Não vejo o que ouço – Parte 1

O embate entre os que preferem dublado ou legendado e a qualidade dos dois tipos de tradução.

Quinta-feira à noite, por volta das 23h45. Normalmente, o shopping estaria fechado por completo, suas lojas, praça de alimentação e o cinema. Mas hoje o cenário é diferente. O burburinho já está instaurado. Filas se formam e pessoas de várias faixas etárias estão presentes no recinto.

Um grupo de amigas conversa e troca risadas à frente dos cartazes iluminados. Julia, de 17 anos, é uma delas. Dona de cabelos negros e vestindo um casaco preto, ela conta que veio assistir a estreia de “Homem de Ferro 3” na versão legendada. “Prefiro legendado porque parece que não corta a fala e ela fica no tempo certo. E a voz quando é dublada parece que não combina com o ator e não parece que é ele”. E se não tivesse mais ingresso para a sessão legendada, só para a dublada? Ela é taxativa: “Eu não assistiria. Iria em outro dia. Mas eu comprei o ingresso uma semana adiantado pra garantir que veria a sessão legendada”, diverte-se a espectadora ao contar, compartilhando a sua risada em alto som.

Homem de Ferro 3 (Paramount/Marvel)
Homem de Ferro 3 (Paramount/Marvel)

Esperando na fila da pipoca está um rapaz de cabelos curtos escuros, em seu casaco bege, na companhia de dois amigos. Aproximo-me dele e pergunto em qual sessão ele irá. Daniel Souza Morais, 19 anos, é aparentemente uma pessoa mais reservada. Ele me olha com certo receio, mas acaba respondendo que vai ver “Homem de Ferro 3” na versão com legendas. Em um tom de voz mais baixo, evidenciando seu jeito acanhado, ele conta que sua preferência, no entanto, é outra. “Eu prefiro dublado porque é aparentemente mais fácil de entender. Não me dou muito bem com o inglês”. Mas, então, por que não vai assistir a cópia dublada? “Geralmente quando assisto ao legendado é porque gosto de acompanhar os meus amigos”.

Daniel explica que não gosta do legendado porque não se dá muito bem com a leitura da língua portuguesa e entende melhor o filme quando a cópia é dublada. Apesar da sua preferência, ele não desqualifica a legendagem. “O legendado também tem suas vantagens. A gente ouve exatamente o que o se fala, as expressões dos atores. E, às vezes, na versão dublada, podem ocorrer falhas”.

Afinal de contas, qual é a preferência da maioria dos brasileiros? Em 2012, após um hiato de cinco anos, o Sindicato das Distribuidoras e o Instituto Datafolha divulgaram uma nova pesquisa sobre o assunto. Os números coincidem com os de 2007: 56% da população que vai ao cinema prefere assistir filmes dublados, enquanto 37% preferem os longas-metragens em suas versões originais com legendas. A diferença é que aumentaram de 5% para 7% aqueles que não têm preferência. Em uma pesquisa on-line realizada entre maio e junho deste ano, no entanto, foram encontrados resultados distintos dos dados do Datafolha. (Veja os resultados logo mais na reportagem).

O sócio-gerente e diretor nacional do GNC Cinemas desde 1995, Ricardo Defini Leite, diz que não há uma predominância de preferência por filmes dublados. Ele destaca que a preferência já foi pelo legendado, mas que a procura pelo dublado vem crescendo bastante, especialmente para filmes mais populares e que atraem o público jovem, como é o caso de películas de ação e comédia. Para ele, esse crescimento do público dos longas-metragens dublados se deu pela melhoria na confecção da dublagem. “Antigamente [até a década de 1990] tinha problemas de som. O jovem que não pegou a fase ruim da dublagem prefere o dublado. O que a gente ouve é que eles conseguem prestar mais atenção na história, nas cenas, e não ficam tão presos em ler rapidamente”.

Ricardo enxerga essa preferência crescente também devido à televisão aberta, que contém em sua programação filmes e seriados na versão dublada. E, por isso, o público acaba não se importando em assistir uma película desse jeito. Para Rafael Bona, professor do curso de Audiovisual da Universidade do Vale do Itajaí (Univali) e coordenador do curso de Publicidade e Propaganda da Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB), essa predileção é uma questão cultural. “As pessoas odeiam ler legendas”. E, aparentemente, não gostam tanto de ler livros também. A cada quatro anos, o Instituto Pró-Livro lança a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil para saber como está a leitura do brasileiro. Os índices pioraram em relação ao último levantamento, realizado em 2007 e divulgado em 2008.

Na pesquisa feita em 2011, e divulgada ano passado, foram entrevistadas 5.012 pessoas, com idade a partir de cinco anos, alfabetizadas ou não. A média caiu de 4,7 para 4,0 livros lidos por ano. Este número refere-se ao leitor ativo, aquele que leu pelo menos um livro nos últimos três meses que antecedem o período da pesquisa. Em 2007, 45% dos entrevistados não tinham lido nenhum livro, enquanto na pesquisa mais recente esse número subiu para 50%.

