A mágica e complexa condição humana de Os Magos | Review

por Leonardo Costa

the magicians

Em meio a tantas histórias e heróis que nos são apresentados na literatura e no cinema, é quase impossível encontrar originalidade em algo. Poucas vezes por ano somos surpreendidos por uma obra que nos desperte um sentimento novo e apresente características que a diferenciam das outras com a mesma temática, por exemplo.

No momento o crédito de tal feito vai para a obra Os Magos (The Magicians, 2009) do americano Lev Grossman.

Lançado no Brasil em 2011, o livro pouco conhecido apresenta ao leitor o personagem Quentin: um jovem de 17 anos, comum, infeliz e até certo ponto bem insatisfeito com sua vida. Certo dia ele descobre que tem aptidão para entrar em Brakebills, uma escola para magos, e é aceito nesta instituição.

Lembrou de uma história familiar? Então trate de esquecer. Quase nada do que você vai ler neste livro vai lembrá-lo de Harry Potter. Ou, nas palavras de George R.R. Martin: “Os Magos está para Harry Potter como uma dose de uísque puro malte está para uma xícara de chá”.

No enredo, a partir do momento em que Quentin entra nessa instituição, os acontecimentos começam a mudar completamente e o diferencial da história fica claro para o leitor: a obra trata da vida de Quentin, suas escolhas, seus medos, sua visão sobre si mesmo e as consequências dos atos de um jovem como qualquer outro. O garoto se mostra apenas um ser humano à margem de dois mundos nos quais ele não se encaixa. Já em meio a outros magos, ele não encontra felicidade ou alguma satisfação neste novo meio como imaginava que encontraria ao ler livros de fantasia (como nós mesmos fazemos ao ler tais obras). Mesmo vivendo a experiência que sempre idealizou, Quentin continua a sentir que alguma coisa está faltando e que aquele vazio não será preenchido tão facilmente. A vida que ele tinha antes de ir para a instituição e a vida que tem agora são completamente diferentes. Porém, Quentin é o mesmo.

A humanização do personagem faz com que em determinados momentos você veja a si mesmo naquele ambiente. Sua vida pessoal é comum, conturbada e está em constante mudança. Ao se formar na escola de magos cinco anos depois (já na segunda parte do livro, que é dividido em quatro partes), ele está com mais de vinte anos, e vai morar com sua namorada tendo que viver uma vida comum no “mundo real”, que não lhe dá motivo algum para usar suas habilidades de mago. Frustrado, Quentin começa uma vida de decadência pelos bairros de Nova York, onde se envolve com drogas e na companhia de seus amigos, percebe que não há sentido algum em ter magia se ele não tem onde e porquê utilizar seus conhecimentos. O vazio que sentia não desapareceu com o tempo, só se tornou mais justificável.

Eis que mais uma chance é dada aos jovens magos: na terceira parte do livro, eles descobrem por intermédio de um velho conhecido, um modo de viajar para outro mundo, paralelo ao nosso, chamado Fillory, sobre o qual Quentin já havia lido em livros muitas vezes e onde ele poderá tentar mais uma vez descobrir um sentido para suas habilidades. O autor, propositalmente, não esconde suas referências e semelhanças com Nárnia em Fillory, porém, isso deixa de ser algo que vai incomodar o leitor e se torna um complemento dado o contexto da história.

A partir daí, já em Fillory a história toma proporções épicas no estilo Lewis e Tolkien, porém não deixa de lado o tema principal do livro: a condição humana. Grossman consegue de forma brilhante apresentar em meio à uma mitologia extraordinária e cruel, pontos da personalidade humana que são altamente destrutivos para o mundo, independente do universo no qual seu personagem está inserido.

Novamente Quentin se vê diante de algo novo e muito maior do que imaginava. Porém, ele é só um jovem comum em um mundo do qual nada sabe. É nesse contexto, que o maior diferencial da obra chama atenção: eles chegam a outro mundo, assim como os Pevensies chegaram em Nárnia, ou Harry foi para Hogwarts, porém, nessa história de Grossman, não há ninguém os esperando, ou disposto a explicar como as coisas funcionam por lá. Ninguém os chamou para pedir ajuda. Ninguém os queria em Fillory.

Isso pode custar muito caro nesse novo universo que não é regido pelas leis que conhecem e onde não há ninguém para protegê-los ou auxiliá-los em sua “jornada do herói” por conhecimento e auto-compreensão.

Por fim, Quentin percebe que atitudes humanas como mentiras e traições podem ferir mais que qualquer feitiço. Ele e seus amigos aprenderam a realizar feitiços, mas pouco sabem sobre lidar com sentimentos. Eles sabem línguas arcaicas, mas nada entendem sobre amor, perdão ou traição. São magos que não conseguem ser humanos.

Lev Grossman é um grande romancista e crítico literário e escreve vários artigos para diversas publicações como New York Times, Salon, Entertainment Weekly, Time Out New York. Os Magos já possui uma sequência publicada chamada O Rei Mago e tem seu último livro da série programado para 2014.

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