A Mulher na Sociedade e na Cultura Pop

rosie-the-riveter-geraldine-doyleO dia 8 de março é marcado como o Dia Internacional das Mulheres. A data é lembrada desde o século passado (o primeiro Dia da Mulher aconteceu no dia 28 de fevereiro de 1909 nos EUA) é uma forma de relembrar as lutas sociais, políticas e econômicas das mulheres. Do início do século XX até os dias atuais, o que mudou? Em conversa com Valquíria Michela John, professora de Jornalismo da Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI, especialista em ficção seriada, comunicação e relação de gênero e representações sociais, ela falou sobre o cenário da mulher hoje. Dentre os tópicos levantados estão os preconceitos, as conquistas, a violência contra a mulher e o modo como a figura feminina é retratada em obras culturais.

As mulheres, hoje, já conseguiram conquistar direitos iguais? A mulher, diante do olhar da sociedade de um modo geral, da forma como ela é tratada, é igual ao homem?

VALQUÍRIA JOHN – Penso que foram vários direitos conquistados em várias partes do mundo. É claro que as questões de gênero são sociais, culturais e históricas, então há países que avançaram mais e outros que avançaram menos, mas de um modo geral, e pensando no caso específico de nosso pais, pode-se dizer que sim, há mais igualdade de gênero hoje do que há um século, por exemplo. Mas essas conquistas não se derem em todas as instâncias da vida. Eu diria que houve mais avanços na esfera pública, com conquistas importantes como o direito ao voto, à licença maternidade, às leis trabalhistas de uma forma mais ampla, embora todas as pesquisas indiquem que as mulheres ainda ganham menos que os homens ainda que ocupem os mesmos postos de trabalho, que em certas profissões elas ainda são vistas com desconfiança e que a maternidade, por exemplo, é muitas vezes um fator de seleção entre um candidato homem e uma mulher, como se ao homem também não coubesse responsabilidades sobre os filhos, associa-se mulher e maternidade com incompatibilidade de dedicação ao trabalho em muitos empregos ainda, apesar das conquistas. Mas creio que é no âmbito do que chamamos de vida doméstica ou privado que as mudanças menos ocorreram ou pelo menos têm ocorrido de forma muito mais lenta e difícil de avançar. Um exemplo? As atividades domésticas. Não é raro dizermos que muitas mulheres cumprem jornada tripla, ou seja, trabalham, cuidam dos filhos e ainda fazem sozinhas todos os afazeres domésticos. Ainda se enxerga esse ambiente como tipicamente feminino. Mês passado mesmo tivemos o caso do menino Alex, de 8 anos, no Rio de Janeiro, espancado até a morte pelo próprio pai porque segundo este “tinha um comportamento muito ‘afeminado'”. Entre esses comportamentos estava o fato de o menino gostar de lavar a louça. Então, como se vê, papeis atribuídos ao feminino são vistos como menores e incompatíveis com a “virilidade” masculina. Claro que este exemplo vai muito além dessa questão, mas é preciso entender que relações de gênero envolvem sempre questões de poder entre os sexos e que os papeis atribuídos geram limitações e imposições para homens e mulheres, mas historicamente os papeis atribuídos ao feminino foram considerados inferiores. Outros exemplos mais corriqueiros e vistos como banais apontam para a ainda lenta conquista de equidade de gênero nas relações cotidianas, como por exemplo a questão da vestimenta (o que deve uma mulher “correta” usar), a questão da quantidade de parceiros sexuais, o modo de se portar nas atividades sociais entre tantos outros são exemplos claros de que ser homem e ser mulher no mundo em que vivemos tem atributos significativamente diferentes em termos do que se entende por liberdade.

Recentemente foi feito um levantamento sobre como a Lei Maria da Penha influenciou no número de denúncias por abuso ou violência. Depois de quase 8 anos da lei, a violência contra a mulher permanece praticamente a mesma, com basicamente a mesma taxa de mortalidade (5,41 a cada 100 mil em 2001 para 5,43 a cada 100 mil em 2011, de acordo com dados do estudo “Violência contra a mulher: feminicídios no Brasil”, do IPEA). Por quais motivos a violência contra a mulher continua tão grande?

