Melhores Séries, Episódios, Atrizes e Atores da TV na Temporada 2018/2019

Fleabag, The Good Fight, Better Call Saul, When They See Us e BoJack Horseman estão entre os destaques da tevê nos últimos 12 meses.

Neste nono ano consecutivo, o Previamente faz o principal recorte da temporada da TV. Este é o mais ambicioso e completo relatório dos destaques da televisão na imprensa brasileira, sendo um trabalho colaborativo de mais dois meses. Mas, é claro, para conseguir assistir e selecionar o melhor de quase 500 séries produzidas por ano atualmente, é um esforço constante, sem intervalos.

A temporada 2018/2019 foi marcada pelo retorno das grandes minisséries/séries limitadas, a queda brusca na qualidade geral dos dramas regulares e a devida aclamação das comédias regulares, notavelmente o que há de melhor atualmente na TV. Para selecionar os destaques da temporada, montamos um júri com 17 pessoas entre profissionais da área, jornalistas, críticos, estudantes e aficionados por séries. A seleção foi realizada utilizando os mesmos critérios do Emmy Awards: entram as obras que foram exibidas em sua totalidade ou mais de 50% de sua temporada entre 1º de junho de 2018 até 31 de maio de 2019. E pelo quarto ano, os internautas puderam puderam eleger suas séries de comédia e drama favoritas.

Neste ano, separamos as categorias individualmente — você pode lê-las clicando nas imagens correspondentes abaixo. Ou pode conferir o post completo após as imagens, seguindo o texto nesta página.

Confira abaixo a lista completa com os melhores episódios, atrizes, atores e séries da TV na temporada 2018/2019.

 

MELHORES ATORES COADJUVANTES

Stellan Skarsgård (Chernobyl)

Assim como Jared Harris, o veterano e pai de um veterano clã de atores, Stellan Skarsgård é outro que em Chernobyl oferece um arco surpreendentemente comovente. Seu Boris Shcherbina vai de um funcionário do governo egocêntrico, arrogante e cheio de autoconfiança para alguém que de forma convincente e totalmente crível consegue entender o tipo de situação que está lidando e o tipo de postura necessária para lidar com ela abandonando a sua postura inicial. Tudo é muito palpável assim como os seus próprios momentos de insegurança. O desespero crescente de Boris é percebido de forma silenciosa pelo ator mostrando uma espécie de compreensão interna de si mesmo, do que está ao seu redor e do seu destino, fatores que só agregam a sua interpretação ao mostrar alguém que desenvolve o seu melhor lado e muda para melhor, talvez tarde demais, numa situação terrível. — Diego Quaglia

Tony Shalloub (The Marvelous Mrs. Maisel)

Na segunda temporada, The Marvelous Mrs. Maisel teve tempo de expandir a importância de alguns dos personagens coadjuvantes e Abe, o pai da protagonista da série, é um deles. Desde o primeiro capítulo do novo ano, fica claro que Tony Shalloub terá mais espaço — e isso se concretiza ao longo dos 10 episódios. Abe é um personagem clássico, com certos valores que definem quem ele é e como enxerga o mundo. Sendo a série ambientada na década de 1950, há certos conceitos fincados no chão em concreto. Ao longo da temporada, Abe precisa sair da sua zona de conforto por uma porção de motivos, mas em geral o problema se define no seguinte: esposa, filha e filho de Abe não correspondem mais ao que ele entendia como ser o correto ou ao menos o que considerava saber sobre eles, assim como a vida ao seu redor. Tendo que lidar com mudanças as quais Abe definitivamente não esperava, Shalloub entrega uma das melhores performances de sua carreira compondo um personagem cheio de tics, com certa resistência a mudanças, chiliques, constantemente no limite da paciência, mas que debaixo disso tem um coração enorme. Ainda que discorde da profissão da filha, por exemplo, não a proíbe, mesmo não entendendo a graça e o sentido do que ela faz, e ainda a defende diante de terceiros. — Rodrigo Ramos

Delroy Lindo (The Good Fight)

A terceira temporada de The Good Fight permitiu que muitos personagens tomassem o co-protagonismo com Diane Lockhart, e desta vez Adrian Boseman se tornou mais relevante do que previamente. Delroy Lindo é um ótimo ator e seu personagem vai se tornando, gradativamente, seu melhor papel da carreira. Neste terceiro ano, Adrian teve de ser aquele tentando manter os pés no chão, sem se afetar em demasia na loucura apresentada na narrativa. Claro, ele dá uma boa risada disso, mas a ação é mais para tentar trazer a situação de volta ao que deveria ser o normal e se distanciar do absurdo. Manter a sanidade é essencial, e Adrian o faz, inclusive, mantendo uma relação com uma juíza — e vê-lo fora do cenário usual de escritório e julgamento faz bem para o personagem. Lindo tenta trazer sobriedade para a situação toda através de sua performance, e consegue. Ele também acaba se exaltando em alguns momentos, como quando coloca Roland Blum (Michael Sheen) contra a parede, mas em geral Boseman tende a não sair do controle, assim como sua atuação, controlada e sempre no ponto. — Rodrigo Ramos

Michael Kenneth Williams (When They See Us)

Infelizmente, Michael Kenneth Williams nunca recebeu das premiações o devido reconhecimento por seu trabalho. Não adiantou fazer papeis memoráveis em The Wire e Boardwalk Empire. Mas, quem sabe, sua sorte mude com o papel que foi lhe dado em When They See Us. Papel este que tem o maior peso até aqui em sua carreira. Pai de Antron McCray, um dos cinco garotos presos injustamente por crimes que não cometeram, Bobby McCray é a oportunidade de Williams demonstrar o alcance da sua capacidade como ator. Apesar de aparecer pouco tempo em tela, quando está presente ele chama a atenção toda para si. Sua performance é poderosa, notável nos momentos de explosão (quando precisa obrigar o filho a dizer que fez o que não fez), e principalmente naqueles de fragilidade (quando o policial o ameaça, durante o julgamento, e nos últimos anos de vida, já doente). Williams mostra ser um pai que se importa com o filho desde o princípio, e justamente por isso carrega a culpa pelo resto de sua vida por ter feito Antron assumir crimes que não cometera. É um misto de vergonha, de arrependimento, de culpa, uma mescla de dor impossível de traduzir em palavras, mas que Williams, com maestria, executa em tela. — Rodrigo Ramos

Henry Winkler (Barry)

O grande desafio da segunda temporada de Barry foi jogar seu elenco, acostumado a comédias, a investir em um lado mais sombrio e dramático. Henry Winkler, notoriamente um ator de comédia, é posto numa situação delicada, já que seu personagem, Gene, passa pelo luto da perda de sua namorada. De início, ele apresenta-se catatônico, mas consegue encontrar na história dos outros, nas tragédias alheias de seus alunos, um modo de lidar com o destino trágico de sua amada. O foco no trabalho torna-se um cano de escape para tentar, de alguma forma, superar não só a morte, mas também os arrependimentos da vida, e acaba levando-o a buscar reparar o passado com o seu filho. Winkler maneja as dores e constrói com sutileza as variações de tristeza, os pouquíssimos picos de alegria (como quando sorri ao ter um retorno positivo de seu filho) e a seriedade profissional, sem pôr pra escanteio os tons cômicos (como quando aconselha Barry numa situação difícil e acaba cobrando por hora de aula particular). Ao final da temporada, o estado catatônico retorna, e os últimos segundos da temporada mostram a dificuldade de dar vida a esse personagem e como Winkler, veterano que é, executa a função com perfeição. — Rodrigo Ramos

Jonathan Banks (Better Call Saul)

Por mais que Better Call Saul, por quatro temporadas, tenha mantido seu nível, Mike Ehrmantraut deixou de ter material tão rico para trabalhar quanto no primeiro ano da série — pelo qual, inclusive, foi roubado no Emmy ao perder o troféu de ator coadjuvante em drama para Peter Dinklage, de Game of Thrones. É motivo de satisfação para o espectador, portanto, que tenham retificado isso na quarta temporada, em que Jonathan Banks tem novos desafios para encarar como Mike. Aqui, o personagem cria uma relação ainda mais estreita com Gus (um buraco do qual a gente sabe pela história que ele só vai se afundar ainda mais), há uma relação até de amizade para ele com o responsável pela construção pedida por Gus, além de haver tempo para ele aprofundar ainda mais o relacionamento afetivo e complicado com a nora. Banks sendo Banks é ótimo, com o tom rabugento que lhe fez ser popular, porém ele consegue explorar novas nuances em sua interpretação quando apela para o lado mais sentimental, a exemplo da cena do episódio “Talk”, em que lida com o fato de a nora estar iniciando o estágio de superação do falecimento do esposo dela e filho dele, as mentiras de um dos frequentadores da terapia em grupo e a explosão consequente da gama de emoções. Em geral, é uma atuação discreta, mas com substância. — Rodrigo Ramos

Andrew Scott (Fleabag)

“It’s god, isn’t it?”. Eu conheci Andrew Scott interpretando Moriarty, em Sherlock, e quase quis que ele matasse todo mundo e dominasse o mundo mesmo de tão bom que ele é. Aqui não é diferente. O Padre Gato™ é um personagem tecnicamente brilhante, cheio de meandros e idiossincrasias. Ele é ao mesmo tempo altruísta e egoísta. Careta e rebelde. Tranquilo e tenso. É, para além de sua função de padre, um homem em crise, confuso em relação à sua identidade, crenças, prioridades, e que ainda assim precisa irremediavelmente cumprir seu papel de guia (e normalmente o cumpre excepcionalmente bem). É um homem rasgado entre deus e o desejo (num sentido bem amplo da palavra, que ultrapassa em muito apenas o sexual), e meio alcoólatra também. Tudo isso para ser explorado e passado em seis episódios de meia hora.

