O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro | Review

A sequência (nada) espetacular do aracnídeo

The Amazing Spider-Man 2

Por Rodrigo Ramos

Particularmente, não sou contra reboots. Afinal, um dos meus favoritos envolve Batman e amo o que Christopher Nolan fez com o homem-morcego. Até porque Bruce Wayne precisava de um tratamento melhor. A trilogia Aranha dirigida por Sam Raimi pode ser comparada com a trilogia O Poderoso Chefão: um ótimo filme, seguido de uma sequência melhor ainda e um terceiro longa que fecha com menos da metade do brilhantismo dos demais. Mas o estúdio dono dos direitos achou que seria interessante, em menos de 10 anos do início do trio de longas produzidos sobre o herói, fazer um reboot.

A Sony, como não é boba nem nada, logo dispensou a equipe da trilogia original para atrair novatos e apostar numa nova franquia do aracnídeo. Pagou barato no elenco e no diretor para poder lucrar mais. Porém não dá pra dizer que pessoas incompetentes subiram à bordo. No primeiro O Espetacular Homem-Aranha há muitos erros, há mudanças fortes de personalidade em Peter Parker em relação ao trabalho de Raimi e também um novo recomeço para o personagem, mas com uma narrativa diferenciada em que o foco são os pais e não os tios, praticamente irrelevantes.

O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro parecia promissor de alguma forma, mas ainda havia o medo do que iriam fazer, afinal, com a franquia. Preocupou o fato de a Sony ter anunciado que será uma tetralogia, além de filmes solos de O Sexteto Sinistro e Venom. Será que dois longas sobre vilões se sustentam? Enfim, logo mais retomarei o assunto.

O que preocupava inicialmente nesta sequência era como seria conduzida a narrativa envolvendo os pais de Peter Parker (Andrew Garfield), que era uma das coisas que arrastavam a trama do antecessor, e como iriam ser trabalhados os três vilões anunciados para este segundo filme. O mistério dos pais de Peter dá a cara logo na abertura, mostrando que ela não foi esquecida. E boa parte da película se passa com a obsessão do protagonista em querer saber o que houve com seus genitores. Tal fissura em querer saber mais sobre eles acaba deixando, mais uma vez, o drama pessoal com a Tia May (Sally Field) de lado. Se no anterior o roteiro dava pouco foco na relação com a mãe de criação dele, em O Espetacular Homem-Aranha 2 o relacionamento deles não passa de superficial. A interação deles fica nas piadinhas quase o tempo todo. E não entenda mal, pois o humor até funciona, a questão é que a relação entre May e Peter sempre fora um dos elos mais fortes tanto dos quadrinhos como da trilogia de Raimi. O diretor Marc Webb, no entanto, parece não estar interessado em explorar os problemas dentro de casa do Homem-Aranha. Afinal, ele não está nem aí por estar ganhando pouco, pela tia estar se matando para pagar a faculdade dele, pelos sacrifícios que ela e o Tio Ben fizeram por ele, por ela ser totalmente deixada de lado por conta da fixação de Peter pelos pais. A verdade é que este Peter Parker é um ingrato e um egoísta. É lamentável que uma das relações mais bonitas dentro do mundo do Aranha seja jogada para escanteio, e quando há a tentativa de colocar um pouco de drama, a emoção não funciona. Não há o peso necessário na relação deles.

the amazing spider man 2 aunt may

A resolução da estória dos pais dele finalmente ganha um ponto final. Era o que todos nós já imaginávamos. Norman Osbourne (Chris Cooper) queria utilizar o experimento com aranhas para armas militares, porém o pai de Peter não permitiu e morreu por conta disso. Aparentemente a internet nos EUA é tão boa que mesmo após uns 15 anos um arquivo que foi enviado por download ainda pode ser baixado. Enfim, incomoda o fato de tudo parecer ser predestinado para que Peter seja um rapaz com superpoderes. Inclusive, com a capacidade de se curar, uma espécie de Wolverine – e nunca tinha visto ou lido isso antes no passado do Aranha em qualquer fase que fosse. Por conta disso é que entra na trama Harry Osbourne (Dane DeHaan), para tomar conta da empresa do pai. Ele tem uma doença genética, e acredita que somente com o sangue do Homem-Aranha ele poderá ser curado. Então, basicamente, esta é sua motivação: pegar o sangue do Aranha. Mas dentro do tempo limitado em cena com Peter, Dane DeHaan se sai bem. O garoto é talentoso, pena que seu papel acaba se tornando um pouco banal na película, tendo mais relevância para o final da trama.

