Quarteto Fantástico | Crítica

Ousado ao apostar na ficção científica, longa se perde na reta final ao mudar completamente seu tom

Quarteto Fantástico posterQuarteto Fantástico foi o assunto dos últimos dias, desde que começaram a sair as críticas do filme lá nos EUA, até mais recentemente, depois das reações na internet do pessoal que foi assistir ao longa-metragem nos cinemas. Talvez seja uma reação em massa um pouco descabível. Uns dizem que é o pior filme de super-heróis de todos os tempos. Não é pra tanto. No entanto, não há como negar que a produção evidentemente sofreu nos bastidores, resultando em dois trabalhos diferentes, colados um no outro, diferindo em tom e qualidade, tanto em roteiro, direção, fotografia, efeitos especiais e atuação.

Há muito tempo se ouve falar em problemas nos bastidores do longa-metragem. Afinal, todo mundo sabe que a Fox resolveu ressuscitar a franquia para que os direitos do quarteto de heróis não retornasse à Marvel, como aconteceu com Demolidor, por exemplo. O estúdio então contratou Josh Trank, que vinha de Poder Sem Limites, filme de baixo orçamento, mas que trouxe um bom retorno financeiro e agradou a crítica especializada. Parecia o casamento perfeito, mas em pouco tempo a relação entre o diretor e o estúdio foi se destruindo. Rumores dizem que Trank não era fácil de lidar, sendo temperamental e não estaria lidando bem com a pressão de um grande orçamento nas mãos e o curto tempo para produção. Do outro lado, dizem que Trank não só batia de frente com as decisões do roteirista e produtor Simon Kinberg, como também acabou tretando com a produtora presidente da Fox, Emma Watts.

DF-14999r Reed Richards (Miles Teller) and Sue Storm (Kate Mara) harness their daunting new abilities to save Earth from a former friend turned enemy. Photo credit: Alan Markfield

No set de filmagem, era uma batalha constante entre o que Trank e o estúdio queriam. Enquanto a Fox queria outro ator no papel de Reed Richards, que ficou com Miles Teller (ponto para o diretor), Trank detestava o fato de terem imposto que Kate Mara interpretaria Sue Storm, criando aquele climão entre os dois. Os boatos são de que cada vez mais os produtores cortavam as ideias de Trank, o que o deixa naturalmente irritado. Durante a produção, o roteiro ia se remodelando e, antes de as filmagens iniciarem, a Fox tirou várias sequências de ação projetadas por Trank. Em certo momento, ele nem estava mais na sala de edição, tendo a Fox finalizado posteriormente o filme do jeito que queria, sem a consulta do próprio diretor. No início do ano, a película sofreu algumas refilmagens, o que casa completamente com os rumores. Depois de ter assistido o longa, é explícito como são dois produtos completamente distintos. Inclusive, é possível notar as diferenças no roteiro a partir dos trailers divulgados anteriormente, que possuem diversas cenas que não estão na edição final do longa-metragem, possivelmente partes da versão pré-refilmagens.

josh-trank-tweetCom tantos problemas, incluindo Josh Trank falando que esta não é a versão do filme que ele havia feito, uma tensão acompanha a projeção de Quarteto Fantástico. Se eu pudesse pedir para as pessoas, diria a elas que tentassem ignorar os comentários negativos em massa e formasse sua própria opinião, porque há diversos pontos interessantes na película e que, infelizmente, ficaram ofuscados pela enxurrada de negativismo diante do trabalho. O início traz a infância de Reed (Teller), mostrando que já havia ali um apaixonado pela ciência. No meio disso, nasce a amizade com Ben Grimes (Jamie Bell). Apesar de rápida na trama (creio que muita coisa ficou no chão da sala de edição), é crível o elo de amizade dos dois, mesmo sendo opostos.

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Quando Reed é chamado para trabalhar em uma empresa para criar com recursos o portal interdimensional, eis que surgem os demais personagens. Parece ligeiramente clichê a relação de rebeldia de Johnny Storm (Michael B. Jordan) e seu pai Dr. Franklin Storm (Reg E. Cathey). É o famoso caso de rebelde sem causa, mas que passa tão rápido que nem chega a incomodar nos dois primeiros atos. Falta um pouco mais de pano de fundo para compreendermos melhor a relação entre pai, filho e a irmã adotiva – ao que tudo indica, cenas do passado foram tiradas do corte final. Sue (Mara) parece bem resolvida, assim como a parte envolvendo Victor Von Doom (Toby Kebbell), cientista mais experiente e que não consegue engolir as ordens lhe dadas. O motivo que o deixa intolerante é justamente os executivos da empresa. Torna-se um dos pontos fortes do longa essa relação com o governo estadunidense, que é o financiados dos experimentos de Dr. Franklin. Quando o experimento de viagem para outra dimensão dá certo, os créditos aos criadores é um “tapinha nas cotas” verbal de Dr. Allen (Tim Blake Nelson), representante do governo, que quer a criação para uso do exército estadunidense. É uma ideia que faz todo o sentido.

