A Separação | Review

Jodaeiye Nader az Simin / A Separation
Irã, 2011 – 123 min
Drama

Direção:
Asghar Farhadi
Roteiro:
Asghar Farhadi
Elenco:
Peyman Moadi, Leila Hatami, Sareh Bayat, Shahab Hosseini, Sarina Farhadi, Ali-Asghar Shahbazi

Prêmios:
Oscar de melhor filme estrangeiro
Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro

É algo raro um filme chamar sua atenção já nos primeiros minutos. A Separação, no entanto, consegue este feito. Neste início, a câmera foca em duas pessoas sentadas em suas respectivas cadeiras. Eles falam diretamente para o espectador, que está ali, acompanhando o desenrolar da situação. Ela quer o divórcio do marido porque ele não quer viajar para fora do país com ela e a filha de 11 anos. A mulher quer levar sua cria para o exterior para que ela tenha uma vida melhor do que terá no Irã. O marido não concorda em se mandar para fora do país devido ao pai que se encontra muito doente. Como uma mulher casada não pode embarcar num avião sem o seu companheiro, ela resolve se divorciar, mesmo contra a vontade de seu esposo. Mesmo ainda estando apaixonados e ele não aceitar de bom grado, eles entram em processo de divórcio.

O primeiro sinal que o longa nos dá é de franqueza. Conversar com o público e fazê-lo interagir e entrar na trama é um trunfo e tanto. A partir daí, os personagens não conversam mais com a câmera, no entanto, continuamos presenciando esta história que se desenrola de forma cruel e perfeitamente humanizada.

A esposa, Simin (Leila Hatami), decide sair de casa e voltara à dos pais. Enquanto isso, Nader (Peyman Moaadi) permanece na casa com a filha Termeh (Sarina Farhadi) e seu pai (Ali-Asghar Shahbazi). Como Nader trabalha fora, ele precisa de alguém para cuidar de seu pai enquanto está fora. Com um empurrãozinho de Simin, Nader contrata Razieh (Sareh Bayat), uma moça de boa índole e altamente religiosa. Entretanto, ela não conta para seu marido, Hodjat (Shahab Hosseini), sobre o emprego, pois ele é altamente temperamental e jamais aceitaria que ela trabalhasse em uma casa sem outra mulher no lugar. Apesar de ter descoberto recentemente que está grávida e sua família depender do dinheiro deste emprego, ela o mantém e ainda carrega sua filha pequena à atividade todos os dias.

Até aí, tudo bem. Nada demais. O longa-metragem vai trabalhando a caracterização dos personagens. As coisas mudam drasticamente quando Nader perde a cabeça até certo ponto porque seu pai foi amarrado à cama e quase morreu, enquanto Razieh estava fora. Furioso com a situação, ele acaba colocando a mulher pra fora, despedindo-a e ainda acusando-lhe de furto. O problema é que nesta expulsão de casa, Nader, supostamente, a empurra contra a escada, fazendo com que ela perca o bebê. A partir daí, tudo começa a desandar.

A Separação nos mostra como uma situação, aparentemente ordinária, pode se transformar em uma tragédia. O roteiro trabalha muito bem esta sucessão de fatos que acaba desencadeando esta reação em cadeia. Um mero problema se transforma em um emaranhado de problemáticas, sendo todas graves. Coube ao diretor orquestrar isso de forma orgânica e o elenco consolidar esta nuance de emoções e situações com uma competência ímpar.

Se falar muito sobre a trama, vou revelar coisas demais. O que falei não chega perto de tudo o que ainda acontece na película. A Separação é recheado de fortes emoções, questionamento de valores e surpresas. O longa venceu todos os prêmios possíveis como melhor filme estrangeiro. Todos merecidos. A Separação é mais um filme que mostra que nada é melhor do que um ótimo roteiro. Claro, os quesitos técnicos também são bons e fazem parte de tudo, mas se não houver uma boa história para ser contada, de nada adianta. O elenco é acima da média, a direção é precisa e a trama te acolhe e o deixa inquieto.

