House of Cards – Segunda Temporada | Review

A série entra para o hall dos melhores da TV em uma temporada inteligente, deliciosamente perigosa e soturna

House of Cards season 2

Não faz nem um ano que sou jornalista formado, mas no pouco tempo de trabalho em um jornal impresso já me deparei com algumas situações de corrupção em minha cidade, assim como má administração e jogos de interesse. Se em uma cidade com menos de 100 mil habitantes a situação já se apresenta desta maneira, torna-se impossível ter noção da magnitude da corrupção ativa e passiva que este país é submetido. Em uma conversa com uma colega de profissão, ela me disse se House of Cards fosse uma série sobre as falcatruas dos políticos brasileiros, certamente ela jamais teria fim.

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A primeira série da Netflix é a prova de que a TV não tem mais barreiras e, pressuponho, que dentro de alguns anos já não saberemos mais como diferenciar o que é feito para a internet e o que é feito diretamente pra televisão. Qual será a denominação? Não faço ideia. O fato é que as premiações abriram os braços para os programas feitos diretamente para a internet, como é o caso de Orange is the New Black e House of Cards, sendo este vencedor de três prêmios Emmy (incluindo melhor direção) e um Globo de Ouro de melhor atriz em drama.

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House of Cards é uma série que trata da política dentro do Congresso dos EUA e da Casa Branca. O protagonista, Francis Underwood (Kevin Spacey), é um congressita e está numa escalada ao poder, juntamente com sua esposa Claire (Robin Wright). Juntos, eles são capazes de todo tipo de mentira, traição, tramoia, golpe. É um casal extremamente unido e devotos, mesmo que haja uma puladinha de cerca aqui ou ali. O importante é que eles são sinceros um com o outro e são objetivos, sem espaço para ciúmes e picuinhas desnecessárias. O foco deles é conquistar o poder.

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Na busca por vingança daqueles que o traíram, Francis tornou-se o secretário do estado para, então, tornar-se o vice-presidente dos EUA. Ele está a três portas de distância do cargo mais poderoso do mundo. Por ter chegado até onde está, outros certamente não ficam felizes por tê-lo ali. E Francis também não mede esforços para criar inimizades. A verdade é que ele ainda busca vingar-se daqueles que lhe deram as costas, além de garantir que ele exerce muito mais influência do que qualquer outro vice-presidente na história. Obstinado, ele está mais implacável do que nunca, mostrando que está disposto a machucar, enganar, usar, até mesmo matar.

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Um dos charmes da série é trazer consigo um Kevin Spacey inspirado, em um papel que lhe cabe tão bem quanto uma luva. Torna-se uma experiência única vê-lo colocando em prática seus planos para conseguir o que quer, juntamente com o seu comentário sincero, ácido, até mesmo desprezível, direcionado ao expectador. É aí que vemos a cara de pau de um político. Mas é assim que funciona. Tudo em prol do benefício próprio.

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Os personagens são diversos e a narrativa montada por Beau Willimon consegue dar conta de explorar devidamente cada um dos envolvidos direta ou indiretamente nos esquemas de Francis. O retrato político mostra-se fiel a tal ponto que não há como idealizar esta ficção na nossa realidade. É tudo na base da troca. Eu te ofereço isso e você me oferece aquilo – enquanto, na realidade, o que se quer é apenas ganhar e não retribuir. Fica claro que nunca ou raramente uma decisão do governo é baseada na vontade popular, e sim no que tal decisão irá trazer de retorno para os políticos envolvidos. A condução da trama nos propõe a refletir sobre o cenário político e como o sistema é inescrupuloso em todos os níveis de administração. Neste caso, o mais inocente de todos é o próprio presidente, que é o que mais sofre na guerra de egos de Francis e Raymond Tusk (Gerald McRaney), braço direito do administrador da nação.

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No meio da trama política, ainda há espaço para adicionar o tema da quebra de informações por meio de hackers – nada mais atual neste tempo em que os EUA sofrem com a liberdade de informação e que viu nos últimos meses o caso Snowden ganhar as manchetes de todos os jornais mundo afora. Além disso, o jornalismo é outra peça fundamental aqui – afinal, imprensa e política estão entrelaçados, para o bem e para o mal. Vale notar como a série retrata os meios de comunicação e como o exercício deles é de extrema importância. Abordam-se temas como liberdade de imprensa, conspiração, debates e até mesmo fofocas.

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O segundo ano de House of Cards mostra evolução em relação a temporada anterior. As quebras de ritmo que existiam na primeira não existem aqui. Assistir aos 13 episódios desta temporada, praticamente um atrás do outro (levei uma sexta e um sábado para assisti-la por completo), aconteceu naturalmente. A conexão entre um episódio e o outro faz ainda mais sentido quando assistidos em sequência, sem perder o clima e nem quebrar o ritmo.

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O desfecho mostra como a estória é bem fechadinha, calculada precisamente. Aliás, o que não é realizado com precisão cirúrgica aqui? Robin Wright é um exemplo dessa meticulosidade em sua atuação, uma das maravilhas dessa temporada. Inteligente, deliciosamente perigosa e soturna, House of Cards, definitivamente, entra para o hall de grandes séries da TV.

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House of Cards: Season 2
EUA, 2014 – 13 episódios
Drama

Criado por:
Beau Willimon, baseado nos livros de Micheal Dobbs e na minissérie de Andrew Davies
Elenco:
Kevin Spacey, Robin Wright, Michael Kelly, Sakina Jaffrey, Mahershala Ali, Michell Gill, Gerald McRaney, Molly Parker, Nathan Darrow, Kate Mara, Jayne Atkinson, Joanna Going, Jimmi Simpson, Derek Cecil, Rachel Brosnahan, Mozhan Marno, Libby Woodbridge, Elizabeth Norment, Terry Chen, Reed Birney, Kevin Kilner, Benito Martinez, Michael Park, Jeremy Holm

4.5 STARS

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