Entretanto, a falta de leitura não necessariamente tem relação com essa preferência. Na Alemanha e na França, países com elevados índices de leitura, é difícil encontrar filmes legendados em cartaz. O mesmo se repete nos Estados Unidos, como explica o professor Rafael Bona. “Tradicionalmente, estadunidenses detestam filmes legendados. Isso até chega a se tornar um problema para que os filmes estrangeiros sobrevivam no mercado americano. [O italiano] ‘A Vida é Bela’, por exemplo, quando lançado nos EUA, em 1998, chegou a ser dublado em inglês pelo próprio Roberto Benigni [protagonista do longa]”.

A Vida é Bela (Imagem Filmes)
A Vida é Bela (Imagem Filmes)

Michael Bahr, professor de Produção de Vídeo e Jogos Digitais da Universidade Positivo e Faculdades Opet, em Curitiba, está desenvolvendo sua dissertação de mestrado em Comunicação sobre dublagem e mostra compreensão àqueles que preferem a versão dublada. Michael explica que quando a pessoa assiste pela primeira vez a um filme, seriado ou desenhado animado, e nunca teve contato com a voz original da obra, essa voz – a brasileira – acaba se tornando a verdadeira para o espectador. Isso geralmente ocorre com crianças que, por pouca experiência de vida, acabam acreditando que a voz dublada é a original do personagem. “Talvez nem mesmo passe na cabeça de muitos telespectadores que exista uma dublagem”, explica o professor, como é o caso do seriado mexicano “El Chavo del Ocho”, popularmente conhecido no Brasil como “Chaves”. Em entrevista ao programa “Agora é Tarde”, da Rede Bandeirantes, em abril de 2013, o dublador do personagem Kiko, Nelson Machado, afirmou que muitas pessoas o questionam sobre a sua voz não pertencer a ele, mas sim ao corpo do personagem que interpreta no seriado. Ele conta que esse fato torna a experiência de vê-lo pessoalmente algo muito estranho.

O professor Michael Bahr destaca que o contrário também pode acontecer. “Quando você já tem um contato sonoro/visual com a voz do ator original, pode se incomodar ao ouvir a interpretação deste ator através de outro, no caso, o dublador”. Nesse caso, o uso de legendas se torna mais aceito. De acordo com o professor de cinema da Universidade Tuiuti do Paraná e Doutor em Cinema pela New York University, José Gatti, “a legenda ser aceita irá depender da capacidade de leitura do espectador. Há um diferencial de classe social/escolaridade que não pode ser esquecido”.

Dublado x Legendado na visão dos internautas

Entre 22 de maio e 13 de junho de 2013, foi realizada uma pesquisa on-line sobre a preferência do público em relação a obras legendadas e dubladas. No tempo em que ficou disponível, a enquete recebeu 693 respostas. A primeira pergunta questiona qual é a preferência na hora de assistir a um filme ou a uma série de TV. Os entrevistados que preferem legendado correspondem a 86%, contra 6% de quem tem predileção por dublado, enquanto 9% responderam que não se importam e assistem qualquer um dos dois. A pesquisa ainda levou em conta algumas particularidades para tentar traçar um perfil das pessoas que consomem estas obras. A média de idade dos entrevistados ficou entre 18 e 30 anos. A maior parte deles está cursando faculdade (48%) ou já concluiu o ensino superior (19%). Ao serem questionados sobre quantas vezes frequentam o cinema por mês, 39% responderam que pelo menos uma e 24% disseram que vão duas vezes. Aqueles que não vão nenhuma vez representam 17% das respostas.

A falta de leitura é um dos fatores que podem ser atribuídos às pessoas que não assistem filmes e seriados legendados (mas não é o único). Na pesquisa, os internautas foram questionados sobre quantos livros leram nos últimos 12 meses e o resultado foi surpreendentemente positivo. Das 693 pessoas, apenas 26 delas não leram nenhum livro no último ano, correspondendo a menos de 4% dos entrevistados.

Segundo Mauro Ramos, professor de cinema da Unisul, em Tubarão, um dos fatores para o espectador decidir se assiste dublado ou o legendado é o quão íntimo ele é com a língua estrangeira. A enquete questiona quantas línguas estrangeiras o respondente possui. Mais da metade (51%) tem o domínio de mais um idioma além do português. Os que possuem dois correspondem a 22%. Um quinto dos que responderam ao questionário (20%), não falam outra língua a não ser a sua nativa.

resultados

Confira também:
Não vejo o que ouço – Parte 1
Não vejo o que ouço – Parte 2
Não vejo o que ouço – Parte 3
Não vejo o que ouço – Parte 4
Não vejo o que ouço — Parte 5

Por Rodrigo Ramos

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