Arquivo da tag: Ridley Scott

Blade Runner entra em cartaz neste fim de semana em Balneário Camboriú

O clássico filme de Ridley Scott, de 1982, fica em exibição no sábado (7) e no domingo (8), na Cineramabc Arthouse. 

Continuar lendo Blade Runner entra em cartaz neste fim de semana em Balneário Camboriú

Anúncios

As decepções de O Conselheiro do Crime e Diana

Diana - The Counselor

Dois filmes chegaram ao cinema de Balneário Camboriú no último fim de semana. Eram duas produções que prometiam ser no mínimo interessantes. O primeiro deles é O Conselheiro do Crime. O longa-metragem tem muitas credenciais: dirigido por Ridley Scott, escrito por Cormac McCarthy (autor dos livros A Estrada e Onde os Fracos Não Têm Vez) e estrelado por Michael Fassbender, Javier Bardem, Penélope Cruz, Brad Pitt e Cameron Diaz. Fiquei novamente impressionado pelo time que comanda esta película. Já o segundo, Diana, não tem um diretor e nem um elenco estelar, mas tem Naomi Watts personificando a Lady Di da cabeça aos pés.

Como me culpar pela expectativa? Parecia difícil errarem a mão nas duas ocasiões. Ops.

O Conselheiro do Crime coloca na frente o tal conselheiro do título, interpretado por Fassbender. Não dá pra saber todos os trâmites do negócio, mas fica claro que ele está envolvido no meio de um negócio relacionado ao tráfico de drogas. Mas por que exatamente ele é chamado de conselheiro, já que ele é quem recebe conselhos de Reiner (Bardem) e Westray (Pitt)? Talvez seja pura ironia. O tempo todo, Fassbender é questionado se ele sabe no que está se metendo, se ele quer mesmo arriscar o que ele tem (afinal, a noiva dele é Penélope Cruz aqui) por causa de mais dinheiro que ele nem precisa. Porém, como toda história de crime, poder e drogas, a ganância é o que costuma falar mais alto e é nisso que o longa mais ou menos se foca. Digo mais ou menos porque ainda há espaço para mostrar uma personagem ambígua vivida por Cameron Diaz, em um papel diferente de tudo o que ela já fez até agora em sua carreira. Vale a pena o ingresso só para vê-la.

O problema aqui não é que o longa não possua ritmo e leve uma eternidade para terminar. Os atores estão ótimos, por sinal. A questão aqui é que toma-se um curso previsível, o que nem sempre é uma problemática, mas a obviedade é acompanhada de diálogos que não levam a nada a não ser uma tentativa falha de questionar a moral de seus personagens e suas escolhas. Além disso, Scott parece um velho tarado ao tratar de sexo com tamanha perversão. Sexo oral e genitálias sendo esfregadas contra um para-brisa são dois exemplos disso. Sim, falar de sexo é algo natural, mas não da maneira esboçada aqui. Até porque não colabora para o todo. Nem mesmo Reiner tem palavras para descrever o que presenciou em sua Ferrari amarela. Talvez porque não haja mesmo o que dizer diante disso.

Dá pra dizer que Ridley Scott, depois de vários anos fazendo filmes marcantes na história do cinema, está envelhecendo mal nos últimos anos. Ele nos entregou um questionável prequel (Prometheus) e agora dirige um filme que não sabe seu lugar no espaço sideral de Hollywood. Esperamos que Prometheus 2 e Blade Runner 2 não sigam o mesmo caminho desastroso, desperdiçando talentos e nosso dinheiro.

Depois de ver O Conselheiro do Crime, fui para a sessão de Diana. A esperança de ver um filme bom existia. Eu não li as críticas do longa de Oliver Hirschbiegel, mas agora me arrependo por não ter lido. A recepção não foi positiva. O motivo é simples e pretendo ser objetivo: Diana é ruim. Ponto.

diana 1

A culpa não é de Naomi Watts, que está perfeita no papel. Quer dizer, a sua personagem foi mal escrita, só que mesmo com a falta de profundidade em Lady Di, Watts consegue fazer um trabalho acima da média, até mesmo em relação as suas atuações. Sempre competente, Watts mergulha na personagem e nos faz acreditar naquela Princesa de Gales. Novamente, o problema não é ela. O erro está no foco. Tantas abordagens poderiam ter sido utilizadas nesta película, mas Hirschbiegel resolve se focar em qual questão? Ah, no romance! Claro, tudo o que queremos saber sobre a Princesa Diana é seu romance secreto com o médico cirurgião Hasnat Khan (Naveen Andrews).

