Aquarius | Crítica

A dicotomia entre o novo e o velho no contemporâneo é tema de um dos filmes nacionais mais relevantes dos últimos anos.

aquarius-posterNo  ano de 1979, estreava Bye Bye Brasil, dirigido por Carlos Diegues. O filme, ambientado no Brasil que vivia uma ascensão constante, conta a história de um grupo de artistas mambembes que perdiam lentamente o espaço para a televisão, um período rodeado de falsas esperanças sobre um desenvolvimento utópico de uma nação que começava a criar vínculos com a informação. Trinta e sete anos depois, o Brasil não é o mesmo, não estamos mais nos conectando com a informação, estamos vivendo o excesso da mesma; o Brasil não é mais um país em ascensão, e vivemos em uma nação consolidada em que uma esfera microscópica da população usa e abusa dos recursos. A esperança inocente de Bye Bye Brasil é um viés distante. Aquarius surge como uma versão contemporânea do filme de Carlos Diegues.

O segundo longa dirigido por Kleber Mendonça Filho — posterior ao ilustre O Som ao Redor — aborda a dicotomia entre o novo e o velho no contemporâneo, dualidade muito mais visceral do que a existente em meados dos anos 70. O filme narra a história de Clara (Sonia Braga), última residente do antigo Edifício Aquarius, o qual o restante do referido foi adquirido pela construtora Bonfim, que tenta a todo custo comprar a unidade remanescente. A rejeição de Clara às ofertas de compra pela construtora é o ponto central da narrativa, afinal, tal rejeição é motivada pelas memórias afetivas que a protagonista guarda no lugar.

Memória afetiva é uma constante em Aquarius. Nos minutos iniciais do filme, o espectador é presenteado com uma transição entre um olhar para uma simples cômoda, que no plano posterior vira o vislumbre das memórias que tal objeto detém. São em cenas como essa que Aquarius demonstra seu êxito técnico. O filme tem uma atmosfera quase palpável no que se trata das sensações dos personagens em relação ao mundo. Tal sensação é conquistada pela proeza necessária na fotografia (dirigida por Pedro Sotero e Fabricio Teteu, responsáveis também pela fotografia de O Som ao Redor), que sabe em que momento utilizar um plano aberto para demonstrar as relações de Clara com o exterior, mas também contrasta em momentos intimistas, como na sequência em que há transições de planos semiabertos entre Clara e Julia (Julia Bernat) enquanto apreciam uma música; apesar de nenhum diálogo verbal, a transição entre os planos em conjunto com a música criam um diálogo perfeito e harmônico. Inclusive, é importante pontuar que não existe canção no filme que funcione como mero preenchimento de cena. Todas as faixas escolhidas servem como uma narrativa paralela e complementar à principal.

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A cena mencionada no parágrafo anterior cria um ponto de fuga da dicotomia entre o novo e antigo que é abordada no filme, pois no momento que se utiliza a música como elo atemporal entre épocas distintas, mostra-se que é possível uma coexistência entre as gerações. A crítica feita no filme é direcionada à necessidade de “destruir” o que é antigo para criar alguma coisa que é considerada melhor apenas por ser nova, perdendo todo apreço histórico. O antigo não precisa ser vintage para se enquadrar na sociedade contemporânea, afinal, a base da sociedade contemporânea só é existente graças à existência do que a antecedeu.

Uma das maiores qualidades de Aquarius é o senso de urgência que Kleber Mendonça Filho conduz no filme, criando naturalmente a expectativa pelo pior. O fator gerador da tensão soa como irônico em sua origem, pois vem do uso da hipocrisia do “cidadão de bem” como antagonista no filme; o personagem Diego (Humberto Carrão) é dotado de características extremamente bem vistas no conservadorismo que assola o brasileiro no século XXI — ele é cristão, jovem, esbanja de estabilidade econômica e uma patológica sede de crescimento. A apatia que o personagem consegue exalar é equivalente à qualidade de atuação de Humberto Carrão, o qual entrega um cuidado em demonstrar sua passivo-agressividade em cada frase desferida por Diego, envenenando a eloquência do mesmo com as características nocivas de sua personalidade.

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A atuação de Sonia Braga faz justiça ao reconhecimento que o filme vem recebendo internacionalmente. É inquestionável o cuidado com que ela conduz a personagem Clara, humanizando cenas líricas, com uma atuação que beira ao documental. Sua performance no clímax do longa é visceral, tornando palpável o sofrimento de Clara e passando longe de um overacting absurdo e anti-climático.

Aquarius não precisa de um Oscar para se legitimar como um dos melhores — quiçá o melhor — filmes do ano. A maneira que Kleber Mendonça Filho transportou parte da nossa sociedade brasileira pós-moderna para a sétima arte torna o longa uma peça que já garantiu sua importância no cinema nacional. Não é certo ver Aquarius como um protesto político partidário, muito menos como um conteúdo artístico criado para representar uma guerra banalizada entre esquerda e direita; com isso, o espectador só vai enxergar parcialmente o rico retrato existente no filme, limitando a reflexão que ele propõe. Com esta película, Kleber Mendonça Filho se transforma em uma das peças mais interessantes do cinema contemporâneo brasileiro.

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Imagens: Vitrine Filmes

Aquarius
Brasil, 2016 – 142 min
Drama

Direção:
Kleber Mendonça Filho
Roteiro:
Kleber Mendonça Filho
Elenco:
Sonia Braga, Humberto Carrão, Maeve Jinkings, Irandhir Santos

5 STARS

Por Fellipe José Souza
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