O primeiro filme, série, HQ ou game LGBTQ+ com que me identifiquei

Neste Pride Month, perguntamos a membros da comunidade LGBTQ+ quais foram as primeiras obras da cultura pop que lhes representaram de verdade.

Junho é o Mês do Orgulho LGBTQ+ (Pride Month), data de celebração e resistência. Aproveitando o período, o Previamente decidiu abrir espaço para que pessoas da comunidade LGBTQ+ contassem qual foi o filme, série, ou até HQ e game com que se viram representados pela primeira vez e como foi a experiência de ver a cultura pop abordando, finalmente, sua sexualidade.

 

Caio Coletti, 25 anos, homem cisgênero bissexual

Pode chamar de destino: Eu tinha 13 anos quando a Olivia Wilde estreou na pele da Dra. Remy Hadley, “carinhosamente” apelidada de Treze (Thirteen), em House. Tenho certeza que já tinha visto outras representações LGBTQ+ em cinema e TV antes disso, mas House foi uma das primeiras séries que eu acompanhei fielmente, e com certeza a primeira que tinha uma personagem bissexual.

O apego que eu senti pela Treze foi bem imediato, ainda que na época eu não pensasse ou entendesse por quê. Embora a sexualidade dela tenha sido usada, em alguns momentos da série, como uma forma de fazê-la a “misteriosa”, “sexy” do grupo, ela obviamente também despertou o carinho de muita gente, já que ficou no elenco até o comecinho da oitava (e última) temporada da série.

Digo que na época eu não pensei muito nisso porque eu vivi o que, eu acho, é a experiência de muita gente bissexual. Na minha infância e adolescência, a presunção do mundo todo ao meu redor era que eu gostava de meninas – e, como eu percebi que gostava mesmo, nunca questionei isso. E daí, no final do meu ensino médio e na minha faculdade, com o contato com culturas e pessoas aos quais eu não tinha acesso na minha cidadezinha do interior, ficou claro que eu me sentia atraído pelo mesmo sexo também. Acontece que o ambiente ao meu redor era exatamente o oposto daquele dos meus anos formativos, e logo empurrou-me a noção de que na verdade eu era gay, e só não tinha percebido isso antes.

Para muita gente bissexual, eu acho, o processo de reconhecer e assumir (no sentido de tomar posse, e não de assumir para os outros) sua sexualidade é gradual dessa forma, porque é difícil considerar essa possibilidade quando a gente vive em um sistema binário de escolhas (masculino ou feminino, homo ou hétero, etc) desde o nascimento. Quando eu olho para trás, hoje, é muito claro para mim o quão enormemente importante foi assistir a House e ver a Treze vivendo paixões com homens e mulheres, nunca se esquivando disso ou vendo isso como um conflito ou indecisão.

Se a gente quer facilitar o caminho de viver sua verdade para as próximas gerações, poucas coisas são mais importantes que a representatividade no cinema e na TV.

House (2004-2012)

Criado por: David Shore — 8 temporadas
Elenco: Hugh Laurie, Omar Epps, Robert Sean Leonard, Lisa Edelstein, Jesse Spencer, Jennifer Morrison, Olivia Wilde, Peter Jacobson
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Olivia Wilde em House (FOX)

 

Juliano Dias, 28 anos, homem cisgênero homossexual

Os filmes que me marcaram foram Priscilla — A Rainha do Deserto, Paris is Burning e Party Monster. Sempre adorei moda, arte e música, e esses filmes estão ligados a todos os itens citados. Eu os conheci e os assisti ainda na minha adolescência.

Priscilla trata de um trio de amigos que resolve sair rumo ao deserto da Austrália, fazendo shows e mostrando sua arte (nem sempre aceita) aos que pelo caminho estavam. Muita diversão, montação e emoção também!

Paris is Burning é um documentário que basicamente mostra a cultura gay em Nova York entre os anos 80 e 90 e também expõe como os “excluídos” encontraram uma maneira de se divertir e curtir a vida. Muito vogue, montação, bailes e cultura LGBT.