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A Invenção de Hugo Cabret | Review

Hugo
EUA, 2011 – 126 min
Aventura

Direção:
Martin Scorsese
Roteiro:
John Logan, baseado no livro de Brian Selznick
Elenco:
Ben Kingsley, Sacha Baron Cohen, Asa Butterfield, Chloë Grace Moretz, Ray Winstone, Emily Mortimer, Jude Law, Christopher Lee, Richard Griffiths, Helen McCrory

Prêmios:
Oscar de melhor direção de arte; fotografia; edição de som; mixagem de som; efeitos especiais
Globo de Ouro de melhor direção (Martin Scorsese)
BAFTA de melhor direção de arte; som
 

Estava tentando lembrar o primeiro filme que assisti no cinema. Pelas minhas memórias, se não estou enganado, foi Gasparzinho. Ok, não é um filmaço. Não é um filme de Steven Spielberg, por exemplo. Mas lembro que a sensação de estar naquela sala escura não tem comparação. Não sei se foi desde a ocasião, mas é fato que o cinema marcou diversas fases da vida e ajudou a construir a minha personalidade. E tudo começou com a sessão dublada de Gasparzinho, uma película simpática e até mesmo emocional. O cinema tem o poder de fascinar e nos fazer acreditar que os mais belos sonhos são atingíveis. O prazer de assistir a um bom filme tem um sabor inigualável, podendo nos deixar apreensivos, assustados, nos fazer rir até doer a barriga, como pode nos comover e nos levar às lágrimas.

Algumas vezes, quem aprecia esta arte, acaba se decepcionando com a forma que ela é tratada. Desculpem-me, mas filmes de Adam Sandler e as explosões sem sentido de Michael Bay são um desserviço à sétima arte. Pode até ser uma boa diversão (ou não), mas não é arte. Estes são apenas dois exemplos soltos. Existem diversos deles, mas não dá pra falar de tudo. O que importa é que dói pagar 20 reais em uma sessão e assistir a um filme horroroso. De tempos em tempos, felizmente, surgem algumas películas que nos mostram que ainda é possível se fazer cinema de verdade. E isso inclui inovar, homenagear o passado sem ser piegas, emocionar, trazer ótimas atuações e um visual estupendo. Além, é claro, de uma história que não esqueceremos logo após sair da sessão.

 

A Invenção de Hugo Cabret, o mais recente filme de Martin Scorsese, pode soar estranho. Afinal de contas, Scorsese sempre foi o cara conhecido por suas cenas antológicas de violência nua e crua como em Os Bons Companheiros e Os Infiltrados. Mas há uma justificativa plausível para sua primeira incursão ao gênero infantil. Sua filha Francesca, de 12 anos, nunca pôde assistir a um trabalho do pai, por motivos óbvios. Por causa disso, Scorsese resolveu adaptar o livro de Brian Selznick. Por mais difícil que possa parecer, Scorsese se sai muito bem nesta nova jornada em sua carreira cinematográfica e prova que um bom diretor é eficiente em qualquer gênero.

 

A história que acompanhamos de perto aqui é a do menino Hugo Cabret (Asa Butterfield), órfão de pai e mãe. Acolhido por seu tio beberrão, agora ele vive nas passagens escuras de uma estação de trem em Paris, nos anos de 1930. Como seu pai (Jude Law) era relojoeiro e craque em consertar relógios, Hugo também tomou gosto pela coisa, de fazer tudo funcionar. Ele acaba ficando com a função de arrumar todos os relógios da estação, algo que seu tio deveria fazer. Andando pra lá e pra cá, Hugo busca uma forma de reparar os danos de um robô, chamado aqui de autômoto, deixado por seu pai. Nesta jornada por peças e comida, Hugo constantemente foge do Inspetor (Sacha Baron Cohen) que tem o prazer de capturar crianças sem-teto. É na estação também que Hugo faz amizade com Isabelle (Chloë Grace Moretz), também órfã e que mora com o padrinho Georges (Ben Kingsley), dono de uma loja de brinquedos e doces ali na estação.

