Ninfomaníaca – Volume 1 | Review

Cinema de arte ou pornochanchada moderno? 

Nymphomaniac Volume 1

Ninfomaníaca nasceu para causar polêmica. Lars von Trier sabe como chamar atenção e o seu mais recente longa-metragem permite que ele volte a ser o centro das discussões de cinéfilos. Aparentemente, ele queria chocar os espectadores. Qual o propósito mesmo? Ao que tudo indica, é só atingir por nenhum motivo aparente, só pelo prazer de ter os olhos em cima dele – ou é tudo um marketing caprichado para que seu filme seja visto. Afinal, quem não teve aquela curiosidade de conferir qual é a de Ninfomaníaca?

Von Trier explora constantemente as mulheres em suas obras e as coloca em situações emocionais – e eventualmente físicas – extremas. Resumindo: ele faz o sexo feminino sofrer. Em Ninfomaníaca – Volume 1, o diretor dinamarquês explora a odisseia sexual ao longo dos anos de Joe (Charlotte Gainsbourg). Ela sofre uma queda e um senhor (Stellan Skarsgård) que mora ali por perto do acidente a acolhe. Ali, ela começa o autoflagelo – ou confessa seus pecados na esperança de ser redimida ao conta-los para o estranho que lhe serve chá com leite e curte pescaria.

A estória se destrincha em capítulos. Cada um deles possui um tema e um modo narrativo. Lars von Trier tece aquela linha tênue entre a genialidade e a banalidade. No primeiro capítulo ele consegue a cada cinco minutos fazer conexão entre pescaria e as descobertas e peripécias sexuais de Joe. A cada aventura dela, decisão ou jogada, o personagem de Skarsgård faz uma analogia com a pesca, os tipos de isca e os movimentos com a vara. Pode parecer incrivelmente inteligente, mas soa como piada involuntária e mostra que o diretor pode muito bem ser a maior farsa que o cinema já viu, utilizando suas referências de modo que jamais pensaríamos em utilizar, e por isso ele tenta nos passar a impressão de que é um intelectual refinado. Tudo balela – é, sou tão brilhante que me sinto à vontade de usar a palavra balela.

Se Abdel Kechiche chocou plateias com o sexo lésbico explícito em Azul é a Cor Mais Quente, Von Trier passa à frente. A jovem Joe (Stacy Martin) não tem pudor algum. Como uma ninfomaníaca, ela não tem nojo, padrões, preconceitos, restrições, nada disso. Se há um lugar (pode ser em qualquer um) e um pênis, é só chegar na garota – ou melhor, geralmente é ela que chega. Logo, Von Trier não mede esforços para mostrar que o pornô também pode ser arte – ou algo parecido. Sexo oral em close – masculino e feminino; disputa para ver quem transa com mais parceiros; nudez completa, com sexo explícito sem qualquer restrição. Se você vai assistir para ver sexo, pois bem, você terá. Até somos agraciados com uma galeria de fotos de pênis dos mais diversos tipos. Aonde ele quer chegar com isso? Não tenho certeza se ele mesmo sabe. Sua presunção é a de que está criando cinema de arte, mas está mais para pornochanchada moderno.

Não dá pra negar que quando se esforça, Von Trier consegue explorar pontos interessantes. Mesmo não conseguindo mergulhar tão bem na personagem ainda nesta primeira parte, é possível perceber como a doença acaba servindo de escudo para repelir os sentimentos. A única relação afetiva verdadeira é com seu pai. Tirando esta, Joe não sabe o que é amar. Ela até se engana em um momento, mas logo percebe que é apenas uma espécie de desejo diferenciada e nada além disso. Uma amiga lhe diz, não exatamente com essas palavras, que o tempero principal do sexo é o amor; que com amor, a transa é melhor. Ela não acredita nisso, pois ela não sente. Ela não sabe o que é isso. Não há simpatia, empatia, pena, dó, compaixão, nada disso em relação aos seus parceiros – que são muitos. Em determinado momento da trama, Joe não sabe nem identificar quem é quem, de tantos que passam por sua cama. Ela, então, escreve num papel algumas respostas prontas e joga o dado. De acordo com o número que sair no lançamento, é a resposta que ela dará ao parceiro.

Há outros acertos, como o segmento do declínio da saúde de seu pai – com fotografia em preto e branco –, e o segmento com a Senhora H (Uma Thurman), esposa de um dos diversos amantes de Joe, que acaba largando a mulher e mais três filhos pequenos para ficar com a ninfomaníaca. A maior inspiração de Von Trier certamente ficou voltada para este capítulo. O diálogo, basicamente proferido exclusivamente pela personagem de Uma Thurman, é fantástico. A situação é constrangedora. Ela segue o marido até o local e começa a analisar o recinto, a garota, até o recanto do coito. Tudo isso acompanhada de seus filhos, o que causa um constrangimento ainda maior para todas as partes. Thurman aparece pouco, mas está fabulosa. Assistiria mais meia hora deste segmento sem pestanejar.

A primeira parte de Ninfomaníaca é um conto inacabado, que perece de emoção, com uma condução narrativa enfadonha e fria. Pode ser que seja proposital, visto a incapacidade da protagonista de sentir determinadas emoções. Ou não. Talvez seja apenas falta de tato de Von Trier, que preocupa-se muito mais se focar em sexo ao invés do aprofundamento de sua personagem. O sexo é necessário para contar esta estória, é claro. Contudo, o longa certamente poderia ficar sem algumas das cenas destacadas, especialmente quando os números Fibonacci são as explicações para sexo. Preciso mesmo dizer que fora desnecessária esta associação? Digo de qualquer maneira.

Quem sabe, com o segundo volume, Ninfomaníaca venha a se tornar um filme melhor, podendo ser um estudo mais aprofundado sobre este comportamento doentio – que deve ser ainda mais enfático neste aspecto julgando pelas cenas dele que acompanham os créditos deste Volume 1 – e até mesmo a questão mais afetiva da personagem, como a carência e falta de conexão com outros seres humanos. De qualquer maneira, até aqui, a impressão é a de que Von Trier quis apenas chamar a sua atenção para nada. É como se estivéssemos nas preliminares, mas na hora H nada acontece. Ninfomaníaca – Volume 1 é um longa incompleto, muito mais pretensioso e vulgar do que verdadeiramente substancial.

Nymphomaniac – Volume 1
Dinamarca | Alemanha | França | Bélgica | Inglaterra, 2013 – 118 min
Drama

Direção:
Lars von Trier
Roteiro:
Lars von Trier
Elenco: 
Charlote Gainsbourg, Stellan Skarsgård, Stacy Martin, Shia LaBeouf, Christian Slater, Uma Thurman, Hugo Speer, Sophie Kennedy Clark, Connie Nielsen

2.5 STARS

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