O Fabuloso Destino de Amélie Poulain | Review Retrô

A história da garota que quando vai ao cinema prefere ver a reação das outras pessoas ao invés do filme em si

Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain

por André Fellipe

Uma das características mais fascinantes do ser humano é o carisma. Ele é um daqueles fatores que termina chamando atenção em todas as suas formas de manifestação. É curioso observar não apenas quem possui esse componente tão enigmático consigo, mas também aqueles que simplesmente não tem a mesma benção de possuir tal característica. Lógico, vários fatores chegam a interferir na capacidade de uma pessoa de ser amável, porém é inegável a existência de indivíduos que revelam-se carismáticos através somente de sua presença. Mais interessante ainda é a existência desse atrativo nas pessoas introvertidas, gerando uma mescla de elementos que parecem não se entender muito bem à primeira vista. Esse enigma é um dos maiores atrativos que podemos observar nas relações sociais, além de ser um dos (vários) pilares de uma das obras mais interessantes que o cinema ofereceu para o mundo na década passada, Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain.

Amélie é uma comédia romântica que se sobressai justamente por brincar com um universo que continua sendo vítima de um excesso de exploração que transforma todo o seu gênero em uma caricatura fácil de ser ignorada, mesmo não se afastando muito dos vícios habituais dos filmes desse estilo. Toda a busca romântica da protagonista é arquitetada na forma de um jogo cujas regras são inventadas enquanto acompanhamos sua jornada para conquistar Nino (ou ser conquistada por ele, na realidade), o jovem colecionador de fotos de pessoas aleatórias pelo qual ela se apaixona.

Entretanto, o diferencial do filme não reside na construção do relacionamento dos dois. Guillaume Laurant assina um roteiro que tem uma elegância ímpar ao construir o caráter de todos os personagens centrando-se em uma pessoa cujas ações são planejadas para levar felicidade para quem ela acredita que precisa. Amélie está longe de correr o risco de se tornar uma protagonista irritante mesmo conseguindo controlar até com determinada facilidade a vida das pessoas ao seu redor (um dos erros mais clássicos de um roteiro é fazer com que a história gire em torno de alguém com aptidão de superar seus problemas sem obstáculos bem elaborados). Aquele eterno e misterioso carisma sustenta presente tanto na personagem como em sua intérprete permite com que as ações de Amélie sejam apaixonantes.

Além disso, graças a esses fatores, não precisamos de muitos elementos exteriores para criar um vínculo com a protagonista ou com a Paris ali exibida. Sua motivação para agir em prol de outras pessoas é exposta em atos iniciais que compõem os melhores momentos do filme. O modo como o seu passado é contado, com direito a utilização de humor e toques de surrealismo presentes em todos os momentos, desde os trágicos como o suicídio da mãe da protagonista até os divertidos detalhes sobre os gostos dos personagens, coloca o público em uma proximidade que permite com que suas subsequentes atitudes sejam toleráveis graças ao respeito prestado a essas ocasiões. Amélie conhece o mundo ao seu redor e sabe mostra-lo para nós de uma maneira íntima e arrebatadora.

A estrutura da narrativa e o modo como Jean-Pierre Jeunet o enxerga na direção trazem inúmeras elegantes sequências completas de charme e humor que são retiradas a partir das peculiaridades de Amélie sem demonstrar nenhuma ironia diante da timidez da protagonista. Na realidade, um dos maiores trunfos vistos aqui é o feito de conseguir fazer com que todos os elementos colocados em cena terminem em algum momento diante do sorriso adorável de Audrey Tautou. Observe como o rosto da atriz sempre recebe atenção especial nas cenas, demonstrando sua inteligência e capacidade de manipulação sem exageros ou arrogância. Ela usa de sua imaginação para nos atrair para o seu universo e nos recebe sempre com o sorriso simpático. Sua postura de observadora é excelente por conseguir em todos os momentos incorporar o seu mundo diferente com uma ingenuidade que é apoiada por vários outros ingredientes do filme.

Se essa fórmula funciona para as sequências onde ela quer nos conquistar, a mesma também é capaz de ser bem sucedida no momento de transpor senso de urgência para quando seus planos encontram contratempos. As sequências de desencontros dominam grande parte da segunda metade do filme, uma divisão que combina perfeitamente com a apresentação ilustrada inicialmente. Após permitir que os seus colegas de trabalho consigam os seus objetivos, Amélie encontra-se em uma encruzilhada formada não pela falha de seu plano, mas pela sua própria dificuldade em sair de sua zona de conforto. O universo imaginado por ela é capaz de levá-la somente até determinado lugar. A manipulação por si só não é suficiente para que a atenção de Nino seja redirecionada. Sua decepção não é explorada através de diálogos ou nenhum simbolismo sutil. O seu derretimento (literalmente) é a melhor forma de exibir isso, uma reação sem rodeios para alguém que normalmente procura o caminho mais complicado para conseguir seus objetivos.

Em um universo elaborado de maneira convincente, o filme consegue construir relações de causa e consequência com vigor. Vemos a combinação dos personagens secundários com a personalidade de Amélie e uma sagacidade que mantém a organização e surrealismo que molda a película. Inúmeras peças do filme ligam-se de maneira harmoniosa graças à atmosfera de conto de fada que é entregue a cada uma delas, como a relação entre a colega de trabalho de Amélie e o seu cliente perturbado e o vendedor atormentado pela protagonista.

Os personagens de Amélie estão sempre em busca do suprimento de um vazio que requer uma adaptação de suas personalidades para ser alcançada, como visto nos relacionamentos amorosos do filme, não apenas o da jovem garçonete. Amélie em nenhum momento esconde quem ela é. Dissimulação e timidez vão sendo construídas até o instante em que isso deve ser colocado de lado para que ela possa finalmente se encontrar com o seu par.

O destino de Amélie Poulain não poderia ser mais fabuloso. Uma aula de observação que consegue nos atingir com um conjunto de bombas metafóricas (o homem cego e o pintor que não pode sair de casa, ambos ajudados por ela, a garota que pode enxergar tudo) que convergem para um belo produto final. Uma fotografia que atira para todos os lados as cores mais vivas que podem ser postas no ambiente e uma montagem capaz de ser absurdamente engraçada, principalmente quando se trata de sexo, elemento marcante do filme que é colocado sempre de forma bem humorada e como forma de ilustrar o controle de Amélie sobre o seu ambiente imaginário, onde ela imagina do topo de Paris quantas pessoas estão tendo um orgasmo enquanto fala conosco.

Detalhe: foram 15.

Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain
França, 2001 – 122 min
Comédia / Romance

Direção:
Jean-Pierre Jeunet
Roteiro:
Guillaume Laurant, Jean-Pierre Jeunet
Elenco:
Audrey Tautou, Mathieu Kassovitz, Rufus, Lorella Cravotta, Serge Merlin

Um comentário

  1. GENTE, tô apaixonada nesse texto viu, completinho! Sou fã do filme, amo amo esse clássico, mas agora eu acho que vocês deveriam falar sobre dois clássicos haha, A Laranja Mecânica, e o filme LOLITA ♥ ai, arrasaram. bjs

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