Party Monster já é um filme sobre um adolescente e seus amigos que reinventaram a cena clubber nos anos 90. Também conta com muitas loucuras, looks extravagantes, música eletrônica e um final não muito feliz.

Priscilla — A Rainha do Deserto (The Adventures of Priscilla, Queen of the Desert, 1994)

Direção & Roteiro: Stephan Elliot
Elenco: Hugo Weaving, Guy Pearce, Terence Stamp

Paris is Burning (1990)

Direção: Jennie Livingston

Party Monster (2003)

Direção & Roteiro: Fenton Baily, Randy Barbato
Elenco: Macaulay Culkin, Seth Green, Chloë Sevigny, Wilmer Valderrama
Octavia St. Laurent em Paris is Burning (Miramax)

 

Amanda Kruger, 22 anos, mulher cisgênero bissexual

Confesso que nunca me senti 100% representada com um filme ou uma série. Não por culpa dos personagens já criados ou das mídias em que apareciam, mas na época em que comecei a descobrir minha sexualidade, aos 16 anos, e os desejos que vinha com ela ao olhar outra pessoa do mesmo sexo, não tinha muito conhecimento/acesso a filmes LGBTs, e nem existiam tantas séries com personagens da comunidade.

Lembro do primeiro filme do tema que vi na TV: O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee. Na primeira vez que passou na TV, meu pai mudou de canal; na segunda vez, consegui assistir por completo. Lembro de sentir medo de meus pais me pegarem na sala assistindo ao filme com dois caubóis se pegando nas montanhas. Naquela época, eu tinha a imagem de que as pessoas do mesmo sexo não podiam ter relações amorosas, era “errado”, mas ao mesmo tempo algo me atraía e me prendia, fazendo com que eu não me sentisse tão culpada. A intensidade com qual os dois caras se entregaram a atração que sentiam um pelo outro, junto com o medo e um território totalmente novo me fez sentir que não estava sozinha, que existia sentimentos assim por pessoas do mesmo sexo e que estava tudo bem sentir essa atração por uma pessoa do mesmo sexo que você.

O filme não é a representação mais moderna ou inovadora de um relacionamento LGBTQ +, mas desempenhou um papel importantíssimo para o cinema da época e pra mim. Mais recentemente, posso dizer que gostei muito de Carol (2015), de Todd Haynes e Call Me By Your Name, de Luca Guadagnino.

 

Breno Costa Ribeiro, 30 anos, homem cisgênero homossexual

Eu detesto filmes de romance. A maioria deles segue sempre a mesma fórmula batida, altos e baixos, beijos (talvez casamentos) em cenas finais, às vezes uma montagem mostrando a vida do casal hétero no futuro. Opa, sim, casal hétero. Pensando bem, esse é o principal motivo pelo qual odeio filmes de romance. Casais hétero. Nada contra casais hétero, até tenho alguns amigos que são. Enfim, odeio filmes de romance. Menos O Segredo de Brokeback Mountain.

Da primeira vez que vi o filme, devia ter uns 12 anos, não me entendia como me entendo hoje, mas me lembro exatamente da sensação, pois eu era o Ennis Del Mar (Heath Ledger): inseguro, com medo de mim mesmo e de meus desejos. Talvez, todos os gays já tenham tido, em diferentes escalas, claro, sua fase Ennis Del Mar. Em diferentes proporções, já tentamos nos enganar inúmeras vezes diante do inevitável. Em um microcosmo que muito se aproxima da sociedade homofóbica na qual vivemos, Ennis é obrigado, pelas convenções, a se casar com uma mulher e abandonar a paixão por Jack Twist (Jake Gyllenhaal).

Quantas vezes já nos enganamos, já me enganei, de que esse era o caminho a seguir, o certo? Preso em um universo que jamais o entenderá e tendo que seguir convenções impostas por seus pares, basta a Ennis se fechar. E desabrochar ao lado de Jack. Acredito que todos consigamos nos enxergar em Ennis e suas angústias, suas questões, tudo que ele precisa abdicar para viver seu amor, tudo que ele perderá perante àquela comunidade.

