Revisitando a franquia ‘Pânico’

Franquia de Wes Craven inovou o terror nos anos 90 e continua com seu legado, agora na TV.

Muitas franquias de terror mexeram e mexem com a cabeça dos adolescentes, mas uma delas tem a proeza e ousadia de brincar com o próprio gênero. Conhecido no Brasil como Pânico, Scream foi um filme inovador na década de 90. A produção de 1996 custou apenas 14 milhões de dólares e faturou mais de US$ 170 milhões no mundo inteiro. Até hoje, é o filme do estilo slasher (obras que abordam uma matança feita por um assassino psicopata) com a maior arrecadação nas bilheterias – Scream 2 ocupa a segunda colocação.

A primeira parte dessa década teve filmes de horror pouco memoráveis, porém, o projeto roteirizado por Kevin Williamson (Eu Sei O Quê Vocês Fizeram no Verão Passado, The Vampire Diares, The Following) e dirigido pelo mestre Was Craven marcou a geração. Além de mostrar as costumeiras cenas de perseguição e morte, todos os quatro filmes e a série utilizam da metalinguagem. São citadas regras baseadas nos clichês do gênero, que mudam a cada continuação. O segundo e, principalmente, o terceiro longa ainda satirizam a si mesmos. Na forma do também fictício “Apunhalada”, que no contexto da produção é baseado na história da personagem de Neve Campbell, a emblemática Sidney Prescott.

Scream (1996)

Aliás, Pânico reforça o conceito da “Final Girl”, que é muito utilizado no cinema de horror – após um massacre realizado por um serial killer, apenas uma garota sobrevive e combate o assassino. Geralmente essas moças apresentam boa conduta e têm ligação com o psicopata. Jamie Lee Curtis em Halloween e Jennifer Love Hewitt em Eu Sei O Quê Vocês Fizeram no Verão Passado são algumas das mais conhecidas. O terror sempre abordou questões sociais – o gênero é mestre na utilização de metáforas. Ao contrário do que muitos pensam, esses filmes vão além dos sustos e do sangue. Muitas críticas implícitas podem ser encontradas, como ao racismo e ao consumismo. O subgênero zumbi é o mais enraizado de significados. Eles também podem ser doutrinadores, exemplificando-se na morte daqueles que fazem sexo durante a história.

Infelizmente, com a morte de Was Craven, dificilmente teremos um Pânico 5. Isto, é claro, se os produtores não colocarem o projeto nas mãos de outro diretor, o que pode trazer resultados desastrosos. Na verdade, o fraco desempenho financeiro do quarto longa é mais um empecilho. Craven foi um dos principais responsáveis por popularizar os slashers, em 1984 com Freddy Krueger e nos anos 90 com o Ghostface. Sua filmografia fica como legado e inspiração para os novos prodígios. Inúmeros clássicos fazem parte de seu portfólio, que vão de Aniversário Macabro (The Last House on the Left, 1972) e Quadrilha de Sádicos (The Hills Have Eyes, 1977) até suas duas franquias mais conhecidas.

Como muitas obras, Scream foi transferida das telonas para as telinhas. Com a supervisão de Was e Kevin, Jay Beattie (Revenge, Criminal Minds) idealizou o seriado. Apesar da polêmica quanto à qualidade do produto, o futuro da franquia deve ser mesmo na TV, para o bem ou para o mal dos fãs. Toda adaptação para outra mídia é complicada. Fatores orçamentais e o ritmo que a história é contada geraram discussões durante a exibição da primeira temporada.

Scream tv series (killer)

Pânico (Scream, 1996)

Direção: Wes Craven
Roteiro: Kevin Williamson
Elenco: Neve Campbell, Courteney Cox, David Arquette, Jamie Kennedy, Drew Barrymore, Matthew Lillard, Rose McGowan e Skeet Ulrich.

