Os Boxtrolls | Review

Crítica social e visual impecável marcam o terceiro longa da Laika

The Boxtrolls poster

Por Rodrigo Ramos

Os Boxtrolls é o terceiro longa-metragem do estúdio Laika (Coraline e Paranorman) e chega aos cinemas brasileiros ocupando a vaga que fora da Pixar há alguns anos, oferecendo belas mensagens tanto para as crianças como para os adultos, unindo qualidade técnica e narrativa.

Aparentemente simples, o longa conta a história de Ovo (Isaac Hempstead-Wright), um garoto órfão que foi criado pelos monstros que vivem nos esgotos, intitulados de boxtrolls. Estes seres sobrevivem apenas do lixo dos humanos e só dão as caras durante a noite. Porém, eles são impiedosamente caçados por Archibald Snatcher (Ben Kingsley). Ele e seus capangas os caçam pela promessa de que Archibald poderá ter um chapéu branco e degustar queijos, prática realizada somente pela classe alta da cidade, um privilégio para poucos.

Em tempos de falta de bom senso entre as pessoas e na política, Os Boxtrolls soa assustadoramente atual, afinal contextos sociais não são necessariamente o forte das animações, mas o estúdio Laika pesa a mão na hora de criticar o sistema de diversas formas nessa história.

Logo nos minutos iniciais, percebe-se que há uma guerra contra os boxtrolls, mesmo eles nunca tendo feito nada de mal a ninguém. Conforme a trama se destrincha, eles se provam seres amáveis e que só querem ter o direito de viver. No entanto, eles são caçados como uma praga que precisa ser exterminada. No meio dessa busca, os capangas de Archibald dizem que isso é algo que as pessoas boas fazem, mas ao longo da trama eles se questionam com perguntas como “mas isso não é o que os vilões fazem?”, e em seguida se corrigem, voltando a acreditar que essa perseguição é honrosa, é praticar o bem.

O verbo pronunciado diversas vezes pelo antagonista da película é “exterminar”. Palavra forte e que vai ganhando cada vez mais força conforme os seres subterrâneos vão sendo sequestrados. O discurso de ódio é disparado contra o que é desconhecido, o que à primeira vista não é natural, incomum. Diria que o que profere o personagem vai ao encontro com o que proclamam pessoas como Levy Fidelix, entre outros com baixa capacidade de aceitar o diferente de si, de suas crenças e de seus costumes.

O aceno a favor do diferente vem de outra forma também. Ovo não sabe mais quem é seu pai. Winnie (Elle Fanning), a personagem que descobre que o garoto está vivo e não morto como diziam na cidade, descreve o que é a figura paterna. Dentro da descrição, seu próprio pai não se encaixa, mas Ovo, que não foi criado por seu pai biológico, enxerga em Peixe (Dee Bradley Baker) aquelas características mesmo que ele seja um pai não convencional diante dos olhos da sociedade. Em outro momento chave da trama, um dos personagens fala à Ovo que ele precisa admitir quem é, mesmo que seja o diferente, e ao fazer isso ele acaba inspirando os demais ao assumir quem são e, digamos assim, saírem do armário.

Boxtrolls-Ben-Kingsley-Archibald

Se a trama parece ser uma enorme metáfora sobre os preconceituosos e homofóbicos, as críticas à sociedade não param por aí. O longa dirigido por Graham Annable e Anthony Stacchi demonstra como a população é facilmente manipulada por discursos que carecem de argumentos de pessoas fanáticas. As classes sociais também são alvo de crítica. Os representantes da classe alta demonstram toda a pompa e preocupações fúteis que se pode esperar, enquanto as classes abaixo tentam desesperadamente subir, sendo que alguns deles o fazem através de atitudes pouco louváveis como é o caso do antagonista.

Não parece, mas Os Boxtrolls vai muito além do que aparenta. Permeado por uma discussão de temas sociais recorrentes hoje, a fita prova que é possível aliar uma animação de encher os olhos com entretenimento para crianças e temáticas que atingem a consciência dos adultos.

 The Boxtrolls
EUA, 2014 – 96 min
Animação

Direção:
Graham Annable, Anthony Stacchi
Roteiro:
Irena Brignull, Adam Pava
Elenco:
Ben Kingsley, Isaac Hempstead-Wright, Elle Fanning, Dee Bradley Baker, Steven Blum, Toni Collette, Simon Pegg, Jared Harris, Nick Frost, Tracy Morgan, Richard Ayoade

4.5 STARS

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