A atuação de Andrew Scott precisa, portanto, fazer muito em pouquíssimo tempo. E isso é precisamente o que ele faz. Em uma mesma cena, ele se apresenta cheio de certezas, e logo a seguir absolutamente inseguro. Num momento tímido, no outro espalhafatoso. O que mais impressiona, no entanto, não é o amplo espectro de características e traços de personalidade e a fluidez e velocidade com que Scott passa de uma coisa a outra. O fator na atuação de Scott que mais me chama a atenção é a sutileza. Porque num personagem em meio a tantos processos e trânsitos, é grande o risco da coisa descambar para a caricatura como forma de demarcação. Mas a atuação de Scott é daquelas que sequer parecem uma atuação. Simplesmente parece que alguém ligou uma câmera e ele tá ali trocando uma ideia com a Phoebe Waller-Bridge. Ou então que ele secretamente sempre foi padre a vida inteira. Não é à toa que o papel foi escrito para ele e que a segunda temporada talvez nem acontecesse se ele não tivesse topado, sendo o padre tão essencial, segundo declarações da própria Waller-Bridge. Andrew Scott é tão magnético e carismático que, ao contrário de muitos, eu nem gosto do Padre Gato. Acho ele, em muitos momentos, manipulador e mesquinho (ainda que não de forma consciente). Acabei a temporada passando raiva dele. E ainda assim aqui estou escrevendo sobre esse personagem e essa atuação, porque mesmo não gostando do Padre Gato, eu me apaixonei por ele. — Luiza Conde

 

MELHORES ATRIZES COADJUVANTES

Alex Borstein (The Marvelous Mrs. Maisel)

Dona de um timing cômico invejável, Alex Borstein teve poucas oportunidades de, em carne e osso, mostrar o seu talento. A voz por trás de uma das protagonistas de Family Guy exibe aqui um trabalho ímpar. Dar conta do roteiro de Amy Sherman-Palladino já é uma vitória por si só — é ágil, é carregado, é um trabalhão. Mas como todo o elenco, Bornstein está no auge do seu talento ao fazer de Susie o alívio cômico mais do que necessário na série — a cada frase, a cada olhar, é difícil manter a seriedade ao acompanhar a atuação da atriz. Nesta segunda temporada, ela ganha mais profundidade e fica evidenciado o abismo entre a vida de sua personagem e de sua amiga/colega de trabalho Midge. Enquanto ela se esforça para conseguir apresentações para Midge, esta parece dar mais relevância para sua vida social do que na carreira. Midge e Susie evidentemente têm batalhas diferentes — enquanto as apresentações são um hobby com potencial de ser algo a mais para Midge, para Susie ser agente é um meio de conseguir manter-se viva. O segundo ano consegue destacar as discrepâncias entre uma mulher realmente lutando para sobreviver, enquanto outra tenta achar seu lugar, mas sem deixar seus privilégios de lado. Diferentemente do que ocorre em algumas comédias atuais, no entanto, Borstein não deixa os tópicos mais sérios transformarem sua performance em algo mais sombrio. A comediante em momento algum deixa o sarcasmo, a vibe mal humorada e o fato de não ser o tipo de mulher que pede desculpas por suas ações de lado. Coração e comédia andam juntos aqui, sem um lado sacrificar o outro. — Rodrigo Ramos

Eliza Scanlen (Sharp Objects)

Numa temporada em que mais uma vez as atuações femininas foram o destaque, a entrega da jovem atriz Eliza Scanlen despertou a nossa atenção instantaneamente. Roubando a cena de nomes como Amy Adams e Patricia Clarkson, Scanlen deu vida a uma das personagens mais complexas e assustadoras do livro de Gillian Flynn com a propriedade de uma atriz veterana. As mudanças bruscas de humor e a crueldade de Amma poderiam facilmente transformar a personagem num clichê ambulante, afinal psicopatia não é algo incomum nas séries da HBO. No entanto, Scanlen fugiu da caricatura ao trazer camadas e cores um tanto diferentes da obra original, imprimindo uma fragilidade infantil aos trejeitos de Amma, que em nenhum momento soou forçada. Inclusive foi justo esse ar frágil o responsável por deixar o desfecho da minissérie ainda mais perturbador. Ou vai dizer que aquele “Não diga à mamãe!” não ficou na sua mente por dias? — Zé Guilherme

Rhea Seehorn (Better Call Saul)

Better Call Saul é conhecida por ser uma série de pouquíssimos excessos. A trama e os personagens costumeiramente se movem com certa calmaria, de maneira silenciosa. O elenco reflete isso em suas performances. Rhea Seehorn tem uma atuação abaixo do radar para muitos, sendo esnobada por todas as premiações principais por seu trabalho em Better Call Saul, porém é mais uma daquelas injustiças. Kim Wexler mantem se desafiando até o limite e está cada dia mais próxima de um colapso nervoso, seja pelas relações interpessoais (ela e Jimmy simplesmente não conversam sobre o relacionamento e visivelmente ela fica desconfortável com várias das escolhas dele) ou pelo trabalho (ela se multiplica em 30 pra dar conta, o que lhe causou o acidente na temporada passada). A verdade é que Kim está tentando se entender, se descobrir, enquanto Jimmy está em outra situação distinta. É interessante como ela tenta sair da estrada que percorre, e até se diverte nisso, mas acaba voltando ao caminho correto, já em contrapartida Jimmy vai por outra via. Seehorn maneja com sucesso seus questionamentos internos, sem extravagancias, numa atuação low-key, mas cirurgicamente precisa. — Rodrigo Ramos

Patricia Arquette (The Act)

Enquanto assistia a The Act, um detalhe da performance de Patricia Arquette me saltou aos olhos: antes de boa parte das falas de sua Dee Dee Blanchard, ela soltava um murmúrio gutural, expressivo, como que uma vilã prestes a introduzir o seu plano maligno. Esses conspícuos ohhhh’s de Arquette logo se entrelaçaram à identidade da série, para mim. O que The Act queria era transformar uma sinistra história real em um riff esperto do cinema de horror, ao mesmo tempo em que expunha os sistemas perversos que permitiram e cercaram a tragédia de Dee Dee e Gypsy. É preciso uma atriz de talento monumental para se insinuar na identidade de uma obra desse jeito, se costurar nela de forma que a performance seja inextricável do todo em que ela foi inserida. Patricia Arquette é uma dessas atrizes de talento monumental, e sua Dee Dee entra para a galeria de personagens mais grotescas, inescrutáveis, aterrorizantes, sufocantes e (paradoxalmente) trágicas da televisão. — Caio Coletti

Patricia Clarkson (Sharp Objects)

Patricia Clarkson é uma daquelas atrizes que já interpretou uma gama de personagens, seja no cinema ou na TV. Apesar de não ser uma estrela famosa de Hollywood ela tem uma carreira excelente e recheada de interpretações convincentes em filmes de qualidade. Ainda assim, ao se deparar com a primeira cena da atriz na minissérie Sharp Objects, é impossível não tomar um choque. Adora, a matriarca da família Preaker, é um presente para qualquer atriz.

Durante todos os episódios da minissérie ela parece viver em um mundo a parte, tão fora da realidade que é fácil se perguntar se aquela mulher está realmente sendo cruel ou ela é simplesmente uma pessoa que já sofreu tanto que prefere criar realidades paralelas. Uma das grandes antagonistas de Sharp Objects, e que por conta da interpretação incrível da Clarkson, você como público acaba criando empatia mesmo diante de seus atos mais horrendos. Patricia entrega uma mulher vil, mas que vai além da maldade característica. Ela é tridimensional, ela é única, ela é o tipo de personagem que você pode não gostar, mas quer sempre saber mais. Sem dúvida uma das melhores interpretações do ano! — Carissa Vieira

Sian Clifford (Fleabag)

Sian Clifford não é um grande nome na televisão, mas deveria ser. A irmã bem sucedida, tensa, controladora, quadrada e presa em um casamento infeliz de Fleabag rouba completamente a cena na segunda temporada de série.

É inegável que a relação de Fleabag com Claire tem grande relevância na primeira temporada e continua se mostrando um dos maiores pilares e virtudes da série em seu segundo ano. Se anteriormente os conflitos eram o que mais apareciam, agora a vontade de solucioná-los se torna uma preocupação, nos proporcionando uma hipnotizante jornada de auto-descobrimento e perdão. A relação das duas, que é conturbada para além de suas próprias e questionáveis ações, e a bagagem que antes as impediam de se relacionarem é abordada de uma forma complexa e tocante dando mais dimensão e profundidade para a personagem que até o momento não nos havia sido apresentado. Mesmo com todos atores e atrizes mostrando o seu melhor em Fleabag (temos uma vencedora de Oscar no elenco, galera!!!!), ouso dizer que Sian ainda entrega a melhor performance de toda a série. — Régis Regi

Audra McDonald (The Good Fight)

Se o nome Audra McDonald não lhe é familiar, deveria ser. A atriz é uma lenda viva do teatro, sendo vencedora de seis prêmios Tony, mais do que qualquer ator/atriz na história, e também é a única performer (homem/mulher) a vencer nas quatro categorias de atuação (atriz em peça e em musica, atriz coadjuvante em peça e em musical), além de contar com dois Grammys e um Emmy. Desde a temporada passada, ela empresta o seu talento para The Good Fight. Se no ano de estreia de Liz Reddick na série ainda foi um pouco tímido, na terceira temporada ela se torna a co-protagonista ao lado de Diane Lockhart.

Liz enfrenta vários problemas durante a temporada que põem à prova o talento de Audra McDonald. Logo no início da temporada, descobre que o pai, um ícone dos direitos civis, abusou e estuprou mulheres durante seu tempo de vida. Não só isso, mas precisa lidar com a crise interna que a descoberta gera para o escritório. Ela também entra em processo de divórcio, se envolve em um clube secreto que declara guerra à administração Trump, além de se deparar com as várias loucuras cotidianas e do trabalho. É uma bela jornada que a personagem atravessa, e McDonald trabalha com graça e competência. Como muitos do elenco, não é uma atuação over the top, não há o grande momento em que ela irá gritar e fazer um escândalo para chamar atenção e ganhar prêmios por isso. É com sutileza, elegância e puro talento que McDonald encara as difíceis decisões da personagem, se questiona constantemente, e também se diverte sempre que pode. — Rodrigo Ramos

 

MELHORES ATORES

Mahershala Ali (True Detective)

A terceira temporada de True Detective tinha como missão e promessa recuperar algum prestígio para a série depois de uma desastrosa segunda temporada. Uma das decisões mais acertadas para fazer isso foi chamar o Oscarizado ator Mahershala Ali, um dos melhores atores da atualidade, como protagonista. Se dividindo entre compor o personagem entre os anos 80 quando investiga um caso como o detetive jovem, inteligente e calmo cercado por questões como a sua passagem pelo Vietnam e ser um homem negro em sistema comprovadamente racistas, os anos 90 após a investigação e em 2015 sendo atormentados pelas repercussões desse caso enquanto é atormentado pela sua própria condição física e mental, já envelhecido, sofrendo de perdas de memorias e demência derivadas a isso.

O espetacular do trabalho de Ali é como ele consegue criar uma persona tão cativante para Hayes e diferenciar os três estágios do personagem durante todas as passagens de tempo que enfrenta. É comovente e visceral ver a transformação do personagem conforme os anos até chegar no seu último estado em que Mahershala se entrega por completo se doando numa transformação física e corporal para trazer à tona uma verdade tão palpável como um homem muito mais velho do que ele é e atormentado pelo tempo. Tendo em Carmen Ejogo e Stephen Dorff parceiros de cena com quem divide uma química tão poderosa, isso apenas reflete o quão generoso Ali pode ser como ator. — Diego Quaglia

Jharrel Jerome (When They See Us)

A melhor palavra que eu consigo encontrar para definir a atuação de Jharrel Jerome em When They See Us é “titânica”. Em tela, conforme os episódios da obra de Ava DuVernay vão passando, ele é um titã emocional. Nos momentos iniciais, em que aparece descontraído, andando por sua vizinhança em Nova York; no desespero de um interrogatório de última hora, que só aconteceu por sua diligência como amigo; na agonia de um julgamento em que a injustiça é palpável; nas muitas fragilidades que ele precisa demonstrar conforme o seu Korey é quebrado de muitas formas diferentes na prisão.