É visível que o longa-metragem, em seus dois primeiros atos, puxa bem mais para o lado da ficção científica, tendo até algumas doses de terror – é até perturbador ver Johnny pegando fogo e Reed com seus braços e pernas elásticos. Diferente do Quarteto Fantástico de 2005, os personagens não desenvolvem os poderes e acham isso incrível. O quarteto desta película sente dor, enxerga o horror em si. Reed, inclusive, sente o peso da sua escolha de ter levado os demais companheiros de trabalho e, especialmente, o melhor amigo para aquela dimensão e ter transformado-os em aberrações. Em um isolado momento positivo do terceiro ato, Sue explica que isso não é uma dádiva e sim uma anomalia, além de afirmar que precisam de uma cura. E, como não poderia deixar de ser, o governo pretende prendê-los, estudá-los e utilizá-los como armas militares. O tipo de coisa que os estadunidenses fariam se essa realidade existisse.

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É a partir desse ponto que as coisas desandam. Depois de uma hora e pouco de metragem, quando a trama pula um ano pra frente, a história se perde por completo e nada mais faz sentido. Primeiramente, os diálogos começam a ficar sofríveis, fazendo com que Peppa Pig soe mais inteligente do que isso. Por conta de frases tão batidas e situações tão piegas, os atores deixam de tentar fazer deste um filme memorável e esquecem que um dia souberam atuar. Antes desse terceiro ato, cada um faz por merecer sua escalação, mas na reta final eles ficam irreconhecíveis, especialmente Teller, perfeito como Reed Richards. Se o quarteto em si e sua interação com os membros militares já não fosse ruim, bastou aparecer o vilão Dr. Destino para a situação ir de mal a pior.

O primeiro erro em relação ao vilão é seu péssimo visual. Enquanto a produção de design acertou em cheio nas roupas funcionais e, especialmente, no Coisa, por outro lado errou rude com Dr. Destino, que parece ter sido reciclado partindo da aparência de sua máscara, que visualmente se assemelha com uma obra de garrafa PET. Inicialmente, ele não passa nenhuma imponência. Contudo, ele tem uma breve sequência em que estoura a cabeça das pessoas só com seus poderes mentais, sendo sanguinário de forma que eu jamais imaginaria em um longa de super-heróis. No entanto, fica só nisso. Em seu confronto com o quarteto, na sequência final, as frases disparadas por ele e os outros protagonistas, e o combate em si, são risíveis, difíceis de olhar.

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Quarteto Fantástico se perde no terceiro ato, visivelmente feito por gente que não tinha nada a ver com o trabalho de Trank nos dois primeiros atos. Ao tentar parecer mais com um filme de super-heróis, o longa-metragem falha crucialmente e é o que faz com que o espectador passe a odiar a película, já que na hora da ação, ela é entregue de forma anti-climática, com efeitos especiais ruins e desfecho ordinário. Quanto à última cena, pós-batalha, dói ainda mais o papo forçado. É uma tentativa de transformar a produção em algo que ela claramente não era pra ser.

É de se respeitar o que foi feito no início e no miolo da narrativa. O filme, de fato, se destoa dos demais do gênero atualmente, não se enquadrando nem no que a Marvel tem feito no cinema e nem a DC Comics, ainda que chegue mais próximo desta, já que o humor basicamente não existe aqui. Apesar disso, fica difícil defender o resultado final com tamanha guinada em direção a uma colisão de frente com um poste. Possivelmente, a franquia morrerá nas mãos da Fox. O estúdio é famoso por mexer nos filmes de criadores que ainda não tem moral o suficiente em Hollywood, como o famoso caso do brilhante David Fincher, que teve seu primeiro trabalho como diretor de cinema, Alien³, picotado na sala de edição, com direito a refilmagens e nova montagem, isso lá em 1992. Aparentemente, pouca coisa mudou com o tempo e a Fox, tirando a franquia X-Men, que no geral tem se dado bem, não tem acertado nas adaptações de quadrinhos (vide Demolidor e Elektra).

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Imagens: Fox

É sempre bem vindo a multiplicidade de criadores e ideias. Ninguém quer que a Marvel tome conta das adaptações cinematográficas e televisivas de todo o mercado que parte das HQs da editora, mas com erros cruciais como este (lembrando que a Sony também errou feio com os últimos três Homem-Aranha), fica difícil os direitos não retornarem à Marvel Studios, uma vez que agora a Fox já errou pela terceira vez seguida e reduziu a pó o valor da franquia nos cinemas. Porém, para termos certeza do futuro que irá tomar a saga da primeira família Marvel, teremos de esperar que o tempo nos diga.

Fantastic Four
EUA, 2015 – 100 min
Ficção/Aventura

Direção:
Josh Trank
Roteiro: 
Jeremy Slater, Simon Kinberg, Josh Trank
Elenco:
Miles Teller, Kate Mara, Jaime Bell, Michael B. Jordan, Toby Kebbell, Reg E. Cathey, Tim Blake Nelson

3 STARS

Por Rodrigo Ramos
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