O Hobbit: A Desolação de Smaug | Review

Peter Jackson se perde no desenvolvimento e cria uma aventura acelerada e vazia

The Hobbit - The Desolation of Smaug

A trilogia O Senhor dos Anéis foi um marco no cinema e me fez amar a sétima arte. Os motivos são diversos. Por amar esta obra é que eu esperava ansiosamente a saga O Hobbit. Ia ser mais leve (eu esperava), mas não estava preocupado. Primeiro Guilhermo Del Toro e depois Peter Jackson. Com este na direção novamente, sabendo o apreço que ele tem pelo trabalho de J.R.R. Tolkien, estava tranquilo. Até que veio a notícia de que o livro seria dividido não em apenas dois, mas em três filmes. Na hora, o que se pensa? Quer faturar. E o problema nem seria esse. Afinal, a indústria cinematográfica preza pela verdinha e nós faríamos o mesmo, provavelmente, se fôssemos os produtores.

Jackson garantiu que não era o caso. A decisão era dele. Ok. Eu imaginava que ele sabia exatamente o que estava fazendo. Então assisti O Hobbit: Uma Jornada Inesperada, e ficou claro pra mim que o diretor é tão apaixonado pela obra de Tolkien que quis colocar tudo e ainda mais do livro e dos contos inacabados. O primeiro longa é arrastado, lento. E não é porque tem quase três horas. Isso não é sinônimo de lentidão, mas em Uma Jornada Inesperada é. O excesso de detalhes torna-se um problema pra narrativa, que demora para se desenvolver e perde tempo com sequências longas demais – a cena da reunião com os anões na casa de Bilbo parece levar uma eternidade. Mas algo que não se pode contestar é que houve desenvolvimento de personagens. Era possível se relacionar com cada um em cena.

O Hobbit: A Desolação de Smaug deveria ser responsável por tirar essa impressão de que essa divisão em três filmes de um livro de 200 páginas (e uns apêndices) era desnecessária.

Se tem uma coisa em que esta segunda parte é superior à primeira é seu ritmo. A Desolação de Smaug, apesar de ter praticamente a mesma duração de Uma Jornada Inesperada, tem um ritmo acelerado e há pouco tempo para muito blábláblá. Até aí, tudo bem. Apesar disso, esta sequência é ineficiente em alguns aspectos. O visual continua sendo o forte da nova trilogia de Jackson, que recria a Terra Média com um primor que é inacreditável. Não acho que eu seria capaz de dirigir uma mega produção como esta. Por conta disso, Jackson merece nossos elogios. Mas para por aí.

Mesmo com o ritmo acelerado, A Desolação de Smaug cansa. Pra não dizer que sou chato e pego no pé, eu fui assistir o longa em duas oportunidades – uma sessão convencional e outra em 48 frames por segundo, pra ver qual era a diferença. Nas duas ocasiões, eu peguei no sono no meio da sessão. E isso não deveria acontecer. Nem no anterior isso ocorreu. E vamos tentar entender.

A narrativa do primeiro era um tanto arrastada e neste ela é em pique de Fórmula 1. Ainda assim, o que falta aqui é desenvolvimento de personagens – o que é primordial e um dos itens que diferencia a trilogia O Senhor dos Anéis de outras sagas de fantasia. E eu não consegui sentir isso. No começo, talvez. É interessante perceber que o anel está exercendo sua influência em Bilbo (Martin Freeman). Logo de cara percebemos isso – o que até espanta. Seria proveitoso se ao longo da metragem lembrassem de explorar este fato, só que o roteiro esquece disso. Aliás, se esquece do protagonista quase que por completo, que é tão relevante em A Desolação de Smaug quanto qualquer um dos anões que ninguém se recorda o nome.

Jackson é inventivo e resolveu trazer personagens que não estavam no livro, como Legolas (Orlando Bloom), e criar outros, como é o caso de Tauriel (Evangeline Lilly). Não foi isso que me incomodou. Aliás, Tauriel é uma das poucas personagens com desenvolvimento, uma linha narrativa consistente e que é explorada além do superficial básico introdutório. Enquanto isso, outros são adicionados ao elenco e pouco agregam – ou simplesmente nada, como é o caso de Master of Laketown (Stephen Fry) e até Bard (Luke Evans), que é relevante para a trama futuramente, mas não consegue se fixar como um personagem tridimensional e crível, capaz de conquistar a empatia do espectador.

O filme é uma correria só. Foge de um aqui, foge de outro lá, escapa desse, é preso ali. O longa-metragem praticamente não tem pausa. Há tanto disso que fica cansativo. E o mais importante: a película não tem nada a dizer. Não há tamanho desenvolvimento como havia em Uma Jornada Inesperada. A Desolação de Smaug, por algum motivo, dá muita atenção para histórias paralelas, sendo que estas não trazem nenhum benefício para a narrativa. A trama do anão que tem sua perna ferida e tem uma queda por Tauriel: qual a necessidade disso? Tira o foco do principal e não contribui. Aqui vale o que aprendeu-se cinematograficamente com a saga Harry Potter nos cinemas. Não se dá atenção em demasia para coadjuvantes, e sim aos protagonistas, especialmente quando se há tanto a contar. Quem se lembra de Harry Potter e a Ordem da Fênix? Tantos cortes naquela transposição de celuloide para as telas. Mas isso transformou o livro mais fraco da saga literária em um dos melhores filmes da franquia.

A Desolação de Smaug é aquela diversão que lhe custa caro no fim das contas. Tem suas partes divertidas. Seus efeitos visuais são fantásticos. O trabalho técnico em si é estupendo. Jackson sabe como manipular o universo da Terra Média. O dragão Smaug é magnífico, colossal, perfeitamente concebido e interpretado por Benedict Cumberbatch, que dá o tom certo na voz da criatura – pena que ele tenha menos diálogos no filme do que no livro. O longa sofre por ser o típico filme do meio, sem começo e sem fim (nem sempre é um problema, mas aqui é), e não ter tamanha substância quanto o seu antecessor, que era meio enrolado, é verdade, porém oferecia muito mais do que esta segunda parte da trilogia. O Hobbit: A Desolação de Smaug só serve para provar o que já suspeitava desde o princípio: não havia necessidade de três filmes. Duas películas contariam tudo o que era necessário, sem fazer rodeios, e sendo bem mais objetivo e conciso. Infelizmente, não é o que temos aqui. Este longa-metragem tem bons momentos, mas é uma aventura tão vazia quanto a maioria das fantasias que desejam ser o novo O Senhor dos Anéis ou Harry Potter. – e agora, oficialmente, pode-se incluir O Hobbit nessa lista de wannabe.

The Hobbit: The Desolation of Smaug
EUA / Nova Zelândia, 2013 – 161 min
Aventura

Direção:
Peter Jackson
Roteiro:
Fran Walsh, Philippa Boyens, Peter Jackson & Guilhermo Del Toro, baseado na obra de J.R.R. Tolkien
Elenco:
Ian McKellen, Martin Freeman, Richard Armitage, Benedict Cumberbatch, Evangeline Lily, Lee Pace, Luke Evans, Ken Scott, James Nesbitt, Orlando Bloom, Stephen Fry

3 STARS

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