Titânica, sim, e também estonteantemente corajosa. Aos 21 anos, Jerome encarou um material mais desafiador do que qualquer ator com o dobro de sua experiência na TV norte-americana. Saiu triunfante, e coerente, sem dar qualquer passo em falso na jornada que construiu e em seu simbolismo. Se há quem hesite em classificar sua performance como a melhor da temporada, difícil dizer que não é a mais inesquecível. — Caio Coletti

Jim Carrey (Kidding)

Com mais de três décadas de carreira, Jim Carrey tem uma vasta coleção de papéis icônicos. A maioria deles cômicos, porém alguns dos melhores iam além da busca por risadas. Quando é dada a oportunidade para Carrey ir fundo, o ator cava de verdade e se enterra no personagem. Jeff Pickles (visivelmente inspirado no apresentador Fred Rogers), um famoso ícone infantil da TV, tem sua vida mudada drasticamente após um acidente ter tirado a vida de um de seus filhos. Carrey retrata o personagem como alguém doce, inocente, ingênuo, que acredita sempre no melhor das pessoas — o tipo de valor que ele leva às crianças no seu programa. Mas Jeff não está bem — e qualquer pessoa pode ver isso estampado em seu rosto. Jeff está em negação e não sabe lidar com o luto de ter perdido o filho. Ele continua se pondo em segundo plano, priorizando a vontade dos demais ao seu redor, porém aos poucos vão aparecendo os focos de demonstração de raiva, de falta de equilíbrio emocional, até mesmo de conexão com a realidade. Jeff é um personagem incrível, com tremenda complexidade, e Carrey o executa com maestria. O ator é perfeito ao encaixar os tons doces, otimistas, até as paletas mais obscuras, pesadas. É um trabalho difícil, exaustivo emocionalmente, que exige o máximo do talento de Carrey, que entrega mais até do que imaginávamos que ele seria capaz. — Rodrigo Ramos

Jared Harris (Chernobyl)

Já conhecido no mundo das séries pelo impecável Lane Pryce de Mad Men e participações fascinantes em The Terror, The Crown, Fringe e The Expanse, Jared Harris em Chernobyl dá mais um exemplo de como ele é um ator talentosíssimo e um desses artistas tão interessantes e versáteis, conseguindo dar mais um exemplo de suas forças como intérprete. Um fator curioso sobre Jared é que ele é filho do lendário Richard Harris, ator já falecido e conhecido por ser o primeiro intérprete do Dumbledore, da franquia Harry Potter, mas também por entregar interpretações memoráveis no movimento da British New Wave e outros grandes desempenhos durante as décadas de 60, 70 e 90. Jared e Richard têm vozes e intensidades muito parecidas e ambas as coisas são ótimas neles, porém enquanto Richard era um ator muito mais extrovertido, Jared é um artista bem mais introvertido e internaliza a sua intensidade em seus papeis. E isso é essencial em Chernobyl para que ele retrate o poderoso desenvolvimento do seu Valery Legasov. Os sentimentos do seu personagem são muito palpáveis e conseguimos sentir o que ele sente, todo o seu desespero com os erros dos outros e a sua necessidade de evitar o pior dentro daquela situação com o passar do tempo. Jared Harris interpreta a paixão de seu personagem tentando lidar da melhor forma possível com da gravidade da situação enquanto também tem que lidar com o lado mais corrupto do governo que ele faz parte. Seus momentos de indignação são maravilhosos do mesmo jeito que ele insere seus momentos mais quietos, que conseguem ser até inspiradores, de indignação e de sacrifício selando o seu triste, lamentável e inspirador destino. — Diego Quaglia

Bill Hader (Barry)

Assim com Winkler, Bill Hader não é conhecido por sua veia dramática. Pelo contrário. Para Hader, em especial, é um desafio triplicado. Não somente na atuação, mas também no roteiro e na direção, Hader incorpora a dramaticidade de forma mais intensa e constante nesta segunda temporada. Seu personagem ganha mais profundidade, tentando se livrar da vida de assassino, ansiando uma vida “normal”, mas tem dificuldades de deixar o passado pra trás. Hader já mandava bem fazendo piada com a temática, mas curiosamente mostra-se um ator mais competente ao conseguir executar as complicadas nuances das circunstâncias do contexto em que está inserido na narrativa. O ator traz sensibilidade (sim, estou falando isso de Bill Hader) para o papel, enquanto também exerce a raiva embutida e constantemente provocada pelos caminhos trilhados pela série, além do peso que carrega pelo passado (e também presente) de assassino. Em muitos momentos da temporada, Hader diz mais quieto, através das feições, do que pelos diálogos. É um trabalho de primeira, algo que definitivamente não se esperava dele. — Rodrigo Ramos

Billy Porter (Pose)

Pray Tell é uma força da natureza, e era preciso uma força da natureza para interpretá-lo. O ator Billy Porter conta que, antes de sua chegada na produção de Pose, o personagem nem mesmo existia – seu teste inicial foi para outro papel, de relevância bem menor para a trama. Assim, com uma persona toda construída ao redor de si, Porter agarrou a série de Ryan Murphy, Steven Canals e Brad Falchuk pelos colarinhos e forçou-a a ser o furacão que ela se tornou, porque não ser configuraria um insulto à sua performance.

Porter é deliciosamente arrojado e teatral nas cenas dos bailes, mas funda esse arrojo e teatralidade em traços emocionais profundamente sentidos e expressados. Fugindo da tentação de colocar Pray Tell, por sua luta contra tantas opressões, em um pedestal onde não poderia ser humano, Porter o cria sentimental e, fundamentalmente, apaixonado – por muitas coisas e pessoas, em muitos sentidos. Assim, faz com que seja fácil não só amá-lo, como se ver nele. — Caio Coletti

Bob Odenkirk (Better Call Saul)

O desenvolvimento de Jimmy McGill para Saul Goodman tem sido realizado com carinho pelos roteiristas da série. Alguns espectadores podem ter se frustrado, mas a cadência sempre fora marca registrada de Breaking Bad e Better Call Saul — especialmente a segunda. A série não tem pressa alguma e nisso vem criando um dos personagens mais bem delineados da TV durante este século. Nesta quarta temporada, o protagonista está sem sua licença de advogado e precisa colocar o trem nos trilhos novamente, para que possa depois de um ano tentar tirar a sua carteirinha de profissional de Direito novamente. Pois bem. A verdade é que Jimmy não se contenta com pouco — aliás, nenhum emprego legal lhe parece atrativo. Lidar com questões pessoais? Pff, é besteira. Jimmy até tenta, persiste, vai de emprego em emprego, mas não consegue se estabilizar e acaba voltando para os trambiques. É sua verdadeira natureza. E Odenkirk abraça isso com gosto neste quarto ano.

Jimmy sofre e sempre sofreu por não conseguir trilhar os passos de seu irmão e fazê-lo orgulhoso, mas com a morte de Chuck, nem mesmo a presença de Kim é o suficiente para que o protagonista opte por um caminho dentro da legalidade. Odenkirk, novamente, brilha na tela. Nota-se em Jimmy uma inquietude, uma necessidade de sair daqueles lugares comuns, que não correspondem a quem ele é. Isso acaba sendo fruto de confronto de prioridades entre ele e Kim — e algumas das melhores cenas da temporada envolve uma troca entre a dupla, como a discussão no topo de um prédio em “Wiedersehen” ou nos últimos instantes da temporada em “Winner”. Bob Okenkirk é excelente na arte da picaretagem em cena, mas também carrega os momentos dramáticos com mesma eficiência. Ao que tudo indica, agora sim veremos Saul Goodman entrando em ação pra valer, conforme a narrativa da série vai se afunilando. Sendo assim, tendo em mente o que já vimos até aqui, espera-se ainda mais de Odenkirk no futuro de Better Call Saul, e se tem a certeza de que o ator continuará honrando o papel e entregando uma das melhores performances masculinas da TV na atualidade. — Rodrigo Ramos

 

MELHORES ATRIZES

MJ Rodriguez (Pose)

Graças à TV, atores e atrizes trans vêm ganhando mais espaço. Claro, os papeis ainda são escassos, mas é notável a evolução — afinal, agora não precisamos mais de Jeffrey Tambor interpretando uma pessoa trans, superamos já essa fase. Pose é um exemplo enorme de representatividade para trans, gays, negros e latinos. É um grande peso ser a protagonista de uma produção de tamanho impacto social. A série da FX contém o maior elenco com performers trans da história da TV — cinco, ao todo. MJ Rodriguez tem a responsabilidade de guiar esse elenco diverso e tirar alguns estigmas (ou seriam preconceitos mesmo?) sobre atores trans. Dado todo o contexto, o que MJ faz? Bem, uma das melhores performances da temporada. Sua personagem, Blanca Evangelista, tem várias camadas e Rodriguez equilibra todas elas, desde a mãe responsável e que busca de todas as formas ajudar os filhos, entre a afetuosidade e a ferocidade, a ingenuidade no amor, a luta por vencer na vida por ser uma mulher trans, além da batalha contra o HIV. Entre os momentos divertidos e a seriedade que várias pautas demandam na série, Rodriguez sai dessa com graça. É uma interpretação cheia de gentileza e honestidade, algo raro de se encontrar atualmente. É um papel gigante e que MJ não se assusta ao executá-lo. — Rodrigo Ramos

Patricia Arquette (Escape at Dannemora)

Patricia Arquette denominou a temporada 2018/2019 como “o seu ano de mulheres monstruosas e complicadas”. A Tilly Mitchell de Escape at Dannemora pode até se encaixar nessa descrição, mas não é exatamente assim que Arquette, com a enorme sabedoria da grande atriz que é, a aborda. Nas mãos dela, Tilly começa como uma caricatura, uma pilha de trejeitos nervosos, fisicamente imponente, refrescantemente franca sobre essa fisicalidade. Acaba, no entanto, como um testemunho de humanidade gigantesco. E não é que o espectador seja levado a gostar dela, tampouco. A magia de Arquette, aqui, é criar uma mulher que reúne todos os julgamentos, todas as preconcepções e rótulos que querem prender a ela, e os atira pela janela. Ela é irascível, inflexível, intratável, incontrolável, mas também desesperada — por afirmação, por afeto, por alguma ilusão a qual se prender em uma vida patética. Imprevisível como a história que a minissérie conta, Arquette faz de Escape at Dannemora um conto muito mais vibrante do que seria sem ela. — Caio Coletti

Joey King (The Act)

7 Desejos, A Barraca do Beijo e Slender Man: Pesadelo Sem Rosto são parte da até pouco tempo atrás nada invejável carreira de Joey King. Portanto, foi com certo pé atrás que muita gente encarou uma escolha tão… inusitada para viver a protagonista da dramática The Act. Contudo, superando até o mais fiel de seus (poucos?) fãs, Joey King brilha a cada cena da série. Dando vida à, por vezes vitimizada, por vezes astuta Gypsy Blanchard, Joey King atua de igual para igual com a veterana Patricia Arquette (Dee Dee Blanchard, mãe de Gypsy). No entanto, assim como sua personagem se fortalece ao sair das asas da mãe, os melhores momentos de Joey estão nos episódios finais, quando a personagem ganha mais protagonismo, tempo de tela e nuances que não fazem ao mesmo tempo ter pena e ódio da complexa figura que interpreta. — Breno Costa

Amy Adams (Sharp Objects)

