Jogos Vorazes: Em Chamas | Review

Denso, político e emocionante, a continuação aposta no talento de Jennifer Lawrence e o resultado é um filmaço

Catching Fire

Cada obra possui camadas de entendimento diferenciadas. À primeira vista, talvez aquele filme ofereça pouca coisa. Com um olhar mais aprofundado, no entanto, é possível enxergar muito mais. O conteúdo vai se dividindo em diversos níveis. Suzanne Collins é uma escritora que conseguiu a proeza de em seus dois primeiros livros (os que li) da trilogia Jogos Vorazes oferecer ao leitor – e ao expectador no cinema – entretenimento de qualidade, sem subestimá-lo e debatendo vários assuntos que vão além de um mero romance, sendo este o fator com menor relevância de suas obras.

(Paris Filmes/Lionsgate)

Em Jogos Vorazes: Em Chamas, o diretor Francis Lawrence (Eu Sou a Lenda e Constantine), tinha a ingrata (ou a honrada) tarefa de dar continuidade ao ótimo filme de Gary Ross. A faísca iniciada com Jogos Vorazes acende ainda mais a chama da revolução. Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) não tinha ideia de que um simples ato de amor e sacrifício por ela e Peeta Mellark (Josh Hutcherson) poderia ser considerado um movimento de desafio contra a Capital. E para cada ação, é claro, existe uma reação e o Estado não costuma deixar barato.

(Paris Filmes/Lionsgate)

Quando retorna pro Distrito 12, o principal problema de Katniss parece ser o esclarecimento para Gale (Liam Hemsworth) de que o que rolou com Peeta nos jogos não significou nada. O romance, à primeira vista, parece ser a grande problemática. Parece, mas não é. O longa-metragem trabalha com agilidade e em poucos minutos o beijo entre Katniss e Gale já garante mais problemas e ameaças da Capital, vindo diretamente do ameaçador Presidente Snow (Donald Sutherland). Para garantir que não haja encorajamento de rebeliões e para que os pescoços dos familiares de Katniss permaneçam intactos, ela precisa atuar melhor do que nunca de que está realmente apaixonada por Peeta durante o tour dos vencedores em cada um dos doze distritos.

(Paris Filmes/Lionsgate)

Os problemas vão se agravando conforme a narrativa se desenrola, e com isso Em Chamas vai nos oferecendo muito material para refletir.

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Katniss não se enxerga como uma revolucionária. Inicialmente, sua preocupação é com aqueles que ela ama, mas chega tal ponto que é difícil manter apenas seu pescoço. Não é sua intenção, mas ela se torna um símbolo de luta, de resistência. Em cada tipo de religião ou história sobre a odisseia do herói, há sempre um símbolo que representa a esperança do povo. Jesus Cristo na Bíblia, Neo em Matrix ou Batman na trilogia de Christopher Nolan. Por isso, sua sobrevivência e sua determinação em permanecer respirando é tão importante. Quanto mais ela persiste em respirar, mais pessoas ela inspira a resistir aos movimentos ditatoriais que insistem em oprimir o povo.

(Paris Filmes/Lionsgate)

É possível criar paralelos com o que já se viveu em nosso passado e até mesmo com o que se vive ainda hoje, no século XXI. Não necessariamente em termos tão extremos como os mostrados em tela, mas em muitas partes do mundo vivemos em extrema pobreza, violência desenfreada, falta de liberdade de expressão, governos ditatoriais e corrupção exacerbada. Aliás, não vivemos um pouco de cada um desses itens no Brasil? Quando tentamos conquistar algo que é nosso por direito, a polícia é agressiva e os governantes são implacáveis. O futuro distópico de Jogos Vorazes talvez esteja bem mais próximo da realidade do que possamos imaginar. Afinal de contas, existe jogo mais voraz do que acompanhar minorias sendo desprezadas, pessoas sendo estupradas, mortas sem dó nem piedade, morrendo de fome diariamente através da TV e da internet?  E o governo, que promete suprir todas as necessidades, faz o que mesmo? Ah, verdade. Nada. Ou muito pouco. Entretanto, a imagem que o governo passa de nós é a de que somos um país exemplar em tantos níveis. Em um país em que morrem por homicídio mais de 50 mil pessoas por ano, algo certamente está errado.

