Melhores Atores Coadjuvantes da TV na Temporada 2019/2020

Performances de The Good Fight, Succession e Ramy estão na lista. 

O Previamente, a partir de um júri com 21 pessoas entre profissionais da área, jornalistas, críticos, estudantes e aficionados por séries, elegeu os melhores atores coadjuvantes da TV na temporada 2019/2020. A seleção foi realizada utilizando os mesmos critérios do Emmy Awards: entram as obras que foram exibidas em sua totalidade ou mais de 50% de sua temporada entre 1º de junho de 2019 até 31 de maio de 2020.

Confira abaixo a lista completa abaixo.

MELHORES ATORES COADJUVANTES

Tony Shalhoub (The Marvelous Mrs. Maisel)

Poucas pessoas surtam tão hilariamente quanto Tony Shalhoub. Abe parece estar sempre no limite de sair do seu status quo, até porque nesta terceira temporada ele está desempregado, perdeu sua casa e teve de passar a viver com os ex-sogros da filha. Com isso, ele busca algum novo sentido para viver. Arrumar sua vida naturalmente não é tarefa tão fácil e tampouco ele passa por essa transição de maneira sutil. Os novos desafios do personagem fazem com que Shalhoub consiga trabalhar dentro de um cenário de adversidade e, para o choque de ninguém, ele não desaponta e entrega mais uma performance no ponto. Poucos possuem um timing cômico tão preciso quanto o de Shalhoub, da mesma forma como poucos conseguem dar conta de um roteiro tão cheio de diálogos e tiradas como é o de Amy Sherman-Palladino. Mais neurótico do que antes e melhor do que nunca, Shalhoub é um dos principais motivos de The Marvelous Mrs. Maisel continuar funcionando tão bem. — Rodrigo Ramos

Tom Pelphrey (Ozark)

Quem diria que um ator semidesconhecido seria capaz de se tornar um dos motivos para a crescida de qualidade que Ozark obteve na sua terceira temporada? Depois de um péssimo papel como vilão em outra série da Netflix, a horrível Punho de Ferro, Tom recebe a sua chance de brilhar como Ben, o irmão da protagonista Wendy (Laura Linney), e não a desperdiça. O transtorno bipolar do seu personagem faz com que Pelphrey percorra as mais diversas camadas emocionais que o personagem passa, seja em seus surtos ou então nos momentos doces e de preocupação que compartilha com sua irmã, seus sobrinhos e Rue (Julia Garner). Tudo na caracterização de Tom é intenso, bem pensando, transborda emoção e reação tanto em fracassar em lidar com a sua doença quanto em ser obrigado a se envolver com um lado criminoso de seus familiares e agregados, do qual ele desaprova mais e mais conforme a trama se desenvolve. O conflito entre sua doença mental e ser a bussola moral rende momentos perfeitos: como no surto na escola, a invasão da casa de Helen (Janet McTeer) e as cenas finais com Wendy. Elas vão do arrebatador, ao assustador e para o comovente, mostrando um personagem cheio de camadas, numa jornada de desespero, que agrega muita humanidade para uma série em crescimento. — Diego Quaglia

Mahershala Ali (Ramy)

É curioso pensar num ator duas vezes ganhador do Oscar como Mahershala Ali numa série tão minimalista, desconhecida e relativamente pequena quanto Ramy. Sendo a principal adição da série em sua segunda temporada, Mahershala interpreta o sheik Ali Malik, líder religioso que começa a se envolver na vida do protagonista. Mahershala interpreta o personagem com o mesmo cuidado e inteligência colocado em todas as produções em que passa. Percebendo muito bem como explorar a engraçada dinâmica desenvolvida com Ramy (Ramy Youssef), o ator usa a sua persona tranquila e magnética para construir todo o poder que o sheik emana em sua sabedoria e perspicácia, o que faz seus surpreendentes momentos de humor serem ainda mais fortes. A construção enigmática e fascinante do sheik fica ainda mais interessante em seus pequenos detalhes, e isso se dá especialmente porque é construído e interpretado por um grande ator do tamanho de Mahershala. — Diego Quaglia

Tony Dalton (Better Call Saul)

O Lalo Salamanca de Tony Dalton era apenas uma ameaça numa trama paralela à principal em Better Call Saul. Entretanto, nesta quinta temporada, é um dos responsáveis pela mescla dos diferentes caminhos que a série, até então, vinha percorrendo sem que eles exatamente se cruzassem. Enquanto poderia ser simplesmente um vilão maniqueísta numa série que vive de anti-heróis, Tony Dalton consegue dar ao seu personagem uma faceta que torna todas as situações um tanto quanto cômicas. Lalo é um personagem extremamente inteligente e perspicaz, mas é a maneira como Dalton demonstra isso que torna tão delicioso acompanhar o personagem nesta temporada.