Falar sobre Amy Adams é naturalmente falar sobre talento. Nos últimos anos ela nos presenteou com tantas personagens incríveis e cheias de nuances que nunca é surpreendente nos depararmos com um novo trabalho bem executado. E ao interpretar a protagonista da minissérie Sharp Objects, Camille Preaker, como já era esperado a atriz nos presenteou com uma interpretação brilhante. Só que ao dar vida a Camille, Amy se despiu totalmente de si mesma e se tornou a Camille. Amy, a simpática atriz, não existia na tela. Quem aparecia era uma mulher problemática e que se machucava de maneiras físicas e psicológicas. Em todos os seus ótimos anos de carreira ela nos deu personagens complexas, densas, interessantes, mas nunca trouxe tanta vulnerabilidade para as telas. Amy permitiu que toda a complexidade mental da Camille viesse à tona na sua postura, no seu jeito de falar, de gesticular. Em cada cena o peso da vida daquela mulher tão cheia de dor aparecia. Amy Adams é sempre competente, mas em Sharp Objects ela mostrou que não precisa de uma tela de cinema para brilhar. — Carissa Vieira

Christine Baranski (The Good Fight)

Já são 10 anos de Diane Lockhart. Apesar da longevidade improvável de uma personagem como esta, Robert e Michelle King continuam surpreendendo ao escrevê-la. Há viradas inesperadas para Diane neste terceiro ano e Christine Baranski mantem-se incrível no papel, visivelmente divertindo-se ao máximo, com o entusiasmo de uma personagem novinha em folha. São escolhas peculiares feitas para ela, e Baranski as executa como a realeza que é, seja batendo a cabeça contra a parede, empolgando-se em participar de um jantar beneficente para os republicanos, enfrentando de frente o bully Roland Blum, liderando um exército feminino anti-Trump, cantando Prince, atirando machados ou simplesmente fazendo seu trabalho de advogada. Baranski não tem mais nada a provar a quem quer que seja e, assim como Diane, simplesmente não liga mais para premiações (tô falando com vocês, votantes do Emmy). Sendo assim, Baranski não tem pretensões e se compromete por amor ao papel, que já era bom o suficiente em The Good Wife, mas que se supera a cada temporada em The Good Fight. — Rodrigo Ramos

Jodie Comer (Killing Eve)

Ao bem da verdade, Killing Eve fez um segundo ano decepcionante. Tudo o que era novidade no primeiro ano da série pareceu requentado e sem sal, porém felizmente o destaque mais subestimado pela crítica na temporada de estreia da série, foi o único ponto que realmente funcionou. Sim, estamos falando da Villanelle de Jodie Comer. Agora com um merecido BAFTA em mãos, a jovem atriz inglesa não deixou a psicopata obcecada pela agente do MI6 parecer um repeteco do que foi feito antes. Villanelle voltou com um humor ainda mais ácido, e seu “amor” por Eve foi o que conferiu o mínimo de imprevisibilidade à trama. Muitas vezes nos pegamos rindo das ações mais erradas da assassina, para minutos depois temer pelo destino de um dos protagonistas que estivessem na mesma sala que ela. O rosto de Jodie Comer deve ser um dos rostos mais expressivos da TV atualmente e enquanto tivermos a chance de acompanhar mais de Villanelle e menos de qualquer outra pessoa, a série vai sustentar sua audiência. Só que não é pedir muito por um roteiro menos travado. — Zé Guilherme

Julia Louis-Dreyfus (Veep)

Em seu ano de despedida, Veep, que sempre foi uma sátira política, decidiu abraçar os absurdos da nossa realidade política de vez ao passo que vemos uma realidade de extremos e absurdos que parecem coisa de ficção. E por isso nada mais lógico do que ver a Selina Meyer, mais uma vez interpretada pela genial Julia Louis-Dreyfus, no auge da sua insanidade e maldade em busca do poder. As falhas de caráter de Selina sempre estiveram presentes na personagem, que nunca foi uma boa pessoa, porém ano após ano Veep foi levando esses defeitos a novos extremos como se Selina estivesse entrando numa jornada de autodestruição moral e se tornando um ser ainda mais desprezível.

No seu último ano, vemos o arco de Selina se fechando ao vermos ela abandonando de vez todos os amigos e a família que lhe restavam para atingir os objetivos que quer. Trair Gary (Tony Hale), seu mais fiel e totalmente devotado escudeiro, é a prova máxima que Selina chegou num caminho sem volta em que ela consegue o quer, porém tem que viver com a solidão. O caminho quase Shakespeariano de Selina só não é trágico porque estamos numa das comedias mais absurdas já criadas e Julia usa esse absurdo a seu favor fazendo com que gargalhemos de Selina ao mesmo tempo que tenhamos noção do caminho sombrio que ela está se afundando e reconhecemos a gravidade dele. E por isso Selina é hilária. Porque ela é um anti–modelo e Julia, mais uma vez, brilha explorando não apenas a falta completa de noção dessa figura, mas a sua insanidade crescente.

Contudo, o que impressiona mesmo são os momentos em que a temporada final Veep consegue brilhantemente silenciar esses absurdos e em uma cena de despedida envolvendo Selina e Ben Cafferty (Kevin Dunn), uma das poucas pessoas com quem teve uma relação realmente sincera, ela entre um colapso por se perceber tão sozinha e por entender que o preço para conquistar tudo que sempre quis foi demais. É comovente e incrível como Julia, em questão de segundos, consegue humanizar essa personagem mostrando alguém tão digno de pena quanto é digno de desprezo por se afundar num mar de solidão e de esquecimento trágico só por ir atrás de um desejo fugaz.

Os Estados Unidos se esqueceram de Selina mas nós nunca vamos nos esquecer de Julia Louis–Dreyfus, uma das melhores atrizes cômicas de todos os tempos, que criou durante esses anos uma personagem que nos fez rir e odiá-la em um desempenho verdadeiramente histórico de uma atriz histórica. Aplausos. — Diego Quaglia

Phoebe Waller-Bridge (Fleabag)

“The only person I’d run through the airport for is you”. Eu não sei se falo mais da Phoebe Waller-Bridge como roteirista ou como atriz de Fleabag e isso já diz muito. Porque, afinal, ela foi indicada, muito corretamente, para os dois prêmios ao Emmy deste ano. Dos textos que escrevi para os melhores da temporada, esse é o que apresentou mais dificuldade. E não porque faltem coisas a serem ditas sobre a Phoebe Waller-Bridge, mas sim porque me vejo numa enorme dificuldade de ter a distância crítica e analítica necessária para escrever sobre o trabalho dela. E talvez por isso mesmo ele seja tão genial. Porque te envolve de tal maneira que em algum momento você está irremediavelmente tomando uma cerveja imaginária com a Waller-Bridge. A Fleabag, para mim, é uma amiga minha. E é justamente nessa dinâmica poderosa entre roteiro e atuação que a Waller-Bridge tece essa intimidade. Fleabag fala diretamente conosco e nos torna o subterfúgio de uma vida solitária. Nos sentimos cúmplices, confidentes, a cada olhar ou palavra ou gesto que reconheça que estamos ali. Isso nos torna presentes e partícipes. É impossível não admirar e ter como exemplo profissional uma mulher que consegue, em seis episódios de meia hora, dar conta de: uma relação amorosa super atribulada entre duas pessoas cheias de questões; uma relação entre duas irmãs que se amam profundamente, mas não se gostam muito; um casamento e um divórcio; e um tom sempre equilibrado na navalha entre comédia e drama. Se as dramédias são as comédias que não fazem rir, Fleabag, sem dúvida, é uma grande exceção. Em alguns momentos, estou batendo na perna de gargalhar, em outros estou em posição fetal. Phoebe Waller-Bridge é tão boa que, tanto em sua escrita quando na sua atuação, ela consegue entregar uma aparência de caos e puro improviso (que a série pede) para uma temporada curtinha que ficou pelo menos dois anos sendo desenvolvida. — Luiza Conde

 

MELHORES EPISÓDIOS

Insecure
S03E05: High-Like

Direção: Millicent Shelton | Roteiro: Regina Y. Hicks
Exibido originalmente em 9 de setembro de 2018.

O Beychella com toda certeza foi o evento musical mais celebrado e comentado do último ano, mas nem esse destaque nos prepararia para o melhor episódio de comédia de 2018. Issa e sua impagável entourage formada por Molly, Kelli e Tiffany chegam ao deserto californiano para curtir o icônico festival sem prever que algumas doses de bala, as colocariam nas mais embaraçosas situações. O terceiro ano de Insecure foi o mais robusto de toda a série e pela primeira vez o roteiro conseguiu levar suas protagonistas para territórios menos engessados pelo tom cômico. No entanto, “High-Like” foi um respiro merecidíssmo para uma temporada que vinha assumindo tons dramáticos que, apesar de necessários, começaram a nos divertir menos do que o habitual. O destaque dado a Molly, Kelli e Tiffany também foi um dos pontos altos, rendendo punchlines que nasceram clássicas como quando Kelli diz que ser bissexual agora tem a permissão e aprovação da musa Janelle Monáe. “Beyonce or bust, BITCHEEEES!”. — Zé Guilherme

The Haunting of Hill House
S01E06: Two Storms

Direção: Mike Flanagan | Roteiro: Mike Flanagan, Jeff Howard
Exibido originalmente em 12 de outubro de 2018.

Já virou rotina termos pelo menos um episódio anualmente que se destaque por ter um badalado plano sequência. Entretanto, a maioria dessas horas acabam sendo mais exercício estilístico do que uma decisão tomada para significar algo na história da série. Felizmente, esse não foi o caso de “Two Storms”. Escolhido para narrar o claustrofóbico funeral de Nell, o episódio em si trouxe a primeira reunião dos Crain depois de anos sem se verem. Ao funcionar como ponto de tensão máximo na trama da primeira temporada, somos induzidos a passear por diversos embates familiares durante uma tempestade, enquanto flashbacks também nos levam, sem cortes aparentes, para uma noite tempestuosa e assustadora na Hill House. A direção de Mike Flanagan entregou diversos momentos emocionantes, mas nenhum que se compare ao dramático pedido da caçula da família Crain para ser enxergada por quem ela amava. Mais do que nos deixar com medo de desligar a luz durante a noite, The Haunting of Hill House nos ensinou que a solidão ainda é o maior terror enfrentado pela humanidade. — Zé Guilherme

Fleabag
S02E01: Episode 1

Direção: Harry Bradbeer | Roteiro: Phoebe Waller-Bridge
Exibido originalmente em 4 de março de 2019.

“This is a love story”. O 2×01 de Fleabag é daqueles episódios que eu queria ter escrito. E se algum dia conseguir escrever algo próximo em qualidade, eu me considerarei uma roteirista extremamente bem-sucedida. Pra começar que ele entra na minha categoria de episódios favorita, que é a de lockdown. Lockdown episode é aquele que se passa inteiro ou quase inteiro num ambiente restrito em que o mais comum é que o personagem fique literalmente preso. E aqui já começa a genialidade desse episódio em particular: é um lockdown em que ninguém está preso de fato. A qualquer momento é só levantar e sair daquele restaurante com a garçonete irritante. Mas ao mesmo tempo não é, porque quantas pessoas de fato já simplesmente saíram de uma reunião familiar? É uma prisão subjetiva que carrega o peso de incontáveis e implícitas normas sociais, da qual só é possível escapar nas pausas pra um cigarro (é por essas e outras que eu não paro de fumar).

