Doutor Estranho | Crítica

A mesma receita, mas com cobertura diferente.

doctor-strange-posterNo último filme de super-heróis do ano, a Marvel faz novamente sua receita favorita, mexe no que compete às características específicas do mundo do personagem do qual trabalha e entrega um filme decente, mas que poderia ser mais ousado do que verdadeiramente é. É o mesmo bolo de sempre, com uma cobertura diferente.

A cartilha é seguida à risca. Temos aqui um personagem que é altamente talentoso, e justamente por isso é egocêntrico. Como em tantas outras histórias da Marvel, o personagem acaba se perdendo por conta do seu ego. Como um castigo divino, o personagem precisa entrar no modo humildade, reconhecer que nem tudo gira em torno de si para, enfim, poder ser dono de um poder extraordinário e ser o super-herói que o mundo precisa naquele momento. Além disso, adicione aquela personagem feminina que está ali para ser o interesse romântico, mas pouca diferença faz para a narrativa, um vilão bidimensional, com pouca fundamentação e motivação, insira algumas piadas para não ficar nada sombrio, e eis aqui mais um produto com selo Marvel Studios.

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Apropriando-se de um ditado futebolístico, em time que está ganhando não se mexe. Para a Marvel isso é o que interessa. Enquanto seus filmes derem o retorno desejado, pouca ousadia irá ocorrer — talvez o ponto fora da curva, neste sentido mais experimental em termos de roteiro e não somente no visual, seja Guardiões da Galáxia e sua continuação, que chega aos cinemas em 2017. Tal fato faz com que alguns longas do Universo Cinematográfico da Marvel acabem sendo mais esquecíveis, ainda que haja retorno nas bilheterias mundiais. Não significa, porém, que Doutor Estranho seja ruim, porque definitivamente não é — afinal, a fórmula funciona. Apenas torna os produtos da Marvel mais semelhantes do que deveriam ser entre si.

Mesmo com a receita, há virtudes únicas em Doutor Estranho. A principal delas é o visual, estupendo. Se a expectativa era algo parecido com que vimos de relance em Homem Formiga e as dobras dos prédios em A Origem, Scott Derrickson (O Exorcismo de Emily Rose) consegue dar a sensação de estarmos viajando para outros planos. Neste caso, o 3D deve fazer toda a diferença — não imagino que haja o mesmo impacto em uma sessão sem o recurso de profundidade. A cada sequência de ação novos recursos são utilizados, o que mostra criatividade da produção, não tornando a grande quantidade de efeitos visuais em algo que sobrecarregue a película, pareça artificial ou crie monotonia.

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Benedict Cumberbatch é um dos recursos que fazem de Doutor Estranho uma experiência agradável. Sua atuação é o suficiente para que enxerguemos nele Stephen Strange e não uma cópia de Tony Stark — as semelhanças são óbvias, mas o ator consegue dar personalidade ao papel, provando que tem potencial de ser o novo líder do Universo Cinemático da Marvel assim que Robert Downey Jr. cansar de ganhar dinheiro. Outro destaque é Tilda Swinton, que traz delicadeza e seriedade para a Anciã, tendo seu auge no belíssimo diálogo com Cumberbatch no terceiro ato do filme.

O resto do elenco está ali para fazer volume, e por mais que Rachel McAdams e Mads Mikkelsen sejam ótimos atores, são usados apenas como ferramentas para chegar ao ponto em que a trama precisa, mas sem demonstrar de fato profundidade. Ela é a namoradinha — Natalie Portman e Gwyneth Paltrow já estiveram na mesma posição ingrata — e ele é o vilão sem personalidade, algo que a Marvel tem a granel em seu universo nas telonas. Um herói é do tamanho do seu vilão, mas a Marvel tem dificuldades na hora de compor os antagonistas. Enquanto ela não trabalhar neste quesito, não atingirá seu potencial. Até por isso nada que fez em 14 filmes chega aos pés de Homem-Aranha 2 e Batman: O Cavaleiro das Trevas ao unir fortes protagonistas, vilões e coadjuvantes, emoção e ação de primeira.

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Imagens: Marvel Studios/Disney

Doutor Estranho
Doctor Strange

EUA, 2016 – 115 min
Ação

Direção:
Scott Derrickson
Roteiro:
Scott Derrickson, C. Robert Cargill
Elenco:
Benedict Cumberbatch, Chiwetel Ejiofor, Rachel McAdams, Benedict Wong, Michael Stuhlbarg, Benjamin Bratt, Scott Adkins, Mads Mikkelsen, Tilda Swinton

Por Rodrigo Ramos
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