Por que ‘Mulher-Maravilha 1984’ deixou um gosto amargo na minha boca

Confira nossa crítica sobre o novo filme da DC Comics.

Mulher-Maravilha, de 2017, pode até ter seus problemas técnicos e estruturais como filme — mas, como construção de um ícone, resgate ideológico do símbolo do super-herói, é um dos textos mais perfeitos do subgênero cinematográfico até hoje. Nas mãos do roteirista Allan Heinberg e da diretora Patty Jenkins, o filme ambientado na 1ª Guerra Mundial, o “conflito para acabar com todos os conflitos”, reposicionou Diana de Themyscira (Gal Gadot) no cânone do super-heroísmo como a sua encarnação mais pura, o seu ícone mais óbvio.

É curioso, portanto, que esse mesmo idealismo seja um dos problemas mais evidentes de Mulher-Maravilha 1984, continuação lançada há poucas semanas nos cinemas brasileiros. Transferindo sua ação para a década do exagero estético, da ganância desenfreada, da própria construção dos mitos nos quais se fundam o que conhecemos como o capitalismo contemporâneo, Jenkins (que dessa vez também escreve, com Geoff Johns e Dave Callaham) e companhia se mostram tremendamente obstinados em desconstruir o seu símbolo de super-heroísmo até o núcleo mais puro, indivisível, inseparável da personagem.

E isso não é algo ruim, por si mesmo (um refrão que eu tendo a usar muito, na minha cabeça, quando estou pensando sobre esse filme). Mulher-Maravilha 1984 desmonta a glamourização do super-heroísmo com habilidade, revelando já na cena de abertura que Diana não está acima de “tomar o caminho mais curto” para conseguir o que quer — um texto revelador do filme que está por vir, que também faz questão de sublinhar a solidão desesperadora de sua protagonista na vida oitentista.

Criar essas rachaduras no titã super-heróico que construiu no primeiro filme é uma decisão perfeita de Jenkins e seus colegas roteiristas, principalmente por evitar que essa tal construção se torne fútil pela própria existência de uma sequência. A ideia de Diana como o símbolo (quase) infalível de heroísmo e esperança seria risível para um filme que mostra que, sete décadas depois do “conflito para acabar com todos os conflitos”, a humanidade continua em estado agonizante de digladiação contra si mesma.

Mas é aí, também, que Mulher-Maravilha 1984 tem seu primeiro e inevitável esbarrão na realidade, e onde começa a construir um subtexto que não pode renegar. O mundo onde Diana caminha nessa continuação é externamente próspero, como um Steve (Chris Pine) retornado dos mortos prontamente percebe, mas também terrivelmente injusto. Mortalmente injusto. Um mundo onde beleza e conformação às normas sociais são valorizados acima de caráter e inteligência; onde o dinheiro define quem realmente obtém o poder; onde povos inteiros são expulsos e violados em suas próprias terras; onde mulheres sofrem assédio nas ruas o tempo todo, todo dia; onde qualquer tipo de diferença é esmagada, sufocada e calada por qualquer meio possível.

Eu não estou só listando problemas sociais em geral aqui, estou falando de coisas que o longa efetivamente mostra. Porque, acredite em mim, eu sou plenamente capaz de tratar um filme de super-herói como diversão escapista, embora não ache que todos eles precisam ser isso. Mulher-Maravilha 1984 deixa muito claro que não é, ou pelo menos está determinado a não ser — este é um filme inegavelmente, inevitavelmente, indubitavelmente político, que escolheu um período na história onde, salvo uma falha de visão grave dos roteiristas, era óbvio que um discurso social se formaria com a trama que eles resolveram contar.

Nesse mundo difícil, dolorosamente real, concebido por Mulher-Maravilha 1984, entra em cena Maxwell Lord (Pedro Pascal), um empresário com uma companhia de petróleo fracassada que deseja a prosperidade econômica, na pior tradição ultra-americana, porque acha que esta é a única forma de mostrar (para o filho, para o pai violento de suas memórias, para o mundo) que tem algum valor. É por isso que ele está atrás da pedra mística que está no centro da trama, capaz de conceder desejos a quem está tocando nela, mas sempre tomando algo em troca.

Uma vez que ele a consegue, o caos se instaura no mundo do filme. Lord começa a conceder desejos à torto e à direito, tomando cada vez mais poder para si no processo — uma paródia esperta da forma como confiamos em bilionários e “homens da indústria” para satisfazer nossas necessidades e caprichos, sem pensar no quanto eles agora controlam nossas vidas. Ele pode ser lido como um avatar para figuras como Donald Trump, que fizeram sua fortuna de forma semelhante nos anos 1980, mas também temos os nossos Lords no século XXI, que atendem por Bezos, Zuckerberg, Musk.

