Não vejo o que ouço – Parte 3

A digitalização do cinema

De acordo com a Revista Filme B, edição de maio de 2012, Balneário Camboriú é a cidade brasileira com maior número de ingressos per capita – a média foi de 4,17 ingressos por habitante em 2011. Por esta ser uma cidade com grande frequência da população nas salas de projeção, o diretor nacional do GNC Cinemas, Ricardo Defini Leite, toma todas as medidas para agradar ao máximo seus frequentadores. Ricardo conta que a preferência do público que frequenta as cinco salas instaladas em Balneário Camboriú é pelo legendado. Uma evidência disso é a peculiar escolha de colocar um longa-metragem animado, focado no público infanto-juvenil, em sessões com o áudio original em inglês, acompanhado de legendas. Um exemplo deste caso é “Frankenweenie”filme dirigido por Tim Burton. Em sua primeira semana em cartaz, no mês de novembro de 2012, duas das quatro sessões diárias eram reservadas para a versão legendada.

Frankenweenie (Disney)
Frankenweenie (Disney)

Isto, é claro, só acontece devido à digitalização dos filmes. Ricardo explica que jamais pediriam uma cópia de uma animação na versão legendada só para uma sessão, mas com a modernização dos equipamentos de projeção e o HD digital, que contém as duas versões, é possível oferecer esta opção ao público mais adulto que prefere a voz original dos atores.

A intenção é sempre abranger os dois públicos, oferecendo-lhes opção. Com projetores de 35mm, era uma questão quase inviável para as salas de cinema. Para o distribuidor colocar uma cópia dublada e outra legendada em cartaz era muito caro, mas com a digitalização tudo ficou mais fácil. Ricardo está otimista com o mercado e prevê que, em no máximo dois anos, todos os cinemas brasileiros estarão preparados para a exibição digital. E isso é algo positivo para ambos os públicos. “Por causa da digitalização vai aumentar a quantidade de filmes com cópias dubladas. A tendência a curto ou médio prazo é que todos os filmes terão versões dubladas e legendadas no mesmo dia para satisfazer todos os gostos”.

Projetor de Filme 35mm (Divulgação)
Projetor de Filme 35mm (Divulgação)

Atualmente, das 2.530 salas de cinema existentes no país, apenas 750 delas possuem projeção digital, conforme dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine). O Programa Cinema Mais Perto de Você, do Ministério da Cultura, planeja adequar as 1.400 salas que não possuem tal tecnologia até meados de 2014 (o anúncio oficial foi realizado em 31 de janeiro deste ano, com prazo estimado de 18 meses), transformando por completo o mercado, extinguindo a distribuição de cópias físicas em película. O investimento do financiamento para a realização desta transição é de R$ 146 milhões, numa parceria entre o Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) e a Ancine.

A digitalização do circuito de exibição brasileiro permite que haja diversidade na hora de escolher um filme, dando ao público a opção de assistir na versão dublada ou legendada, além de ampliar os espaços para filmes nacionais, que sofrem com a falta de distribuição maciça no país.

Presentes na foto o diretor-presidente da Ancine, Manoel Rangel, o diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES, Julio Raimundo, a ministra da cultura Marta Suplicy, e o presidente da Federação Nacional das Empresas Exibidoras Cinematográficas – FENEEC, Paulo Lui durante o anúncio do investimento de R$ 146 milhões para digitalização das salas de cinema. (André Melo)
Presentes na foto o diretor-presidente da Ancine, Manoel Rangel, o diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES, Julio Raimundo, a ministra da cultura Marta Suplicy, e o presidente da Federação Nacional das Empresas Exibidoras Cinematográficas – FENEEC, Paulo Lui durante o anúncio do investimento de R$ 146 milhões para digitalização das salas de cinema. (André Melo)

Procura e oferta

Em cidades menores, é comum existir poucas salas e, com isso, haver uma oferta menor de filmes e cópias em ambas as versões. Apesar de ser um dos maiores municípios do estado de Santa Catarina, Itajaí e sua população de mais de 183 mil pessoas possui apenas duas salas de cinema. Não é difícil imaginar que os espectadores desta e outras cidades acabem se frustrando por não ver determinado longa-metragem em cartaz ou não vê-lo em cópia legendada ou dublada.

Ouvir reclamações é completamente normal. É o que afirma Ricardo Defini Leite. Segundo ele, nunca se consegue agradar os dois lados, seja qual for o filme que entre em cartaz. A exceção é quando são disponibilizadas ambas as versões de uma película ou é uma animação. Apesar do número de cópias dubladas terem crescido no mercado cinematográfico brasileiro, o público ainda é muito dividido. Ricardo conta que a escolha depende muito do filme. “‘Lincoln’, por exemplo, é para um tipo de perfil de quem gosta de assistir legendado. São filmes com perfil mais adulto”. Ou para ilustrar melhor, “filmes como do Woody Allen jamais iríamos colocar dublado, pois é um público restrito”. Para ele, uma versão dublada de “Meia Noite em Paris”, por exemplo, iria espantar o nicho de fãs do diretor e não traria retorno ao exibidor.

Meia Noite em Paris (Sony Pictures Classics)
Meia Noite em Paris (Sony Pictures Classics)

Independente das particularidades do público, a única forma de assistir a um filme e conseguir usufruir de sua totalidade seria tendo domínio da língua mãe da obra audiovisual. Para o professor Rafael Bona, nem a dublagem ou a legendagem são formas de tradução completas. Para ele, durante a transposição, seja com legendas ou com a dublagem, se perde muito do original. De acordo com Roberto Sadovski, crítico de cinema, a legendagem é a que menos interfere no texto original. Contudo, nas duas formas, parte do roteiro se perde. Mauro Ramos, professor de cinema da Universidade do Sul de Santa Catarina, explica que às vezes as traduções passam por adaptações de conteúdo significativas para que haja uma identificação com certos valores culturais locais e, em outros casos, para simplesmente adaptar gírias não pertencentes ao nosso vocabulário ou alguns vícios de linguagem.

Confira também:
Não vejo o que ouço – Parte 1
Não vejo o que ouço – Parte 2
Não vejo o que ouço – Parte 4
Não vejo o que ouço — Parte 5

Por Rodrigo Ramos

 

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