 

Inicialmente, A Invenção de Hugo Cabret já deixa o espectador de boca aberta. A visão de Paris em 3D numa tomada que viaja pela cidade é de tirar o fôlego. Como se o lugar já não fosse bonito o suficiente, Scorsese capricha ainda mais para deixar tudo brilhante. Isso é o suficiente para ganhar a atenção necessária para acompanharmos o resto da projeção. Felizmente, o diretor mantém o espectador com a boca aberta e deslumbrado com o visual e o enredo.

 

A experiência de assistir A Invenção de Hugo Cabret no cinema é única. A produção do longa-metragem cuida milimetricamente de tudo em cena. O visual é embasbacante. Aliás, o 3D aqui é utilizado com perfeição e realmente ajuda a contar a história. Scorsese mostra que é possível utilizar a tecnologia com inteligência e para beneficiar o trabalho, e não apenas maquiar uma obra menos interessante. Um grande diretor é um grande diretor de qualquer jeito e Martin prova isso ao nos proporcionar a melhor experiência tridimensional desde Avatar. Sim, Martin usa tão bem assim o recurso e é um verdadeiro crime não ir ao cinema vivenciar A Invenção de Hugo Cabret na telona.

 

Outra coisa feita com perfeição na tela é o trabalho do elenco. Chloë Grace Moretz vem provando seu valor há um tempinho e aqui demonstra mais um pouco de todo o seu potencial. E desta vez, fingindo um sotaque britânico perfeito. Tenha inveja, Anne Hathaway. Asa Butterfield é um doce de criança e traduz perfeitamente os sentimentos de seu personagem. Além disso, temos Ben Kingsley em sua melhor atuação em anos. Mas daqui a pouco falo dele. Vale destacar também Sacha Baron Cohen, o genial criador de Borat, mostrando ser capaz de entregar uma performance cheia de emoção e divertida, mesmo sem piadas.

 

O longa vai se desenvolvendo na tela e a cada cena, mergulhamos em uma história que envolve amizade, família, perda, dores do passado e a paixão pela sétima arte. Lá pela metade do filme, a trama sofre uma virada de grande importância. O Georges da tal loja é apenas um dos precursores do cinema como conhecemos hoje, o famoso Georges Méliès. A partir desse momento, o filme se transforma numa jornada intensamente emocional e que honra a memória de um dos maiores cineastas que já existiu. Ben Kingsley, em sua segunda parceria com Scorsese (a primeira foi em Ilha do Medo), comove a platéia com sua soberba atuação, construindo uma maré de sentimentos, revirando memórias que misturam alegria e muita dor. Quando somos apresentados ao cinema de Méliès chegamos ao auge desta obra. Impossível não se fascinar com a projeção na casa dele e, depois, deixar as lágrimas correrem com esta homenagem de Scorsese ao francês e sua história.

 

Se você ainda não teve sua paixão despertada pelo cinema, fica difícil não se apaixonar por esta arte através de A Invenção de Hugo Cabret. Pode ser a descoberta do cinema tanto para você, como foi para os personagens do longa. Se O Artista homenageia o passado, A Invenção de Hugo Cabret dobra as apostas. Além de prestar homenagem ao passado, ainda aponta para o futuro com suas técnicas impecáveis e o 3D muito bem empregado. Scorsese nos brinda com a beleza da sétima arte numa verdadeira declaração de amor. Tudo isso, de forma inocente, num filme infantil, mas não menos poderoso e intenso do que sua filmografia voltada para os adultos. Aliás, emocionar do jeito que ele faz aqui, vi poucas vezes. A Invenção de Hugo Cabret é lindo, uma verdadeira obra prima. Isso nos mostra que o cinema ainda é capaz de nos fascinar como outrora, mesmo que você tenha 10, 20, 40 ou 80 anos. Há tempos eu não via algo tão bom na sala escura. Obrigado por este presente maravilhoso, Martin.