O episódio transcorre ao longo de um jantar. Assim são os episódios desse tipo, em que pouco de fato acontece. Muito, por outro lado, é dito sobre cada personagem ali. Presos sem escapatória uns aos outros, muito é dito e não dito sobre quem de fato são aquelas pessoas. É, logicamente, uma aula de diálogo, com espaço de sobra para pausas esquisitas, atropelamentos de fala e silêncios constrangedores. Mais do que isso, é um episódio que nega o caminho cínico (e previsível) da dramédia tradicional: tudo parece bem, mas no final BUM fica com esse drama muito dramático, profundo demais (a minha grande crítica, inclusive, à primeira temporada de Fleabag, que termina nesse tom). Na segunda, as coisas estão bem. Mesmo. Claro, haverá crises e momentos difíceis. Mas nem tudo precisa ser traumático e horrível para ser profundo. Tanto que esse episódio já estabelece a tônica do meu ponto favorito da temporada: todos os personagens são aprofundados e ganham mais camadas e complexidade, bem como se tornam mais profundas as relações que estabelecem entre si. A relação de Fleabag e Claire, que já era incrível, dá um salto nesse episódio e na temporada como um todo. Vamos da comédia ao drama de volta à comédia simultaneamente de forma orgânica e como um soco no estômago. Ou talvez esteja tudo lá ao mesmo tempo. Juro que a referência ao soco foi acidental. — Luiza Conde

Barry
S02E05: ronny/lily

Direção: Bill Hader | Roteiro: Alec Berg, Bill Hader
Exibido originalmente em 28 de abril de 2019.

Em sua segunda temporada, Barry optou em diversos momentos apostar no drama ao invés da comédia. Se isso funcionou, não vou entrar no mérito. Apesar disso, a série teve um dos momentos mais icônicos, surtados e engraçados da TV na temporada 2018/2019 com “ronny/lily”. Se Atlanta pecou na segunda temporada ao inserir tanto surrealismo que se perdeu nele e não soube desenvolver uma história de verdade, Barry consegue abrir espaço para um episódio que mergulha no absurdo, mas sem deixar de mover a trama da temporada. É extremamente bem dirigido, com cenas de ação improváveis, divertidas e bem coreografadas, enquanto o roteiro é afiado e mescla bem os momentos surtados e os diálogos. — Rodrigo Ramos

Fleabag
S02E06: Episode 6

Direção: Harry Bradbeer | Roteiro: Phoebe Waller-Bridge
Exibido originalmente em 8 de abril de 2019.

Phoebe Waller-Bridge, sem dúvida, se consolidou em Fleabag, Killing Eve e Crashing como uma das melhores roteiristas da atualidade. Criando temáticas femininas sobre a imperfeição de suas personagens e do mundo ao redor delas, Phoebe tem uma habilidade na criação de diálogos, personagens, as relações entre eles e de subtexto nisso tudo que é impressionante, conseguindo ser tão engraçada quanto comovente — algo a se apreciar em qualquer criador. Porém, não tenho medo nenhum de afirmar que a segunda temporada de Fleabag é a sua obra–prima até agora. Isto porque é onde Phoebe consegue aprofundar ainda mais questões da sua própria dramaturgia que chegam ao auge nesse fantástico “Episode 6”.

Durante a segunda temporada inteira vemos a tensão sexual crescente entre Fleabag (a própria Phoebe) e um padre (Andrew Scott, incrível como o padre gostoso) chamado apenas de “O Padre”. Essa tensão cresce, cresce e cresce a temporada inteira ganhando forma de maneira incrível, divertida, comovente, sexual e claramente trágica no seu episódio final em que a série aborda a crush da sua protagonista que virou um romance impossível com um homem com que ela não divide apenas uma atração sexual mas também uma conexão profundamente humana, emocional e até divina, enquanto ele se divide entre o amor que descobre sentir por ela e o amor a Deus.

O romance proibido entre um padre e uma mulher poderia ser um clichê se não fosse a abordagem certeira de Phoebe que usa isso para aprofundar dois pontos centrais da série: a solidão de sua protagonista e o uso de quebra da quarta parede. Fleabag tem em nós, o publico que a observa num uso sofisticado de metalinguagem com coincidência dela, algum consolo no seu mar de solidão. Somos alguém com quem ela divide suas experiencias, seus demônios, por isso shipamos e torcemos que ela fique com o tal padre gostoso. E imaginem a nossa surpresa e a dela quando a conexão entre os dois personagens é tão forte que o padre também divide a consciência que nós, o publico, existimos. É um choque e estabelece o relacionamento de ambos como essa “esperança” para se encontrar a felicidade… Porém, essa “esperança” é impossível. E nesse episodio, quando a química entre os personagens chega ao seu ápice, este romance trágico e destinado ao fracasso culmina-se em um final não feliz. É comovente ver que mesmo não ficando juntos, a conexão de ambos agregou algo de diferente nas vidas deles. E após viver essa experiencia, Fleabag está pronta para viver a sua vida. Agora, sozinha, percebe que para enfrentar o mundo ao seu redor não precisa mais de nós. E então ela finalmente se despede da câmera sem dizer nada e vai viver. Pronto para lidar com uma experiencia com pessoas de verdade, que a respondam e não apenas a observem. Essa experiencia fez Fleabag percebeu que não precisa de um recurso para se proteger e que a vida com todo o seu sofrimento, falhas e fracassos vale a pena ser vivida. É tudo tão triste, gracioso, inspirador e lindo fechando perfeitamente não apenas a temporada mas a série como um todo. — Diego Quaglia

The Good Fight
S03E04: The One with Lucca Becoming a Meme

Direção: Nelson McCormick | Roteiro: Jacquelyn Reingold
Exibido originalmente em 4 de abril de 2019.

O episódio começa com os sócios do escritório de advocacia ouvindo Maia Rindell (Rose Leslie) sobre ter sido detida pela polícia após encontrarem drogas dentro de seu carro, e ela acaba sendo temporariamente suspensa do emprego. Uma semana de gancho. Logo em seguida, os sócios começam a discutir o destino de Maia, e alguns se manifestam favoráveis à demissão dela. Logo surge exemplo de outro associado que fora demitido por uso de droga. “Zero tolerância”, lembra um deles. Mas alguns argumentam que com Maia é diferente. A situação era apenas a faísca que daria início a uma grande discussão sobre racismo estrutural. Spoiler: o rapaz demitido era negro.

Lucca Quinn (Cush Jumbo) também é vítima do racismo nosso de cada dia. Ao vê-la com um bebê que não é da mesma cor (o pai da criança é caucasiano, diferente dela), uma mãe no parque se intromete aonde não deve, liga para polícia alertando que a criança não é dela e causa um caos, já que o policial também duvida que o neném pertença à Lucca, pedindo seus documentos e do carro.

As duas situações, bem mais comuns do que se imagina para quem vive na bolha do “racismo não existe”, revela uma doença que está presente na nossa sociedade. Lucca, por exemplo, nunca havia sido alvo desse tipo de preconceito (talvez pelo tom de cor da pele mais claro), mas a partir dele toma consciência de sua negritude. Quando conversa com os sócios e outras pessoas do escritório após ter se tornar alvo de ataques na internet e até diretamente no trabalho, Lucca observa e diz: “Vocês perceberam que todos que são negros nesta sala sabem o nome das vítimas de brutalidade policial?”. A questão atinge, bem, os brancos. Marissa (Sarah Steele) questiona se ela é racista agora e adiciona: “Meus avós foram à Selma”. É a versão do “eu não sou racista, tenho até amigos que são negros”. Diane (Christine Baranski), por sua vez, começa a pesquisar os nomes das vítimas, porque a consciência bateu de fato.

Há também a questão da disparidade salarial, informação bomba que mexe ainda mais com as estruturas do escritório, já que é evidente na folha de pagamento que os brancos recebem mais do que os negros. Neste caso, Adrian (Delroy Lindo) fala sobre a verdade nua e crua: “Mulheres são menos valorizadas do que homens porque nós pensamos que homens podem nos deixar por empregos que paguem melhor. E pessoas negras são menos valorizadas do que brancos porque nós achamos que eles podem nos deixar por trabalhos mais bem remunerados. Eu odeio isso. Mas é a realidade”.

O episódio é certeiro ao conseguir ilustrar de diversas formas como a sociedade é racista em si, mesmo as pessoas mais desconstruídas, porque a fundação dela é baseada no preconceito — motivo pelo qual nem mesmo um escritório de advocacia, cujo diferencial está na diversidade racial, consegue ser totalmente desprovido de racismo estrutural. É claro que há níveis, entre a falta de consciência plena, falta de vivência (brancos nunca vão entender de fato o que é o racismo) e o puro preconceito. Apesar desses temas abordados, o episódio não perde perde o ritmo caótico e extremamente bem humorado que a série possui, além de continuar pondo a trama macro para frente. — Rodrigo Ramos

BoJack Horseman
S05E06: Free Churro

Direção: Amy Winfrey | Roteiro: Raphael Bob-Waksberg
Exibido originalmente em 14 de setembro de 2018.

Demorei uns 10 dos 26 minutos do sexto episódio da quinta temporada de BoJack Horseman, “Free Churro”, para sacar o que estava se passando na minha tela. Quando finalmente percebi, fiquei torcendo para aquilo nunca mais acabar. Mais do que um episódio que dá adeus a um de seus mais complexos personagens, “Free Churro” é uma aula de domínio narrativo. Poucos são os roteiristas em ação (ou aposentados) que teriam a maestria de segurar um episódio de quase meia hora baseado em um grande e ininterrupto monólogo, mas Raphael Bob-Waksberg, também criador e showrunner da série, conseguiu brilhantemente. O trabalho de voz de Will Arnett, cujo monólogo, dizem por aí, foi gravado todo de uma vez sem pausas, em “Free Churro” encontra seu momento mais inspirado. Mais do que isso, o episódio é uma homenagem a tudo que a série construiu até então: seria impossível esse episódio existir se a relação entre BoJack e sua mãe não tivesse sido bem trabalhada como foi desde a primeira temporada da série. — Breno Costa

 

MELHORES SÉRIES (COMÉDIA)

GLOW (Netflix) — Segunda Temporada

Revendo o piloto de GLOW para escrever esse texto, me lembrei de tudo que mais me fascinava nesta série: é uma comédia (dramédia, ou seja lá o que esteja se esteja chamando esse espaço híbrido de gêneros) estranha, com um tom meio seco, arte e fotografia sujas, um humor um pouco alto depreciativo. Todo o visual da série parece “sofrer” da mesma falta de orçamento que a própria série dentro da série. Seus personagens meio “brutos” e “toscos” não tem o brilho que o título sugere, no entanto, existe outro brilho que vai para além de uma superfície polida e que claramente emana de GLOW desde seus primeiros episódios e que apenas se reforça durante essa segunda temporada: as mulheres que compõem esse grupo de lutadoras desajustadas são verdadeiras pérolas dentro de um panorama televisivo ainda muito masculino, na frente e por trás das câmeras, e esse é exatamente um dos motes de toda a série.

