Trapaça | Review [2]

Justificar seus exageros através da isenção de seriedade não funciona tão bem quanto deveria em Trapaça

American Hustle poster

por André Fellipe

Trapaça pode ser visto como um filme ambicioso mesmo pautando-se em lógicas simples para contar sua história. Elaborar um quarteto de personagens com personalidades tão marcantes e entregar para cada um deles momentos que correspondam ao que eles prometem é uma marca de filme dirigido David O. Russell. Entretanto, o que se observa é uma inconsistência dessas mesmas pessoas que têm a responsabilidade de corresponder à fantástica atmosfera ilustrada na obra, o elemento mais precioso do filme, recheado com figurinos e penteados que encapsulam o desfecho da década de 70 e coincidem perfeitamente com o tom cômico que o filme adota.

trapaça 09

E se esse detalhe é positivo até demais no instante de observamos a qualidade do filme, vemos como o roteiro não acompanha a grandiosidade emitida pela produção ao insistir em colocar a carroça na frente dos bois em momentos cruciais da narrativa. Podemos descontar inúmeros dos exageros colocados aqui pelo simples fato de que a própria comédia revela que não se levará a sério no seu primeiro contato com o público, mas é perceptível como o acúmulo dessas ocasiões faz uma pressão que passa a ser insuportável no ato final. Além de não oferecer nenhum momento particularmente impactante, a narrativa se demonstra preguiçosa demais ao elaborar o seu clímax se baseando em uma intriga causada pelo clichê de colocar uma pessoa que não deveria escutar determinada conversa justamente na posição de escutá-la. Além disso, Trapaça possui diálogos incômodos que seguem a mesma lógica, como quando o personagem de Bradley Cooper tenta convencer o de Christian Bale a se juntar a sua operação utilizando de hipérboles que não são justificadas pelas ações do segundo (e que não conseguem soar como sarcasmo, uma arma que a comédia erroneamente abandona para dar espaço para gritarias geradas por conflitos artificiosos).

trapaça 11

A dupla de protagonista encabeçada pelo supracitado Bale e a incrível Amy Adams é o que faz com que Trapaça acerte os ponteiros o suficiente para que a narrativa possua um mínimo de sentido. O relacionamento da dupla é o alicerce que faz com que o roteiro não se perca em suas caricaturas. Com eles, não caímos nas armadilhas dos estereótipos porque eles compõem o único canal por onde o filme consegue ser sincero. São criaturas com um semblante sofrido que se encontram encurralados pelo contexto e criam um elo maior conosco por utilizarem de seus instantes ao máximo, com o uso de narrações em off que não soam expositivas quando eles têm a palavra. Os dois conseguem transmitir suas dificuldades e se colocam como o componente essencial da nossa torcida.

trapaça 12

Bale se encontra em um eterno processo de exaustão ao longo da narrativa, se deteriorando a cada momento enquanto monta o seu esquema de sobrevivência. Adams mostra-se mais radical ao distinguir a mulher esperançosa que se abusava do prazer de enganar outras pessoas em prol dos seus benefícios e a jovem destruída por um comportamento vicioso que a retira do mundo real. A diferença de sua personagem em certas cenas chega a ser dolorosa.

trapaça 10

Esses dois personagens especificamente demonstram uma mensagem sutil de Trapaça que me faz questionar as razões que levaram o roteiro a envolver tantos outros elementos na narrativa: o quanto o ser humano necessita de alguém para se importar para não sucumbir aos seus problemas. Irving (Bale) é capaz de entender que trabalhar para o FBI é a sua única oportunidade de auxiliar as pessoas ao seu redor, o que justifica seu tom de autodestruição de caráter mais progressivo, o que o ator ilustra com uma obediência excelente, instigado por uma área cinza em que seu personagem se encontra ao conhecer Carmine Polito (Jeremy Renner), uma das melhores dinâmicas do filme. Sydney (Adams) não tem o mesmo “privilégio”, movendo-se em um piloto automático completo de decisões terríveis no filme.

trapaça 15

­­Porém, Trapaça tem uma dificuldade de foco que mina esses momentos de força dramática superior para dar espaço a diversas outras adições desnecessárias. Uma prova de como o filme constrói mal as suas prioridades é o seu desfecho apressado que coloca o destino dos personagens em uma montagem final sem nenhum efeito especial além de cumprir uma obrigação narrativa. Mesmo mostrando-se competente durante a maior parte do filme, David O. Russell desliza por valorizar demais certos aspectos, como o close aleatório nos rostos de Bale e De Niro no desfecho das negociações, incitando um confronto que não chega a ser construído de forma veemente. O que não chega a prejudicar a obra quando observamos sequências excelentes como a do confronto entre DiMaso (Cooper) e o seu superior, interpretado por um dos melhores comediantes da atualidade, Louis C.K., que conta com uma execução primorosa ao desmembrar as ações do conflito com uma ironia que vai lentamente atraindo o público a risada.

trapaça 14

O personagem de Bradley Cooper, na realidade, é aquele que tem os momentos mais escassos ao longo da narrativa, tentando demonstrar uma tridimensionalidade que não mescla tão bem com o resto. Irving e Sydney são os enigmáticos vigaristas apaixonados, Rosalyn (Jennifer Lawrence) é a descontrolada mulher de Irving e DiMaso passa de bom moço em busca de justiça para um antagonista focado somente em sua carreira… o que poderia compor um quarteto excepcional abre espaço para um exagero que falha ao não conseguir ser engraçado com berros sem sentido (com lógicas exceções, como a do parágrafo anterior) e se mostrar desapegado demais, beirando um improviso que fica longe de se destacar, resultando em um antagonista sem muita dificuldades de ser derrubado. Enquanto isso, Rosalyn não se afasta muito daquilo que esperamos da caricatura criada ao seu redor, o que não se mostra como um problema na maior parte do tempo por ser o contraponto que Irving necessita para que ele se mantenha no limite vital para que seu personagem funcione. Mesmo não sendo brilhante, Lawrence traz uma composição interessante para ela, colocando o seu jeito atrapalhado conhecido por todos como um combustível para que suas idiotices cheguem a divertir quando não são usadas como uma engrenagem narrativa como no caso do telefone.

trapaça 13

Abraçado universalmente pela Academia e com a autoridade de ter dez indicações na premiação de cinema mais conhecida do mundo, Trapaça tem estilo e uma trilha sonora impecável para guiar a busca dos protagonistas pela sua eterna aventura por sobrevivência. Pena que o filme não se contenta com isso e insiste em jogar peças demais em seu quebra-cabeça.

trapaça 16

American Hustle
EUA, 2013 – 138 min
Comédia /Policial

Direção:
David O. Russell
Roteiro:
Eric Warren Singer, David O. Russell
Elenco:
Christian Bale, Amy Adams, Bradley Cooper, Jeremy Reener, Jennifer Lawrence, Louie C.K., Jack Huston, Michael Peña, Robert DeNiro

3 STARS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.