Melhores Séries (Comédia) da Temporada 2019/2020

Better Things, Insecure e GLOW estão na lista.

O Previamente, a partir de um júri com 21 pessoas entre profissionais da área, jornalistas, críticos, estudantes e aficionados por séries, elegeu as melhores séries (comédia) da temporada 2019/2020. A seleção foi realizada utilizando os mesmos critérios do Emmy Awards: entram as obras que foram exibidas em sua totalidade ou mais de 50% de sua temporada entre 1º de junho de 2019 até 31 de maio de 2020.

Confira abaixo a lista completa abaixo.

MELHORES SÉRIES (COMÉDIA)

The Marvelous Mrs. Maisel (Amazon Prime Video) – Terceira Temporada

Sabemos que Jeff Bezos (ou seja, a Amazon) tem dinheiro de sobra — recentemente, ele quebrou o próprio recorde de homem mais rico do planeta, com fortuna avaliada em US$ 171,6 bilhões. Ainda assim, não deixa de chocar o fato de que The Marvelous Mrs. Maisel seja uma série com produção tão arrojada, criando uma ambientação de universo de nível HBO — e, para isso, sabemos, é preciso dinheiro. Como foi decidido que Mrs. Maisel merecia o investimento em primeiro lugar, nunca saberei. O que posso dizer é que cada centavo aqui vale a pena. Em termos de valor de produção, ela é impecável e neste terceiro ano nota-se um esforço ainda maior para atrair os olhos dos espectadores, desde o trabalho mais ousado de edição e câmeras, figurinos e design de produção primorosos. É satisfatório vermos séries com tamanho cuidado nesse sentido no ar.

Esses elementos contribuem, é claro, para que Mrs. Maisel seja o que é, mas esse universo de uma dona de casa que resolve ser uma comediante entre os anos 50 e 60 só funciona de verdade porque conta com um roteiro cômico afiado. Narrativamente, pode não ter a melhor rota e o final da temporada parece pôr sua protagonista de volta à estaca zero? Sim — apesar de que não é possível afirmar até vermos de fato. Contudo, o texto de Amy Sherman-Palladino é eficiente em inserir uma piada em cada diálogo. Aliás, seus diálogos são extremamente longos, rápidos e costumeiramente divertidos, de modo que ninguém em Hollywood hoje é capaz de escrever a não ser ela. Para dar conta deles, o elenco continua elevando o nível de atuação ao entregar cada linha de forma sublime. Infelizmente, a série não é tão progressista quanto gostaria (ás vezes tenta, mas nem sempre atinge as notas) e poderia ser. Contudo, a série se mantém como um divertimento com alto valor de produção. — Rodrigo Ramos

Schitt’s Creek (CBC/Pop TV) — Sexta Temporada

Após ser recusada por emissoras como HBO, ABC e Showtime, Schitt’s Creek foi adquirida pela emissora canadense CBC e o canal pago estadunidense Pop TV. Co-criada por pai e filho, Eugene e Daniel Levy, a série ficou debaixo do radar de muitos durante seus primeiros anos de exibição (seu debute foi em 2015), passando a ter notoriedade, especialmente nos EUA, depois de entrar no catálogo da Netflix. Daí em diante, foi impossível negar a gema que é a produção.

Apesar de não tem uma premissa muito original (inclusive muitos apontam ser parecida com Arrested Development, e de fato é!), Schitt’s Creek conta a história dos Rose, uma família extremamente rica que perde tudo e se vê obrigada a morar no único bem que lhes restou: uma cidade chamada Schitt’s Creek, que foi comprada pela família no passado como uma brincadeira (“Schitt” tem a mesma sonoridade de “shit”, que significa “merda” em inglês, caso não saibam). Mas o que difere Schitt’s Creek de Arrested Development, por exemplo, é a sua abordagem. Esta história de peixe fora d’água tem personagens detestavelmente adoráveis (ou adoravelmente detestáveis?) e nos apaixonamos por cada um deles. Assim como The Good Place e várias outras comédias atuais tentaram, Schitt’s Creek também tenta e é bem sucedida em consegue criar narrativas de autoaperfeiçoamento verdadeiramente genuínas dos personagens mais improváveis, e de forma extremamente orgânica, sutil e brilhante.

