Godzilla | Review

Quando o monstro é mais humano do que a própria humanidade

Godzilla

Por Rodrigo Ramos

Godzilla era um dos filmes mais aguardados do ano. Era difícil crer que um filme de monstro gigante atrairia tanto público como fez, batendo o recorde da maior abertura nas bilheterias de 2014 nos Estados Unidos até aqui. Era compreensível a ansiedade porque desde o anúncio do elenco, na divulgação do primeiro ao último pôster e os trailers que o filme nos chamou a atenção. A expectativa estava lá no alto, não tinha como ser diferente. Pela primeira vez, um filme de batalhas monstruosas em escala gigantesca finalmente poderia funcionar na telona – coisa que Círculo de Fogo e os últimos dois Transformers não conseguiram.

O grande desafio era conseguir construir uma narrativa que intercalasse o drama humano e a ação da destruição colossal entregue pelo gigante nipônico. A intenção inicial é justamente trabalhar esse conceito, equilibrando a emoção com a adrenalina. Inicialmente, mostra-se eficiente. É válida a referência com o filme original, de 1954, logo de cara, e a conexão que se faz com os eventos da bomba atômica – uma tentativa de destruir o monstro. Depois disso, somos apresentados ao casal estrelado por Bryan Cranston e Juliette Binoche, Joe e Sandra, que trabalham em uma usina nuclear no Japão. Depois de um desastre, Joe fica obcecado com o que houve. Para ele, não fora um desastre natural. Foi algo diferente, que o espectador já imagina o que é.

Quinze anos se passam em quinze minutos, aproximadamente, e o foco da trama vai para o filho do casal, Ford (Aaron Taylor-Johnson), tenente da Marinha estadunidense, que está voltando do combate para passar um pouco de tempo com a família, porém não demora muito para que seu pai cause problemas lá no Japão e o faça ir até o outro lado do globo para resgatá-lo. Neste meio tempo, as situações vão se desenrolando e a tensão para finalmente vermos o monstro do mar aumenta.

De fato, o Godzilla demora para aparecer. Porém, honestamente, isso não me incomoda. O diretor Gareth Edwards, neste ponto, acerta em cheio. Qual é a graça de mostrar o Gojira logo de cara? Nenhuma. Há uma construção de suspense tremenda, que cria uma expectativa compensada pela imponência causada quando o monstro aparece pela primeira vez. É o que o mestre Alfred Hitchcock fazia em seus longas, a construção perfeita do suspense, no sentido mais literal da palavra. A intenção não é dar medo, mas sim despertar a ansiedade no espectador, aquela agonia de “é agora ou não?”.

As cenas de ação lideradas por Godzilla são ótimas, tão boas quanto você poderia imaginar. As outras criaturas também são bacanas, mas o protagonista é o que chama a atenção e a batalha dele contra o casal de monstros é épica em proporção e realismo. É estranho falar em realidade diante de um filme desses, no entanto você consegue sentir o peso deles. Ninguém aqui é feito de isopor, então nenhum deles sai voando como se fosse uma pluma. Cada passo do Godzilla é um verdadeiro estrondo e dentro de uma sala de cinema com um sistema de som decente dá pra sentir o impacto, especialmente na hora do berro dele, que é de arrepiar.

O que considero o maior acerto do longa é conduzir a narrativa com essas criaturas gigantes sendo consideradas como forças da natureza. Godzilla, por exemplo, seria tão antigo quanto os dinossauros. O protagonista verdão, na verdade, não é um inimigo, ele faz parte desse biossistema. Tanto que, como é provado no decorrer do filme, ele se torna uma espécie de herói, pois é ele que estabelece o equilíbrio no planeta. Dentro disso, existe a parte dos humanos, que são arrogantes o suficiente para achar que podem controlar a natureza – e já fomos provados por a + b, diversas vezes, que não temos esse poder. É uma esperta jogada que complementa com méritos essa questão.

No entanto, o que incomoda de verdade no longa-metragem – e quase coloca a perder as virtudes da película – são as relações interpessoais. O protagonista, infelizmente, não é o brilhante Bryan Cranston. Ele é um coadjuvante de luxo que se sai bem quando está em tela. O problema é a escalação de Aaron Taylor-Johnson, que nunca vi tão mal em um papel. Seu personagem basicamente vai de lá pra cá e está inserido em tudo quanto é tipo de ação, do leme ao pontal. A coincidência de ele e sua família estarem sempre envolvidos nos momentos da destruição não é o que verdadeira mente incomoda (apesar de não agradar). O problema é a falta de relevância dele. Sim, nós sabemos que por ele ser do esquadrão anti-bombas ele é que irá ajudar a salvar o dia. Não precisa ser muito esperto pra sacar isso. Mas a inexpressividade de Taylor-Johnson é de se preocupar. Seu personagem é jogado pra lá e pra cá, e acaba sendo o menos interessante de toda a trama – o que é uma falha gravíssima, já que Cranston, Ken Watanabe (muito bem, por sinal, porque ele fala “Gojira”) e, especialmente, Binoche, não passam de coadjuvantes.

Ao lado de Taylor-Johnson, temos uma inútil esposa, interpretada por Elizabeth Olsen, que tudo o que faz é olhar para TV, se preocupar com o filho e o marido, além de estar de plantão no hospital (ela é enfermeira). Não dá pra saber se a orientação foi para o casal se fazer de perdido o tempo todo, mas o desempenho de ambos é muito fraco, com uma falta de emoção gigantesca, o que torna o lado humano da história totalmente dispensável – o que é uma pena, pois deveria ser igualmente relevante e excitante quanto é a parte com o Godzilla em si. Até Shia LaBeouf, nos três Transformers, é um protagonista mais bem desenvolvido e que cria empatia com o público em meio ao caos. É justamente quando se foca no protagonista que a película perde força. Já que ele aparece bem mais do que os monstros, então dá pra concluir que a experiência cinematográfica não é tão satisfatória quando se aguardava. No fim das contas, o mais humano de todos, quem diria, é o próprio monstro.

Godzilla
EUA | Japão, 2014 – 123 min
Ação | Ficção

Direção:
Gareth Edwards
Roteiro:
Max Borenstein
Elenco:
Aaron Taylor-Johnson, Ken Watanabe, Elizabeth Olsen, Juliette Binoche, Sally Hawkins, David Strathairn, Bryan Cranston

3 STARS

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