O ator consegue fazer seu personagem trespassar uma aura de ameaça que é responsável por alguns dos principais momentos de tensão nesta quinta temporada. Simultaneamente, porém, consegue nesses mesmos momentos, com uma certa naturalidade, converter isso em um sorriso e uma postura de expressão que esbanjam um cinismo e sarcasmo inerentes ao personagem, que casam com toda sua caracterização e, por incrível que pareça, o tornam ainda mais ameaçador. É uma confiança que ele assim esbraveja e que definitivamente torna Lalo Salamanca na personificação perfeita de chaotic evil. Tony Dalton já estaria entre os melhores atores do ano apenas por um pulo/salto nesta temporada de Better Call Saul. Felizmente, há muito mais do ator que apenas isso, entregando um dos vilões mais divertidos de se acompanhar no universo da série e desta temporada da televisão. — Renan Santos

Jeremy Irons (Watchmen)

Jeremy Irons como Ozymandias/Adrian Veidit é um desses casos de casting perfeito. Quem melhor do que o ator que eternizou tipos cínicos, ambíguos, arrogantes e anormais entre os anos 80 e 90 para interpretar o personagem já envelhecido nesta adaptação? Ao cair de cabeça em todo o complexo de Deus ególatra de Ozymandias, Irons brilha intensamente entregando esse magnetismo esquisito que eternizou sua carreira. A presença de Irons é direcionada e dirigida de maneira muito inteligente, fazendo com que sua atuação carregue sua trama por um bom tempo como um verdadeiro “show de um homem só”. O exagero consciente e intencional que ele coloca em Adrian oferece o impacto que deve e que se contrasta muito bem com a maneira como ele se joga dentro do retrato da outra essência que habita o seu personagem: sua necessidade e prazer em se ver como uma espécie de salvador. E de forma também fantástica ele consegue percorrer um sentimento de desespero, de decepção, unindo uma interpretação que entende a complexidade do seu personagem e ainda é extremamente divertida, constantemente demonstrando esse sentimento como se Adrian visse a vida como um grande jogo e estivesse sempre esperando pela próxima rodada, entusiasmado, brincando com a realidade como se ela fosse o seu cercadinho pessoal, sem se importar com as consequências disso. — Diego Quaglia

Delroy Lindo (The Good Fight)

Que Delroy Lindo é um baita ator, isso não é novidade. Uma pena, no entanto, que poucos papéis façam jus ao seu talento tenham lhe sido oferecidos ao longo da carreira, sendo as principais parcerias com Spike Lee. The Good Fight permitiu que Lindo voltasse a ser relevante e com um papel que constantemente o tira da zona de conforto. Nesta quarta temporada, seu Adrian Boseman se vê numa situação de ter de lidar com os novos sócios (o escritório foi absorvido por outro, composto majoritariamente por pessoas brancas), o partido Democrata, ser chamado ao RH por ter usado “the N word”, se ver retratado de forma satírica em uma peça e ter de defender uma cliente negra enquanto ataca uma mulher transsexual. Adrian costuma ver a ironia das coisas e definitivamente sabe usar o privilégio de ter o poder nas mãos. Mesmo que lute contra o racismo no dia a dia, ser um homem negro não o exume também de ter preconceitos dentro de si, como é notório no episódio “The Gang Offends Everyone”, quando ele não entende que atacar diretamente uma mulher trans pelo próprio fato de ser transsexual é transfobia. Lindo traz complexidade para o personagem e não há como ver qualquer outra pessoa dando o peso que Adrian possui da mesma forma que o ator adiciona aqui. Expressivo, de uma tremenda presença e dono de um ar irônico, Lindo entrega mais uma atuação primorosa. — Rodrigo Ramos

Matthew Macfadyen (Succession)

Matthew Macfadyen é um rosto conhecido por muitos, ainda as pessoas não relacionem o rosto ao nome. O ator britânico que interpreta o Mr. Darcy no filme Orgulho & Preconceito, de 2005, também participou de filmes como Anna Karenina e de minisséries como The Pillars of the Earth e Howards End. Em Succession, Matthew interpreta Tom Wambsgans, o marido oportunista de Shiv Roy que também quer uma fatia do maior conglomerado de mídia do planeta que está sob o domínio da família Roy.

O crescimento do personagem é visível e muito bem vindo nesta segunda temporada. No primeiro ano da série, Tom é basicamente um acessório para a história de Shiv e dos Roy, e era usado mais como alívio cômico. Já no segundo, ele continua servindo este papel, mas passa a ser integrado à narrativa principal de forma essencial ao arco central da temporada. Mesmo que o público continue a rir dele, talvez até mais do que antes, também nos é mostrado momentos mais sóbrios e sérios, o que é bastante inesperado de um personagem que um dos seus momentos de maior destaque na primeira temporada foi engolir o próprio esperma. Desta vez, Tom alcança a façanha de fazer o público sentir uma ponta de compaixão por ele. No finale da temporada, de forma que está além da minha compreensão (já que é algo bastante destoante do tom que a série havia mostrado até então), é Tom que consegue extrair da série o único momento de ternura em meio a tanta podridão dos Roy e seus planos de continuar no poder até aqui.