Seguindo a história de Ruth (Alison Brie), uma aspirante a atriz dramática que se vê há mais de 10 anos em Los Angeles sem qualquer perspectiva, em um ambiente onde os únicos papéis femininos são de secretárias e esposas, tomando diversas decisões erradas como dormir com o marido de sua melhor amiga, e encontra na luta livre um espaço para finalmente expressar sua arte. Ruth é insistente ao ponto da chatice, mas ela traz à tela uma situação muito real, uma mulher quase que desesperada por aprovação externa, especialmente de todos os homens que lhe cercam, o que lhe coloca em constantemente relações abusivas, seja com o Sam (Marc Maron), um diretor fracassado de filmes de gênero e viciado em cocaína, ou com Debbie (Betty Gilpin), a melhor amiga acima mencionada. E é na tensão constante da relação entre elas, duas mulheres colocadas em competição por uma cultura machista e masculinista, que a segunda temporada decola e que muitos dos subtemas são explorados. Debbie se utiliza de seu poder de barganha para obter um título de produtora na série, mas logo se vê distante das demais colegas e, ao mesmo tempo, excluída pelos “garotos”. Sem amigos e qualquer poder real, em meio a um divórcio doloroso, ela fica cada vez mais fragilizada. Ruth, por sua vez, tenta, de todas as formas erradas, obter a aprovação de Sam e recuperar a amizade perdida com Debbie.

Em meio à estes dramas, momentos de extrema potência, como a trama de Tammé (Kia Stevens), uma mulher negra de meia idade, mãe solteira como tantas, que já fez de tudo um pouco para se sustentar e criar seu filho, um dos únicos negros de sua turma de Stanford, e cujo personagem em GLOW é o estereótipo da “Welfare Queen” (Rainha da Assistência Social, mais ou menos), um emblema extremamente preconceituoso que persegue mulheres negras até hoje. A beleza e singularidade de GLOW está exatamente na difícil negociação que cada uma de suas personagens precisa fazer: mulheres que se empoderam em um espaço onde seus corpos são espetáculo e “armas”, mas que, para isso, precisam encarnar e abraçar os preconceitos que lhes cercam. É uma negociação complicada. De um lado, vemos a emergência de símbolos de resistência, um show que foi realmente um sucesso nacional e internacional durante boa parte das décadas de 80 e 90 (no Brasil, GLOW foi exibido pelo SBT) e que deu para essas mulheres uma projeção inesperada em um ambiente televisivo dominado por homens, em um tipo de entretenimento ainda mais masculino; por outro lado, vemos a fragilidade final de suas posições, tendo seus roteiros e destinos na mão dos homens que operam as câmeras, dirigem o show e controlam as emissoras. GLOW tem uma opacidade rara que nos leva a um ambiente ambíguo, um show claramente “feel good” com traços de um drama profundo que cerca as personagens e o próprio mundo do entretenimento que lhes entrega como espetáculo de luzes e brilho, enquanto lhes coloca em situações limite de dor e humilhação: uma reflexão a respeito das dificuldades e prazeres de ser mulher no entretenimento, onde os 30 anos que se passaram viram poucas mudanças ou quase nenhuma, entre ciclos breves de leve empoderamento que rapidamente se perdem em meio ao turbilhão da cultura pop e nossa curta memória. — Mariana Ramos

Barry (HBO) — Segunda Temporada

Ver a segunda temporada de Barry é como as flores de um já belo jardim florescendo e se tornando ainda mais lindas. É assistir a algo já muito promissor ganhando forma e se aprofundando em todos os seus elementos. Em sua segunda temporada, Barry mantém os elementos técnicos e narrativos que fizeram a primeira temporada impressionar, mas aprimora a sua habilidade em equilibrar a narrativa entre uma comedia totalmente absurda e toques de dramas existenciais pesados e profundos. Com destaque para o fantástico “ronny/lily”, episódio em que Bill Hader se prova um diretor extremamente maduro e criativo além de um ator fantástico, numa jornada que mistura perfeitamente esse humor absurdo da série num tom surrealista onde tudo é possível e a escala do caos vai se formando em cenas de ações simplesmente viscerais se superando novamente nos seus elementos técnicos quanto narrativas. A série consegue aprofundar tremendamente personagens não tão interessantes na primeira como Sally (Sarah Goldberg, fantástica), dando a ela camadas e uma trama fascinantes. Além disso, dá a oportunidade de Bill Hader continuar brilhando e coadjuvantes como Anthony Carrigan, Stephen Root e Henry Winkler roubarem a cena. Torcemos para que Alec Berg e Bill Hader continuem levando Barry por mais temporadas com essa mesma qualidade e esse crescente. — Diego Quaglia

Better Things (FX) — Terceira Temporada

Após as denúncias de má conduta sexual de Louis C.K., a FX o demitiu e Pamela Adlon, amiga pessoal do comediante, se viu sozinha no comando de Better Things, uma série extremamente pessoal, a qual ela dirige, produz, escreve e protagoniza — mas, até no segundo ano, contava com C.K. na parte do roteiro. Uma longa pausa ocorreu para que Adlon pusesse a casa em ordem. Ela montou uma sala de roteiristas e continuou, acertadamente, neste que é o trabalho de sua carreira até aqui. Novamente, Adlon dirige todos os episódios da temporada, mostrando-se uma diretora competente, além de atriz talentosa.

Sim, a série é bastante episódica (mais do que a temporada anterior, menos porém do que a primeira), mas tudo se encaixa no fim para uma narrativa maior. Ainda assim, nada pretensioso demais. É tudo mais simples do que talvez se espere em séries hoje em dia com grandes narrativas, entretanto Better Things nunca teve o objetivo de ser definitiva pra qualquer coisa. Os acontecimentos no seriado são, sinceramente, ordinários. E é isto que faz dela tão especial. Os retratos criados por Adlon soam extremamente fidedignos, e isso inclui a relação de Sam com as filhas, com a própria mãe, com as amigas, os interesses românticos e o trabalho. Alguns dos diálogos são tão realistas, como na relação problemática de Sam com Frankie, que a história envolve o espectador a ponto de fazê-lo se sentir em casa. Better Things é maduro, sincero, engraçado, poético, mágico, de aquecer o coração. Uma espécie de a vida como ela é. — Rodrigo Ramos

Insecure (HBO) — Terceira Temporada

O quão alarmante você acharia se eu dissesse que Issa Rae é a primeira mulher negra que criou e estrelou a sua própria série de comédia? Bastante? Pois é, ela não é a primeira (como muitos sites tem noticiado), porque Wanda Sykes criou e protagonizou a série da Fox Wanda at Large em 2003, fazendo de Rae a segunda. Mas ainda alarmante, não acha?

A terceira temporada da dramédia Insecure estreou em 2018, e aparentemente (e injustamente) foi engolida pela animação dos críticos e do público com o fenômeno Barry, além de ter ido ao ar em um momento em que todos canais sofrem para reter audiência, que é o verão norte-americano. Apesar de silenciosa, ouso dizer que foi a melhor temporada da série até então. Consistência nunca foi um problema para Insecure, porém desenvolvimento de personagem talvez. Como espectador, sempre tive a impressão que Issa tinha pouco desenvolvimento, até mesmo quando comparada com a personagem de sua melhor amiga, Molly (a maravilhosa Yvonne Orji), mas a terceira temporada não apenas soube muito bem equilibrar comédia com o drama, mas trouxe desenvolvimento de plot e personagem para literalmente todo mundo da série. Personagens secundárias como Tiffany e a ladra de cena Kelli, que nunca tiveram muito destaque e eram basicamente acessório pras duas protagonistas, agora até possuem algumas (poucas) cenas sem a presença de Issa ou Molly, e com abertura para conflitos e com possibilidade de crescimento. Issa Rae, que já possui duas outras séries em desenvolvimento na HBO (Sweet Life e Him and Her), diz que “só queria ver a si mesma e as amigas refletidas na televisão, da mesma forma que pessoas brancas são permitidas e que ninguém as questiona”. Sem mesmo sem a pretensão, conseguiu fazer uma das séries mais relevantes da atualidade e que precisa urgentemente ser assistida! — Régis Regi

Russian Doll (Netflix) — Primeira Temporada

Honestamente, quando soube da existência de Russian Doll e seu plot, era difícil imaginar que funcionaria como uma série. Bem, surpreendentemente, funciona. Criada pelo trio Leslye Headland, Natasha Lyonne e Amy Poehler, a série evidentemente se inspira pelo plot do clássico Feitiço no Tempo (Groundhog Day, 1993) e consegue ter êxito ao trazer seus próprios elementos (da comédia, com pequenos toques emotivos e até horror), se afastando de certa forma do filme e de outras tantas inspirações e cópias que vieram depois. Voltar sempre ao mesmo dia acaba se tornando uma piada dentro da série, mas as mortes, que são em geral bem divertidas, não são o chamariz da produção. A obra, em suas quatro horas, acaba contando uma história metafórica sobre a necessidade que os humanos têm de conviver com outros, como é necessário deixarmos alguns dos nossos velhos comportamentos (e pessoas) para seguir em frente, que se pode tomar decisões diferentes na vida, e como ser gentil não custa nada. A série, feita para ser consumida de uma só vez, é viciante de um jeito que a Netflix sempre quis e raras vezes conseguiu; é inusitada, engraçada, afetuosa, inteligente (mas sem nenhuma pretensão de ser cabeçuda, afinal não é Westworld), com um roteiro afiado e um elenco em sintonia, com grande destaque para Natasha Lyonne, que surpreende tanto na atuação quanto no roteiro (e também direção). — Rodrigo Ramos

BoJack Horseman (Netflix) — Quinta Temporada

BoJack Horseman acabou e tudo está pior agora. É assim que eu me sinto ao fim de cada temporada da série desse cavalo desgraçado. Enquanto a temporada passada apostou mais no drama do que de costume (quem não terminou aquele episódio da Princess Carolyn em posição fetal não respira), essa voltou ao equilíbrio entre momentos cômicos e dramáticos típicos de BoJack. Tem até um robô sexual cheio de consolos e frases de duplo sentido (que é uma alegoria aos homens no poder em Hollywood não à toa). O robô acaba morto — diferente dos homens. E essa é a tônica de BoJack Horseman que me faz gostar tanto da série (e que acaba comigo), em que de repente você está rindo e aquele momento se transforma em algo profundamente doloroso, duro e difícil. É uma puxada de tapete atrás da outra. Talvez seja isso que me deixe com essa sensação de vazio e falta ao final da temporada. Ou talvez seja o fato de que, embora os personagens tenham caminhado e evoluído bastante desde a primeira temporada, eles ainda insistem nos mesmos erros de sempre, e perdem e caem, e a gente seja confrontado constantemente com o fato de que a vida não é essa marcha sempre adiante que gostaríamos que fosse. “Free Churro” é, sem dúvida, o episódio da temporada que melhor comunica tudo isso num soco no estômago que dura 26 minutos. O episódio é tudo aquilo que a gente aprende que não deve fazer porque não vai dar certo, e dá maravilhosamente certo. E é também uma ode à construção das relações de personagem e do envolvimento emocional do público de uma narrativa seriada. Ele me faz questionar se quero que BoJack dure pra sempre ou que acabe logo para a qualidade não cair. Tudo o que eu sei é que a temporada acabou e nem um churro de graça eu ganhei. — Luiza Conde

Fleabag (Amazon Prime Video/BBC) — Segunda Temporada

Fleabag é um tipo de série que muito raramente aparece. É a exata definição pra mim de “não tem nada igual na televisão”. A série criada, escrita e protagonizada por Phoebe Waller-Bridge tem apenas duas temporadas, e a segunda (e até então, última) conseguiu a proeza de superar em qualidade a sua primeira temporada, que já era excepcional, inclusive, também entrou na lista de melhores do seu respectivo ano aqui no Previamente.