Em um microcosmo como aquele, isso é muito forte; mas também o é no multicosmo da vida real. É também muito impactante perceber tão novo os impactos da sociedade homofóbica na qual vivemos: à época, a morte de Jack me chocou; hoje, ela não só me choca, como me amedronta.

Contudo, gosto de acreditar que caminhamos cada vez para uma sociedade em que precisaremos cada vez menos sermos Ennis Del Mar. Espero que um dia esqueçamos a proximidade do universo de Ennis com nossa realidade e que nossos finais sejam felizes que o de Ennis, abraçado à camisa de Jack.

O Segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain, 2005)

Direção: Ang Lee | Roteiro: Larry McMurtry, Diana Ossana
Elenco: Heath Ledger, Jake Gyllenhaal, Michelle Williams, Anne Hathaway, Linda Cardellini
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Jake Gyllenhaal e Heath Ledger em O Segredo de Brokeback Mountain (Focus Features)

 

Matheus Beilschmidt, 23 anos, homem trans bissexual

Como alguém curioso, eu sempre busquei tudo o que eu podia sobre a comunidade LGBTQ+, principalmente pela causa trans. Me deparei com muitos youtubers e pessoas falando sobre isso, mas nunca havia encontrado na mídia, ou na cultura pop, algum personagem que fizesse jus ao que eu sentia. A maioria das histórias sobre pessoas transexuais terminam em tragédia, até eu me deparar com a franquia de jogos da Bioware, Dragon Age. Desde o começo me senti maravilhado com a diversidade étnica e cultural dos personagens, também com as diversas orientações sexuais que o jogo oferecia. Gays, bissexuais, panssexuais…

Até que em 2014 o terceiro jogo da franquia, Dragon Age: Inquisition, nos introduziu a um jovem guerreiro de espada e escudo chamado Cremisius Aclassi, vulgo Krem. No mundo medieval, coisas como hormônios e cirurgias não são uma opção, mas a magia poderia ser usada para fins disfóricos. Mas não com Krem. Diante de um mundo onde a cisnormatividade reina junto com o machismo, ele não cogitou mudar nada em seu corpo, porque de nada resultaria no seu jeito de ser. Ele, Krem, sempre seria o guerreiro e jovem destemido que acreditava ser, mesmo com todos dizendo o contrário. Além de uma identificação imediata, encontrei uma certa coragem e orgulho em um personagem que nunca duvidou de si mesmo. Para mim, Krem Aclassi é o mais complexo, sensível e bem retratado homem trans nas mídias até então.

Dragon Age: Inquisition (2014)

Direção: Mike Laidlaw, Pierre Michel-Estival
Roteiro: Brianne Battye, Jennifer Brandes Hepler, Sheryl Chee, Sylvia Feketekuty, David Gaider, Mary Kirby, Lukas Kristjanson, Ann Lemay, Patrick Weekes
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Cremisius “Krem” Aclassi em Dragon Age: Inquisition (Bioware/EA)

 

Samuel Asthore Bortoluzzi, 22 anos, homem não-binário e demissexual panromântico

Sempre fui super desligado com muita coisa e sempre demorei mais para perceber certas coisas dentro de mim, como me identificar como um homem não-binário e demissexual panromântico. Foi tudo em etapas: primeiro, me assumi pansexual (durante a escola); depois, não-binário (durante a faculdade de Letras); agora, percebo que sou demissexual (experiencio atração sexual quando há um envolvimento romântico) também. Mas eu lembro de sempre assistir KND — A Turma do Bairro e querer ser o Número 1 (Nico Uno) e me identificar em um nível estranho com Ryan Evans de High School Musical (os sinais estavam todos aí!).

Quando comecei a assistir Doctor Who, lá pelos meus 15 anos de idade, me senti representado tanto pelo Doctor, por sua ingenuidade e sua aparente falta de interesse em arranjar namoros, e Capitão Jack Harkness, porque ele é assumidamente omni/pansexual. Na época, não sabia que existiam nomes para sexualidades, então nunca foi algo consciente de fato. No entanto, acho que foi a primeira e mais memorável vez que vi ambos os extremos sexual e assexual em uma série.

