Trapaça | Review

O maior golpe que Hollywood já sofreu – não caia nele também

American Hustle

por Rodrigo Ramos

David O. Russell. Esse é o nome do momento em Hollywood. Ao menos, é o nome favorito da Academia nos últimos anos. O Vencedor levou dois prêmios em 2011. Em 2013, O Lado Bom da Vida levou só o prêmio de melhor atriz, mas entrou pra história do Oscar por ser o primeiro filme desde 1992 (na época, O Silêncio dos Inocentes) de receber indicações nas principais categorias (melhor filme, direção, roteiro, ator e atriz – além de atriz e ator coadjuvantes). Neste ano, ele emplacou novamente o feito do “big five”, agora com Trapaça. Na história da premiação, somente três diretores conseguiram tal feito, além de Russell: Mike Nichols (A Primeira Noite de Um Homem e Quem Tem Medo de Virginia Wolf?), Elia Kazan (A Luz é Para Todos e Uma Rua Chamada Pecado) e Billy Wilder (Crepúsculo dos Deuses e Se Meu Apartamento Falasse).

Christian Bale;Amy Adams;Bradley Cooper

Por isso que Trapaça (American Hustle) chega com toda força na disputa pelo Oscar e, junto com Gravidade, possui o maior número de indicações – 10 no total.  Confesso que gosto do cinema de Russell, apesar de não achar que está entre os melhores diretores da atualidade nos Estados Unidos. Um fato é inegável: ele extrai o melhor de seus atores, que se entregam em seus papéis. Seus atores parecem à vontade dentro dos personagens e isso faz com que sua filmografia seja reconhecida.

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Trapaça traz como protagonistas Irving (Christian Bale) e Sydney (Amy Adams), dois trambiqueiros que tiram dinheiro de gente que precisa de dinheiro. Não fica muito claro o que eles fazem, mas como o próprio Russell já afirmou, a história não é seu foco, e sim seus personagens. Talvez essa seja a sua desculpa para ter feito o longa-metragem que fez. Enfim. Eles são obrigados por um agente do FBI, Richie DiMaso (Bradley Cooper), a cooperar e conseguir se envolver na máfia, fazendo com que eles comprometam o político Carmine Polito (Jeremy Renner) e quem mais vier na roda.

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Nunca fica exatamente claro o que está acontecendo em tela. Não pense que Russell cria uma trama mirabolante ou algo do gênero. Não. Parece que ele nem se esforça em tentar desenvolver algo que nos prenda ou que faça sentido. “Eu me preocupo com os personagens”. Essa desculpa é fajuta, apenas um atestado de que ele realmente não sabe o que fazer com essa estória. Ele se arrisca a entrar num gênero – o de máfia – que não é sua área de especialidade e falha ao tentar conduzir uma narrativa que nada mais é do que superficial.

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Dinheiro. Drogas. Glamour. Sensualidade. Corrupção. Quase parece uma trama de um filme de Martin Scorsese. Muitos apontaram essa associação, de que Russell tenta de alguma forma copiar o mestre do cinema.  De fato, tenta. Pena que não chega nem aos pés. Russell precisa de muita farinha láctea e nesquik para chegar lá. Primeiro porque ele não tem a capacidade de escrever um roteiro afiado como os dos longas de Scorsese. Segundo porque ele não é corajoso o suficiente para ousar com palavrões, violência, sexo e humor negro como Scorsese é capaz. Trapaça é um filme de máfia light, para diabéticos. Terceiro porque Russell não consegue manter o ritmo de seu trabalho como, por exemplo, O Lobo de Wall Street consegue. Enquanto o longa mais recente de Scorsese têm três horas e poderia ter mais uma hora que nem iríamos reclamar de tão ágil, Trapaça tropeça em sua condução, tornando-se enfadonho na sua primeira hora, fazendo com o que expectador olhe pro relógio contando os minutos para o fim da sessão. Sem contar na edição final, que nos últimos minutos corre para entregar o desfecho de forma destrambelhada e apressada. 

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Com um ritmo cansativo e uma narrativa não só desinteressante como também mal explorada, o elenco peca quase que em sua totalidade. Começamos pelo figurino e hairstyle exagerados, que trazem ao longa uma sensação de sátira. Mas afinal é uma sátira do quê? Russell não sabe, mas está tirando sarro de si próprio. Tentando engolir este fator, seguimos adiante. Ele reúne aqui ótimos atores, todos no ápice de suas respectivas carreiras. E, incrivelmente, ele consegue conduzi-los de uma forma tão over the top que fica complicado se relacionar com os personagens. Bradley Cooper e Amy Adams, honestamente, estão em dois dos seus piores desempenhos profissionais. Cooper é o mais exagerado de todos e não dá para leva-lo a sério de alguma maneira.  Salvam a jogada Christian Bale, que de um jeito muito errado está divertido em cena, e Jennifer Lawrence.

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A estrela de Jogos Vorazes até merece um parágrafo só pra ela. Aqui ela interpreta Rosalyn, esposa do personagem de Bale, que é deixada de lado pelo maridão e é quem cuida do filho do casal. Ela é ligeiramente desequilibrada e justamente por ser um pouco perturbada é que ela se destaca. Apesar de o longa ser todo muito acima do tom, é Lawrence que encontra o ponto de equilíbrio entre a seriedade, o exagero, o humor e a sensualidade. Ela aparece pouco, mas todas as suas cenas são memoráveis – praticamente as únicas que valem a pena serem lembradas do longa inteiro.

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A maior trapaça, o maior trambique, golpe feito aqui é o fato de Russell ter feito um filme que não é metade do que se propõe a ser – e o pior é que ele conseguiu enganar muita gente pelo caminho. Não sei se endeusaram esta fita porque um falou e todos começaram a imitar. O site Daily Beast explica melhor esse fenômeno de superestimar o longa neste link. Mas o fato é que American Hustle falha em quase todas as suas abordagens e não tem sucesso nem mesmo na explicação do diretor de que ele se foca em seus personagens. Honestamente, Russell não se foca em nada e por isso Trapaça é uma película que não se conecta com ninguém e em alguns meses depois do Oscar será esquecido por todos.

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American Hustle
EUA, 2013 – 138 min
Comédia /Policial

Direção:
David O. Russell
Roteiro:
Eric Warren Singer, David O. Russell
Elenco:
Christian Bale, Amy Adams, Bradley Cooper, Jeremy Reener, Jennifer Lawrence, Louie C.K., Jack Huston, Michael Peña, Robert DeNiro

2.5 STARS

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