Os 20 anos de Clube da Luta

Filme dirigido por David Fincher foi um fracasso no seu lançamento, mas acabou se tornando um dos longas mais cultuados das duas últimas décadas.

O que faz um filme sobreviver a poderosa ação do tempo? O que torna filmes como Faça a Coisa Certa (1989), 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968) e O Sétimo Selo (1957) ainda atuais? Embora perceptíveis, não são os efeitos especiais que ditam se o filme irá funcionar anos após seu lançamento, também não é sua fotografia em preto em branco ou até mesmo quesitos técnicos de menor qualidade como as próprias câmeras utilizadas na época para captar a imagem e como os aparelhos de recepção de som interferem na qualidade sonora da película. Um dos principais fatores que tornam filmes aclamáveis para distintas épocas é a temática abordada. Os temas que abordam os sentimentos, aspirações, medos e preconceitos que estão enraizados no ser humano tendem a suportar as mutações sociais da linha do tempo. No caso de Clube da Luta (1999), o diretor David Fincher adapta a obra de Chuck Palahnniuk para tratar da degradação psicológica do homem moderno.

Talvez por 1999 ter sido um ótimo ano para filmes ou pela publicidade adotada, o fato é que quando lançado Clube da Luta não atingiu as proporções merecidas, ficando pouco tempo em cartaz e não tendo o reconhecimento do público, obtendo condecoração da crítica e do público geral um tempo depois, assim recebendo o rótulo de um filme cult. Hoje ainda é um dos filmes mais citados, argumentados, tatuados, enfim, um dos longas com maior influência dos últimos tempos, sendo assombroso que já se passam 20 anos desde seu lançamento.

Brad Pitt, Edward Norton e David Fincher no set de Clube da Luta. (Foto: Merrick Morton © 20th Century Fox)

O filme narra a história de um homem que sofre de insônia e acaba conhecendo Tyler Durden, o seu total oposto, e juntos criam um clube de luta clandestina com algumas regras particulares. Estética e narrativamente, a película ousou. Por tratar-se de uma produção hollywoodiana, Fincher manteve a narração em off, utilizou de uma estrutura não linear para contar a história, quebra da quarta parede, além de mensagens visuais escondidas, totalmente condizentes com o protagonista Tyler Durden (Brad Pitt), criando uma metalinguagem cômica que enriquece a cosmologia do filme. A paleta de cores utilizada é lavada e usa muito do cinza e do marrom criando um ambiente inóspito, agressivo e vazio, o que remete aos seus personagens. Para os papéis principais temos o já citado Tyler Durden, Marla Singer (Helena Bonham Carter) e para o personagem principal temos Edward Norton, que curiosamente não possui nome próprio no longa, sendo creditado no IMDb como “o narrador”. Iremos citá-lo no texto como “um homem comum”.

Não citar o nome de seu personagem principal já é a primeira pista do que iremos presenciar em clube da luta, já que este “homem comum” enfrenta problemas de personalidade e sente um crescente vazio existencial. Isto é comprovado de duas maneiras. 1) O “homem comum” só consegue dormir quando ele frequenta clubes de apoio para doentes, onde consegue chorar de verdade, descarregar suas emoções. Quando Marla Singer começa também a frequentar tais grupos, ele automaticamente volta sofrer de insônia, já que a lembrança de que na verdade é um impostor com o seu próprio eu interior é retomada. 2) Quando Pitt e Norton começam a aumentar o seu clube de luta clandestina, o subtexto do filme se apresenta com mais força e a história se desenvolve, revelando a verdadeira natureza da obra: é a história de um homem perdido dentro de sua própria vida, consumido por seus próprios bens materiais e degradado por seu próprio trabalho.

(20th Century Fox)

Entre variados assuntos abordados, Clube da Luta fala claramente sobre como lidamos com o modelo capitalista de consumo e como nossas vidas se moldam para atender esse sistema quando, na verdade, deveria ser o oposto. Por negar tanto essa realidade e abdicar das coisas que realmente façam sentido para nossa existência, o “homem comum” chega ao seu limite depositando tudo o que em seu íntimo ele realmente deseja, em um sua outra face agressiva e extremista. Como uma fórmula de escape, esses homens modernos se trancafiam em porões e garagens e praticam lutas como uma maneira de liberar tudo o que eles sentem e voltar para seu estado de naturalidade. As lutas não são sobre ganhar ou perder, sobre aspirar qualquer crescimento profissional, ou até mesmo para construir um corpo perfeito perante os olhos da sociedade, elas são a personificação de liberdade.

É muito improvável não se identificar e sentir-se impactado/pensativo com as frases profanadas por Tyler durante a duração do longa: “As coisas que você possui acabam possuindo você”, “Você não é o seu trabalho”, entre tantas outras que dentro de todo o contexto fílmico engrandecem a sua reação de causa e efeito tanto na narrativa quando no espectador. Também acredito ser inevitável a não identificar-se (nem que seja em 1%) com essa linha de raciocínio, e é nela que está o “perigo”. Clube da Luta é sobre como nós deveríamos repensar e lidar com o sistema de consumo estabelecido hoje, porém o “herói” do filme encara a única resolução dessa problemática com insanidade e violência, e obviamente tenta ser detido pelo personagem principal, o “homem comum”, que apesar da origem de toda essa problemática e sentimento ser verossímil, ele é capaz de enxergar o quão extremistas as propostas de Tyler são. Esta é uma linha muito tênue entre a relação de herói e vilão algo que podemos também observar em filmes recentes e pipocas como Pantera Negra.

(20th Century Fox)

Hoje existem diversos artigos e textos sobre a relação das novas gerações com o sistema político-econômico operante, e estes em sua maioria abordam todos os efeitos colaterais no psicológico da sociedade atual. Claro que não podemos generalizar já que as diferentes classes sociais, países e tantas outras condições interferem diretamente nessa relação, entretanto o fato é que os discursos de Tyler Durden continuam funcionando e a solidão do “homem comum” ainda é justificável. Essas abordagens irão permanecer a fazer sentido, já que elas são a exposição desse louco percurso natural que a vida toma, que se pararmos para pensar não há nada de natural nele.

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Resultado de imagem para fight club david fincher posterClube da Luta
Fight Club

EUA | Alemanha, 1999 — 139 minutos
Drama

Direção:
David Fincher
Roteiro:
Jim Uhls
Elenco:
Brad Pitt, Edward Norton, Helena Bonham Carter, Jared Leto

Por Felipe Notario
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