The Walking Dead – 6ª Temporada | Crítica

Fillers, twists, mistérios vazios e coito interrompido resumem o sexto ano

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[Este texto contém alguns spoilers da temporada em questão]

The Walking Dead certamente é um massivo sucesso midiático. Assim como Game of Thrones, a série continha uma legião de fãs pré-TV e tomou conta das rodas de conversa sobre seriados nas redes sociais e entre amigos depois de ter sua versão live-action. Tanto a série da HBO quanto a da AMC conseguem bater recorde de audiências a cada temporada e o boca a boca torna impossível deixar de vê-las. Enquanto o programa baseado nos livros de George R.R. Martin tem mais altos do que baixos (mais destes no que compete a quinta temporada), a série zumbi vem decaindo vertiginosamente desde sua terceira temporada. A sexta temporada de TWD é como uma mordida de zumbi. Você resiste, tenta acreditar que as coisas irão melhorar, mas o final é decepcionante e a morte é certa. TWD deixou o pouco de vida que tinha se esvair em mais uma temporada em que quase nada acontece, as tramas e os diálogos entre os personagens são verborrágicos, e mais uma vez os roteiristas tentam fechar o arco com um cliffhanger chocante, como se isto fosse salvar sua dignidade.

O início da temporada teve seus momentos, mostrando que poderia dar uma boa respirada. O segundo episódio, “JSS”, é um dos melhores da série, com momentos antológicos proporcionados por Carol (Melissa McBride), focando não só na barracada para impedir a invasão em Alexandria, como também no duelo de crenças entre a personagem feminina e Morgan (Lennie James), já que este acredita que toda vida conta, inclusive as dos zumbis (Hershel da temporada #2, é você?). No entanto, não demora para que a série resolva arrastar sua própria trama com fillers e twists que ninguém tem interesse.

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O principal erro dos primeiros capítulos da temporada foi ter como condutor narrativo o suposto falecimento de Glenn (Steven Yeun). Em primeiro lugar, caso tivesse sido morto naquele ataque zumbi — até hoje é impossível se conformar com a forma encontrada para que ele escapasse da morte certa — o fato é que ele não faria falta alguma. Juntamente com 80% do elenco de TWD, Glenn deixou de ter relevância em termos narrativos, sem apresentar evolução no seu papel. Diferente de Maggie (Lauren Cohan), sua companheira, que teve um arco mais intrínseco na segunda parte da temporada do que o namorado. Em segundo lugar, os roteiristas tentaram dar o golpe nos espectadores ao retirarem o nome do interprete de Glenn dos créditos iniciais dos episódios para colaborar com o “mistério”, dando margem para uma discussão inútil e redundante diante da narrativa principal. Ao invés de dar mais espaço para desenvolvimento dos personagens, algo que sempre fora uma falha fatal ao longo da série, quatro episódios foram utilizados para solucionar o destino de Glenn, o que não agregou em nada à trama.

Mas os fillers da série não se restringem apenas à figura de Glenn. Houve outros. Alguns podem dizer que fez parte do desenvolvimento dos personagens, porém TWD não sabe fazer um filler descente há algum tempo, transformando tentativas de explorar o cerne dos personagens em episódios alma. “Here’s Not Here”, o primeiro episódio após a “morte” de Glenn, serviu para explicar o porquê de Morgan não matar zumbis. Quase 50 minutos para dar razão às decisões morais do personagem. Em outro contexto, o episódio poderia ter potência, mas acaba reduzido e converte-se em mais uma forma de enrolar o espectador antes de dar continuidade ao mistério vazio do desaparecimento de Glenn.

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Na segunda parte da temporada também não faltaram fillers. Todo o sexto ano foi uma preparação de terreno para a tão aguardada aparição de Negan (Jeffrey Dean Morgan), o melhor vilão das HQs de TWD. E para isso, a série, especialmente nos oito últimos episódios, vagueou pra lá e pra cá em busca do chefão que bota medo em todas as pessoas desse apocalipse zumbi. O resultado foi um espetáculo de idas e vindas atrás de Negan, resultando em mortes de personagens que, honestamente, ninguém se importa. A procura pelo novo antagonista durou vários episódios e a frustração veio naturalmente, já que o público sabia que Negan apareceria apenas no último capítulo, conforme havia sido anunciado previamente. Ou seja, cada caçada se tornava inútil e repetitiva. Foram várias as vezes em que houve encontros do grupo de Rick (Andrew Lincoln) com o de Negan no meio da estrada ou dentro da floresta, dando a impressão de que estava-se assistindo a reprise da semana anterior a cada novo episódio.