Em paralelo, os quadrinhos sempre tiveram um papel importante pra mim, também. Deadpool foi um personagem de extrema relevância enquanto eu saía do armário (como pansexual, aos 17), que é assumidamente pansexual nos quadrinhos, embora nos filmes gostem de ocultar isso, sua feminilidade e seus fetiches mais estranhos. Sem contar que ele e o Homem-Aranha juntos são a melhor dupla (quem sabe casal) que já vi em quadrinhos. Mas não foram só os de super-heróis de spandex que me ajudaram nesse processo. Sandman, a história em quadrinhos de Neil Gaiman, me ajudou muito também a perceber que, ei, talvez eu não seja tão esquisito assim (isso lá pelos 19 anos, já na faculdade), ainda mais ao ver personagens como Desejo (Desire), um dos Perpétuos, que simplesmente não possui nem gênero nem corpo iguais por mais de uma história, às vezes até menos do que isso.

Sempre me foi uma sensação esquisita, ver algo que eu também sinto, em uma série, filme ou quadrinho. No passado era um friozinho na barriga, como se fosse algo enterrado querendo dizer olá. Hoje em dia eu fico feliz quando me lembro desses personagens e dessas histórias, pois elas tiveram sim sua importância na minha vida, mas sempre de uma forma passiva e inconsciente. Devo dizer que elas me ajudaram a me aceitar melhor como sou, mesmo tendo sido um slow burn e sem dar nome aos bois, geralmente. Talvez se fossem mais diretos eu não teria sofrido tanto (como tirar um band-aid, não é?), mas talvez eu teria ficado mais apreensivo para me colocar em uma caixinha definitiva. Então, de qualquer forma, isso tudo me ajudou bastante a me aceitar como sou hoje em dia.

Doctor Who (2005-atualmente)

Criado por: Sydney Newman — 11 temporadas
Elenco: Jodie Whittaker, Peter Capaldi, Matt Smith, David Tennant, Karen Gillian, Jenna Coleman, Billie Piper, John Barrowman

Sandman (The Sandman, 1989-1996)

Criado por: Neil Gaiman, Sam Kieth, Mike Dringenberg
75 volumes
Personagem Desejo (Desire) em Sandman (DC Comics/Vertigo)

 

Paulo Henrique Testoni (Rikki), 26 anos, homem cisgênero homossexual

Me descobri com 16 anos, por coincidência há exatos 10! É, estou ficando velho… Em todo esse tempo, a representatividade LGBT da mídia mudou muito — e pra melhor! Entretanto, há 10 anos ainda não era assim.

As representações estereotipadas para fins de humor, para mim, não contavam. Sempre eram personagens exagerados colocados num pedestal de “diferente”. Por mais que eu tivesse tido exposição na infância a Sakura Card Captors, anime o qual tem algumas referências a casais LGBT, este teve que se adaptar na versão dublada para que se adequasse na classificação infantil, o que foi suficiente para eu ter deixado passar batido na época.

Minha primeira identificação foi com Glee. A série tinha como premissa abordar pessoas e grupos marginalizados, e um de seus personagens principais era Kurt Hummel (interpretado por Chris Colfer). Pela primeira vez, consegui visualizar um personagem gay que fosse humano. Que lutasse contra o preconceito das pessoas, que tivesse dificuldade em contar ao seu pai, que transparecesse algo mais real. Kurt foi o principal motivo de me fazer acompanhar a série, e nele eu consegui ver pela primeira vez algumas das coisas que eu vivi na minha vida como homossexual.

É uma pena que a série acabou perdendo seu rumo, deixando de lado a premissa dos “underdogs” e dando espaço para dramas de casal e tretas de adolescente. De qualquer forma, suas primeiras temporadas foram de extrema importância pra muita gente.