G1

Primeiro porque muitas pessoas ainda consideram que o que ocorre no ambiente doméstico se justifica e não deve haver “interferência” externa. O famoso dito popular “em briga de marido e mulher não se mete a colher” ainda é muito forte em nossas práticas culturais. Pra além disso temos problemas estruturais como a falta de um exercício policial mais preventivo e menos punitivo, mas estes são fatores complexos que exigem análise mais aprofundada. Acredito porém, que acima de tudo, os motivos estejam no que assinalei na questão anterior, a dificuldade de evoluir na equidade de gênero, nas questões mais cotidianas e assim entender que a mulher é vítima e ponto. Ela não “procurou”, não “pediu por por isso”, não “provocou”, não “mereceu a surra”. O caso da violência sexual é bem emblemático disso. Não é raro ouvirmos frase do tipo: “ah, mas ela procurou, veja a saia que usava, o decote da blusa”, “ah, mas tava sempre se oferecendo”. Ou seja, a roupa que a mulher usa no corpo que é dela e que ela tem direito de expor como quiser é justificativa para que um homem, que não sabe ouvir um não, possa usufruir dele à força? E o que é ainda mais triste, e também um sintoma do quanto é cultural a questão dos papeis de gênero, é que muitas mulheres pronunciam essas frases. Não veem a outra como vítima, não são solidárias. Julgam seus comportamentos a partir de um ideal profundamente machista e nem se questionam sobre isso. Um exemplo corriqueiro disso? Quando há infidelidade num relacionamento heterossexual, as mulheres são sempre as culpadas. A esposa é a culpada porque se o marido foi buscar fora é porque não tinha dentro de casa e a outra era a “vagabunda”, ou seja, o homem nunca tem culpa de nada, é quase uma visão de que isso é da “natureza dele”. Aliás, essa é outra frase muito comum e demonstra o quanto essa problemática está profundamente arraigada em nossas práticas culturais.

Na cultura pop, as mulheres vêm ganhando mais espaço. Bons exemplos de figuras femininas marcantes e tridimensionais são Katniss Everdeen da saga Jogos Vorazes e Blue Jasmine, interpretada por Cate Blanchett no filme de Woody Allen. Mas nem sempre isso acontece. No filme Robocop, de José Padilha, a esposa do policial que vira máquina é superficial e chorona, quando deveria desempenhar um papel bem mais forte já que ela é o ponto que traz o marido de volta à humanidade dele. Como estudiosa do ramo mulher na mídia, como em telenovelas, como você observa hoje as mulheres nas obras audiovisuais e até mesmo literárias? Elas são retratadas da maneira que deveriam ou ainda recaem para certos clichês e preconceitos?

Cena de Robocop, de José Padilha
Cena de Robocop, de José Padilha

Em primeiro lugar é preciso entender que um conteúdo midiático, sobretudo se ele for de ficção, nunca dará conta das complexidades do que é a vida vivida e também nunca podemos subestimar a capacidade das pessoas de serem críticas quanto aos conteúdos que consomem e que são os sujeitos que atribuem significados aos conteúdos Então às vezes até o que possamos considerar exemplos de ruptura sejam apreendidos de outra forma e o que consideramos como clichê em termos de construção pode ser lido de outra forma. Mas é claro que todo conteúdo trabalha com estereótipos, mesmo porque, como disse, não seria possível dar conta da complexidade. Alguns conteúdos e personagens conseguem ser, entretanto, mais complexos, mais próximos do que chamamos de “vida real”, então possivelmente gerem até maior empatia com o público. Penso então que nenhum deles estará livre disso, mesmo os que se propõem a serem complexos, diferentes, que buscam contestar valores estabelecidos podem simplesmente não conseguir gerar nenhum tipo de reação do público. Penso então que nesse cenário é importante que a produção audiovisual, literária, cultural de um modo mais amplo traga a possibilidade da diversidade, que não se prenda a modelos repetitivos mas que nos traga vários modelos de homens e mulheres. Que se possa ter o conto de fadas clássico, em que a princesa ainda espera ser salva pelo príncipe, mas que se ofereçam outros tipos de princesas, como Fiona ou Merida, entre tantas outras. Que o homem possa ser frágil ou valente e a mulher também, que não se atribuam identidades únicas. Ainda não vi o remake de Robocop, então não tenho como opinar sobre isso. Mas sou fã da versão original e até hoje acho bem emblemática a cena da delegacia lotada de homens e a presença de uma única mulher policial, a oficial Anne Lewis, vivida pela atriz Nancy Allen. É um cenário dos anos 80, hoje já temos mais mulheres nessa profissão, mas isso sempre me pareceu emblemático, ela não era a protagonista, mas tinha um papel importante e sua simples presença já carregava uma série de significados. Se a atual mulher fosse mais “ativa” na história como você diz, ainda assim ela seria a “mulher dele”. Pra mim, revolucionário mesmo, fugir do clichê seria o Robocop atual ser uma mulher. Eu pelo menos adoraria ver.

Valquíria Michela John possui graduação em Jornalismo pela Universidade do Vale do Itajaí (2000) e mestrado em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (2004). Doutoranda do Programa de Pós Graduação em Comunicação e Informação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atua como professora da Universidade do Vale do Itajaí nos cursos de Comunicação Social – Jornalismo e Relações Públicas. Tem experiência na área de Comunicação, com ênfase em Comunicação e Educação, Comunicação Popular e Comunicação e Saúde, atuando principalmente nos seguintes temas: estudos de recepção, ficção seriada, jornalismo especializado, Comunicação e relações de gênero e representações sociais. Participa do grupo de pesquisa Monitor de Mídia, membro da Rede Nacional de Observatórios de Imprensa (Renoi). Integrante do Obitel – Observatório Ibero Americano de Ficção Televisiva  (fonte: CNPq http://goo.gl/7YEbPW)

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