mais lá. A cada escolha imperdoável (ver Jane tendo uma overdose e se afogando com o próprio vômito, envenenar uma criança, matar o adversário, entregar o próprio companheiro para ser torturado), Walt vai se despindo da decência humana e é tomado pela ganância. De figura frágil, pai de família e amável com todos, ele se torna dissimulado, imponente, implacável, refém do próprio ego. Mas assim como a série mostra sua ascensão, ela também exibe sua queda e, não sendo moralista, condena e entrega as consequências das escolhas desse personagem.

No meio disso, também temos espaço para refletir sobre relacionamentos abusivos (visivelmente é isso que acontece entre Jesse e Walt), enquanto a série faz um excelente trabalho em costurar perfeitamente essa grande narrativa, fazendo de cada personagem um estudo de caso. Breaking Bad também ajudou a popularizar a alta qualidade técnica na TV, empregada mais no cinema até então. O trabalho caprichado em fotografia (sabe, tem cor!, diferente das séries da HBO no início dos anos 2000), curadoria musical, direção, além de um elenco cujo cada ator entrega tudo de si foram marcas registradas da série, que criou identidade própria e facilmente é reconhecida. Seja você fã de carteirinha do todo ou apenas mero apreciador das atuações, é inquestionável a importância da série para a evolução da TV nesta década. — Rodrigo Ramos

1. The Leftovers

O ser humano encontra diversas formas de lidar com a dor. Enquanto alguns conseguem seguir em frente por conta de uma perda ou de alguma situação traumática, outros não têm o mesmo sucesso. Por mais que o tempo tenha passado desde a Partida Repentina — quando 2% da humanidade simplesmente desapareceu da face da Terra — ainda há os resquícios das dores. The Leftovers mergulha na psique humana sem o intuito de criar várias explicações, mas faz questão de desenhar esses personagens complexos, suas crenças e como lidam com a dor. De Laurie à Kevin Sr, de Matt à Nora, cada um deles acredita em alguma coisa e a fé é que os alimenta — religiosa ou não. Na terceira temporada, por exemplo, uns creem que Kevin Jr representa o novo Jesus Cristo, Nora acredita que uma máquina irá levá-la para seus filhos que partiram, e há aquele que alega ser Deus encarnado. Já na segunda temporada, Erika e John preferem acreditar que sua filha tenha sido levada em uma nova onda da Partida e não que ela simplesmente fugiu. Tais crenças têm a ver com a necessidade do ser humano de se agarrar a algo, buscar alguma razão para explicar o que não entendem, ter alguma motivação ou sentido para sobreviverem. Independente de elas serem verdade ou não, os indivíduos são responsáveis por suas ações, sempre, mas é mais fácil se escorar em livros escritos há mais de 2 mil anos, suposições e teorias não comprovadas. O conforto, afinal, vem de várias formas, e esses personagens estão em constante procura de se curarem de feridas abertas. The Leftovers dá abertura para várias interpretações e isso a torna extremamente fascinante.

The Leftovers conseguiu provar que uma série pode se renovar a cada ano, trocando de ambientação, mas sem perder a identidade e a qualidade. E, de algum jeito, conseguiu ir se superando ano após ano. Programada para ser finalizada em seu terceiro ano, Damon Lindelof e Tom Perrota souberam dar vida aos personagens, construir seus arcos narrativos e entregar um final satisfatório para cada um deles, dando-lhes sustentação, motivação e relevância. Cada episódio tem sua cara própria, desde o primeiro até seu derradeiro ano, e toda a equipe parece estar se superando, desde o elenco até os profissionais técnicos (fotografia, direção de arte, efeitos visuais, maquiagem e trilha sonora são apenas alguns dos destaques que atingem a excelência ao longo dos três anos, além do roteiro e direção). A série se foca em contar histórias e não em explicar os motivos da Partida, deixando este entre outros mistérios em aberto para interpretação e imaginação do espectador, e se encerra de maneira sublime, delicada e inesperada. Trabalhando constantemente com a dor que é estar vivo e machucado (ou seja, ser humano), The Leftovers termina como uma história consistente e coesa, e que se encerra em sua nota mais alta, deixando uma mensagem de redenção, amor e esperança. Por ser tão eficiente, inventiva, contar com elenco impecável (Carrie Coon merece uma estátua de monumento histórico da TV por sua performance na série) e colocar seus personagens acima dos mistérios e a grande narrativa é que The Leftovers se consolidou como referência no meio audiovisual (ainda que as premiações não tenham dado o devido valor) e se consolida como o melhor drama da década de 2010. — Rodrigo Ramos

Menções honrosas: Succession, The Newsroom, The Crown, Hannibal, Fringe.

