Ninfomaníaca – Volume 2 | Review

Lars von Trier feminista ou fetichista? 

Nymphomaniac Vol 2

Incredulidade. Conhecendo Lars von Trier, desde o primeiro trailer de Ninfomaníaca senti que isso cheirava a golpe. Ele quer provar para o público que por trás do que mostra, de suas metáforas trabalhadas baseando-se em várias filosofias, verborragia religiosa e estudos, ele é mais intelectual do que realmente é. Parece-me uma tentativa de exibir o quão inteligente é para atestar que sua obra não é meramente pervertida, e sim profunda. Em algum nível, sim, Ninfomaníaca tem suas interpretações secundárias que vão além do sexo em si, porém não se vai tão fundo quanto poderia diante do assunto tratado.

A segunda parte chega um pouco mais perto de delinear de forma mais coesa a personagem Joe (Charlote Gainsbourg). Ela segue contando seu passado de perversão e luxúria para o acolhedor Seligman (Stellan Skarsgård). Felizmente, ele dá uma maneirada nas analogias. Não são tão forçadas quanto as relacionadas à pescaria, porém ele ainda insiste nelas volta e meia. A expressão de “eu não me importo” de Joe é exatamente a minha quando tal fato acontece.

nymphomaniac vol 2 01

Apesar de ter a mesma duração, Ninfomaníaca – Volume 2 tem dois capítulos a menos que o anterior – são três desta vez. Von Trier fazia quebras perceptíveis visualmente e em tom também. Nas três novas divisões isso não acontece. Ele mantém basicamente a mesma postura, não ousando esteticamente ou em modo narrativo. Em compensação, ele continua impactando com o caminho que a protagonista toma. Primeiramente, sua vagina adormece e não consegue mais se satisfazer. Por conta disso, o maridão, Jerôme (Shia LaBeouf), até a libera para transar com outras pessoas, mesmo que isso de certa forma o mate por dentro.

Mesmo sendo mãe, Joe não se mostra um exemplo. Longe disso. Ela foge de casa atrás do prazer que não sente mais com a fornicação. Ela parte para uma experiência de masoquismo, única forma que lhe rende satisfação. A doença é tão grave que ela prefere largar marido e filho para ser espancada. A pungência encontrada ali se sobpõe em relação ao gozo.

Mais do que nunca, Joe parece abraçar a sua condição. Em determinado ponto, sua chefe a encaminha para um rehab de ninfomaníacas. Ou melhor, de “viciadas em sexo”, termologia aceita no grupo. Ela tenta ficar sem, mas ao olhar-se no espelho percebe que não consegue ser igual às outras mulheres ali e simplesmente conforma-se com quem é, orgulhando-se até.

As situações sexuais aqui são menos carnais, talvez, e representam muito mais o desespero da busca por algo que nunca vai alcançar de verdade. Joe se submete a situações horrendas, que nem mesmo ela consegue justificar ou explicar. No meio disso, Seligman insere suas analogias filosóficas, históricas e intelectuais para tentar nos explicar tintim por tintim. Chato. Quase irritante. Insulta a inteligência. Seligman é um personagem que funciona como o cara dentro da sala de cinema que não cala a boca enquanto você assiste a um filme e faz os comentários mais redundantes e desnecessários possíveis nos piores momentos.

Em seu caminho, Joe acaba criando uma relação afetiva com P (Mia Goth), que acaba saindo totalmente errada. É uma mistura de relação entre filha e mãe, como também de amantes, da mesma forma como de mestre e aprendiz. Soa errado, como tudo o que Joe já fez. A jornada dela culmina quando P faz jus ao seu apelido (essa sacada só sabendo a pronúncia em inglês para entender).

Como um bom filme de von Trier, ele curte fazer as mulheres sofrerem. Novamente, o sexo é um de seus focos. E em todas as ocasiões em que o tema é abordado, ele faz disso algo sujo, nojento, algo repulsivo que a raça humana faz. Em Dogville e Dançando no Escuro ele trabalha com o estupro de suas protagonistas. Já em Anticristo ele faz o casal interpretado por Charlote Gainsbourg e Willem Dafoe sentir culpa por transar, porque o filho pequeno deles pulou da janela e morreu enquanto transavam – uma cena de Ninfomaníaca – Volume 2, aliás, remete a esse momento. Em Anticristo, inclusive, rola até mutilação genital.

Com Ninfomaníaca, von Trier vai mais longe do que nunca e expõe a figura feminina (elemento constante em suas obras) nas situações mais adversas possíveis tendo como ponto principal o sexo. Ao fim do longa-metragem, o diretor faz exatamente o que eu imaginei que ele iria fazer e é o que mais me incomoda e descredita a película. Em um dos últimos diálogos entre Joe e Seligman fica explícita a ideia de que o fato de ela ter feito todas as decisões que fez, como ter vários parceiros sexuais, experimentar tudo o que podia, ter largado filho e marido, ter ficado com uma garota que tem menos da metade de sua idade, todas essas coisas não foram vistas com bons olhos só porque ela é uma mulher. Coloca-se a dúvida em cheque: e se ela fosse um homem? A sociedade, como um todo, iria julgá-la?

Von Trier dá um jeito de meter o feminismo numa história que não é bem sobre isso. Ok, o roteiro é dele, então ele faz o que bem entende. A trajetória de Joe então é uma forma de provar que a mulher não tem a mesma liberdade sexual do que os homens na sociedade? Concordo com essa ideia. Um homem com várias é o bonzão, enquanto uma mulher com vários caras é rotulada de vadia. Porém, o papel de uma ninfomaníaca (poderia ser um homem) ainda assim seria doentio por si só, uma doença que foi abordada com mais seriedade e competência em Shame, filme em que Michael Fassbender é um viciado em sexo. Mesmo sendo do gênero masculino, ele é colocado como doente e não posto num pedestal pela sociedade e pelo expectador como sugere o diálogo entre Seligman e Joe. Logo, o argumento de von Trier cai por terra aqui.

Joe pede para que todos os seus buracos sejam preenchidos, porém von Trier não consegue fazer isso com a sua obra. A personagem é mais explorada e cria-se um perfil melhor dela, porém ainda existe um vazio emocional aqui. Intencional ou não, Ninfomaníaca, sejam os volumes separados ou em conjunto, preocupa-se bem mais em chocar pelo sexo e nos closes abaixo da cintura (pênis, anus e vaginas são os protagonistas) do que apostar na condição humana. É mais fetiche do que qualquer outra coisa. Um produto pseudo-intelectual, do jeito que von Trier adora – talvez o maior de todos.

Nymphomaniac – Volume 2
Dinamarca | Alemanha | França | Bélgica | Inglaterra, 2013 – 123 min
Drama

Direção:
Lars von Trier
Roteiro:
Lars von Trier
Elenco: 
Charlote Gainsbourg, Stellan Skarsgård, Stacy Martin, Shia LaBeouf, Jamie Bell, Mia Goth, Willem Dafoe, Michael Pass, Jean-Marc Barr, Ananya Berg, Christian Slater

2.5 STARS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.