Oscar 2012 | Os Vencedores

Como era de se esperar, O Artista se consagrou o grande vencedor do Oscar 2012 com cinco prêmios. Dentre eles, o longa-metragem levou os troféus de melhor filme, direção e ator. Empatado com ele, A Invenção de Hugo Cabret levou a maioria dos prêmios técnicos. Vale também ressaltar que, após 30 anos sem ganhar, Meryl Streep levou seu terceiro Oscar pra casa por seu papel em A Dama de Ferro.

Confira abaixo a lista completa com todos os vencedores da monótona festa apresentada por Billy Crystal.

Melhor Filme
Os Descendentes
A Árvore da Vida
Histórias Cruzadas
A Invenção de Hugo Cabret
O Homem Que Mudou o Jogo
Cavalo de Guerra
O Artista
Meia-Noite em Paris
Tão Perto e Tão Alto

Melhor Ator
George Clooney – Os Descendentes
Brad Pitt – O Homem Que Mudou o Jogo
Jean Dujardin – O Artista
Demián Bichir – A Better Life
Gary Oldman – O Espião que Sabia Demais

Melhor Atriz
Glenn Close – Albert Nobbs
Viola Davis – Histórias Cruzadas
Rooney Mara – Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres
Meryl Streep – A Dama de Ferro
Michelle Williams – My Week With Marilyn

Melhor Ator Coadjuvante
Kenneth Branagh – My Week With Marilyn
Nick Nolte – Guerreiro
Max Von Sidow – Tão Perto e Tão Forte
Jonah Hill – O Homem Que Mudou o Jogo
Christopher Plummer – Toda Forma de Amor

Melhor Atriz Coadjuvante
Bérénice Bejo – O Artista
Jessica Chastain – Histórias Cruzadas
Janet McTeer – Albert Nobbs
Melissa McCarthy – Missão Madrinha de Casamento
Octavia Spencer – Histórias Cruzadas

Melhor Diretor
Woody Allen – Meia-Noite em Paris
Terrence Malick – A Árvore da Vida
Alexander Payne – Os Descendentes
Michel Hazanivicous – O Artista
Martin Scorsese – A Invenção de Hugo Cabret

Melhor Roteiro Adaptado
A Invenção de Hugo Cabret
Tudo pelo Poder
Os Descendentes
O Espião que Sabia Demais
O Homem Que Mudou o Jogo

Melhor Roteiro Original
Meia-Noite em Paris
O Artista
Margin Call
Missão Madrinha de Casamento
A Separação

Melhor Filme Estrangeiro
A Separação (Irã)
Bullhead (Bélgica)
Monsieur Lazhar (Canadá)
Footnote (Israel)
In Darkness (Polônia)

Melhor Animação
Gato de Botas
Kung Fu Panda 2
Rango
Um Gato em Paris
Chico & Rita

Melhor trilha sonora original
As Aventuras de Tintim
O Artista
O Espião que Sabia Demais
A Invenção de Hugo Cabret
Cavalo de Guerra

Melhor canção original
“Man or Muppet” – Os Muppets
“Real in Rio” – Rio

Melhores efeitos visuais
Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2
A Invenção de Hugo Cabret
Gigantes de Aço
Planeta dos Macacos – A Origem
Transformers: O Lado Oculto da Lua

Melhor maquiagem
Albert Nobbs
Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2
A Dama de Ferro

Melhor fotografia
Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres
O Artista
A Invenção de Hugo Cabret
A Árvore da Vida
Cavalo de Guerra

Melhor figurino
Anônimo
O Artista
A Invenção de Hugo Cabret
Jane Eyre
W.E. – O Romance do Século

Melhor direção de arte
O Artista
Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2
A Invenção de Hugo Cabret
Cavalo de Guerra
Meia-Noite em Paris