IMG_6312.CR2

Ao invés de entendermos melhor a complexa figura de Diana, o que vemos é um retrato romântico da figura ilustre que fora. Seus problemas com a família real, com o ex-marido, a dificuldade em ver seus filhos, a rainha, nada disso tem importância aqui. Claro, até são citados, mas passam mais rápido do que uma faca com manteiga na superfície de uma fatia de pão quente. Os problemas com os paparazzi são mais evidentes, mas ainda assim ficam em segundo plano, assim como o lado filantrópico dela. O longa, insistentemente, se ilude e tenta fazer como se tudo isso fosse um conto de fadas e que Diana fizesse parte da lista de princesas da Disney.

diana 3

Em uma biografia, é muito importante pesar todos os traços da personalidade do sujeito em questão. Caso contrário, só teríamos biografias que puxam saco do biografado. No Brasil, atualmente, alguns escritores sofrem com esse problema, pois Chicos, Caetanos e Robertos da vida são contra biografias que não sejam autorizadas – ou seja, só pode fazer se uma desde que o artista aprove. Se houver algo que ele não queira que seja revelado, ele proíbe a publicação.

diana 2

Voltando ao foco. Diana é perfeita e extremamente sentimental. Tadinha, vive tendo o coração partido e ninguém a ama. Ela gosta tanto de Hasnat que ela usa os paparazzi para provocar ciúmes nele com fotos em iates na primeira página dos jornais. Sim, esta é a parte “má” dela. É lamentável que tenham optado seguir por um longa que use destes artifícios para lembrar de Lady Di, enquanto existem tantas outras vertentes em sua vida para se focar. O filme se torna um vai e vem dos dois, quase que induzindo o expectador a pensar que a morte dela é culpa do coração quebrado (com colaboração dos paparazzi também, é claro). Aí não né. Pegue o exemplo de A Rainha, longa que rendeu o Oscar de melhor atriz para Helen Mirren. Aquilo sim é um retrato de verdade, sem medo de delinear todos os traços de uma personalidade (a Rainha Elizabeth) e que trabalha bem uma realidade mais dura (e bem menos fantasiosa). Infelizmente, Diana é ruim e, neste caso, nem mesmo Naomi Watts vale o ingresso.

Cinema, por favor, me dê mais alegrias. Estou precisando.

di

Prometheus | Review

Prometheus
EUA, 2012 – 124 min
Ficção

Direção:
Ridley Scott
Roteiro:
Jon Spaihts,Damon Lindelof
Elenco:
Noomi Rapace, Michael Fassbender, Guy Pearce, Idris Elba, Logan Marshall-Green, Charlize Theron

Em Prometheus, Ridley Scott questiona o surgimento da vida em nosso planeta. Afinal, de onde viemos? Essa é uma incógnita que não há uma explicação exata. Religiões e teorias a parte, nem todas as respostas parecem conformar o diretor. Será que o espectador também está conformado em ser a evolução do macaco ou ter surgido através de Adão e Eva porque Deus quis?  Scott tenta fazer uma reflexão sobre criação e a destruição; a gênese e o fim; o nascimento e a morte. Ele utiliza a ficção científica como desculpa ou meio para aprofundar nas questões e mexer com as crenças de cada um, tanto dos personagens quanto dos espectadores.

A protagonista, Elisabeth Shaw (Noomi Rapace), está focada em descobrir vida além da Terra. Ela acredita nisso fielmente, assim como seu companheiro tanto amoroso quanto do trabalho, Charlie Holloway (Logan Marshall-Green). Ao redor do globo, o mesmo mapa é encontroado em pinturas de diversas culturas ancestrais que nunca tiveram contato umas com as outras. Sendo assim, Shaw e Charlie acreditam que isso seja uma espécie de convite para encontrar um planeta onde a nossa origem seja explicada. A expectativa de Shaw é que eles consigam encontrar vida lá, mais precisamente os nossos criadores. Shaw é um símbolo de fé. Sua persistência é dada pela motivação de seu pai, homem religioso que está constantemente presente em seus sonhos, e de quem possui uma cruz que carrega consigo no peito o tempo todo.

A expedição é monitorada por Meredith Vickers (Charlize Theron), representante da empresa que está financiando tal atividade. Diferente de Shaw, Vickers não compartilha de tal crença. Para ela, a viagem é uma perda de tempo. Ela crê que nada com vida será achado ali. Em algum momento de sua vida certamente ela perdera sua fé, não conseguindo acreditar em algo além da vida humana. Este é apenas um dos contrastes que Scott cria nesta obra. Toda a tripulação acredita que essa busca irá resultar em nada. É um duelo entre os crentes e os descrentes.

Como o espectador pode imaginar, a busca resulta em alguma coisa. A questão é: o que se fazer com a verdade? Qual é o custo dela? Para os tripulantes, certamente é um preço alto a se pagar. E o mais interessante é que estas questões são desvendadas por quem menos interessa o assunto. Na realidade, ele prefere absorver o conhecimento antes dos humanos: o andróide David (Michael Fassbender). O robô é quem cuida da tripulação durante a viagem da Terra até o planeta desconhecido. Durante este percurso de mais de dois anos, David se inspira no personagem de Peter O’Toole em Lawrence da Arábia, adotando as atitudes e até mesmo a cor de cabelo do ator. O longa parte de uma perspectiva dele, de certa forma. As principais descobertas são feitas por ele e o mesmo é quem inicia as experiências sem o aval dos demais.