Pode soar um pouco saudosista, mas o primeiro é sim o melhor. Toda a condução do mistérios e os assassinatos o tornam melhor que suas sequências. O filme consegue manter a tensão no alto durante seus 111 minutos de duração. Mesmo com as limitações técnicas da época e o baixo orçamento, a produção não parece piegas. Um dos maiores feitos de Scream são seus personagens. É possível distinguir a personalidade de cada um e criar um certo vínculo. Em menos de duas horas conseguimos nos apegar mais àqueles jovens, do que os adolescentes da série em seus 10 episódios. Isso só é possível através do excelente roteiro de Kevin Wiilliamson, que criou diversos diálogos demonstrativos, sem escancarar algo didático. Ele é o responsável pelo uso da metalinguagem aqui, algo extremamente inovador para a época e é até hoje pouco visto no cinema. A direção de Wes Craven é outra pérola. Poucos têm um toque tão íntimo com o terror quanto o dele. Sempre utilizando jogo de câmera para criar o suspense em relação a presença (ou não) de Ghost Face em cena. Uma tendência que se repete nos outros longas da franquia é contratar atores de TV – Courteney Cox já fazia sucesso com Friends quando foi escalada para interpretar a jornalista Gale Weathers.

1996, SCREAM

Pânico 2 (Scream 2, 1997)

Direção: Wes Craven
Roteiro: Kevin Williamson
Elenco: Neve Campbell, Courteney Cox, David Arquette, Jamie Kennedy, Sarah Michelle Gellar, Laurie Metcalf, Elise Neal, Jerry O’Connell, Liev Schreiber, Timothy Olyphant e Jada Pinkett Smith

Lançado apenas um ano após o enorme sucesso de Scream, a continuação deixa pouco a dever para o original. Dessa vez na faculdade, Sidney volta a sofrer com assassinatos ao seu redor. A revelação pode não ter sido das melhores, mas a execução do ato final foi bem satisfatória. Aqui temos a introdução do Apunhalada, baseado no livro escrito por Gale Weathers – que aqui já tem status de celebridade. Com uma cena de abertura bem impactante, Pânico 2 consegue manter a tensão apresentada pelo antecessor, adentrando em um roteiro metalinguístico e entregando mortes memoráveis aos fãs. Todo o cenário universitário funciona e as novas regras foram bem trabalhadas. Como de costume, Wes e Kevin usaram diversos atores de TV – Sarah Michelle Gellar (Buffy) tem uma participação pequena, mas marcante. O segundo longa de qualquer franquia é sempre o com maiores expectativas e, por consequência, com grandes chances de decepcionar, mas aqui, o resultado foi extremamente positivo.

Scream 2 (1997)

Pânico 3 (Scream 3, 2000)

Direção: Wes Craven
Roteiro: Ehren Kruger
Elenco: Neve Campbell, Courteney Cox, David Arquette, Liev Schreiber, Patrick Dempsey, Parker Posey, Heather Matarazzo, Scott Foley, Jenny McCarthy, Emily Mortimer , Patrick Warburton e Deon Richmond

A metalinguagem tem seu auge no terceiro longa da franquia. Dessa vez, a história gira em torno dos bastidores da continuação filme fictício Apunhalada, quando os atores começam a ser assassinados na ordem em que morrem no filme. É de longe o menos interessante – a ideia é boa, mas a execução nem tanto. Curiosamente, o pior dos quatro é o único a não ser roteirizado por Kevin Williamson. Sem Kevin, o roteiro ficou frio, com revelações fracas e mortes não tão memoráveis. O assassino, mais uma vez, é alguém ligado a protagonista e diversos fatos sobre a mãe de Sindy foram revelados. Porém, Neve Campbell não teve um peso tão grande no decorrer da história. A jornalista Gale e o policial Dewey protagonizaram grande parte dos momentos importantes. A revelação do assassino, que pela primeira vez não contou com ajuda de ninguém, foi extremamente desinteressante – não adianta usar um personagem mal construído. Para os fãs de Shonda e suas séries, Patrick Dempsey (Grey’s Anatomy) e Scott Foley (Scandal) são destaques aqui.