Para quem não conhece, Fleabag narra a vida de uma mulher no início dos seus 30 anos e suas lutas diárias na vida, e principalmente, na vida sendo uma mulher. Desde problemas com parentes, trabalho e com amigas, Fleabag é um retrato muito bonito de uma protagonista disfuncional que só está tentando existir e sobreviver em um mundo disfuncional com pessoas mais disfuncionais ainda. Nessa temporada, acho que o foco na protagonista diminui um pouco em relação à primeira, mas não vejo como algo negativo. Pelo contrário, acho que acrescenta muito mais para a série, tendo em vista que apesar de todos os personagens serem detestáveis, é ótimo vê-los saindo um pouco de trás da protagonista e tendo mais momentos próprios.

É muito raro ver uma comédia de nicho ultrapassar barreiras e atingir um público relativamente substancial, principalmente não sendo uma série norte-americana — ela é britânica. Phoebe Waller-Bridge consegue prender nossa atenção numa performance notável, e como criadora e roteirista, consegue tirar o melhor de cada um dos membros do elenco, dando ao espectador momentos brilhantes e extremamente memoráveis. Vale ressaltar que a série possui em seu elenco a ganhadora do Oscar deste ano, Olivia Colman, e na segunda temporada a participação de Andrew Scott (o Moriarty da série Sherlock). Minha única crítica possível à segunda temporada de Fleabag e o único problema da série é que ao contrário de quase todo o resto da TV, poderia ter mais! — Régis Regi

 

MELHORES SÉRIES (DRAMA)

Sex Education (Netflix) — Primeira Temporada

Encontrar séries estreantes genuinamente boas na era da Peak TV ainda dá um bom trabalho. Geralmente estamos saturados das mesmas tramas batidas, dos mesmos personagens estereotipados e por aí vai. Uma primeira olhada na premissa de Sex Education poderia afastar qualquer um que busque algo diferente do que já tenha sido exibido no gênero das séries adolescentes, porém se observarmos com um pouco mais de cuidado o fato de termos uma mulher escrevendo sobre sexo na juventude, já é o suficiente para abraçarmos a proposta e embarcar na história de Otis, um jovem assexuado que acaba se tornando o especialista no assunto em sua escola. Recheada de atuações apaixonantes – Gillian Anderson está no elenco fixo e faz a mãe do protagonista – e momentos divertidíssimos, Sex Education flerta com o melhor que as produções britânicas podem oferecer ao não ter medo de discutir diversos tabus que ainda existem quando estamos tratando da liberdade sexual nessa fase da vida. Fácil uma das melhores originais da Netflix. — Zé Guilherme

My Brilliant Friend (RAI/HBO) — Primeira Temporada

My Brilliant Friend foi, sem dúvida, uma das maiores surpresas da televisão do ano passado. A série é baseada no primeiro livro da Tetralogia Napolitana da italiana Elena Ferrante intitulado L’amica geniale e ganhou uma adaptação televisiva co-produzida pela HBO e o canal italiano RAI. Sem que ninguém esperasse, a produção italiana acabou sendo um dos dramas mais aclamados da temporada (ouso dizer que pra mim é de fato o melhor drama da temporada).

A série conta a história de amizade de Lenù e Lila, duas amigas que cresceram e tiveram uma vida pacata em uma Nápoles no pós-Segunda Guerra Mundial. My Brilliant Friend tem uma primeira temporada de apenas oito episódios que compõem um dos retratos de amizades mais complexos e bonitos que presenciei como consumidor de televisão. A relação das duas crianças e como as dinâmicas da relação entre elas mudam e se alteram conforme elas crescem é cativante, mostrando de forma bem interessante a intensidade e complexa dinâmica da amizade feminina. Além disso, é extremamente interessante ver discussões por vezes atuais, (como, por exemplo, ser reconhecida pela beleza, conseguir um namorado, manter-se virgem até encontrar um bom candidato a marido) são retratadas naquele cenário e principalmente: por essas duas personagens em específico que possuem pontos de vistas bastante singulares da vida que vivem e como conduzi-las.

Fico muito feliz também como um produto televisivo italiano, que apesar de emular bastante um ideal de produção televisivo norte-americano de um drama de prestígio (muito provavelmente por conta do envolvimento da HBO na produção), a série é muito bem sucedida em mostrar suas especificidades e ser bastante original, extremamente bem dirigida e se mostrar uma adaptação incrivelmente competente. My Brilliant Friend já foi renovada para uma segunda temporada que se baseará no segundo livro da Tetralogia Napolitana. Assistam e leiam, por favor, vale a pena. — Régis Regi

Better Call Saul (AMC) — Quarta Temporada

Quanto mais se aproxima de Breaking Bad, Better Call Saul traça um caminho intrigante e único conseguindo ficar ainda melhor por causa disso, mas também desenvolve suas características particulares, tornando-se independente e com personalidade própria.  Depois de uma excelente terceira temporada, a série entrega mais uma amostra de que é uma das melhores da atualidade, administrando um elenco excelente somando a uma equipe técnica tão bem alinhada desde o uso de montagem, direção e fotografia, além de impressionante execução de desenvolvimento de personagens e entrega narrativa.

Tendo como foco os conflitos do relacionamento de um Jimmy agora se tornando realmente Saul Goodman em sua transição lenta porém deliciosa (e agora total) e uma Kim (Bob Odenkirk e Rhea Seehorn, excelentes) tendo que lidar com isso dá uma outra cara pra série fazendo com que ambos criem uma dupla tão perfeita porque além de serem um casal com imensa química, os problemas de relacionamento de ambos e de personalidade chegam a um ponto fascinante de conflito e decadência moral, um dos pontos favoritos de Better Call Saul herdados da sua série–mãe. Se as ações do já falecido Chuck (Michael McKean) eram vitais para a transformação do protagonista, seu relacionamento com Kim é a outra face da mesma moeda. Ao mesmo tempo até Mike (Jonathan Banks), que já está no piloto–automático há tempos na série, finalmente tem sua chance de brilhar ao mostrar como atingirá a sua transição até chegar ao seu eu de Breaking Bad.

Better Call Saul encerra mais um ótimo ano sabendo o equilíbrio perfeito entre se aproximar e se diferenciar da sua série original ao utilizar o seu universo e características para também construir um estudo de personagem sobre a transição no que temos de pior, só que agora com elementos até muito mais sutis e identificáveis que dão um sabor a mais pra narrativa. — Diego Quaglia

Pose (FX) — Primeira Temporada

Ryan Murphy é um dos maiores produtores de conteúdo para a TV nesta década. Há acertos irrefutáveis (a primeira temporada de American Crime Story e FEUD) e há erros difíceis de defender (segunda temporada de ACS e mais da metade de American Horror Story). Um consenso na sua lista de produções é que a ideia inicial geralmente é boa, falta apenas saber se o plot consegue sobreviver mais de uma dezena de episódios. Se a longo prazo Pose manterá a qualidade, ainda é um mistério, porém seu primeiro ano é um grande presente em termos de storytelling e representatividade.

Pose abre espaço para atrizes trans (e de cor!) serem grande parte do elenco, algo inédito até o momento em obras audiovisuais. O co-criador, Steven Canals, é um gay latino, e as outras duas roteiristas são trans, Out Lady J (que já trabalhou no posto em Transparent) e Janet Mock — que também dirige três dos oito episódios da temporada. Por si só, esses fatores já seriam de uma conquista imensurável. Entretanto, a série vai além da mera representatividade em frente e atrás das câmaras. Sua trama consegue explorar temas importantíssimos como a AIDS/HIV e transfobia/homofobia, as relações interpessoais dos personagens, as dificuldades de vencer na vida sendo LGBTQ+ — especialmente na época em que se passa a trama –, criando no meio disso um vínculo emocional primoroso com os personagens, explorados com o devido respeito e nuances — não pense que os gays e trans aqui são tratados como ser super-heroicos e perfeitos, pois os roteiristas entendem que a representatividade se faz retratando que somos cheios tanto de virtudes quanto de defeito, e que nosso comportamento é reflexo de uma soma de fatores que ocorrem dentro de nossas vidas. As engrenagens giram em sincronia porque o elenco é excelente, desde Billy Porter até as atrizes trans MJ Rodriguez e Indya Moore. Além disso, a série conta com uma trilha sonora oitentista deliciosa e o mergulho na cultura dos ballrooms é fascinante. E não menos importante, a série prega que família de verdade é aquela que nos ama, nos acolhe e nos respeita sendo quem somos. Nos temos atuais, essa parece ser uma lição que precisa ser lembrada e dita mais vezes. — Rodrigo Ramos

Chernobyl (HBO)

Chernobyl talvez seja, sem exagero nenhum, o melhor retrato de uma tragédia natural e do papel danoso de um governo e da sociedade nele. É impressionante como a minissérie funciona tão bem construindo a atmosfera de uma espécie de apocalipse real e palpável. O que poderia ser um drama de época se transforma em uma série de terror sobre o horror que retrata e uma tese sobre as pessoas envolvidas por ela e os papeis falhos e tóxicos de governos. O diretor Jonah Renk constrói uma atmosfera de um mundo sombrio onde um monstro vai aparecer a qualquer momento. O mais assustador é que esse monstro é aquele ambiente e o horror que afeta aquelas pessoas. Não é apenas uma subversão do drama histórico, mas é também uma nova abordagem para o terror social.

Craig Mazin, roteirista, showrunner e criador da minissérie, transmite de forma visível toda a paixão que ele parece ter por esse projeto, o trabalho da sua vida até então. Ele consegue equilibrar o procedimento do governo de responder a uma crise, o estudo dos erros governamentais e humanos que levaram a essa crise, a tentativa de encobrimento e o descaso, a crise de consciência dos envolvidos, as explicações por trás disso tudo e os conflitos entre os envolvidos. Também divide-se entre mostrar os heróis soviéticos da narrativa e os efeitos malignos de um governo falho sem cair em obviedades de julgamento anticomunistas que muitas pessoas esperariam da série por ser uma produção norte–americana ou já a julgam superficialmente.

