12 Anos de Escravidão | Review

Quanto vale a sua liberdade?

12 Years a Slave

Escravidão é um assunto que ninguém gosta de tocar, afinal é o que mancha a história de muitas nações, incluindo a nossa própria. Ainda hoje vemos exemplos de trabalho escravo no Brasil, para o nosso espanto. Mas é a realidade. Os Estados Unidos vêm trabalhando, bem de leve, com o tema. Nos últimos anos, foi bem light em Histórias Cruzadas, trouxe um pouco do horror misturado com western e humor negro de Taratino em Django Livre e lembrou-se da abolição em Lincoln, de Steven Spielberg. No entanto, até agora não havia tido um retrato cru e nu do passado que se quer esquecer.

12 Anos de Escravidão tem a importante missão de nos lembrar – principalmente os EUA – de que a era da escravidão foi um verdadeiro terror. Não dá para dizer que os negros eram tratados como animais, pois certamente cachorros tinham uma vida mais digna do que estes seres humanos com mais melanina na pele. Nada, nenhuma palavra, nenhuma ação, nenhuma bolsa família ou cota de faculdade será capaz de reparar os erros grotescos do passado. Por mais que se tente redimir, jamais será o suficiente para tal com atrocidades cometidas naqueles anos.

A narrativa conduzida por Steve McQueen traz como protagonista Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor), um homem livre que tem esposa e dois filhos. Ele é um músico e leva uma boa vida. Certo dia, recebe um convite de outros dois músicos para tocar e naquela cidade em que vai a trabalho acaba sendo confundindo com um escravo. De nada adianta ele alegar sua verdadeira identidade.

Como o título do longa-metragem assinala, acompanhamos os doze anos em que Solomon ficou retido como escravo, uma mercadoria de fácil troca. Ao longo dos anos, ele passou pelas mãos de Ford (Benedict Cumberbatch), um senhorio mais boa praça, dentro do possível, mas a maior parte do tempo de seu período de escravidão foi na posse de Edwin Epps (Michael Fassbender), o antagonista da fita, a verdadeira personificação do mal em carne e osso.

A película chama a atenção por chocar. Não há medições aqui. McQueen torna a violência algo explícito, deplorável, ultrajante. Na primeira cena em que Solomon apanha, McQueen não desvia a câmera e o expectador possivelmente irá desviar o olhar. A intenção dele é essa, nos machucar com o visual realista daquela época condenável. Essa ousada decisão de ser fiel aos acontecimentos, sem pegar leve, causa mal estar e desconforto, porém é o que faz de 12 Anos de Escravidão um longa-metragem tão importante para a história do cinema. Este é o primeiro retrato dessa natureza abominável do ser humano.

Solomon é um personagem que serve como narrador, protagonista e expectador. Sua experiência é o que rege a narrativa, mas ela vai além, utilizando a sua história para dar uma visão mais ampla da época. Ainda dentro de suas possibilidades, ele acaba fazendo parte de um quarteto sinistro que, além dele, contêm Edwin, sua esposa (Sarah Paulson) e a escrava Patsey (Lupita Nyong’o). A dinâmica entre os quatro funciona perfeitamente no desenvolvimento dos personagens. Não chega a ser um caso amoroso, mas as relações entre os quatro são diretas, perigosas e que causam danos para os escravos, especialmente para Patsey, que sofre do primeiro ao último minuto em cena. Solomon cresce com a experiência e cria um estômago mais forte para suportar tudo. No entanto, Patsey não consegue seguir o passo dele. Ela é frágil e sua fraqueza se torna mais evidente quando é perseguida pelo seu senhorio e ainda por cima torna-se alvo da esposa ciumenta. Os quatro fazem parte da cena mais pesada de ser assistida. É um requinte de crueldade. Na cena em questão é que 12 Anos de Escravidão mostra seu brilhantismo e brota diante de nossos olhos como um mal necessário para ser descoberto. É nesse momento que nos toma a mente o pensamento de que isso é a realidade, deixando a ficção de lado. É um espécime quase documental, só que muito bem encenado por um quarteto de atores fabuloso.

Chiwetel Ejiofor merece aplausos por conseguir ter uma performance tão visceral, desafiando seus limites como ator de forma bárbara. É um trabalho fenomenal por parte de todo o elenco, porém é em Ejiofor que o longa se sustenta. Ele é o pilar principal, aquele que segura toda a estrutura desta construção cinematográfica.

Da forma com que a trama é conduzida, é impossível não culminar em uma comoção enorme, sobrando lágrimas para todos os lados – dentro e fora da tela. É compreensível, vista a forma como estas pessoas foram tratadas. Os atores de Steve McQueen são tão responsáveis quanto ele por extrair essa emoção. Não só nos comove como também nos faz refletir. E filme que nos faz pensar depois da sessão, hoje, são poucos. No meio desta maré de sensações, 12 Anos de Escravidão mostra a importância da liberdade e como não há nada que coloque um preço nisso. Nossa vida, decisões, nossos rumos. Somos livres, mas tudo isso, um dia, não foi permitido para todos. Neste momento, a vida é mais bela do que outrora. Contudo, ainda temos muito o que melhorar como seres humanos. A escravidão como antigamente não existe mais, porém a sociedade continua com seus defeitos. Preconceitos, pré-julgamentos, injustiça, intolerância, homofobia, racismo. A batalha pela redenção da humanidade ainda está longe de acabar e 12 Anos de Escravidão nos mostra isso, direta ou indiretamente.

12 Years a Slave
EUA | Inglaterra, 2013 – 134 min
Drama

Direção:
Steve McQueen
Roteiro:
John Ridley, baseado no livro “12 Anos de Escravidão” de Solomon Northup
Elenco:
Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Benedict Cumberbatch, Paul Dano, Paul Giamatti, Lupita Nyong’o, Sarah Paulson, Brad Pitt, Alfre Woodard

5 STARS

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