Poetas radicados em SC debatem o haicai e o Antropoceno na Biblioteca Pública do Paraná

Poetas radicados em SC debatem o haicai e o Antropoceno na Biblioteca Pública do Paraná

Aline Assumpção, Felipe Moreno e Ricardo Corona participam do evento, que acontece nesta quinta-feira, 18 de junho, em Curitiba.

O que a milenar e concisa poesia japonesa tem a dizer sobre os tempos de crise climática, tecnologia desenfreada e transformações globais? Para responder a isso, os poetas Aline Assumpção e Felipe Moreno (ambos radicados em Santa Catarina), junto ao paranaense Ricardo Corona, reúnem-se no próximo dia 18 de junho (quinta-feira), às 17h, no saguão da Biblioteca Pública do Paraná, em Curitiba.

O encontro “As três tardes do haicai: o poema breve no Antropoceno” promove um lançamento coletivo simultâneo, seguido de leitura comentada e roda de conversa com o público. O evento é gratuito e terá a mediação da poeta e bióloga Grazielle Weiss — uma combinação cirúrgica para debater a intersecção entre a precisão da palavra e as urgências do Antropoceno.

O haicai como lente para o presente

Longe de ser apenas uma contemplação passiva da natureza, o haicai ganha contornos de resistência e crônica urbana nas obras dos autores. O evento marca o encontro de três vertentes que tensionam a tradição poética:

  • Aline Assumpção: Curitibana radicada em Florianópolis, traz o recém-lançado haikaos daki (Casatrês, 2025). Com forte herança de Paulo Leminski, Aline leva o poema breve à fronteira da contestação política, flertando com o apocalipse e a distopia tecnológica através de um olhar ácido e bem-humorado.
  • Felipe Moreno: Paulistano também radicado na Ilha de Santa Catarina, apresenta O clarão das frestas: dez lições de haicai encontradas na rua (Círculo de Poemas, 2024). Moreno explora o cotidiano urbano através do haicai e do haibun (prosa poética), buscando a faísca da poesia nos dias que explodem.
  • Ricardo Corona: O paranaense fecha o trio com os livros Morada do vazio e Nuvens de bolso (Iluminuras, 2023). Corona mergulha no tanka (forma que antecede o haicai) e na tradição zen, promovendo uma transposição afetuosa da poética japonesa para a identidade cultural brasileira.

O evento é uma oportunidade singular para jornalistas, estudantes, escritores e entusiastas da literatura compreenderem como uma estrutura de apenas três versos pode carregar o peso — e o espanto — do mundo contemporâneo.

Sobre as obras

haikaos daki
Aline Assumpção
(Casatrês, 2025)
Estreia de Aline Assumpção na poesia, haikaos daki despeja, através do poema mínimo, a contundência da crítica destes fins de mundo: colapso ecológico (nos seus haikaos daki) e distopia tecnológica (nos seus haikaos haitek) são os eixos temáticos de tercetos que apontam, acusam as crises ambientais e sociais da Ilha. Aline, quando fala da Ilha onde mora, também fala do mundo, sem nos deixar esquecer pelo quê vale a pena viver. É como uma leminskiana que verte o haicai à perspectiva do político-quase-apocalítico. O livro conta com apresentação do poeta Ricardo Corona e posfácio do escritor e editor Felipe Moreno.  


O clarão das frestas: dez lições de haicai encontradas na rua
Felipe Moreno
(Círculo de Poemas, 2024) 

Nas páginas do ensaio O clarão das frestas, o poeta, ensaísta e editor Felipe Moreno sai à rua para caçar haicais (“sutilíssimo espanto diante de todo e qualquer fenômeno — com preferência aos diminutos e corriqueiros”) e encontra um mundo em que, soterrada pela brutalidade de uma forma de vida que espalha destruição, a poesia vibra nas coisas mais banais e ensina a ver tudo ao nosso redor com uma nova sensibilidade. 


Morada do vazio e Nuvens de bolso
Ricardo Corona
(Iluminuras, 2023)

Morada do vazio reúne tankas recentes e pretéritos, que seguem o espírito do ukiyo-e, conceito budista que acessa a simplicidade mundana da vida, seus pequenos e fúteis movimentos. Morada do vazio traz ainda um pequeno prefácio que divulga as ideias de Fujiwura Hamanari, contidas na sua obra Kakyôhyôshiki, divulgado entre nós por Geny Wakisaka, em que apresenta um pequeno tratado de regras com o objetivo de propor uma melhor estrutura fonética para o tanka.

Nuvens de bolso, livro de haikus, a forma mais conhecida e divulgada entre nós, que traz referências orientais e brasileiras, especialmente Matsuô Bashô (1644-1694), estando em Nuvens de bolso desde o título, que, discretamente, homenageia o poeta japonês, fazendo referência ao seu livro póstumo Oi no Kobumi (Caderno de mochila). O livro se divide em três seções que são uma tentativa afetuosa de trazer aspectos da poética japonesa para a língua e cultura brasileiras. Nuvens de bolso foi um dos ganhadores do prêmio Outras Palavras/Lei Aldir Blanc (2020).

O que é o Haicai?

Nascido no Japão do século XVII, o haicai (ou haiku) é uma estrutura poética brevíssima de três versos. Tradicionalmente voltado para celebrar as estações do ano e a impermanência da natureza, o gênero ganhou forte identidade no Brasil a partir do Modernismo. Renovado por nomes que vão de Helena Kolody a Paulo Leminski, o “poemeto nipônico-brasileiro” hoje abraça desde a crônica das cidades até a crítica social.

Serviço:

  • O quê: Roda de conversa e lançamento coletivo “As três tardes do haicai: o poema breve no Antropoceno”
  • Quando: Quinta-feira, 18 de junho, às 17h.
  • Onde: Saguão da Biblioteca Pública do Paraná (Rua Cândido Lopes, 133 – Centro, Curitiba/PR).
  • Quanto: Gratuito e aberto ao público.

Por Rodrigo Ramos
Fotos: Divulgação

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