Não vai ter Coca: um festival multicultural em meio à natureza

Oficinas, brincadeiras, laricas, natureza, amor e muita música boa marcaram São Francisco do Sul entre os dias 26 e 29 de maio.

Paralelo a um cenário político caótico cercado por gritos indignados de ”não vai ter golpe”, frase de ação pela luta a favor da democracia, ouve-se, em tom entusiasmado, outra máxima a ser invocada pelos arredores da cidade catarinense de São Francisco do Sul, mais precisamente no Sítio do Seu Gilberto: “Não vai ter coca, não vai ter coca!”.

Organizado por um grupo de amigos, o festival Não vai ter Coca trouxe para o litoral catarinense, entre os dias 26 e 29 de maio, a terceira edição do evento multicultural. Regado a muita música, oficinas, expressões artísticas, e seres vindos de todos os cantos do estado — e também fronteiras mais distantes — o encontro em meio à natureza parece transcender o formato de mero festival ao atingir, em níveis que fogem ao cotidiano, a experiência de imersão existencial em comunidade, e a convivência pacifica entre pessoas que se conhecem e reconhecem tão espontaneamente quanto os sorrisos que surgem, involuntários, a cada contato sincero estabelecido.

Do rock progressivo ao samba, os quatro dias de programação contaram com a apresentação de mais de 20 bandas. Na quinta-feira (26), a aura psicodélica se destacou durante a orgia musical das bandas Expresso Vermelho e Macaco Mel. Já na sexta (27), a paranaense Charles Racional embalou a noite com a batucada de ritmos brasileiros eletrizantes, sendo seguidos pela animação dos Novos Vintages e pelo duo da Pão com Molho em tributo aos White Stripes.

Pela ótica caleidoscópica, a noite de sábado (28) se mostrou como o ápice dessa lisergia sonora compartilhada. Com uma batida folclórica, a itajaiense Tarrafa Elétrica deu inicio às sessões de dancinhas epilépticas que se estenderiam madrugada adentro. Na sequência, a paulista Francisco el Hombre evocou a energia performática entre o público com uma sonoridade singular, batizada pelos seus integrantes como gênero Pachanga Folk — uma combinação babélica de sonoridades tradicionais e regionais latino-americana — para então receber a fusão musical produzida pela curitibana Maggot Groove.

Quando o êxtase generalizado parecia não poder se elevar, o palco foi tomado pela insanidade rítmica dos marujos da Confraria da Costa, evocando seus mantras vindos do fundo do mar, e pelo punk/garage psicodélico dos Apicultores Clandestinos, que dedilharam os últimos giffs da madrugada.

Apesar dos ares de ressaca, o domingo (29) persistiu acompanhado por acordes e canções, que surgiam improvisados em meio ao aglomerado de barracas, e pelas risadas destacadas nos rostos ainda pintados — vestígios de uma noite deveras incomum. Enquanto o acampamento era desfeito e a paisagem dissolvia-se lentamente, a aura de despedida se propagava entre abraços apertados e palavras de gratidão trocadas entre as centenas de seres que coexistiram durante os quatro dias de festival.

Com o fim de mais uma edição dessa realidade paralela feita de muita música, arte, bolhas de sabão gigantes, malabares incandescentes, divagações na beira do lago e trocas sensoriais intensas, algumas perguntas parecem flutuar intrínsecas nos olhares inquietos daqueles que absorviam os últimos instantes do Não vai ter Coca: Já acabou mesmo? Pode voltar o tempo pra quinta-feira? Qual a data do próximo encontro?

Imagens: Sthael Zottis
Por Alana Archer
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