Psicodália 2016: Paz, amor e dancinhas eletrizantes

Estivemos na 19ª edição do festival, que acontece anualmente em Rio Negrinho (SC)

Cada vez mais frequentes, alguns fenômenos, tanto climáticos como sociais, parecem revelar certa mudança astral que atinge de forma massiva e positiva o planeta e seus habitantes. Seja por ação cósmica ou concentração de boas intenções, creio que pude presenciar o agir dessa força misteriosa entre os dias 5 e 10 de fevereiro.

A tarde seguia cinza, acompanhada por um cair de chuva persistente, enquanto eu me aproximava da Fazenda Evaristo. Drasticamente, o céu foi tomado por um azul vívido e senti o toque quente do sol em meu rosto. Como efeito, um longo arco-íris formou-se, imitando um portal colorido a caminho de alguma órbita desconhecida. No seu ilusório fim, ao invés de potes de ouro, portões de madeira anunciavam riqueza maior: um refúgio alternativo, ocupado por milhares de seres, tão múltiplos quanto místicos, em meio à natureza. Sim, eu havia chegado ao Psicodália.

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Foto: Eliza Doré

Realizado atualmente no município de Rio Negrinho, região do planalto norte catarinense, o festival apresenta-se como um encontro independente e multicultural, tendo como pilares ideológicos a conscientização ecológica e o respeito mútuo entre seus viventes e o meio ambiente. Na mais genuína harmonia, ruídos de guitarras misturam-se ao cântico dos pássaros, lonas e barracas coloridas atrelam-se, feito ornamentos, ao verde das árvores e do gramado, enquanto espíritos empáticos vagam, interagem, conhecem e reconhecem-se entre si.

Além da generalizada energia astral regada de bons sentimentos, a essência comportamental que move os psicodálicos que passam pela Fazenda é guiada por centenas de atrações que vão além dos espetáculos musicais. Oficinas, cinema, teatro, área de recreação e todo tipo de expressão artística espontânea tornam o período de imersão nas fronteiras do festival ainda mais envolvente e intenso.

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Foto: Eliza Doré

Quanto à escalação musical, os cinco dias de catarse coletiva foram embalados por nomes de peso. Cerca de 40 bandas passaram pelos dois palcos oficiais do evento – Palco do Sol, que durante a madrugada transforma-se no antro dos Guerreiros, e o Palco Lunar, responsável por receber as atrações noturnas. Na sexta-feira, os psicodálicos de plantão entregaram seus corpos dançantes a uma sequência destruidora de rock gaúcho com os riffs hipnotizantes da Bixo da Seda, a circense Bandinha Di Dá Dó e o soar punk da Replicantes.

Já no sábado, a tarde foi comandada pelas bandas Mar de Marte, Velho Hippie, A Banda Mais Bonita da Cidade e Sopro Cósmico. Quando o sol finalmente se despediu, a noite seguiu aquecida por uma programação finíssima, indo do rock progressivo setentista da paulista Terreno Baldio, ao desconcertante ritmo afro-brasileiro da irreverente Nação Zumbi.

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Foto: Eliza Doré

O domingo foi o ápice para a legião que aguardava o headliner internacional do festival, John Kay & Steppenwolf. A emblemática banda americana dos anos 60 mostrou um hard-rock de qualidade, e pôde-se ouvir o hino “Born To Be Wild” ecoando pelas ruelas da fazenda. Na sequência, Terra Celta e Orquestra Frioerenta mantiveram o nível alucinante da noite com seus instrumentos excêntricos e passinhos bizarros.

Na segunda-feira, quem fez as estruturas metálicas do palco tremer foi a rainha do samba Elza Soares. Considerada a melhor cantora do milênio pela BBC, Elza honrou o título ao soltar sua voz sentada, poderosamente, em um trono. Com uma seleção especial de músicas do seu último álbum, A Mulher do Fim do Mundo, Elza expressou seu manifesto contra o racismo e a violência doméstica contra as mulheres, encerrando o show com a repetição da canção “Maria da Vila Matilde”, acompanhada pelo coro uníssono da platéia que invocava o trecho “Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”.

Foto: Dane Souza
Foto: Dane Souza

O último dia de shows não ficou pra trás diante dos anteriores quanto às expressões sonoras de qualidade. Durante a tarde, a curitibana Trombone de Frutas mostrou maestria nos embalos do Rock Experimental, enquanto a noite foi possuída pela simpatia do pernambucano Naná Vasconcelos, eleito oito vezes como melhor percussionista do mundo pela revista americana Down Beat, e pela paulista Nômade Orquestra, apresentando diferentes vertentes e expressões musicais que interagem numa orgia instrumental singular.

O ritual elétrico de adeus foi ecoado na madrugada pelo power trio Centro da Terra, como se estivesse, intencionalmente, nos recordando em seu nome que aquela transe lisérgica chegava ao fim e, em breve, todos retornaríamos desse planeta psicodálico para o recorrente globo terrestre.

Foto: Eliza Doré
Foto: Eliza Doré

Sobre paz & amor

Pregada por movimentos e festivais desde o período de contracultura dos anos 60, a máxima “paz e amor” propagou-se pelo mundo carregando a filosofia de respeito mútuo entre todas as formas de vida, até seus símbolos e conceitos serem industrializados, estampados em acessórios e vestuários de grife.

Apesar da notável banalização da expressão, ao caminhar pelas ruelas da Fazenda Evaristo em tempos de Psicodália, um fluxo energético indescritível parece ir contra toda essa desconstrução filosófica. Sorrisos vibrantes, danças eletrizantes, abraços esmagadores, amizades instantâneas e a mais pacífica coexistência entre os mais distintos seres mostram que, apesar de não verbalizada, a ideologia do “paz e amor” verte do coração desses viventes nas mais genuínas demonstrações de afeto e coletividade.

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Foto: Eliza Doré

Perceptivelmente, o Psicodália parece ter o poder atrativo de concentrar uma grande quantidade de seres que acreditam no amor como princípio de uma utopia possível. Seja por despertar da consciência ou apenas uma benigna loucura coletiva, essa bela aura do festival faz com que, a cada ano, mais expressivo é o número de pessoas que buscam – e retornam – para os braços acolhedores dessa realidade paralela.

Por Alana Archer
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