Melhor documentário
Hell and Back Again
If a Tree Falls
Paradise Lost 3: Purgatory
Pina
Undefeated

Melhor documentário de curta-metragem
God is the Bigger Elvis
The Barber of Birmingham: Foot Soldier of the Civil Rights Movement
Incident in New Baghdad
Saving Face
The Tsunami and the Cherry
Blossom

Melhor montagem
Os Descendentes
O Artista
Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres
O Homem Que Mudou o Jogo
A Invenção de Hugo Cabret

Melhor curta
Pentecost
Raju
The Shore
Time Freak
Tuba Atlantic

Melhor curta animado
Dimanche
The Fantastic Flying Books of Mister Morris Lessmore
La Luna
A Morning Stroll
Wild Life

Melhor edição de som
Drive
Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres
Cavalo de Guerra
A Invenção de Hugo Cabret
Transformers: O Lado Oculto da Lua

Melhor mixagem de som
Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres
Cavalo de Guerra
A Invenção de Hugo Cabret
Transformers: O Lado Oculto da Lua
O Homem Que Mudou o Jogo

As contradições do Oscar 2012

É verdade que nunca vi um ano sequer em que os especialistas e os “especialistas” em cinema não tenham reclamado de uma lista de indicados ao Oscar. Toda e qualquer premiação é polêmica, comete injustiças e deixa alguma coisa boa de fora. É algo corriqueiro. Entretanto, há tempos a Academia não pisava tão feio na bola. É claro que 2011 não foi um ano inspirador, mas nem por isso ele deixou de ter obras criativas e originais. Então como perdoar uma premiação que ignora por completo os destaques do ano para, novamente, apostar em filmes que ninguém ou poucos assistiram?

Anne Hathaway e James Franco no Oscar 2011

Há anos a audiência do Oscar vem caindo e a Academia não consegue segurar esta brusca queda. Apesar de tentativas de colocar pessoas jovens para apresentar (Hugh Jackman, Anne Hathaway e James Franco), nenhum deles fez da cerimônia algo agradável. Depois do barulho ensurdecedor do público ao ver que os velhos votantes deixaram Batman – O Cavaleiro das Trevas de fora das categorias de melhor roteiro, direção e filme em 2009, provavelmente porque o protagonista é um super-herói, a Academia tentou uma nova opção a partir de 2010: colocar 10 indicados na categoria de melhor filme para poder abranger todos os gostos e agradar também a massa, com películas que eles assistem. Apesar de a intenção ser boa, a prática não foi tão boa quanto a teoria. Filmes de qualidade duvidosa (Um Sonho Possível), que ninguém nunca viu (Um Homem Sério) e superestimados (Inverno da Alma, Educação) pintaram nestas listas. Filmes desnecessários, que passam longe de qualquer lista de melhores do ano e que não alcançam o público de forma alguma. A estratégia que deveria mudar o jogo, apenas intensificou a caretice da premiação.

Um Sonho Possível

Este ano, para piorar a situação, não havia mais um número X de indicados por categoria. Na de melhor filme, há espaço entre 5 e 10. Para encontrar o número da sorte, os votantes escolhiam seus favoritos e, quem chegasse a uma quantidade certa de votos (seria uma espécie de média), entraria nos indicados. A mesma coisa ocorreu nas demais categorias, o que explica o fato de haver apenas dois nomeados à melhor canção, por exemplo. Isso tira a oportunidade de alguns filmes terem reconhecimento pela mera indicação, o que já é uma conquista para muitos realizadores. Mas o Oscar fez questão de tirar um pouco mais do brilho quase fosco que possui.