Scream 3 (2000)

Pânico 4 (Scream 4, 2011)

Direção: Wes Craven
Roteiro: Kevin Williamson
Elenco: Neve Campbell, Courteney Cox, David Arquette, Emma Roberts, Hayden Panettiere, Rory Culkin, Marley Shelton, Alison Brie, Nico Tortorella, Erik Knudsen e Marielle Jaffe

O quarto e, até o momento, último filme de franquia é o mais parecido com o primeiro longa. É possível ver o paralelo com a gama de novos personagens. Inclusive, na época do lançamento, surgiu um boato sobre uma nova trilogia estrelada por Emma Roberts, prima da protagonista Sindy. Mas, como vocês podem saber, o final da história joga esse boato no ralo. Toda a trama mostra como Pânico envelheceu bem. Nada soa ultrapassado, apesar de vários clichês estarem ali – mas como a premissa baseia-se em regras consagradas em filmes de terror, isso é perdoável. Os veteranos podem ter voltado, mas tudo girou em torno dos adolescentes – destaque para Hayden Panettiere, outra vinda da TV (Heroes, Nashville), atriz talentosa e muito subestimada. A revelação do assassino foi a melhor de todas as quatro obras, sendo no mínimo surpreendente. Neve Campbell não conseguiu brilhar o suficiente e Courtney Cox e David Arquette tiveram o tempo de tela bastante reduzido, ficando um pouco desconexos com aquele contexto. Contudo, esses detalhes não estragam a qualidade de Scream 4, um bom filme de horror que consegue ser atual e homenagear seu próprio legado ao mesmo tempo.

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Scream — Primeira Temporada (2015)

Criado por: Jay Beattie, Jill E. Blotevogel, Dan Dworkin
Showrunner: Jill E. Blotevogel
Elenco: Willa Fitzgerald, Carlson Young, John Karna, Bex Taylor-Klaus, Amadeus Serafini, Tom Maden, Connor Weil, Tracy Middendorf , Jason Wiles, Bobby Campo

É extremamente difícil comparar os filmes com a série, já que aqui a história deve ser desenvolvida ao longo de 10 episódios, totalizando quase 10 horas por ano. Não se pensa só na temporada isolada. Tem que haver um planejamento, se o desejo é manter a produção por vários anos. Com isso, o ritmo obrigatoriamente é mais lento. O intuito não é só assistir às mortes, mas sentir a dor dos personagens sobreviventes. Assim, não temos assassinatos em todos os episódios. Esse tempo para respirar e absorver os acontecimentos se faz necessário. O problema é que a adaptação da MTV tem um roteiro fraco. A aplicação da metalinguagem é um dos poucos pontos fortes – as citações de The Walking Dead, Hannibal, Game of Thrones, American Horror Story e Pretty Little Liars foram bem contextualizas. Para criar os momentos de tensão, o texto até é eficaz, mas os diálogos expostos chegam a dar vergonha alheia em alguns casos. Outro grande problema é o elenco, formado por jovens bonitos com talento duvidoso. Experiência contribui para uma boa atuação, mas idade não define bons atores. John Karna e Carlson Young são os destaques – ela mais pelo carisma do que pela técnica. A protagonista do seriado é falha em sua construção. Emma Duval (Willa Fitzgerald) tem que comer muito arroz com feijão para chegar aos pés de Sidney. Mesmo observando todos esses defeitos, Scream: The TV Series serve como um bom guilty pleasure e inicia sua segunda temporada a partir de hoje, com episódios inéditos lançados semanalmente pela Netflix.

Imagens: filmes (Dimension Films) e série (MTV).
Imagens: filmes (Dimension Films) e série (MTV).
Por Mikael Melo
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