Não vejo o que ouço – Parte 5

O cenário da dublagem nacional

No Brasil, a Associação Nacional dos Artistas de Dublagem é quem defende os direitos autorais das vozes dos dubladores relacionados ao contrato de exibição do meio audiovisual, mas quem responde pelos atores/dubladores é o Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos e Diversões (SATED). Para ser dublador no país, a legislação exige o registro profissional de ator. Michael Bahr, professor de Produção de Vídeo e Jogos Digitais da Universidade Positivo e Faculdades Opet, em Curitiba, lista alguns itens necessários para exercer o ofício de dublador.

• Até 18 anos de idade, o registro profissional para dubladores fica condicionado à autorização dos pais ou responsáveis legais, como também a um alvará autorizando o trabalho do menor, expedido pelo Juizado da infância e da Juventude.

• Para se trabalhar com dublagem, se faz necessário o Registro Profissional de Ator o qual é expedido pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Mas pode ser requerido pelo SATED regional, que emite um documento de capacitação profissional, o qual é acatado pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Para o registro no MTE, são necessários diploma ou certificados de conclusão de curso profissionalizante (técnico ou superior) reconhecido pelo MEC, ou o atestado de capacitação do sindicato.

• A Lei 6533/78 é a lei que rege a atividade do ator/atriz em território brasileiro.

• A Lei 9610/98 é a que define Direitos Autorais e Conexos de atores e dubladores, em território nacional.

(Blog Nossa Versão)
(Blog Nossa Versão)

Segundo Michael, os estúdios levam em torno de um a três dias, no máximo, para traduzir um filme de duas horas. Já em relação a seriados e desenhos animados, o tempo estimado é de apenas um dia. Após o texto ser feito, são escolhidos os atores com as vozes mais parecidas com as originais para passar a mesma timbragem e emoção que o personagem vivencia em cena. Aguinaldo Filho, membro do Sindicato dos Atores da América (Screen Actors Guild of America), conta que os atores, no entanto, não decoram as falas – o texto é lido na hora e o diretor coordena e diz como ele quer que seja a performance do ator.

Aguinaldo conta que o tempo para dublar um filme inteiro varia de acordo com o equipamento do estúdio e a agilidade dos dubladores, mas costuma durar entre quatro a seis horas. Michael explica que um episódio de série de 20 minutos leva, no máximo, três horas para ser dublado pelos atores, mas que pode ser feito em um tempo bem mais reduzido.

Aguinaldo, que já atuou como jornalista na BBC e como voz da estação da TNT, nos Estados Unidos, destaca que é imprescindível conhecer gente no meio para se tornar um dublador. O campo de atuação é um pouco restrito, sendo preenchido quase sempre pelas mesmas pessoas. Isso quando outros famosos e que não têm experiência alguma na área como Claudia Leitte (“Carros 2”), Mary Moon (“Detona Ralph”) e Luciano Huck (“Enrolados”) não acabam entrando em cena e tiram a vaga de gente mais bem qualificada. De acordo com o ator, o trabalho é muito disputado, porque São Paulo e Rio de Janeiro “estão cheios de atores em busca de trabalho entre novelas e filmes”, e a dublagem acaba sendo uma boa opção para eles.

MariMoon dubla a personagem Vanellope Von Schweetz em Detona Ralph, dublado originalmente por Sarah Silverman (Divulgação)
MariMoon dubla a personagem Vanellope Von Schweetz em Detona Ralph, dublado originalmente por Sarah Silverman (Divulgação)

Após ter atuado como dublador nos anos 60, no Rio de Janeiro, atualmente ele está afastado da área. Natural de Jaraguá do Sul, hoje reside em Florianópolis, aonde atua como ator em comerciais, narra áudio-livros e comerciais/spots para rádios e canais locais. Ele afirma que, apesar de amar a capital fluminense, a violência lá é inadmissível e por isso não tem intenção de retornar. Como os estúdios de dublagem são localizados no Rio e em São Paulo, ele não atua mais como dublador.

Amor à legendagem

Baixar filmes e séries da internet ainda é uma prática considerada ilegal, mesmo que seja apenas para o consumo pessoal. Entretanto, quem utiliza a internet dificilmente deixou de baixar um arquivo para assistir em seu computador. Para o público que baixa legal ou ilegalmente essas obras, existem várias equipes que as legendam. E o detalhe: de graça.

Um dos sites de legendas mais conhecidos da internet é o Legendas.TV, que reúne milhares de títulos diferentes graças a uma junção de vários grupos de legenders diferentes. O InSUBs é um dos mais antigos da praça, criado há mais de cinco anos. Atualmente, existem 114 pessoas registradas trabalhando na equipe. É o que garante uma das colaboradoras, Namin, apelido, já que os legenders utilizam apenas nicknames e não seus nomes reais. Só no mês de maio, por exemplo, o InSUBs produziu 44 legendas diferentes. Namin conta que a média mensal de downloads é de 23 mil legendas.

Apesar de não serem profissionais e fazerem tudo na boa vontade, a equipe trabalha com organização e muito cuidado na hora do processo da legendagem. “Nós fazemos chamadas por e-mail. Quem puder cumprir o prazo estabelecido pelo revisor, responde o e-mail. Quando a chamada é fechada, o revisor envia um e-mail com os tempos (slots) que cada um fica responsável por traduzir. Depois de tudo traduzido, o revisor da série faz os ajustes necessários na legenda e posta”, explica Namin. Os legenders também seguem alguns padrões nas legendas. O máximo de caracteres por linha (CPL) é de 32, enquanto o máximo de caracteres por segundo (CPS) é de 23. O tempo mínimo de exposição das legendas na tela é de 1,3 segundos e o máximo é de 6 segundos cravados. “Estes padrões existem para que o usuário não tenha dificuldade em entender os diálogos, para melhorar a experiência dele”.

Página inicial do site de legendas InSUBs
Página inicial do site de legendas InSUBs

Na TV por assinatura, a programação legendada tem cedido espaço para a dublada – na prática e na preferência, segundo pesquisa do Datafolha. Mas, será que existem pessoas que deixam de baixar uma série na internet, seja por iTunes ou torrent, e esperam para vê-la em versão dublada na televisão? “Fã que é fã não aguenta esperar”, afirma Namin. Quanto à dublagem, ela não esconde seu descontentamento. “E outra coisa, a dublagem é muito ruim. Não me refiro às vozes, me refiro à tradução mesmo. […] O que eu vejo são as obras dubladas sendo impostas ao público, pelo menos no cinema é assim”. Para a legender, o que não pode existir é a privação do direito de escolha.

As legendas feitas pelo InSUBs já foram vistas em vários canais de TV por assinatura. Ou seja, o trabalho deles é tão reconhecido pelo público quanto o que é feito pelos tradutores – e Namin não se importa por utilizarem. Por que continuar a fazer legendas de graça? “Amamos fazer legendas”, ela responde. “Aprendemos muito quando estamos legendando porque isso envolve pesquisa, então sempre estamos descobrindo expressões novas, gírias e também conhecendo um pouco da cultura dos outros países. E como amamos seriados, não queremos que haja uma barreira para aqueles que não têm conhecimentos do inglês”.

Confira também:
Não vejo o que ouço – Parte 1
Não vejo o que ouço – Parte 2
Não vejo o que ouço – Parte 3
Não vejo o que ouço – Parte 4

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