Tão Forte e Tão Perto

Não me recordo de um ano tão ruim entre os indicados à melhor filme. Dos 9 indicados, há contradições gritantes. Pra começar, temos Tão Forte e Tão Perto, um filme que não chamou a atenção do público e que a crítica desceu a lenha (com razão). De forma milagrosa, ali está entre os melhores. Além desta indicação, ganhou outra em ator coadjuvante. A explicação (que nem chega a ser) plausível é porque Stephen Daldry (O Leitor) o dirige. Outro perdido ali é a megalomania emocional e de clichês de Steven Spielberg, Cavalo de Guerra. Temos também o superestimado A Árvore da Vida, que quase ninguém mais lembrava. E com razão. Como explicar a inclusão destes longas, enquanto excelentes filmes como Drive, Melancolia e 50% ficaram de fora? Se quisessem algo diferente, deveriam ter posto Missão Madrinha de Casamento na lista, já que é uma das melhores comédias deste século. E a falta de Harry Potter hein? Ninguém esperava que o longa fosse ganhar o prêmio, mas só a indicação seria uma demonstração de reconhecimento por tudo o que a saga representa na história do cinema. Não só por isso, mas também pelo fato de o longa ser um excelente trabalho, melhor do que qualquer um dos indicados, exceto A Invenção de Hugo Cabret.

Ryan Gosling - Drive

Mas ainda fica pior. No quesito de atuações, houve também as injustiças. A academia parece ter esquecido que 2011 foi o ano de dois nomes: Michael Fassbender e Ryan Gosling. Enquanto o primeiro ajudou a ressuscitar a franquia X-Men em Primeira Classe, além de polemizar em Shame e Um Método Perigoso, o segundo só entregou atuações acima da média tanto como um herói calado em Drive, abrindo os olhos na política em Tudo Pelo Poder ou de forma simpática em Amor a Toda Prova. Eles ficaram de fora. Como explicar também a falta de Albert Brooks em uma atuação fora do comum em Drive? E Leonardo DiCaprio em uma de suas melhores atuações da carreira por J. Edgar? Ao menos foram lembrados Nick Nolte (ator coadjuvante) por Guerreiro e Gary Oldman (ator) por O Espião Que Sabia Demais. Este, aliás, pela primeira vez indicado. Sim, você vive num mundo onde Sandra Bullock e Halle Berry já ganharam um Oscar, enquanto Gary Oldman nunca tinha sido ao menos indicado!

Kirsten Dunst - Melancolia

No quadro das mulheres, uma das que mais sofreu foi Tilda Swinton por Precisamos Falar Sobre o Kevin. Num filme contraditório, a personagem está fabulosa, mas não ganhou atenção da Academia. A mesma coisa vale para Kirsten Dunst por Melancolia. Sua atuação foi, de longe, a melhor feita por uma mulher no cinema em 2011. Ao menos, Rooney Mara (atriz) está indicada por Millennium – Os Homens Que Não Amavam As Mulheres, uma surpresa agradável e Melissa McCarthy (atriz coadjuvante) pelo hilário Missão Madrinha de Casamento.

Michael Fassbender - Shame

É possível discorrer por horas sobre as injustiças, mas vamos parar por aqui. Nem adianta dizer a falta de vergonha na cara de não indicar As Aventuras de Tintim à melhor animação só porque é feito a partir de captura de movimento e, para os velhacos, isso não é animação de verdade. De qualquer forma, o que vemos aqui é um ano onde, mais do que nunca, o Oscar deixa a ousadia totalmente de lado para dar atenção aos filmes edificantes, bonzinhos, sem um pingo de maldade ou violência. É compreensível dar valor a filmes que homenageiam o passado do cinema (caso de O Artista e A Invenção de Hugo Cabret), mas não há como ignorar o modo arcaico com que a Academia tem tratado sua premiação. O Oscar, infelizmente, perdeu totalmente o seu brilho dourado e certamente não é Billy Crystal que o trará de volta.

Tilda Swinton - Precisamos Falar Sobre o Kevin

O Oscar 2012 acontece neste domingo, a partir das 22h com transmissão ao vivo do canal pago TNT e depois do Big Brother Brasil na Rede Globo. Confira abaixo, os chutes nas categorias principais.

