Animais Fantásticos e Onde Habitam | Crítica

Spin-off do universo de Harry Potter é uma aventura episódica decente, mas tem potencial para ser mais do que isso.

animais-fantasticos-e-onde-habitam-posterEm tempos de franquias sendo ressuscitadas, a exemplo dos recentes Jurassic World e Star Wars: O Despertar da Força, o retorno do universo de Harry Potter não demorou muito. Apenas cinco anos separam o último filme da saga baseada na obra literária de J.K. Rowling. Era de se esperar que a Warner não fosse deixar sua principal marca guardada na geladeira, já que secou de vez o material da Terra Média (a ótima trilogia O Senhor dos Anéis, a irregular trilogia O Hobbit). Eis que chega aos cinemas Animais Fantásticos e Onde Habitam, iniciando uma nova jornada no mundo bruxo, agora com Rowling diretamente ligada às produções no cinema, responsável pelo roteiro.

Ter Rowling por trás do roteiro é uma boa notícia, já que ela entende melhor do que ninguém do universo que a própria confeccionou. Porém, fica o aviso: isto não é Harry Potter. É um spin-off anterior à história que conhecíamos, em outro país, há várias décadas, com outros personagens. Quem espera por Hogwarts ou o espírito mágico de estar vendo os primeiros feitiços sendo feitos podem acabar se decepcionando. É outra narrativa, é outro momento, é outro filme. Dito isso, a principal virtude de Animais Fantásticos é sua ambientação. E em termos de criação de universo e contextualização, Rowling sabe o que faz.

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A escritora consegue difundir bem o momento vivido pelos Estados Unidos no ano em que se passa o filme — 1926. Isso vai desde a questão migratória — três anos depois, o país entraria na Grande Depressão, sem contar que o tema hoje está em alta devido à eleição de Donald Trump — , menções sobre a Primeira Guerra Mundial, utilização de Salém para a abordagem contra os bruxos (pra quem não lembra, o nome é dado a uma cidade nos EUA onde ocorreram julgamentos por bruxaria em 1962 e 1963, resultando em 20 execuções, sendo 14 delas mulheres), até o jazz, gênero musical em alta na época. Parte disso também se dá à direção de David Yates (diretor dos últimos quatro filmes da franquia Harry Potter), já que ele conduz essas particularidades com competência e sutileza, sem aquele sentimento de que tais detalhes foram inseridos à força.

O filme também consegue conceituar muito bem os seus animais fantásticos, servindo aí também para agradar em cheio o público infanto-juvenil que talvez nem era fã de Harry Potter, mas pode começar a se entreter com este universo. Algo que também deve facilitar a identificação com esse mesmo público é a caracterização de seus quatro personagens principais. Suas personalidades são moldadas com o máximo de inocência e ingenuidade, o que reflete até mesmo no humor imprimido no longa-metragem, que é leve, bobo e abraça todas as idades.

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Com tamanha simplicidade ao tratar de seus protagonistas, Rowling segue o mesmo caminho para dar corpo à narrativa e os antagonistas. Já anunciado desde o princípio como um dos antagonistas da película, o personagem de Colin Farrell acaba tendo que forçar um pouco para provar em excesso suas intenções malévolas, o que fica explícito durante a cena do interrogatório. O ator consegue manter uma atuação que não parte para a canastrice, porém nesse momento em especial parece uma figura cartunesca, fora até mesmo do tom trabalhado no longa. O segundo antagonista tem certas motivações, mas que não são exatamente correspondentes à altura de seus atos. O personagem em si é mais interessante do que seu anúncio como vilão. Pelo menos, a ameaça não chega a ser algo em escala global, como muitos blockbusters costumam fazer, com metade do planeta destruído, raio azul e tudo mais. Nisto, Rowling e Yates conseguem segurar a mão e acaba se tornando um mérito.

Animais Fantásticos e Onde Habitam dá a sensação de ser uma aventura episódica — e é decente ao sê-lo. Ele serve como uma introdução a esta ampliação do universo mágico. É mais uma fundamentação do que uma grande jornada narrativa. Porém, o potencial está ali. Mudar constantemente os cenários — o próximo filme deve se passar em Paris, na França, e os demais devem acontecer em outros países também — e adicionar novos personagens, animais fantásticos e situações, além de trazer easter-eggs e pessoas já conhecidas de Harry Potter, podem ser fatores que contribuam para o sucesso desta nova franquia. Num primeiro momento, não é um grande filme, mas pode vir a ser uma grande história. Basta saber se Rowling se sairá melhor do que Peter Jackson com O Hobbit. Na época, a Warner quis que a obra da Terra Média fosse feita em três filmes ao invés dos dois planejados (e deu no que deu), enquanto isso Animais Fantásticos tinha sido pré-estabelecido como uma trilogia e, recentemente, foi anunciado que seriam cinco películas do título. Resta esperar que ela trilhe um caminho diferente do percorrido por Jackson e torcer pelo melhor.

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Animais Fantásticos e Onde Habitam
Fantastic Beasts and Where to Find Them
EUA | Inglaterra, 2016 – 133 min
Aventura

Direção:
David Yates
Roteiro:
J.K. Rowling
Elenco:
Eddie Redmayne, Katherine Waterson, Dan Fogler, Alison Sudol, Colin Farrell, Ezra Miller, Samantha Morton, Jon Voight, Carmen Ejogo, Johnny Depp

3.5 STARS

Por Rodrigo Ramos

 

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