Lote 84 sedia a exposição EU, com entrada gratuita, neste domingo

Trabalho da artista Luluca Luciana será exibido a partir das 20h, em Balneário Camboriú.

O LOTE 84 recebe neste domingo (30), a partir das 20h, a exposição EU. A entrada é gratuita. O local fica na Rua Cruz e Souza, 84, em Balneário Camboriú.

Durante 18 dias, a artista Luluca Luciana esteve em residência artística na Bronze Residência, um project space de arte contemporânea autogerido em Porto Alegre. Dias de interlocuções, visitas de curadores convidados, pesquisa e descobertas marcaram a estadia da artista pela cidade e o pensamento que estaria circunscrito na mostra EU. No dia 16 de maio, às 19h, no estúdio aberto deste laboratório imersivo, objetos, uma instalação, fotografias, vídeos e sua trajetória em forma de ação são compartilhados com o público.

Natural de Pelotas, Luluca Luciana viveu grande parte da vida em Porto Alegre, onde começou a trabalhar com performance. Há dois anos vive e trabalha em Balneário Camboriú, no qual estabeleceu uma relação de intensa produção em performance, vídeo e mais recentemente objetos e instalação. Luluca também é integrante do Núcleo Corpóreo, coletivo de experimentação em dança e arte contemporânea.

Para a mostra EU pensamos numa espécie de costura transdisciplinar da trajetória da artista, que desse conta de mostrar as diversas fases da pesquisa que impulsiona sua carreira na cidade onde vive atualmente. Uma trajetória que marcasse essa transição numa espécie de morte, uma morte que dá conta em fazer algo novo brotar, algo latente em seu processo de arte&vida constante.

Três momentos são marcantes da mostra EU. O primeiro diz respeito a relação do seu corpo trans com as redes sociais, lugar onde Luluca divide seus trabalhos e processos sofrendo constantemente censuras das diretrizes dessas plataformas, onde a efemeridade performativa, vide seu primeiro perfil deletado @performaticaluluca, se faz presente até mesmo nesses procedimentos de castração, que culmina com a artista perdendo para a plataforma todo um portfólio de mais de dois anos de produção. Esse material produzido para as redes marca uma forma de fazer, pensar, reivindicar, assim como uma estética que parte de meios precários, máscaras e filtros de aplicativos como Instagram e Snapchat, mostrando a fragmentação do corpo, o dia a dia da artista e a reconstrução de um corpo desnormatizado. Corpo caos. Neste momento podemos ver que as relações de poder entre reprimir e castrar, também podem gerar códigos de mobilização e impulsionamento.

Um outro momento mostra a contaminação através dos laboratórios em dança, práticas do corpo, onde vivências tanto em estúdio quanto à céu aberto são experimentadas em grupo ou individualmente gerando alguns vestígios em objetos e peles. As peles que abrem para o dentro e revelam um vazio, um oco ou um corpo aberto. Corpo acaso. Uma via rebelde a qualquer forma de figuração, que resiste às codificações, mas que pode ser “escutada” ou “dançada”, inclusive pelo público. Corpo que pode ser também vivido como uma porta para a não-forma, para o incondicionado.

Por fim, o momento dos caleidoscópios, desenvolvidos em residência na Bronze, que vem como um fechamento estético e transconceitual, que através da relação do toque, o visitante com seu próprio corpo entra no universo primordial da artista que é a subversão de padrões de imagem, figura, gênero, a forma como nos olhamos e somos olhados. Corpo relacional. Onde o ver se experimenta pelo tautológico, ou seja pelo ato de tocar. Eu vejo a partir do momento em que olho pra dentro, já disse Merleau Ponty. O caleidoscópio é um convite para esse dentro infinito e vazio. Um vazio que releva a fome, a ânsia, do insaciável, uma fome que nos convida a ultrapassar normas, padrões, convenções e organismos.

Os materiais que refletem e repelem, são o nosso próprio espelho nos provocando a olhar através do próprio reflexo, onde o problema se descentraliza a partir da pergunta: EU? EU QUEM? O eu que reflete o nós ou daquilo que somos feitos por dentro ou ainda aquilo que nos atravessa.

A arte existe para que a verdade não nos destrua escreveu Nietzsche, no livro Assim Falou Zaratustra. Essa espécie de busca pela sua verdade e (in) certezas, e também uma espécie de autopreservação é uma das estratégias e reflexos onde a artista Luluca Luciana mergulha em seu processo. Quando perguntei a artista o que ela teria levado consigo da residência e ela me disse “Descobri algumas verdades sobre o meu processo, algumas certezas. Uma delas é que sou uma artista”. Luluca é uma artista da fome, essa fome Artaudiana que identifica os vazios, os ocos de sua criação famigerada, e os preenche, para sem medo deles os esvaziar novamente. Começando assim um novo mergulho no EU.

Por Andressa Cantergiani
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