(Paris Filmes/Lionsgate)

Novamente, os jogos ocorrem para tentar botar fim nos símbolos de esperança remanescentes: 24 vencedores dos jogos anteriores são escolhidos para participar da 75ª edição dos Jogos Vorazes. Novamente a manipulação da sociedade entra em cena e o cruel reality show entra em cartaz. Aqui a inspiração já se desprende mais de Batalha Real – filme japonês de 2000, que certamente inspirou Collins na concepção de Jogos Vorazes – pois os competidores vão da primeira até a terceira idade, e não são somente adolescentes.

(Paris Filmes/Lionsgate)

Francis Lawrence tem um trabalho complicado aqui, pois o livro é intrincado em alguns momentos e são muitos detalhes para serem transferidos à telona. São praticamente dois filmes diferentes dentro de um só, mas o roteiro consegue fazer a transição entre a primeira e a segunda narrativa com louvor. Falta um pouco de ritmo na primeira parte, mas isso vem em consequência do desenvolvimento dos plots e dos personagens. Effie (Elizabeth Banks) e Haymitch (Woody Harrelson) ganham mais espaço, assim como Gale – ainda que menos que os demais. Além disso, é necessário introduzir mais uma penca de personagens novos como é o caso dos outros competidores dos jogos e Plutarch Heavensbee (Philip Symour Hoffman).

(Paris Filmes/Lionsgate)

Todos os elementos, que vão de romance, política, violência gratuita, o espetáculo e até mesmo o humor, são bem trabalhados por Lawrence, que devido a um roteiro bem estruturado, consegue compor seu melhor trabalho. Ele deve muito a consistente personagem escrita por Suzanne Collins. Katniss é o símbolo de uma mulher forte, independente e que tem um coração enorme. Uma das melhores personagens femininas que já conheci na cultura pop, sem dúvida. E parte do sucesso dela é sua interprete nas telas. Jennifer Lawrence, agora dona de uma estatueta do Oscar de melhor atriz, prova mais uma vez que é merecedora dos elogios e do papel. Se conseguimos nos comover, torcer e até mesmo odiar através da personagem, certamente Jennifer é a culpada, sendo bem sucedida ao expor todos os sentimentos de Katniss. Ora sutil, ora extrema, sempre levada pela emoção – como Haymitch gosta de ressaltar, e por isso mesmo ela não participa dos planos arquitetados por ele. Jennifer Lawrence é o coração da série, isso é fato, tornando a franquia ainda mais atrativa do que já é pelo seu conteúdo e aspecto visual.

(Paris Filmes/Lionsgate)

Depois de Harry Potter, Jogos Vorazes é a melhor saga literária para jovens que tem algo realmente a dizer. Afinal, Jogos Vorazes não é sobre a menina que não sabe com qual garoto quer ficar. Claro, o romance está presente porque faz parte da natureza humana, mas não é isso que move a saga. São as várias camadas entendimento. Existe profundidade aqui. Collins e, agora, Francis Lawrence conseguem nos fazer refletir sobre política, opressão, e muito mais com um blockbuster. É uma conquista para poucos. Em Chamas é denso, emocionante, até mesmo revoltante. Um entretenimento de qualidade que abre espaço para um desfecho (dividido em dois filmes) que promete.

(Paris Filmes/Lionsgate)

Jogos Vorazes: Em Chamas
(The Hunger Games: Catching Fire)
EUA, 2013 – 146 min
Drama / Ação

Direção:
Francis Lawrence
Roteiro:
Michael Arndt, Simon Beaufoy, baseado no livro “Em Chamas” de Suzanne Collins
Elenco:
Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Woody Harrelson, Elizabeth Banks, Lenny Kravitz, Philip Seymour Hoffman, Jeffrey Wright, Stanley Tucci, Donald Sutherland, Jena Malone, Willow Shields, Amanda Plummer, Lynn Cohen, Sam Claflin

4.5 STARS

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