O Artista

Bolão do Oscar
Melhor Filme – O Artista
Melhor Diretor – Michel Hazanavicius por O Artista
Melhor Roteiro Adaptado – Os Descendentes
Melhor Roteiro Original – Meia-Noite em Paris
Melhor Ator – Jean Dujardin por O Artista
Melhor Atriz – Meryl Streep por A Dama de Ferro
Melhor Ator Coadjuvante – Christopher Plummer por Toda Forma de Amor
Melhor Atriz Coadjuvante – Octavia Spencer por Histórias Cruzadas
Melhor Filme Estrangeiro – A Separação
Melhor Filme Animado – Rango

A Dama de Ferro

Dexter – Sexta Temporada | Review

Dexter: The Sixth Season
EUA, 2011
12 episódios
Suspense / Policial

Desenvolvido para televisão por:
James Manor Jr.
Baseado na obra de:
Jeff Lindsay
Elenco:
Michael C. Hall, Jennifer Carpenter, Desmond Harrington, C.S. Lee, Lauren Velez, David Zayas, James Remar, Colin Hanks, Edward James Olmos

Guia de Episódios:
6×01: Those Kinds of Things
6×02: Once Upon a Time…
6×03: Smokey and the Bandit
6×04: A Horse of a Different Color
6×05: The Angel of Death
6×06: Just Let Go
6×07: Nebraska
6×08: Sin of Omission
6×09: Get Gellar
6×10: Ricochet Rabbit
6×11: Talk to the Hand
6×12: This Is the Way the World Ends

 
Faz um bom tempo que eu rasgo seda para Dexter. O canal Showtime fez um dos seus maiores acertos ao escalar um elenco inspirado, roteiristas afiados e criar uma das melhores séries da década passada. Apesar de algumas críticas negativas na quinta temporada (que, particularmente, achei tão boa quanto às demais), a série mantinha uma boa relação com a crítica e o público. Os fãs ficaram entusiasmados ao saber que o tema principal do sexto ano seria a religião. Por que não haviam explorado o tema previamente? Não havia nada tão interessante quanto isso.

A temporada começa com Dexter (Michael C. Hall) sem qualquer ligação sentimental com alguma mulher. No departamento de polícia, LaGuerta (Lauren Velez) está prestes a ser promovida e quem fica com seu cargo é Debra (Jennifer Carpenter). No meio dessa transição, Quinn (Desmond Harrington) acaba pedindo a mão dela em casamento, só que ela é pega de surpresa e recusa o convite. Com isso, o relacionamento deles termina e Quinn volta para a vida boêmia e quem tem de arcar com as consequências é Angel Batista (David Zayas), seu companheiro.

A brincadeira da vez é matar pessoas iguaiszinhas a algumas passagens da bíblia, com o tema apocalípse escancarado. Estes crimes, cometidos pelo professor Gellar (Edward James Olmos) e Travis (Colin Hanks), têm a função de alertar a humanidade que o fim do mundo está próximo e que todos irão morrer. Bonito, não é? Ainda nesta temática, Dexter se envolve numa relação de amizade com o padre Sam (Mos Def), um ex-detento que está reabilitado e tem uma oficina onde dá emprego para ex-prisioneiros, dando-lhes a chance de um novo recomeço. Ainda nesta equação, Dexter coloca seu filho numa escola católica e, com a ajuda do padre, começa a questionar suas crenças.

O início da temporada é intrigante justamente por ter um tema repleto de caminhos diferentes para serem percorridos e abordados pelos roteiristas. O ano começa bem, naquele mesmo estilo de sempre que a série mostra ao longo dos anos. Tem o romance por parte de Debra, daí a investigação criminal que vai levar a temporada inteira até acharem os culpados, com Dexter matando quem merece e tendo aquele duelo final, como de costume. Em alguns episódios, as tiradas com a religião são muito bem empregadas. É puro entretenimento assistir aos questionamentos de Dexter, sempre um deleite na série. No entanto, isso não é o suficiente para carregar a temporada inteira, que pela primeira vez sofre com o desgaste da fórmula.