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O corpo de jurados citou, durante a eleição, 57 atores coadjuvantes, 60 atrizes coadjuvantes, 46 atores, 40 atrizes, 73 episódios, 19 séries de não-ficção, 52 séries de comédia e 47 séries de drama. Na lista final apareceram 48 séries ao todo:  The Leftovers (8 menções), The Good Wife (6), Breaking Bad (6), Mad Men (5), The Americans (4), Veep (3), Feud: Bette and Joan (3), BoJack Horseman (3), American Horror Story (2), Parks and Recreation (2), Fleabag (2), Rectify (2), Downton Abbey (2), Atlanta (2), The Handmaid’s Tale (2), Watchmen (2), American Crime (1), Seven Seconds (1), Better Call Saul (1), The Crown (1), Fringe (1), Brooklyn Nine-Nine (1), Game of Thrones (1), Orange is the New Black (1), True Detective (1), When They See Us (1), Pose (1), Hannibal (1), Sherlock (1), RuPaul’s Drag Race (1), America to Me (1), Full Frontal with Samantha Bee (1), Making a Murderer (1), The Jinx: The Life and Deaths of Robert Durst (1), O.J.: Made in America (1), Last Week Tonight with John Oliver (1), Patrick Melrose (1), The Comeback (1), American Crime Story: The People v O.J. Simpson (1), Barry (1), The Good Place (1), Master of None (1), Community (1), Enlightened (1), Fargo (1), The Good Fight (1), Homeland (1), Top of the Lake (1).

Fizeram parte do júri
Alynne Carvalho, farmacêutica, mestre em Fisiologia, já colaborou nos sites LoGGado e Cine Alerta.
Angelo Bruno, estudante de Letras — Licenciatura em Português.
Ana Bandeira, publicitária, mestre em Comunicação Social, colunista do site Ligado em Série.
Breno Costa, roteirista.
Caio Coletti, jornalista e colaborador do site UOL.
Carissa Vieira, roteirista, formada em Cinema e Audiovisual.
Cristian Dutra, administrador do grupo Crônicas de Séries.
Dana Rodrigues, editora do site Diário de Seriador.
Diego Quaglia, cineasta, roteirista e crítico de cinema e audiovisual.
Diogo Pacheco, colaborador do Série Maníacos.
Douglas Couto, fotógrafo e estudante de áudiovisual.
Fillipe Queiroz, estudante de Psicologia, aficionado em séries.
Geovana Rodrigues, sommelier de séries.
Gustavo Marques, produtor de conteúdo e entusiasta de televisão.
Leonardo Barreto, editor do Quarta Parede Pop.
Luis Carlos, administrador do grupo Crônicas de Séries.
Luiza Conde, roteirista.
Mariana Ramos, roteirista, mestre em Cinema e Audiovisual, host do podcast Maratonistas.
Rafael Bürger, bacharel em Imagem e Som pela UFSCar e cineclubista.
Rafael Mattos, estudante de Jornalismo e administrador do grupo Crônicas de Séries.
Rafaela Fagundes, sommelier de séries.
Régis Regi, bacharel em Cinema, roteirista, host do podcast Maratonistas.
Rodrigo Ramos, jornalista, editor do site Previamente, foi programador de cinema na Cineramabc Arthouse.
Valeska Uchôa, cientista da computação, ex-colaboradora do Série Maníacos e do falecido Lizt Blog.
Zé Guilherme, farmacêutico, mestre em Fisiologia, já colaborou nos sites LoGGado e Cine Alerta.

Textos por Breno Costa, Caio Colletti, Carissa Vieira, Cristian Dutra, Diego Quaglia, Diogo Pacheco, Douglas Couto, Luiza Conde, Mariana Ramos, Régis Regi, Valeska Uchôa, Zé Guilherme, André Fellipe, Rafael Bürger, Leonardo Barreto & Rodrigo Ramos

Produção, edição e redação final por Rodrigo Ramos

 

2 comentários

  1. Escrevi para site de série por alguns anos e sei o trabalho que dá fazer um post desses. Fazia tempo que não acompanhava site nacional, fiquei impressionada.

    Ia protestar por Carrie Coon não estar em primeiro lugar como atriz da década nessa lista, mas aí vi que The Leftovers venceu como drama e deu um quentinho no coração. Amo Breaking Bad, mas Leftovers tem uma intensidade diferente.

    E obrigada por não incluírem quase nada de Game of Thrones =D

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