Não vejo o que ouço – Parte 4

Na TV

Por muitos anos a televisão por assinatura era considerada artigo de luxo para apenas uma pequena fatia da população – aquela com uma renda alta. As classes A e B, no entanto, não são mais as únicas com condições financeiras para ter TV paga. Alexandre Annenberg, presidente da Associação Brasileira de TV por Assinatura (ABTA) afirmou, em reportagem publicada no dia 1º de fevereiro de 2012 no site da revista Meio & Mensagem, que a classe C representa 30% da base de assinantes. De acordo com a Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL), o número de clientes de programação televisiva paga passou de 3,2 milhões, em 2002, para 16 milhões, em novembro de 2012, o que representa uma quadruplicação de público no setor. Cerca de 53 milhões de brasileiros hoje têm acesso à TV por assinatura.

Com o aumento na procura por esse tipo de serviço, as exigências também aumentaram. Se antes a TV por assinatura era sinônimo de programação legendada, este panorama se inverteu com o novo quadro apresentado pelos novos clientes. De acordo com pesquisa realizada pelo instituto Datafolha em 2012, a preferência entre dublado e legendado no cinema não mudou, enquanto na TV por assinatura houve queda na escolha pelo legendado e aumento na opção de programação dublada, em comparação com a pesquisa feita em 2007. Os programas com conteúdo dublado subiram de 49% para 56%, enquanto os legendados foram de 43% para 35%. Aqueles que não têm preferência tiveram um leve aumento, de 7% para 8%.

(Shutterstock)
(Shutterstock)

Era inevitável que as operadoras acabassem por se adaptar às vontades de seus assinantes e não demorou para que os canais trouxessem programação total ou parcialmente dublada. Oferecer a opção seria o ideal, mas nem todos os canais agiram desta forma. Por conta disso, surgiu o movimento Dublado Sem Opção Não na internet, para lutar pelos direitos do consumidor que paga sua mensalidade e não lhe é oferecida a opção para escolher a forma como quer desfrutar da programação paga por ele. Quando se compra ou aluga um DVD ou um blu-ray, por exemplo, há a escolha entre legendas e áudios diferentes. Quando se assina uma TV paga, espera-se o mesmo tipo de liberdade de escolha. Os canais de TV por satélite possuem as ferramentas para oferecer tais opções, mas não são todos que o fazem. “Tecnicamente disponibilizamos isso para todos, basta o programador mandar. Se os canais nos mandam a legenda e dois áudios, estamos prontos para oferecer as opções em 100% dos canais”, explica o gerente de marketing da NET, Alessando Maluf, em reportagem do Jornal do Comércio, publicada no dia 27 de janeiro de 2012. Na mesma reportagem, Alexandre Annenberg explica que oferecer duas faixas de áudio gera um custo que não é trivial. “Se você simultaneamente estiver transmitindo dois filmes, um dublado e um legendado, ocupa um espaço que tem um custo, obviamente, então essas coisas precisam ser avaliadas de uma forma profunda”. O fato de cerca de 25% da população brasileira ser assinante de TV paga mostra que a questão financeira não deveria ser um empecilho para oferecer o melhor para seus clientes.

Canais como FOX, HBO e Rede Telecine são os poucos que oferecem todas as opções para o espectador. O Warner Channel traz seus filmes dublados, com opção de áudio original, mas sem opção de legenda, enquanto suas séries são legendadas. TNT, Space, Megapix e A&E possuem a programação toda dublada, com opção de áudio original, sem legenda. Por sua vez, Studio e Cinemax não possuem nenhuma opção a não ser a dublagem. A AXN exibe séries apenas dubladas em alguns horários e as estreias de novos seriados são todos dublados, sem opção de escolha de áudio original e legenda. A medida até causou a revolta de muitos fãs das séries “Body of Proof” e “Hannibal”, que quando estrearam no canal em abril, eram transmitidas apenas na versão com áudio em português. A pedido dos assinantes, o canal começou a transmitir durante a semana os episódios com áudio original e legenda em português, colocando as reprises de fim de semana destes episódios na versão dublada. Contudo, a maior parte do conteúdo na grade de programação ainda é legendada por padrão.

No canal Sony, as séries inéditas durante a semana são legendadas, com reprises dubladas no fim de semana. Desde o dia 1º de julho, o Universal Channel tem sua programação de filmes e séries de segunda a sexta-feira exibida dublada, com opção de áudio original e legenda.

Hannibal (NBC)
Hannibal (NBC)

#DubladoSemOpçãoNão!

O movimento online Dublado Sem Opção Não! surgiu no dia 5 de fevereiro de 2012, criado em conjunto pela Sociedade de Blogs de Séries e liderada por Bruno Carvalho, advogado e editor-chefe do site Ligado em Série. O intuito do movimento é lutar contra a imposição de dublagem na TV por assinatura e a favor da disponibilização de todas as opções de áudio e legendas ao assinante. No manifesto da campanha, Bruno afirma que é uma questão de direito do consumidor e não uma decisão para agradar a maioria. “Todos os assinantes, independente de classe social ou preferência, têm o direito de escolher a forma como assistirão suas atrações. Hoje os canais e operadoras têm plena capacidade técnica para oferecer todas as opções, como é feito por alguns. É uma questão de interesse e respeito com o consumidor”.

dublado sem opção nãoA campanha elaborou uma petição online, que hoje conta com 9.413 assinaturas das 10.000 necessárias. Quando chegar à marca, a organização do movimento se dispõe a coleta-las, imprimi-las e encaminha-las como ofícios impressos dirigidos às principais operadoras de TV, aos canais que não oferecem todas as opções de áudio e legenda e à Associação Brasileira de TV por Assinatura (ABTA), que representa o lobby dos principais canais.

A luta pelo direito do consumidor de TV por assinatura repercutiu em diversos segmentos da imprensa, com destaque no Jornal O Globo, Revista Carta Capital e Portal UOL. No entanto, Bruno afirma que o movimento não está mais ativo, mas não explica os motivos.

Confira também:
Não vejo o que ouço – Parte 1
Não vejo o que ouço – Parte 2
Não vejo o que ouço – Parte 3
Não vejo o que ouço — Parte 5

Por Rodrigo Ramos
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