Macfadyen faz um trabalho excepcional em mostrar várias camadas de Tom. Ele muda de malvado, pra covarde, pra compreensivo e gentil de forma ágil e sutil. O personagem realmente é todas essas coisas de modo bastante convincente. Tom é o personagem de Succession que demonstra um maior leque de emoções, principalmente na segunda temporada, ao ponto de que o ator consegue com sucesso se destacar em um elenco de alto nível sem dever nada a ninguém. — Régis Regi

Kieran Culkin (Sucession)

É tão óbvio o quanto Kieran Culkin parece adorar cada minuto que passa na pele de Roman Roy. Trata-se de um papel muito divertido de se fazer e consumir: uma pessoa terrível cuja consciência não sofre em nada por ser assim. É libertador. Na segunda temporada de Succession, Roman começa lidando com os efeitos do desastroso lançamento do foguete pelo qual estava responsável. Mas nem isso, uma derrota gigantesca numa arena pública, consegue lhe afetar tanto quanto uma simples palavra de seu pai. Ele segue seu caminho como o filho problema que ninguém coloca muita fé, em sua eterna briga de egos com Kendall, tentando a todos os custos agradar e impressionar Logan e, invariavelmente, falhando, e sendo ainda mais humilhado. Em “D.C.”, penúltimo episódio da temporada, Culkin brilha ao se ver em meio à uma situação de sequestro no oriente médio. Com seu jeito debochado e sua acidez típicas, fica claro que, pela primeira vez na vida, Roman realmente tem algo a temer, suas ações podem ter consequências reais e sua vida está na linha. É incrível ver sua virada no episódio final da temporada, quando, após o trauma, ele parece de alguma forma transformado. Ainda o mesmo Roman, com seu senso de humor e piadinhas rápidas, mas um olhar meio perdido e a vontade de fazer algo certo e realmente dar sua opinião, pela primeira vez. A performance de Culkin nos faz adorar esse homem imaturo e inconsequente, seu jeito aparentemente despreocupado e imprudente, e todas as coisas extremamente ultrajantes e sujas que ele diz, mas que, ao mesmo tempo, escondem um jovem adulto com uma autoestima baixa e autoconsciente de sua pouca importância no grande esquema das coisas. Roman é um dos elementos mais consistentemente divertidos de Succession, e isso não é pouca coisa, em uma série desse calibre. — Mariana Ramos

Menções honrosas: Tim Blake Nelson (Watchmen), Jonathan Banks (Better Call Saul), Mandy Patinkin (Homeland), Josh O’Connor (The Crown), William Jackson Harper (The Good Place).

Continue a leitura clicando nos ícones abaixo ou vá à publicação original.

 

Fizeram parte do júri
Angelo Bruno, estudante de Letras — Licenciatura em Português.
Breno Costa
, roteirista.
Caio Coletti, jornalista e colaborador do site UOL.
Dana Rodrigues, editora do site Diário de Seriador.
Diego Quaglia, cineasta, roteirista e crítico de cinema e audiovisual.
Diogo Pacheco, colaborador do Série Maníacos.
Fillipe Queiroz, estudante de Psicologia, aficionado em séries.
Geovana Rodrigues, sommelier de séries.
Gustavo Marques, produtor de conteúdo e entusiasta de televisão.
Juliano Cavalcante, bacharel em Economia, escreve sobre seriados na internet desde 2005.
Leonardo Barreto, editor do Quarta Parede Pop.
Luis Carlos, administrador do grupo Crônicas de Séries e da página Cultura em Frames.
Mariana Ramos, roteirista, mestre em Cinema e Audiovisual, host do podcast Maratonistas.
Mikael Melo, jornalista, produtor de Jornalismo na NDTV Record.
Rafael Bürger, bacharel em Imagem e Som pela UFSCar e cineclubista.
Rafael Mattos, estudante de Jornalismo, administrador do grupo Crônicas de Séries.
Rafaela Fagundes, sommelier de séries.
Régis Regi, bacharel em Cinema, roteirista, host do podcast Maratonistas.
Renan Santos, formado em Cinema, crítico e newsposter no site Cine Eterno.
Rodrigo Ramos, jornalista, editor do site Previamente, repórter da Huna Comunicação Para o Bem.
Valeska Uchôa, cientista da computação, ex-colaboradora do Série Maníacos e do falecido Lizt Blog.

Textos por Diego Quaglia, Mariana Ramos, Régis Regi, Renan Santos & Rodrigo Ramos

Produção, edição e redação final por Rodrigo Ramos

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