Schitt’s Creek é um fenômeno como poucos outros vistos na TV. O maior feito da série foi ao invés de diminuir ao longo da sua exibição, ela cresceu, ganhou tração e continuou crescendo, e terminou em sua sexta temporada, no que ouso chamar de seu ápice de sucesso, o que não é muito comum, já que podemos ver vários exemplos de séries esticadas ao máximo para darem retorno financeiro à emissora (oi, Big Little Lies e The Handmaid’s Tale). Hoje, seis temporadas depois, Schitt’s Creek mostrou o porquê Eugene Levy e Catherine O’Hara são considerados ícones da comédia e referências na indústria, revelou novos talentos como Annie Murphy e Daniel Levy (que já tem acordo garantido de três anos de desenvolvimento de novas séries com a ABC), e, principalmente, tornou-se um clássico cult, sem dúvida uma das melhores comédias dos últimos anos. — Régis Regi

What We Do In The Shadows (FX) — Segunda Temporada

Na série derivada do filme homônimo What We Do In the Shadows, acompanhamos a história dos quatro vampiros que dividem uma casa em Staten Island e compartilham conosco seu dia-a-dia em um falso documentário. O formato mockumentary não é exatamente uma novidade na TV, mas a série utiliza o recurso de forma bastante criativa. Um acerto acerca disso, ainda mais presente nessa segunda temporada, são as interações perigosas dos personagens principais com os membros da gravação, câmeras e outros técnicos da equipe do documentário.

A série é bem sucedida em brincar com esteriótipos advindos de outras obras que também contam com a presença de vampiros e demais seres sobrenaturais. Com a diferença de que aqui temos uma perspectiva mais íntima, o que torna tudo ainda mais bizarro e, consequentemente, engraçado. A combinação de elementos da vida moderna que não são do conhecimento desses seres que nasceram há centenas de anos rende muitas cenas engraçadas. Além disso, a relação dos vampiros com os vizinhos gera momentos que escalam muito rapidamente para situações completamente fora de controle. Trata-se de uma obra despretensiosa cuja genialidade reside no absurdo e no exagero, e que não falha em divertir. — Valeska Uchôa

Insecure (HBO) — Quarta Temporada

Quando a gente para e pensa um pouco sobre a trajetória de Insecure em seus quatro anos, fica mais do que claro que ela é uma série à frente do seu tempo. Issa Rae, a criadora e protagonista do show, vem ressignificando conceitos de representatividade, ao colocar um foco mais do que bem-vindo sob a vida de jovens adultos negros de Los Angeles. O diferencial aqui é que encaramos esses personagens como pessoas que não são definidas apenas pela cor da pele. Além dos preconceitos que eles precisam enfrentar – isso nunca é esquecido pelo excelente texto, que sempre acha um bom momento para tocar na ferida de forma inteligente e ácida –, existem vidas e dramas pessoais de pessoas comuns.

O quarto ano, que veio depois de uma longa pausa, só prova o quão madura é a visão que os roteiristas têm dos seus protagonistas. Abrimos a temporada com um flashforward sobre o fim da amizade entre Issa e Molly, para então acompanharmos o que fez com que tudo se desestruturasse de vez. Não faltam novos coadjuvantes interessantes e situações hilárias, porém o trunfo deste ano foi mesmo o pé no lado mais dramático da série. Entra na jogada um curioso destaque para o egoísmo com o qual costumamos tratar as relações que entendemos como “confortáveis demais para precisarem de um cuidado maior”, o que acaba sendo um prato cheio para Issa e Yvonne Orji brilharem em sequências de cortar o coração. No momento, a gente já comemora um quinto ano, depois da renovação pela HBO, mas não é exagero que muita gente tenha considerado o finale como um belíssimo final para Issa e Molly. Pelo menos por hora, temos a certeza de que Insecure ainda vai nos divertir e surpreender por um bom tempo. — Zé Guilherme