Queria também fazer uma menção honrosa ao filme Com Amor, Simon. Este é bem mais recente, mas também me marcou bastante. É uma história fofa e até meio rasa, mas também trata a homossexualidade com muita humanidade. Era o tipo de filme que eu queria ter assistido quando era adolescente, e fiquei muito feliz que os adolescentes de hoje tem a oportunidade de assisti-lo.

Glee (2009-2015)

Criado por: Ian Brennan, Brad Falchuk, Ryan Murphy — 6 temporadas
Elenco: Chris Colfer, Jane Lynch, Matthew Morrison, Lea Michele, Kevin McHale, Naya Rivera, Jenna Ushkowitz, Amber Riley, Mark Salling, Heather Morris, Darren Criss, Chord Overstreet, Harry Shum Jr. Cory Monteith, Dianna Agron, Melissa Benoist

Com Amor, Simon (Love, Simon, 2018)

Direção: Greg Berlani | Roteiro: Isaac Aptaker, Elizabeth Berger
Elenco: Nick Robinson, Bryson Pitts, Nye Reynolds, Josh Duhamel, Jennifer Garner, Katherine Langford, Alexandra Shipp, Jorge Lendeborg Jr., Keiynan Lonsdale
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Chris Colfer em Glee (FOX)

 

Dierli Santos, 31 anos, mulher cisgênero homossexual

Hoje parece besteira porque, olhando em retrospecto, nem tinha tanta representatividade assim. Mas na bolha de quem só via série que passava na TV a cabo (e só as mais populares) ver o casal Marissa (Mischa Barton) e Alex (Olivia Wilde), em The O.C., representou muito. Foi bem legal, enfim, poder ter um casal de meninas na televisão, num fenômeno pop, super comentado.

Enquanto isso, no cinema, antes da Lena Headey ser a rainha poderosa de Game of Thrones (ou a Sarah Connor para as duas pessoas que acompanharam a série Terminator: The Sarah Connor Chronicles), ela fez um filme muito fofo que me marcou bastante, chamado Imagine Eu & Você. Fazendo par com Piper Perabo, elas protagonizam um dos poucos romances LGBT que, na época, não me fizeram chorar de tanta tristeza. Pode não ser tão profundo ou complexo, mas às vezes a gente precisa assistir algo com final feliz.

The O.C. (2003-2007)

Criado por: Josh Schwartz — 4 temporadas
Elenco: Ben McKenzie, Peter Gallagher, Kelly Rowan, Adam Brody, Rachel Bilson, Mischa Barton, Melinda Clarke, Tate Donovan, Alan Dale, Autumn Reeser, Chris Carmack, Olivia Wilde

Imagine Eu & Voce (Imagine Me & You, 2005)

Direção & Roteiro: Ol Parker
Elenco: Piper Perabo, Lena Headey, Matthew Goode, Celia Imrie
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Olivia Wilde e Mischa Barton em The O.C. (FOX)

 

Bruna Accioly, 30 anos, mulher cisgênero homossexual

Meio desconhecida aqui no Brasil, a série South of Nowhere é de 2005 e passava no canal The N. (who?) nos Estados Unidos. Sem transmissão em canal a cabo brasileiro e sem opção de legendas, o jeito era aprender inglês na marra para poder acompanhar a primeira série teen com protagonistas LGBT (que eu tenha conhecimento). Foi maravilhoso descobrir pela internet a existência da Spencer e da Ashley. Uma pena que durou pouco e que a série não se tornou mais conhecida.

South of Nowhere (2005-2008)

Criado por: Tommy Lynch – 3 temporadas
Elenco: Gabrielle Christian, Mandy Musgrave, Matt Cohen, Maeve Quinlan
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Gabrielle Christian e Mandy Musgrave em South of Nowhere (The N)

 

Thiago Julio, 23 anos, homem cisgênero homossexual

Comecei a descobrir minha sexualidade aos 10 anos, com um primo de segundo grau. O misto de paixão e curiosidade pelo novo fazia da minha barriga um borboletário em festa. Atrelado a isso, vinha o medo, reforçado principalmente pelo que prega — erroneamente — a religião e a Igreja Católica.