Uma das melhores coisas da película é Fassbender. O seu papel é irretocável. É evidente a inspiração em HAL 900 de 2001: Uma Odisseia no Espaço. O tom de voz permanece inalterado ao longo de toda a metragem. O robô é tão frio quanto poderia se esperar. A falta de sentimentos e interpretações de reações humanas são interpretadas com primor por ele. Fassbender esboça meio sorriso, tentando soar simpático, mas seus instintos robóticos o impedem de tal demonstração de sentimento. A criatura jamais será igual ao criador e David sabe disso. Em um diálogo no filme, é exposta essa superioridade humana ao lhe perguntarem sobre suas vontades (algo que ele não possui) e o que fará depois das ordens de seu dono forem concluídas. Talvez por inveja, o robô tente se mostrar superior, nem que seja em questão de conhecimento. Ele já é diferente dos demais, mas quer se sentir ainda mais. Ele cobiça poder. Inveja, cobiça, vontades. Coisas que um andróide jamais poderia sentir. Aliás, ele não sente. Por isso mesmo a condição de David é tão interessante e a questão se torna ainda mais provocante.

Essa mesma robotização é o que o faz testar uma experiência em um dos personagens. Ele questiona: “o que você seria capaz de fazer por isso?”. O personagem lhe responde de volta: “eu faria absolutamente tudo”. Sem conseguir compreender o que seria esse “tudo”, David coloca a vida desse tripulante em risco, assim como as dos demais. Porém, o andróide não consegue entender. Ou consegue. Quem sabe? Talvez ele faça isso para ter mais informações e simplesmente não se importa (de fato, ele não tem como) com a vida daqueles que estão ali ao seu redor.

Fassbender está impecável e rouba a cena, mas ele não é o único bem na tela. Charlize Theron, em plena forma, entrega numa interpretação tão gélida e desligada de sentimentos que o roteiro faz questão de enfatizar isso, deixando isso explícito quando um dos tripulantes questiona se ela é um robô. De fato, Theron utiliza seu talento para parecer como tal – e consegue. Noomi Rapace vem ganhando cada vez mais destaque em Hollywood. Depois de despontar com a Lisbeth Salander na versão sueca de Os Homens Que Não Amavam as Mulheres e a participação em Sherlock Holmes: O Jogo das Sombras, a atriz de 32 anos tem sua melhor chance de brilhar sob os olhos do público mundial. Ela expressa em seu olhar e suas feições a felicidade partindo de sua fé inabalável, chocando-se com a fragilidade escondida por não poder ter filhos, somados à virada na reta final do longa-metragem precisando lutar contra dores físicas e psicológicas, além de enfrentar a ação como poucas. Uma atuação convincente e que se torna tão marcante quanto à de Sigourney Weaver em Alien – O Oitavo Passageiro.

O filme conta não só com um elenco competente, mas também com uma produção de altíssima qualidade. Este é o longa mais belo de Scott. Os planos são belíssimos e os cenários são grandiosos. O 3D aqui ajuda a dar a dimensão que o trabalho merece. A fotografia aqui trabalha com uma tonalidade escura, um verde acinzentado, pesando a atmosfera do longa, auxiliando no tom soturno, além do clima de tensão que é atenuado com a trilha sonora, muito bem empregada.

Contudo, Prometheus não é perfeito. Passa meio longe disso, na realidade. Um dos problemas aqui são os furos (bobos) no roteiro. São erros honestos, mas que atrapalham o curso da narrativa. Em uma das cenas, a personagem de Shaw entra num lugar porque sua roupa, após uma colisão, sofre danos e fica sem oxigênio. Alguns minutos depois, ela sai do lugar e a roupa não possui o mesmo problema de antes. Como todo bom roteiro de Damon Lindelof (roteirista e criador da série Lost), é claro que não são todas as perguntas que possuem respostas. De onde viemos, por exemplo, é respondido, mas ficam muitas questões a serem respondidas, sem contar as diferenças que quebram com os filmes da quadrilogia original. O final é previsível e não fecha o longa como se fosse um só, deixando claramente em aberto para uma continuação. Os fãs da mais pura ficção e dos primeiros Aliens com certeza irão se entreter mais com a película, mas não acredito que ela fique restrita à apenas este grupo. Prometheus poderia ir um pouco mais a fundo nas questões que aborda, mas não deixa de ser algo pensante, com uma qualidade de produção impecável e que traz a ficção científica para o grande público novamente.