Com o caos plantado por ele, o mundo de Mulher-Maravilha 1984 entra em parafuso. Conflitos que já existiam explodem em uma escalada de violência alucinante (como se todas as guerras, frias ou quentes, entrassem em ponto de ebulição quando ambos os lados podem simplesmente desejar a aniquilação do outro), e as ruas são tomadas pelas consequências de desejos egoístas ou diretamente hostis a pessoas e grupos específicos. E foi aí que as coisas começaram a bater um pouco mais fundo para mim.

Mulher-Maravilha 1984 subitamente se tornou, diante dos meus olhos, uma ilustração dolorosa de uma realidade difícil para qualquer um que sofreu violência ou opressão: não existe caminho curto para a liberação, não existe atalho que possamos pegar para nos vermos livres das injustiças de um mundo que temos pouco ou nenhum poder de realmente mudar. É preciso trabalho duro, é preciso que muita gente sofra, e morra, para que o arco moral do universo se dobre na direção da justiça, tão lentamente quanto ele quiser.

Eu me senti como a pequena Diana no começo do filme, impedida de alcançar o seu desejo e puxada para trás com uma lição de moral sobre como “nada de bom nasce da mentira”, e a “verdadeira grandeza” não é o que pensamos. E, sabe, a tia de Diana estava certa: a verdadeira grandeza é a de quem faz o trabalho duro que eu citei acima, e não de quem deseja pelo atalho. O verdadeiro heroísmo reside na coragem de encarar um mundo que quer nos esmagar e resistir a ele com todo recurso que pudermos ter — e muita gente vai perder essa batalha. A natureza do heroísmo no mundo real é que frequentemente nossos heróis estão mortos.

Mas não Diana, é claro. Não em Hollywood. Não em uma das maiores franquias da atualidade. Mulher-Maravilha 1984 tenta, no terceiro ato, harmonizar o seu mundo conflituoso e reabilitar sua heroína como o símbolo de esperança, amor e otimismo que construiu no primeiro filme. É óbvio que tenta. Seria até injusto pedir que não tentasse — há interesses econômicos envolvidos nessa imagem, e uma equipe criativa que sempre deixou claro a virtude que vê nessa caracterização da personagem.

No discurso em que busca afastar o vilão Lord do seu caminho ganancioso, a heroína exalta as virtudes de um mundo que “já era lindo” antes que todos alcançassem os seus desejos, repete os mantras de sua tia e contrapõe a futilidade da mentira com uma verdade que deveria ser apreciada, apesar dos pesares. É claro que ela o convence, com a ajuda do seu laço da verdade, e Pascal vende a conversão de Lord com a mesma convicção inabalável com que vendeu os motivos profundamente machucados de sua empreitada vilanesca — ele é o que há de mais autêntico, mais envolvente no filme todo.

Já no epílogo natalino, Diana e um homem cuja relevância para o plot seria desnecessariamente difícil de explicar se maravilham com “todas as coisas” incríveis que esse mundo tem a oferecer. Mas Mulher-Maravilha 1984 não nos mostrou esse mundo, essa vibrância, além da superfície mais óbvia e materialista. Eu sei que ele está lá, mas ainda sinto o gosto amargo na boca de um filme que comprou esse discurso com indiferença, casualidade, incômodas.

A julgar só pelo filme de Patty Jenkins e cia, apreciar esse mundo “lindo” é fácil, mesmo que ele seja terrivelmente injusto. Mortalmente injusto. O erro de Mulher-Maravilha 1984 foi ter deixado o lado mais sombrio da humanidade penetrar as suas ideias iconoclastas de heroísmo. O erro foi achar que seria possível retornar ao ícone do primeiro filme após gastar tanto tempo, energia e inteligência desmontando-o. O erro foi presumir que seria fácil, para o público, conciliar o mundo em pedaços que o longa se permitiu mostrar e a ingenuidade vitoriosa da heroína em seu centro.

Eu gostaria de dizer que eles presumiram certo, e que Mulher-Maravilha 1984 me deixou com a sensação de triunfo e esperança que ele claramente quer passar. Mas, apesar de eu ter alta tolerância às falácias hollywoodianas, e estar tão faminto por uma faísca de idealismo em um ano miserável como este, essa aqui desceu muito mal.

Mulher-Maravilha 1984 
Wonder Woman 1984
EUA | Reino Unido | Espanha — 2020
151 minutos

Direção:
Patty Jenkins
Roteiro:
Patty Jenkins, Geoff Johns, Dave Callaham
Elenco:
Gal Gadot, Chris Pine, Kristen Wiig, Pedro Pascal, Robin Wright, Connie Nielsen, Lilly Aspell, Amr Waked

Por Caio Coletti

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