Uma das piores coisas em O Espetacular Homem-Aranha 2 é seu vilão principal. Max Dillon (Jamie Foxx) é um funcionário da parte elétrica da Oscorp e é invisível aos olhos dos demais. Ele não tem amigos e é obcecado pelo super-herói. Um dia este o salva e então Max coloca na cabeça que ele realmente se importa com sua pessoa. Max fala sozinho, tem diálogos inteiros achando que o Aranha fala com ele. Creep. Até que Max sofre o acidente que o transforma em Electro. Logo ele encontra o Aranha e o chama de egoísta por ter seu rosto substituído nas telas da Times Square pelo o do aracnídeo. Ao perceber que ele não é seu amigo, o vilão resolve destruir o rapaz porque ficou chateado. Veja bem, a motivação de Electro é o fato de o protagonista não querer ser seu amigo. A construção de Electro, feita de uma forma cômica – ora voluntária e ora não – se assemelha muito com a de Charada, interpretado por Jim Carrey em Batman Eternamente, de Joel Schumacher. É cartunesco demais. E daí fica dúvida se Marc Webb quer que seu Homem-Aranha seja levado a sério ou não. Porque ele cria personagens ruins como esse, que se assemelham a um vilão de desenho, enquanto tenta, em outra via, criar drama em relação aos pais de Peter e a responsabilidade de se relacionar com Gwen Stacy (Emma Stone). Quanto a Rino (Paul Giammati) eu prefiro não comentar, porque ele é só mais um. Literalmente. E suas aparições são irrelevantes e as motivações inexistem.

Diferente de um Batman & Robin, por exemplo, os vilões não ocupam o mesmo tempo em cena na maior parte do tempo, então não há uma bagunça em tela. E uma relação que realmente funciona em tela é a entre Peter e Gwen. Namorados na vida real, Andrew Garfield e Emma Stone estão extremamente entrosados e eles se esforçam em seus papeis, disso não há dúvida. Gwen está mais doce e responsável do que antes, e Peter não está mais maduro e nem lá muito responsável (a única preocupação dele é em ser o Homem-Aranha, aparentemente), porém se encontra no equilíbrio entre bom humor, romantismo e até emoção – o que lhe é requerido em uma cena chave do longa. Marc Webb, afinal, é bom justamente nisso: nas relações interpessoais, como já provou em (500) Dias Com Ela. E por isso dirige muito bem o casal, que é facilmente a melhor coisa de todo o longa.

Em relação ao visual, nunca o uniforme do Aranha fora tão bonito. Seus movimentos nunca pareceram tão orgânicos como agora. Afinal, a tecnologia está cada vez mais avançada para que esse tipo de coisa fique ainda mais caprichada. As batalhas são todas muito bem dirigidas e a ação é realmente competente. Neste quesito, ponto para a produção. Porém, já vivemos muitos dias de cinema para saber que o visual não é o mais importante de uma produção.

Em quase duas horas e meia (sim) de duração, O Espetacular Homem-Aranha 2 mostra problemas em conectar suas subtramas, tendo dificuldades em conectar os plots e desenvolver com substância os vilões – um pior do que o outro. É sério, o Electro resolve se juntar com o Duende Verde porque este promete a ele que precisa dele e que será seu amigo (!!!).  É vergonhoso. E qual é o poder dele? Deixar a cidade sem energia elétrica. Grande coisa. No Brasil temos apagão quase toda semana e nem precisamos de um Electro pra isso. Quem diria que eu sentiria falta de Venon… A culpa talvez seja mesmo a ânsia de colocar todos os vilões possíveis do Sexteto Sinistro em cena de uma vez. Só não vejo a pressa, afinal serão mais duas continuações e mais um filme solo do grupo de vilões. Mas daí vem a questão: afinal de contas, para onde está caminhando a franquia? Ao final da sessão, é difícil visualizar o sentido de tudo isso e como irão desenvolver a narrativa daqui pra frente. Por exemplo, precisamos mesmo de um longa-metragem de vilões? Você quer pagar ingresso para ver Rino e Electro, mas sem Aranha?

O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro é um misto de bom com ruim. O novo tipo de Peter Parker maroto, engraçadão, irresponsável, sem o peso do mundo nas costas, hipster, descolado e egoísta até começa a convencer, e sua relação com Gwen ganha uma importância ainda maior (apesar da teia que se torna uma mãozinha e as visões desnecessárias com o pai dela), num entrosamento indiscutível. Porém, ainda há um vazio muito grande num contexto mais amplo dessa nova saga. Qual é o propósito desse reboot até aqui? Pra mim, O Espetacular Homem-Aranha 2 é tão vazio quanto o discurso de Gwen: muito falatório e não soma nada. Tão inútil quanto é a cena dos aviões prestes a colidir. Qual é a contribuição para a trama? Isso mesmo, nenhuma.

Apesar de ter um momento em específico que vai tocar qualquer um por conta da fidelidade com a HQ, o que falta de verdade para essa nova franquia Aranha são boas histórias, bons personagens e alma. Até agora, o que eu vi foi um estúdio em busca de ganhar dinheiro e pouco preocupado em de fato surpreender. Por isso é que a Marvel Studios está muitos anos luz à frente da Sony e que nem de longe esses dois filmes do (nada) Espetacular Homem-Aranha entram no alto nível estabelecido pelo estúdio. Tampouco consigo enxergar um futuro mais brilhante para esta atual saga dirigida por Webb.

The Amazing Spider-Man 2: Rise of Electro
EUA, 2014 – 142 min
Ação

Direção:
Marc Webb
Roteiro: 
Alex Kurtzman, Roberto Orci, Jeff Pinkne
Elenco:
Andrew Garfield, Emma Stone, Jamie Foxx, Dane DaHaan, Campbell Scott, Embeth Davidtz, Colm Feore, Paul Giamatti, Sally Field, Felicity Jones, B.J. Novak

2.5 STARS

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