Chernobyl não é um retrato de como os russos comunistas são malvados e sim um retrato de como quaisquer governos podem ser falhos e destrutivos por estarem inseridos num sistema nocivo. Chernobyl é sobre a busca pela verdade. Brumadinho, Mariana, Hiroshima ou a postura do governo Bush após a passagem do Furacão Katrina mostram que horrores não são exclusividade de governos comunistas (e não podemos esquecer, por exemplo, que o governo cubano deu ajuda médica para inúmeras crianças afetadas por Chernobyl, sendo o único país a fazer isso e o fez isso de graça). Por isso é importante entender o que é Chernobyl: ela não é uma carta de ódio aos comunistas como alguns podem ver de forma equivocada. Não é o retrato da falha de uma ideologia, mas da falha criminosa de um governo que deve ser vista. A própria série é consciente da postura que os Estados Unidos teriam num caso desses e não demoniza ou estereotipa os seus personagens russos ou trata como pessoas sem profundidade. A série mostra, inclusive, que a União Soviética, um governo socialista, tinha muitas cientistas mulheres na época. A igualdade de gênero na ciência e medicina eram um dos pontos fortes do país na época. A personagem Ulana Khomyuk (Emily Watson) existe muito para representar todas essas mulheres além de outras médicas que aparecem em cenas com o passar dos episódios.

Os efeitos de tantas facetas dessa tragédia literalmente levam a série a cobrir diversos núcleos e ir variando o foco entre eles. Mesmo tendo o químico Valery Legasov (Jared Harris) como figura central, a série vai dando espaço para os funcionários do governo que devem responder pelo fato, os que tentam esconder o fato, aqueles que lutam para salvar o que podem dessa tragédia, aqueles que se envolvem diretamente nela e finalmente os que sofrem e são vítimas dela.

A série também oferece um elenco incrível cheio de personagens fascinantes com um Jared Harris genial encabeçando tudo, mas com excelentes atuações de Stellan Skarsgård, Emily Watson e Jessie Buckley. O fator de os atores falarem em inglês mesmo que os seus personagens sejam russos pode incomodar, mas é um detalhe que acaba não prejudicando a minissérie no todo porque ela toma uma decisão de utilizar a língua original dos seu elenco sem que seja imposto um sotaque russo falso. Chernobyl termina em uma sensação de horror ao traçar um estudo sobre o terror envolvendo uma tragédia, mas também de como as falhas e ações de um governo levaram a esse terror. Porém, também deixa claro que, em meio ao que existe de pior, também somos capazes de oferecer o nosso melhor em busca da verdade. — Diego Quaglia

When They See Us (Netflix)

When They See Us (Olhos Que Condenam, aqui no Brasil) é a obra-prima da carreira da diretora Ava DuVernay. Como ela vem dizendo em entrevistas sobre a minissérie, não era sua intenção se tornar a justiceira social em sua filmografia, mas agora abraça o rótulo. Este trabalho, dividido em quatro episódios, é altamente político e não tem como ser diferente. A história real dos cinco adolescentes negros que foram acusados por crimes que não cometeram e nenhuma prova foi apresentada que corroborasse com a condenação fora os depoimentos sob coerção do quinteto é de difícil digestão. O único crime da situação: eles eram garotos negros. Que o sistema como um todo é corrupto e injusto, é notório — ao menos para aqueles que estão dispostos a enxergar. Contudo, uma coisa é saber teoricamente, outra é acompanhar de perto o sofrimento daqueles injustiçados. DuVernay não tem qualquer receio de jogar pesado com a emoção, que é sua principal arma narrativa para envolver e, por que não?, conscientizar o espectador. Porém, para deixar sua mensagem, se faz necessário mostrar os excessos do sistema e o que os cinco protagonistas passaram.

Há o retrato cru dos abusos dos policiais, do judiciário, do sistema prisional, mas a minissérie vai além disso. Ela traz também os efeitos nefastos nos familiares dos condenados, a juventude abreviada daqueles jovens, o sofrimento indescritível dentro do cárcere, como algo dessa natureza influencia no psicológico das pessoas, e como os acusados injustamente precisam lidar com a vida real depois da saída da prisão, entre as dificuldades de se reconectar com os familiares e de conseguir encontrar oportunidades para trabalhar e sobreviver.

Cada episódio tem sua própria narrativa, mas juntos criam a união de uma única história. Seria fácil cair em vários clichês e soar prepotente, ou até mesmo sensacionalista, mas nas mãos competente de DuVernay When They See Us se transforma em uma obra excelente em sua totalidade, com um elenco que se entrega ao máximo. A obra é uma experiência televisiva dolorida, altamente emocional (alguém consegue passar a minissérie inteira sem chorar ao menos uma vez?) e que ressoa, infelizmente, com a nossa atualidade. — Rodrigo Ramos

The Good Fight (CBS All Access) — Terceira Temporada

The Good Fight se tornou uma série bem diferente da encomenda inicial e creio que sua sobrevivência depende da guinada. De mero procedural, se transformou em uma sátira política e social. Com um segundo ano impecável, a primeira produção da CBS All Access continua crescendo e se arriscando. Neste terceiro ano, Robert e Michelle King, os showrunners da série, tratam de temas relevantes como racismo (do preconceito puro até o estrutural), disparidade salarial, o movimento #MeToo, extremismos, os limites das mentiras, até onde vai a liberdade de expressão, censura (o episódio 8, em especial, é brilhante e ao mesmo tempo deprimente na metalinguagem com uma sequência censurada), e quando é aceitável bater em nazistas, entre outros. Como de costume, tudo é banhado com o ritmo caótico da série. E a loucura dos dias atuais simplesmente infecta a temporada.

Diane Lockhart está mais focada do que nunca, com sangue nos olhos, trocando sua aula de Aikido para arremesso de machados. Em sua nova era, mais otimista e agressiva, Diane participa de jantar beneficente de republicanos, ajuda até o marido Kurt a escrever um discurso para Trump; em paralelo, ela lidera um grupo de mulheres focadas em impedir que Trump vença as eleições de 2020. No meio disso, ainda há as questões de dentro da firma. Algo notável na temporada é como fica evidente o feminismo branco de Diane, em especial nos episódio 4 e 7, já que ela tem lutas diferentes de personagens como Lucca e Liz, que são mulheres de cor. É interessante como a série vem conseguindo tratar dessas questões raciais com tanto êxito, algo que os Kings não tiveram sucesso durante The Good Wife — possivelmente, a mudança na sala de roteiristas com mais pessoas negras tenha contribuído para isso.

Conduzindo a narrativa, a série vai inserindo novos elementos e arrisca-se de maneira que não fizera nos anos anteriores. Monólogos quebrando a quarta parede, personagens cantando, curtas musicais dentro dos episódios (nem sempre necessários, mas digamos que 70% deles contribuem de fato), Gary Carr (ator conhecido por Downton Abbey) interpretando uma versão de si mesmo, uma espécie de Taylor Swift (ou Anitta, trazendo pra nossa realidade brasileira) isentona politicamente, uma suposta Melania Trump, ASMR (sim!), além de Roland Blum, personagem over the top interpretado por Michael Sheen, que tira todos os demais personagens do elenco da zona de conforto justamente por trazer o caos para o ambiente, cujos valores e ações se alinham, infelizmente, com muita precisão a caricatura da direita republicana (e também, por que não?, brasileira).

A terceira temporada vai superando a vida real ao criar a sua própria realidade paralela, mas em diversos momentos torna-se difícil separar a verdade da ficção tamanho absurdo cotidiano que vivemos hoje. Seja por ausência de grandes dramas na atualidade para competir ou apenas pura competência, The Good Fight acaba se tornando a série mais completa do ar, unindo competência técnica, elenco totalmente comprometido com aquele universo, temas relevantes, difíceis e atuais (afinal, os casos da semana continuam sendo baseados em situações reais), comédia de primeira, diálogos e momentos icônicos, e, de certa forma, a liberdade de ser de um serviço de streaming o qual poucos se importam, fazendo exatamente aquilo que se deseja (ou, pelo menos, uns 97%). — Rodrigo Ramos

 

ELEIÇÃO DO PÚBLICO

Melhores Séries (Comédia)

#1 Fleabag (Amazon Prime Video/BBC)
#2 Barry (HBO)
#3 BoJack Horseman (Netflix)
#4 The Marvelous Mrs. Maisel (Amazon Prime Video)
#5 Superstore (NBC)

Melhores Séries (Drama)

#1 My Brilliant Friend (RAI/HBO)
#2 Chernobyl (HBO)
#3 When They See Us (Netflix)
#4 Better Call Saul (AMC)
#5 The Deuce (HBO)

 

O corpo de jurados citou, durante a eleição, 47 atores coadjuvantes, 41 atrizes coadjuvantes, 39 atores, 37 atrizes, 56 episódios, 38 séries de comédia e 35 séries de drama. Na lista final apareceram 23 séries ao todo: Fleabag (6 menções), The Good Fight (5), Barry (4), Better Call Saul (4), Chernobyl (3), When They See Us (3), Sharp Objects (3), Pose (3), The Marvelous Mrs. Maisel (2), The Act (2), Insecure (2), BoJack Horseman (2), The Haunting of Hill House (1), True Detective (1), Kidding (1), Escape at Dannemora (1), Killing Eve (1), Veep (1), GLOW (1), Better Things (1), Russian Doll (1), Sex Education (1) e My Brilliant Friend (1).

Fizeram parte do júri
Ana Bandeira, publicitária, mestre em Comunicação Social, colunista do site Ligado em Série.
Breno Costa, roteirista.
Caio Coletti, jornalista e colaborador do site UOL.
Carissa Vieira, roteirista, formada em Cinema e Audiovisual.
Dana Rodrigues, editora do site Diário de Seriador.
Diego Quaglia, cineasta, roteirista e crítico de cinema e audiovisual.
Diogo Pacheco, colaborador do Série Maníacos.
Fillipe Queiroz, estudante de Psicologia, aficionado em séries.
Flávio Augusto Pinto, jornalista de conteúdo.
Laudicéia Abreu, formada em Letras.
Leonardo Barreto, editor do Quarta Parede Pop.
Luiza Conde, roteirista.
Rafael Mattos, estudante de Jornalismo.
Régis Regi, bacharel em Cinema, roteirista, host do podcast Maratonistas.
Renan Santos, formado em Cinema, crítico e newsposter no site Cine Eterno.
Rodrigo Ramos, jornalista, editor do site Previamente, foi programador de cinema na Cineramabc Arthouse.
Zé Guilherme, farmacêutico, mestre em Fisiologia, já colaborou nos sites LoGGado e Cine Alerta.

Também colaborou
Mariana Ramos, roteirista, mestre em Cinema e Audiovisual, host do podcast Maratonistas.

Confira também as listas dos anos anteriores
Melhores da TV na Temporada 2017/2018
Melhores da TV na Temporada 2016/2017

Melhores da TV na Temporada 2015/2016
Melhores da TV na Temporada 2014/2015
Melhores da TV na Temporada 2013/2014
Melhores da TV na Temporada 2012/2013
Melhores da TV na Temporada 2011/2012
Melhores da TV na Temporada 2010/2011

Textos por Breno Costa, Caio Coletti, Carissa Vieira, Diego Quaglia, Luiza Conde, Mariana Ramos, Régis Regi, Rodrigo Ramos & Zé Guilherme

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