O filme Má Educação, dirigido por Pedro Almodóvar, é uma síntese de tudo que senti. Dois meninos, descobrindo seus corpos em segredo (no caso da produção, num colégio religioso), um deles não sendo capaz de esquecer a sensação que o tomava conta a cada beijo ou toque.

A película me foi apresentada pelo canal iSat, da televisão paga, na mesma época dos acontecimentos. Cada cena de nudez trazia êxtase, de maneira ingênua conduzindo com a idade. Sem falar da trama central do filme, que foi escrita entorno de um roteirista — minha principal meta como profissional.

O ator Gael García Bernal interpreta (o falso) Ignacio Rodriguez de forma esplêndida, enquanto Fele Martínez dá um toque sutil e vislumbrado a Enrique. Menção honrosa também para fotografia, de tons quentes.

Muitos filmes vieram com o passar dos anos. Carol, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, Queda Livre. No entanto, nenhum ficará no imaginário com a pureza de Má Educação.

Má Educação (La mala educación, 2004)

Direção & Roteiro: Pedro Almodóvar
Elenco: Gael García Bernal, Fele Martínez, Javier Cámara, Raúl García Forneiro Nacho Pérez
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Raúl García Forneiro e Nacho Pérez em Má Educação (FOX)

 

Régis Regi, 23 anos, homem cisgênero e tão viado que poderia fazer parte do cast de Glee

Sempre que o assunto é indicar uma série que é centrada em um personagem gay, Please Like Me vem imediatamente à minha mente. Tive a sorte de crescer em um momento do audiovisual em que os personagens gays tinham narrativa e espaço de tela para além do plot de saírem do armário, mas ainda assim quando o assunto é pensar em uma representação do tema que pessoalmente me agrade, Please Like Me é de longe essa série. De longe.

Criada e protagonizada pelo jovem australiano Josh Thomas, a série começa com o término com a sua até então namorada que termina com ele pelo fato dela achar que ele é “provavelmente gay”. Esses são os primeiros cinco minutos e a engrenagem motriz do descobrir, e não apenas sexual, de Josh que durou quatro deliciosas temporadas (e que estão disponíveis em um certo de serviço de streaming bastante popular no Brasil).

Um ponto muito positivo da série é como ela aborda relação da sexualidade do protagonista de forma multi geracional, como ele lida, como os amigos e os pais lidam e também como a sua tia avó extremamente conservadora e religiosa lida com a revelação que claramente afeta todas as dinâmicas do seriado. Acreditem ou não, mas é uma comédia, e tudo isso é retratado na maioria das vezes de forma bem leve, descontraída e cínica. Mas o que mais me impressiona em Please Like Me, além de ter um realizador gay criando, roteirizando, dirigindo e protagonizando uma série, é poder ver um personagem que é uma pessoa de verdade, com qualidades e defeitos (ênfase em defeitos), momentos bons e ruins e ser gay é só um aspecto do que ele é, não é tudo ou a única função narrativa dele. Josh é falho, muitas vezes egoísta, disfuncional, de certa forma, até estranho.

É muito revigorante ver um personagem gay que não é simplesmente o alívio cômico ou melhor amigx da narrativa dx personagem heterossexual, como normalmente acontece, ou apenas tendo como narrativa a sua saída do armário e nada mais. Please Like Me usa isso como pontapé inicial da sua história, afinal é uma experiência que todo gay inevitavelmente passa, mas chegou em lugares que dificilmente presenciei como expectador (gay) no audiovisual. É uma série rápida, honesta, irônica e tem as melhores sequências de abertura. Vale a pena conferir!

Please Like Me (2013-2016)

Criado por: Josh Thomas – 4 temporadas
Elenco: Josh Thomas, Thomas Ward, John, Debra Lawrence, David Robets, Renee Lim, Hannah Gadsby
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Josh Thomas e Keegan Joyce em Please Like Me (Australian Broadcasting Corporation)
Redação

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