Ouro | Review

por Leonardo Costa

GOLD - OURO

O que três ciclistas olímpicos, uma menina com leucemia e Darth Vader têm em comum? Aparentemente, muito.

Quando Chris Cleave escreveu Pequena Abelha, o mundo literário recebeu de braços abertos uma obra arrebatadora que mudou a forma como muitos veem os conflitos e desigualdades no continente africano. Em 2013, a editora Intrínseca divulgou que publicaria Ouro (Gold, 2012), um outro livro do autor com um enfoque totalmente diferente do primeiro. Minha primeira impressão foi negativa. Não queria ler um livro sobre competidores olímpicos. Nunca gostei de esportes, competições ou medalhas. Porém resolvi dar uma chance para o autor, pois quando um autor escreve bem, ele escreve qualquer coisa bem.

Ouro conta a história de Kate e Zoe, duas ciclistas profissionais e amigas de treino que constroem uma forte amizade ao longo de anos de competições. Juntas, elas se tornam as corredoras mais velozes do mundo no ciclismo. Essa amizade é o eixo essencial do livro que liga todo o enredo como uma grande corrida sem precedentes envolvendo Zoe, Jack, marido de Kate, Sophie, filha do casal e Tom, treinador do grupo. Enquanto Zoe – focada, inalterável, e antes de mais nada, extremamente competitiva – vive para competir, Kate tenta conciliar o treino e as competições com o casamento com Jack, que também é campeão mundial na modalidade masculina de ciclismo, e Sophie, que luta pela vida contra a leucemia. Em meio ao mundo das competições e vitórias, o espírito humano luta para se sobrepor ao espírito competitivo entre as duas e todas as pessoas que estão ao redor desse universo particular têm suas vidas afetadas de forma irreversível.

O primeiro ponto alto da história é a fundamentação da personagem Sophie. Para quem é fã de Star Wars, os capítulos que tratam da luta da menina contra o câncer são um presente à parte. Sophie, aos seus oito anos, é fissurada por tudo o que diz respeito à série de filmes. E é no universo de Star Wars que ela encontra refúgio contra os sintomas da leucemia, as internações frequentes e as perceptíveis mudanças que sua condição causam à vida dos seus pais. Os diálogos de Sophie e sua interpretação sobre o que está acontecendo ao seu redor estão sempre relacionados ao universo criado por George Lucas.

Mas, diferente de Pequena Abelha, é nos personagens adultos que se encontra a glória do livro. Kate, Jack e Zoe são profundamente explorados como humanos e como esportistas em todas as suas características mais relevantes. As dores de traumas de infância, a busca pelo ouro nas Olimpíadas de Londres e as dificuldades causadas pela pressão da mídia sob os atletas são narrados de forma sensível e cativante. A todo momento nos perguntamos até onde vai a força física e espiritual do ser humano e a que custo vale a nossa busca eterna pelo ouro pessoal.

Tão bem retratada é a rotina desses atletas que, para dar vida a seus personagens, o autor passou por treinos com vários competidores e sentiu na pele cada sensação descrita no livro. Chirs Cleave quebra a imagem do atleta glorioso em cima do pódio com uma medalha no peito e nos mostra um mundo que não conhecíamos cheio de insatisfação, arrependimentos, dores e vidas tão comuns como as nossas. Um mundo onde, como percebemos no livro, chegar em primeiro lugar pode ser menos redentor do que imaginamos.

Por fim, quando ele decide narrar a história familiar em torno de Sophie, o sentimento aplicado nas palavras se sobrepõe mais uma vez ao contexto literário. Para essas partes do livro que tratavam da doença da menina e do acompanhamento dos pais, o autor participou da rotina de famílias que descobriam o diagnóstico da leucemia em seus filhos, os tratamentos, quimioterapia e perdas resultaram em capítulos emocionantes em seu enredo.

O livro é, como um todo, uma incrível forma de representar as mudanças que a amizade pode trazer na vida das pessoas e como um simples ato de empatia no momento certo pode nos definir como “humanos” em um mundo cada vez mais individualista. Cleave prova que consegue trabalhar com extremos e ainda assim definir um estilo literário que transforma 332 páginas de tinta e papel em um mundo no qual você, em meio a um mar de sentimentos diferentes, apenas espera que tudo fique bem no final.

Eu coloco Ouro entre os dez melhores livros que já li este ano. A edição brasileira traz a arte capa nos mesmos padrões de Pequena Abelha e uma tradução impecável e livre de erros. A editora Intrínseca já trabalha em uma nova publicação do autor: Incendiary, já publicado no exterior, e que inclusive ganhou uma adaptação cinematográfica, Incendiário, estrelado por Michelle Williams e Ewan McGregor.

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