As virtudes da série concentram-se nos momentos em que os poucos personagens interessantes têm material para serem desenvolvidos. Destacam-se do hall de sobreviventes Rick e Carol. Ex-xerife e líder natural do seu bando, Rick amadureceu a ponto de perceber que os humanos são os piores seres que andam por aí, e não os errantes. Se antes ele conversava, argumentava e negociava com os outros humanos, a versão 6.0 do personagem tem sangue nos olhos. Rick agora atira primeiro e depois pergunta. Ele toma consciência de que precisa zelar pelos seus companheiros em primeiro lugar. A nova atitude acaba colocando ele e os demais na pior situação possível, exposta nos minutos finais da temporada. Carol teve momentos cruciais na trama, com Melissa McBride merecendo o holofote em diversas ocasiões, provando ser a melhor interprete dentre todos os regulares do elenco. McBride sabe fazer o tipo frágil, amigável e dona de casa, até mesmo crente a deus quando a situação lhe obriga agir dessa maneira, mas mostra-se igualmente fria e calculista nos momentos cruciais, um salto gigante que comprova a evolução da personagem se compararmos com a figura emocionalmente instável e delicada que fora nas primeiras temporadas.

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Apesar de algumas virtudes, a série parece estar ligada aos aparelhos para manter-se respirando. É possível esperar uma vida longa de TWD, haja visto que ainda há muito material para se apropriar das HQs e a audiência continua alta, algo que conta para a AMC. Entretanto, fica evidente que o programa caiu no marasmo, tendo que encher suas temporadas com fillers para conseguir chegar num ponto que poderia ter um caminho abreviado caso fossem econômicos no número de episódios por temporada — a exemplo de Better Call Saul, que tem apenas 10 capítulos cada ano. No entanto, o canal prefere não reduzir sua série ganha-pão e é compreensível pelo prisma comercial. Contudo, quem sai perdendo é o espectador. É de espantar-se como 16 episódios tragam tanto material descartável, dando espaço para coadjuvantes e plots vazios ao invés de se debruçar sobre os personagens que importam.

O series finale é um exemplo de como a série estende a promessa de um futuro melhor, porém não cumpre, deixando o cliffhanger para a próxima temporada. É normal para TWD interromper o coito antes da hora do êxtase. Pegando um ditado brasileiro, neste caso a série mostra o pau, mas não revela qual a cobra que matou. “Last Day on Earth”, último episódio do sexto ano, é um dos piores fillers de toda a série, tendo mais de uma hora de duração sem explicação sensata alguma para tal. Se tem algo para se salvar do capítulo — e de toda a temporada — é a primeira aparição de Negan, um personagem que tem tudo para chacoalhar o mundo de Rick e seus amigos, quiça do seriado. Jeffrey Dean Morgan exibe nos 10 minutos reservados para si que é perfeito para o papel, tendo humor e discursos que remetem os melhores personagens tarantinescos. Certamente poucos ficaram felizes em não saber qual é a cabeça que rola no instante final da temporada. A cena, por sinal, sequer foi filmada até o momento, com todo o elenco estando no escuro, sem a informação de quem vai dizer adeus à série — apesar de haver um candidato perfeito direto das HQs, morto brutalmente por Lucille, o taco de baseball com arame farpado do antagonista.

Com a presença de Negan, The Walking Dead almeja um futuro prospero, porém o desgaste sofrido ao longo das temporadas coloca em cheque a possibilidade de ter-se dias melhores para a série. O que resta é aguardar e torcer para mais substância, menos plots ocos, e, principalmente, sem twists e ganchos dignos das séries de Shonda Rhimes.

Fotos: AMC/FOX
Fotos: AMC/FOX

The Walking Dead: Season Six
EUA, 2015/2016 – 16 episódios
Drama | Ação | Terror

Desenvolvido por:
Frank Darabont
Baseado na série de graphic novels de:
Robert Kirkman, Tony Moore, Charlie Adlard
Elenco:
Andrew Lincoln, Norman Reedus, Steven Yeun, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Michael Cudlitz, Lennie James, Sonequa Martin-Green

2 STARS

Por Rodrigo Ramos
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