GLOW (Netflix) — Terceira Temporada

Quanto mais esquecida pela Netflix em seu catálogo, melhor GLOW parece ficar. Nesta terceira temporada a série entrega seu melhor ano com suas personagens longe de casa. Distante de seus entes queridos, é uma na outra que elas tentam encontrar uma família, o amor ou algum amparo emocional, em meio ao sucesso crescente que fazem em Las Vegas, e que rende uma extensão que faz GLOW, o show, perdurar por um ano na cidade. Durante esse tempo, vamos nos aprofundando na vida pessoal dessas personagens, mas é na união delas que GLOW triunfa — e sempre o fez, desde o princípio. Por mais que Alison Brie, Betty Gilpin e Marc Maron sejam os destaques óbvios (e merecidamente), é quando personagens como a Sheila de Gayle Rankin mostram sua força em suas narrativas pessoais que GLOW se sobressaí, porque mostra o quanto se importa com cada um de seus personagens, e como é bom acompanhar esse processo de crescimento. É dessa maneira que a série se potencializa e entrega narrativas catárticas envoltas na leveza do humor construído naturalmente através da relação dessas personagens, o que culmina em momentos como a troca de personas em “Freaky Tuesday” ou o hilário especial de Natal no finale desta temporada, sem deixar de lado, é claro, discursos veementes, como a sensibilidade em tratar a sexualidade das personagens, ou o impiedoso contragolpe de Debbie nos negócios, que rende o gancho para a temporada final da série. — Renan Santos

Better Things (FX) — Quarta Temporada

Há quatro anos Better Things aparece nesta lista anual como uma das melhores séries no ar. A constância não é por acaso. Apesar de ignorada pelas grandes premiações, o seriado co-criado, escrito, dirigido inteiramente, produzido e estrelado por Pamela Adlon continua, à sombra de outras produções mais badaladas, entregando um trabalho delicado, honesto, engraçado e tão real quanto a própria vida. Possivelmente já fiz o mesmo elogio nos anos anteriores, mas não deixou de ser verdadeiro. Aliás, Adlon vem amadurecendo como criadora ano após ano e os episódios parecem cada vez mais fluídos, criativos e capazes de aquecer o coração de qualquer um.

Mantendo uma narrativa, mas sendo dividida em pequenos capítulos ou esquetes, Adlon aborda temas mundanos e que poucos criadores teriam interesse em falar sobre, como dor decorrente de síndrome do túnel do carpo, o vestido do trabalho da filha que não foi lavado, a crise de meia idade de uma mulher solteira nos 50 anos com três filhas, reuniões em família (talvez depois de Fleabag e Succession as pessoas tenham passado a apreciar conversas acaloradas, regadas de deboche e sarcasmo entre familiares), assistir TV na cama com as filhas, preparar uma sobremesa de madrugada, se reunir com as amigas para falar mal dos ex-maridos, o legado dos pais (no caso, os homens, não contabilizem as mães aqui) de merda, e por aí vai. Better Things não é uma série de grandes temas, ao menos não de modo explícito. Ela é mais modesta, contida, mas sua narrativa não é invalidada por isso, tampouco é menos relevante. Pelo contrário. Seu poder reside justamente em trazer situações cotidianas, comuns, pelos diálogos tão francos, e sua pretensão ser nada além de mostrar a beleza que habita na vida. — Rodrigo Ramos

Ramy (Hulu) — Segunda Temporada

Desde Louie dramédias semiautobiográficas de comediantes têm virado quase uma fórmula televisa moderna. Entre a tragédia e o riso da existência de todas essas séries, Ramy com certeza se consolida numa excelente segunda temporada como um dos melhores exemplares desse gênero. A série do comediante Ramy Youssef vai tratar dessa versão ficcional dele mesmo entrando em conflitos como ser humano, da sua masculinidade, sua religião como muçulmano nos Estados Unidos e por aí vai. A segunda temporada só reafirma a qualidade dela adicionando a ilustre presença de Mahershala Ali e tratando dos conflitos internos do próprio Ramy, além das suas relações no seu ciclo familiar e de amizades, não se resumindo apenas na temática religiosa num contexto moderno tão importante para série, mas desenvolvendo num olhar mais profundo e amplo a psique do personagem central nas suas jornadas cotidianas, intimistas e absurdas, que vão de uma tristeza profunda até momentos hilários. — Diego Quaglia

BoJack Horseman (Netflix) — Sexta Temporada

BoJack Horseman se encerra com seis temporadas. O timing é correto, pois a série não passava a impressão de que poderia continuar por tantos anos como Family Guy ou Simpsons. Sua narrativa era finita. Em uma escolha certeira (nem acredito que vou fazer esse elogio), a Netflix optou por finalizar a animação na sexta temporada. Desta maneira, Raphael Bob-Waksberg e sua equipe precisaram amarrar as pontas e concluir essa história. Assim como nas suas últimas quatro temporadas, a série definitivamente sabe para onde vai. Neste derradeiro ano, os personagens encontram-se todos insatisfeitos em certa escala, quiçá infelizes. Do lugar onde estão, eles decidem, cada um do jeito, fazer as pazes consigo e com os outros para seguirem em frente. Amadurecimento acaba sendo um dos temas desta temporada. De maneira sempre eficiente, BoJack Horseman aborda os problemas pessoais de seus personagens com cautela e propósito. Neste ano, vemos as dificuldades de querer ser uma mãe solteira e continuar no alto nível da carreira profissional, de vencer o vício, como a depressão é uma doença desgraçada, mas é possível viver com ela e ser feliz apesar dela, o poder do perdão — e a recusa de um pedido de perdão também.

