Philomena | Review

As pessoas devem saber o que acontece nesse filme

Philomena

por André Fellipe

Philomena tem uma rima temática que resume muito bem a proposta da obra. Em determinado momento da última cena, a personagem título (Judi Dench) diz que a sua história deve ser contada para outras pessoas através de uma frase semelhante a do início do texto, uma aparente referência a um daqueles cartões que dizem que os acontecimentos da obra são baseados em fatos (presente aqui também como a primeira imagem do filme). Por mais simples que esse comentário seja, ele encapsula uma habilidade marcante que o roteiro e os elementos que o acompanham têm de não transformar a narrativa em uma aventura vazia cujo único objetivo é nos emocionar a qualquer custo.

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A proposta de Philomena, que conta com roteiro de Steve Coogan (que também é um dos protagonistas) e Jeff Pope, não é somente contar uma história de interesse humano, abrangendo um objetivo com tons mais sinceros. Stephen Frears dirige e oferece dentro do drama de uma mãe separada do filho por cinquenta anos que agora o procura um meio para abordar várias questões. Embora não seja extremamente complexo ao explorar temáticas como fé, ganância e perdão, é evidente que o filme não se contenta apenas em deixar um sentimento agridoce. Ao trazer sua protagonista encurralada pelo conservadorismo católico das freiras de um convento (não são todas elas que são postadas como antagonistas, obviamente, pois o filme consegue se distanciar de um maniqueísmo fácil ao exibir, por exemplo, Philomena sendo ajudada a driblar as regras), vemos a personagem de Judi Dench se submeter a toda pressão religiosa que a sacrifica por ter tido relações sexuais. Os flashbacks de sua juventude (que contam com Sophie Kennedy Clark, atriz que se encaixa no papel por ter uma figura associável com a de Judi Dench) utilizam bem o portão do convento como forma de elaborar essa prisão.

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Aliás, a inserção desses flashbacks é essencial para o funcionamento da obra. Valerio Bonelli é responsável por uma montagem que é suave o suficiente para que os saltos temporais não sejam intrusivos, o que se mostra como um elemento crucial quando percebemos que uma das poucas maneiras de se conectar com determinados personagens é através desse recurso (falar mais do que isso seria um spoiler que será evitado aqui). A fotografia Robbie Ryan é adequada ao trazer diferenciações marcantes, com duas atmosferas condizentes. A primeira é criada com cores mais pálidas que buscam ilustrar esse sentimento de aprisionamento do convento e que se aproveita do clima frio da Irlanda. A segunda busca nos introduzir nos EUA com uma acomodação mais viva, um clima condicente com a surpresa e admiração que Philomena tem por estar longe de casa.

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Stephen Frears está constantemente atirando planos abertos com o céu em uma posição de destaque. Além de nos inserir na paisagem belíssima presentes nas viagens dos protagonistas, os constantes debates sobre as ações de Deus e a sua existência têm o seu terreno preparado graças a isso. Existem outros momentos menos sutis também, como a breve chamada de atenção para a imagem de Cristo antes de um clímax bastante voltado para essa questão religiosa.

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Entretanto, o charme de Philomena reside na dupla de personagens que o protagoniza e seus intérpretes. Martin Sixsmith (Steve Coogan) é um jornalista político demitido recentemente que vê em Philomena uma chance de dar continuidade a sua carreira. O roteiro é competente ao classifica-lo como um ser arrogante para que o mesmo possa crescer enquanto divide momentos com a protagonista. Sua história de arrependimento é o acompanhamento perfeito por nos proporcionar diálogos que se incorporam a atmosfera do filme graças à facilidade que Coogan e Dench possuem ao conversarem de modo tão natural.

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Philomena Lee é uma figura simpática por ser um espelho do mediano fácil de ser reconhecido. Dench é magistral por não explorar explosões mais fortes e se manter nesse estágio intermediário ao ter em suas mãos uma pessoa que constantemente tenta agradar os outros de forma inocente ao mesmo tempo em que traz no seu olhar um fardo enorme. Humilde e com uma figura materna que é demonstrada em todas as suas ações, desde as repreensões até os conflitos que ela participa, a personagem é envolvida em uma dúvida plausível por cinco décadas de sua vida. Ela nunca recusa o catolicismo mesmo diante do que sofreu com o esquema de adoção de bebês das freiras, reconhecendo suas ações como uma ofensa aos dogmas que a moldaram como ser humano e lutando contra a área cinza em que a mesma acredita estar.

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Sua motivação é bem colocada e trabalhada de forma delicada por permitir que a própria personagem julgue suas ações, exibindo um processo de autodescoberta que se mantém constante durante toda a duração do filme. Por mais respeitosa que ela seja, não é possível detectar um instante sério no filme em que ela deixe sua crença de lado, até mesmo na cena mais importante, que demonstra uma catarse que não precisa subverter nenhum conhecimento que temos pelos personagens para fazer sentido. O roteiro chega até mesmo a trabalhar demais na figura de sua protagonista, o que faz com que as tentativas cômicas se mostrem levemente saturadas por essa insistência.

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Comovente e com capacidade de demonstrar tridimensionalidade com estratégias astutas, Philomena cria uma narrativa bem estruturada com dois personagens principais marcantes e atuações que correspondem com o que prometem, especialmente a espetacular Judi Dench. O resultado final é uma obra que atinge os pontos certos nos momentos de provocar reflexões sobre os temas propostos.

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Philomena
Inglaterra | EUA | França, 2013 – 98 min
Drama / Comédia

Direção:
Stephen Frears
Roteiro:
Steve Coogan, Jeff Pope, baseado no livro Philomena – Uma Mãe, Seu Filho e uma Busca que Durou Cinquenta Anos, de Martin Sixsmith
Elenco:
Judi Dench, Steve Coogan, Sophie Kennedy Clark, Mare Winningham, Barbara Jefford, Ruth McCabe, Anna Maxwell Martin

4.5 STARS

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