Ela | Review

O amor nos tempos da alta tecnologia

Her

por Lucas Paraizo

Em um futuro não tão distante, Theodore (Joaquin Phoenix) é um homem solitário que está passando por um divórcio e não lida muito bem com isso. Distante dos seus amigos, ele decide comprar o novo “OS1”, o primeiro sistema operacional totalmente inteligente já criado. O OS possui consciência, chama-se Samantha (voz de Scarlett Johansson) e é o companheiro perfeito para Theodore, que acaba se apaixonando por essa voz que o acompanha a todo momento e parece o entender como ninguém.

Premissa surreal? Parece um filme bizarro? Exagerado? Não, essa é a trama de uma das histórias de amor mais belas que já tive o prazer de assistir. Desde os geniais Quero Ser John Malkovich e Adaptação, Spike Jonze é conhecido por ser um dos diretores mais originais da nova geração, e em Ela o que vemos é o trabalho mais completo do diretor até hoje; o tipo de filme que ele parece ter nascido para fazer.

A questão é a seguinte: vivemos em uma sociedade tão rápida, tão engolida pela quantia de informações e tão conectada, que a aparente proximidade constante acaba por superficializar as relações. No futuro apresentado em Ela, as pessoas têm tanta dificuldade em expressar seus sentimentos que existem empresas especializadas nessa tarefa. Theodore abandona sua carreira como jornalista e passa a trabalhar escrevendo cartas encomendadas por outras pessoas.

Percebe-se o cuidado de Jonze até mesmo na utilização dos figurantes, pessoas que andam pelas ruas sempre encurvadas, com a cabeça baixa, de olho em seu telefone ou computador. Não há a necessidade de interação pessoal, afinal, quando o protagonista vai à um encontro, pode pegar todas as informações que precisa da pessoa pela internet. Não é nada difícil imaginar um futuro assim para a nossa sociedade, e nem que ele está muito longe.

No entanto, talvez o grande êxito de Ela é não se tornar uma distopia, muito longe disso. Jonze não julga e nem mostra esse futuro como algo necessariamente ruim. Seria fácil cair no discurso de que a tecnologia está acabando com as relações, mas Ela vai pelo caminho difícil e mostra uma transformação nas relações.

É impossível dizer que o sentimento entre Theodore e Samantha não é real, é até difícil ver a consciência de Samantha como algo artificial. Scarlett Johansson apresenta aqui uma das melhores atuações em voice-over que já presenciei, fazendo com que esqueçamos completamente que ela é um computador após algumas cenas. A sutileza do filme em tratar os relacionamentos é incrível; no auge do romance as cenas são dignas de trabalhos super sensíveis de diretores como Terrence Malick, por exemplo.

E se Scarlett dá um show utilizando sua voz, Joaquin Phoenix confirma aqui que é sim um dos atores mais talentosos de sua geração. Não só pela maestria na criação do personagem principal, fechado e com ar de perdedor – mas aquele perdedor que, lá no fundo, guardado em alguma memória, já foi muito feliz -, mas também pela qualidade que esbanja atuando sozinho em grande parte do filme. Phoenix divide a maior parte das cenas somente com a voz de Scarlett, então é a sua imagem que vemos o filme todo, e as duas horas no foco da câmera parecem ter o peso de uma pena nos ombros do ator.

O elenco ainda conta com dois outros belos destaques entre as coadjuvantes: Rooney Mara e Amy Adams. A última, aliás, que é responsável por dar ao filme o toque de esperança que Spike Jonze vê nessa sociadade tecnológica. Amy é a amiga de carne e osso de Theodore, e quando tudo parece dar errado na área digital, a história faz questão de levar um de encontro ao outro na busca de consolo. É a maneira do diretor de dizer “está tudo bem, você pode viver com a tecnologia, mas a vida real também estará aí para você sempre que precisar”.

No fim das contas, Ela é um filme extremamente esperançoso. Novamente revertendo expectativas que temos sobre o tema, enquanto tantos estudiosos decretam a falência da sociedade pelo uso excessivo da tecnologia. Aqui não, seja no encontro do amor verdadeiro, nos momentos de alegria pura e sincera, nos momentos de tristeza crua, na busca por redenção ou no simples – e grandioso – fato de fazer a diferença na vida de alguém, essa história entre homem e máquina nos enche o peito de cor e calor, muito longe da frieza das máquinas.

Essa relação viva e sutil entre pessoas e máquinas já estava na cabeça de Jonze há alguns anos, como podemos perceber facilmente no seu curta I’m Here, de 2010, que mostra o caso de amor e entrega total entre dois robôs. O diretor dá um passo certeiro à frente de outros cineastas que tentaram dar emoções a seres robóticos. Spike consegue tratar o tema com delicadeza, é cuidadoso e singelo, o que torna tudo mais real e bonito.

A fotografia viva e pulsante assinada por Hoyte Van Hoytema contribui imensamente para a sensação que está vinculada à experiência que é assistir a Ela. Em certos momentos a vida parece um sonho e o filme parece respirar como um único ser. Tudo se encaixa no resultado final da obra; direção, fotografia, atuação e trilha sonora: a precisão de todos os aspectos faz com que o filme seja vivo, assim como o computador de Theodore parece tão vivo quanto qualquer outra pessoa.

Também é impossível não citar a importância da trilha sonora assinada pela banda Arcade Fire e Karen O (vocalista do Yeah Yeah Yeahs). O instrumental criado é importantíssimo para o ritmo do filme e parece cair como uma luva nas cenas em que entra. Em uma das cenas mais bonitas do filme (e do ano), Samantha compõe uma música para ela e Theodore, com a explicação de que os dois não tinham nenhuma foto juntos, então aquela canção seria a fotografia deles e daquele momento da vida em que estavam juntos. A sequência tem um êxito enorme e cria uma cena incrivelmente bela e romântica, mesmo com o detalhe de só estarmos vendo uma parte do casal na tela.

Por fim, Ela consegue dar os sentimentos àquela sociedade retratada lá no início que não conseguia expressá-los. É uma história de amor cheia de vida, que, da mesma maneira como Samantha consegue fazer Theodore reaprender a viver, nos dá uma lição de vida após as horas que passamos juntos.

Her
EUA, 2013 – 126 min
Drama

Direção:
Spike Jonze
Roteiro:
Spike Jonze
Elenco:
Joaquin Phoenix, Scarlett Johansson, Amy Adams, Rooney Mara, Olivia Wilde, Chris Pratt

5 STARS

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