Para o protagonista em questão, um ponto chave é se ele sofrerá as consequências do seus atos ou não. Afinal, BoJack causou danos a tantas vidas, incluindo sendo responsável pela morte de Sarah Lynn. Existe redenção para alguém assim? A série construiu uma narrativa que jamais exaltou como algo positivo as escolhas erradas de seu personagem principal e, felizmente, ele encontra sua punição — e não é a morte. Matar o protagonista seria uma resposta simplista para problemas complexos. É mais árduo para ele ter de se reconstruir, deixar de lado sua faceta autodestrutiva e nociva a terceiros, ter que começar novas relações e tentar reparar o estrago que causou do que simplesmente encontrar uma saída fácil como a morte. A última temporada é sacana em mostrar que o personagem finalmente mudou, mas seus pecados o alcançam e mesmo melhorado precisa pagar pelos erros, incluindo ter relações afetivas destruídas e que nunca terá de volta.

BoJack Horseman conecta com o espectador porque aborda temas contemporâneos importantes de modo que nenhum outro programa na TV faz atualmente. Em especial, todo o tratamento dado aos problemas psicológicos (incluindo vício, depressão e trauma) é esplendoroso. E quando quer fazer rir, caramba, a série é extremamente engraçada (“Surprise!”, o episódio em que Todd organiza um casamento surpresa para Pickles e Mr. Peanutbutter, é hilário). No fim, a narrativa se conclui de maneira mais do que satisfatória, deixando a sensação de que durou o tempo que precisava, e seus personagens tiveram o destino merecido, condizente com todo o caminho trilhado por eles. Com franqueza, humor ímpar, criatividade e, acima de tudo, humanidade, BoJack Horseman se despede como a melhor produção original da Netflix, sim, mas também como uma das grandes séries da década. — Rodrigo Ramos

Menções honrosas: The Good Place (NBC), High Fidelity (Hulu), Kidding (Showtime), Lodge 49 (AMC), Sex Education (Netflix).

Continue a leitura clicando nos ícones abaixo ou vá à publicação original.

 

Fizeram parte do júri
Angelo Bruno, estudante de Letras — Licenciatura em Português.
Breno Costa
, roteirista.
Caio Coletti, jornalista e colaborador do site UOL.
Dana Rodrigues, editora do site Diário de Seriador.
Diego Quaglia, cineasta, roteirista e crítico de cinema e audiovisual.
Diogo Pacheco, colaborador do Série Maníacos.
Fillipe Queiroz, estudante de Psicologia, aficionado em séries.
Geovana Rodrigues, sommelier de séries.
Gustavo Marques, produtor de conteúdo e entusiasta de televisão.
Juliano Cavalcante, bacharel em Economia, escreve sobre seriados na internet desde 2005.
Leonardo Barreto, editor do Quarta Parede Pop.
Luis Carlos, administrador do grupo Crônicas de Séries e da página Cultura em Frames.
Mariana Ramos, roteirista, mestre em Cinema e Audiovisual, host do podcast Maratonistas.
Mikael Melo, jornalista, produtor de Jornalismo na NDTV Record.
Rafael Bürger, bacharel em Imagem e Som pela UFSCar e cineclubista.
Rafael Mattos, estudante de Jornalismo, administrador do grupo Crônicas de Séries.
Rafaela Fagundes, sommelier de séries.
Régis Regi, bacharel em Cinema, roteirista, host do podcast Maratonistas.
Renan Santos, formado em Cinema, crítico e newsposter no site Cine Eterno.
Rodrigo Ramos, jornalista, editor do site Previamente, repórter da Huna Comunicação Para o Bem.
Valeska Uchôa, cientista da computação, ex-colaboradora do Série Maníacos e do falecido Lizt Blog.

Textos por Diego Quaglia, Régis Regi, Renan Santos, Rodrigo Ramos, Valeska Uchôa & Zé Guilherme 

Produção, edição e redação final por Rodrigo Ramos

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