O bom dessa temporada é ver Jennifer Carpenter ganhando mais espaço e se tornando a personagem mais interessante do ano. Isso mesmo. Os holofotes estão em Debra. A nova tenente da polícia de Miami ganha profundidade e destaque, mais do que os próprios vilões. Aliás, o ponto forte da série é justamente apostar nos seus personagens. Nisso a série se mostra competente. E, no fim das contas, o seriado ainda é bom, no entanto, a mesma fórmula de sempre (seguindo a risca, literalmente) cansa o espectador e o desfecho da temporada (com exceção dos últimos 30 segundos, causadores de um grande espanto) deixa a desejar. O sexto ano de Dexter tem seus bons momentos, novos integrantes no elenco que mandam muito bem, mas a série já não tem mais aquele charme assassino irresistível.

O Homem Que Mudou o Jogo | Review

Moneyball
EUA, 2011 – 133 min
Drama

Direção:
Bennett Miller
Roteiro:
Steven Zaillian, Aaron Sorkin
Elenco:
Brad Pitt, Jonah Hill, Philip Seymour Hoffman, Robin Wright, Chris Pratt, Stephen Bishop

 
Vamos falar sobre filmes onde o assunto principal é esporte. Qualquer um que seja. Existe sempre uma linha tênue onde a paixão pela modalidade pode se sobressair à história e destruir uma película que poderia ser melhor do que realmente é se não fosse tão focada em babar pelo esporte. O Homem Que Mudou o Jogo corria este risco, ainda mais por ter como abordagem um dos esportes mais confusos e quase sem sentido pros brasileiros: o beisebol.

Aí ficou difícil para Bennet Miller, diretor apenas do competente Capote, filme que rendeu o Oscar de melhor ator para Philip Seymour Hoffman. Apesar da pouca experiência, o rapaz já se mostrou capaz de criar uma película diferente. O que acontece aqui em O Homem Que Mudou o Jogo é bem próximo disso, abordar um assunto conhecido (e baseado numa história verídica) de maneira em que o público não se enjoe e o esporte, que dá a temática do filme, não se torne maior do que a película em si.
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A Dama de Ferro | Review

The Iron Lady
EUA / Inglaterra, 2011 – 105 min
Drama

Direção:
Phyllida Lloyd
Roteiro:
Abi Morgan
Elenco:
Meryl Streep, Jim Broadbent, Olivia Colman, Roger Allam, Susan Brown, Nick Dunning, Nicholas Farrell, Iain Glen, Richard E. Grant, Anthony Head, Harry Lloyd, Michael Maloney, Alexandra Roach, Pip Torrens, Julian Wadham, Angus Wright

Prêmios:
Globo de Ouro de melhor atriz drama (Meryl Streep)
BAFTA de melhor atriz (Meryl Streep) e melhor maquiagem

Meryl Streep é a minha atriz favorita. Em sua geração, não existe outra que seja tão volúvel e competente quanto. Uma atriz que acredito ter condições de seguir seus passos é Kate Winslet, que já se mostrou capaz de encarar qualquer papel, entre a comédia, romance e – especialmente – drama. Enfim, nem sempre os filmes em que se encontram são estupendos, mas suas performances sempre são. Por isso Meryl é recordista em indicações ao Oscar (18 com a deste ano), mas apenas faturou duas delas, sem contar com este ano.

É meio sem graça vê-la sendo indicada quase todos os anos, mas isso é o resultado de duas variáveis: 1) especialmente nos últimos anos, faltam papéis fortes femininos (eles existem, mas não em um número tão expressivo); 2) Streep sempre faz por merecer. Como era de se esperar, em A Dama de Ferro, que estréia nesta sexta-feira nos cinemas brasileiros, Streep proporciona ao espectador mais uma atuação digna de premiação. O único problema é que o longa-metragem em que ela está não acompanha o seu talento.
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