Breaking Bad – Quinta Temporada | Review

A última temporada é provavelmente uma das melhores coisas que você verá na história da TV.

Breaking Bad (19)

Por Rodrigo Ramos

Imagine o cenário a seguir. Você é um professor de química num colégio público, por volta dos seus 50 e poucos anos. Não há mais possibilidades de ascensão na carreira. Você tem um filho adolescente e uma esposa, que não trabalha, grávida. Eis que você é diagnosticado com câncer de pulmão, em um estágio avançado. É uma situação complicada. A maior preocupação de Walter White (Bryan Cranston) é deixar alguma coisa para a sua família e ele não aceita ajuda. Ele é orgulhoso. Quer deixar para seus filhos o que ele conquistou. Então ele decide fabricar metanfetamina com seu ex-aluno Jesse Pinkman (Aaron Paul) e daí pra frente você já deve saber o que acontece.

Walter White entra de cabeça no mundo do crime. No início, acreditamos que suas intenções são genuínas. Mas o poder é tentador e então o professor não resiste. Heisenberg ressurge. É uma face obscura e que esconde o verdadeiro Walter White. Ou seria esta a verdadeira personalidade dele? É fácil ser honesto quando não se é dada a oportunidade para não sê-lo. Tal cenário me lembra dos brasileiros de um modo geral. Fácil gritar através dos dedos nas redes sociais que todo político é corrupto, mas na hora de furar a fila ou ficar com o troco a mais do que deveria não se pensa duas vezes. O poder corrompe e é preciso muito mais do que apenas boas intenções para fugir da tentação. Walter sucumbiu.

Ao longo de cinco temporadas, fomos conhecendo as particularidades de cada um e aprendemos a nos importar. Mesmo que você não seja totalmente a favor das ações de Walter, é possível se relacionar com algumas de suas atitudes. E se não for pra sentir simpatia, certamente algum sentimento como ódio ou raiva. Ao fazer um retrospecto, nota-se que os envolvidos não podem ser mais reconhecidos pelo o que eram no ano um. Walter, Jesse, Skylar, Hank, Marie. E as mudanças são bruscas. É possível realizar um estudo de caso em cima da cada um dos personagens.

O quinto ano da série poderia receber o subtítulo de A Ascensão e a Queda de Heisenberg. Na primeira metade, Walter começa a tomar conta do crime. Ele se foca em tirar toda a concorrência do caminho e se estabelece como o rei do negócio. Para que isso ocorresse, é claro, Walter precisou despir-se de toda a decência. Não há lugar para pensar duas vezes antes de cometer qualquer crime. Mentir, roubar, matar. Há um distanciamento gigantesco entre o professor que presava pelo bem da família e este Al Capone da metanfetamina. É maravilhoso ver como Vince Gilligan, criador da série, desenvolve a figura. Heisenberg e Walter são dois opostos. Enquanto o professor é frágil, dissimulado, pai de família, amável com todos, a mente brilhante do crime é imponente e implacável. É o que Walter gostaria de ser de verdade, mas que cai por terra logo quando ele acreditava estar tudo a salvo.

A primeira parte da temporada tem momentos brilhantes, carregados de adrenalina, tensão e emoção, mas que não chega aos pés do que os personagens são submetidos nos últimos oito episódios. Nós, espectadores, sofremos junto com todos eles a cada segundo que se passa. É uma preparação de terreno incrível, que parece ter sido premeditada detalhe por detalhe. Dá a impressão que Vince Gilligan planejou este caminho trilhado até aqui desde o começo. A temporada chega a um ponto em que não é mais possível para nenhum dos personagens voltarem atrás, e isso é brilhante. Muitas séries chegam ao seu final, mas dão a impressão que poderiam optar por diversos desfechos – sendo eles felizes ou não. Apesar de Breaking Bad ser totalmente imprevisível, semana após semana, fica difícil imaginar um término alegre. É impossível. Essa iminência é um dos fatores que faz com que o espectador grude na poltrona e fique esperando, roendo as unhas, para ver o que acontece a seguir.

Nesta segunda parte da quinta temporada, as direções apontam para a tragédia. Jesse está perdido, quase fora do ar, sem um propósito. Ele não quer dinheiro. Ele quer recompensar por todo o mal realizado por ele e Walt. Ele é tão culpado quanto, mas a consciência de Jesse nunca ficou de lado. Contudo, Walt sempre conseguiu passar a conversa nele, fazendo com que sempre ficasse ao lado do Mr. White. Até que, finalmente, ele acorda pra vida e percebe que foi usado, apesar desta não ser a melhor palavra para definir a situação. Mas enganado? Sim. Enquanto o confronto deveria ser apenas entre Heisenberg e Hank (Dean Norris), a briga fica melhor quando Pinkman entra na jogada. A disputa é voraz.

Enquanto isso, surgem os efeitos colaterais. A Skylar que antes queria se matar para fugir do marido, acaba abraçando a causa e tenta fazer o que é melhor, dentro das possibilidades, para a sua família. E que desempenho fantástico de Anna Gunn. O Emmy é mais do que merecido, e ano que vem merece novamente a estatueta de atriz coadjuvante. A situação é tão extrema que ela acaba ficando contra o próprio Hank. Este, coitado, caiu na maior cilada de sua vida. Seria tão melhor para ele nunca ter sentado naquele vaso sanitário. Todavia, a reviravolta era necessária – e funciona como combustível para a reta final da série.

Nos últimos episódios, Walter sofre com suas decisões – e não só ele, mas todos os que estão ao seu redor. As situações pelas quais ele passa fazem com que o espectador fique em dúvida se o odeia ou se sente pena dele. A desculpa ainda é prover para a sua família. Quando ameaçam a vida daqueles que ele se importa, ele se impõe. Pena que Walter White não é Heisenberg. Nem todos sabem disso, no entanto, como é o caso da polícia. Em uma cena chave, Walt mostra toda a sua arrogância e soberba diante de policiais no outro lado da linha, isentando sua família de toda e qualquer parcela de culpa. Ele credita suas conquistas exclusivamente a si. Será que a essa altura do campeonato somos capazes de (ainda ou voltar a) acreditar na justificativa inicial? O episódio final deixa bem claro esta questão – e era o que esperávamos ouvir a um bom tempo.

Acredite, Walter paga por todos os seus pecados. Seu câncer volta. Ele precisa se isolar de tudo e de todos em um lugar no meio do nada. As pessoas ao seu redor começam a morrer ou a sofrer. Seu filho o odeia. E até seus colegas da faculdade que abriram um negócio com ele, a Grey Matter Technologies, o diminuem. Além, é claro, do fato de tomarem conta do seu produto e de seu dinheiro. Heisenberg está morto. É apenas uma imagem que as pessoas têm. Na verdade, ele nunca existiu. Apesar disso, é evidente que Walt irá ressuscitar o que sobrou deste e mesclar com suas “boas intenções” para voltar para a realidade e… Bem, dar spoilers do desfecho da série não seria justo. O que dá pra adiantar é que o término não poderia ter sido melhor dentro das possibilidades. Nada parece fora do lugar. Os acontecimentos, as falas, tudo termina pontualmente, sem excessos. É um episódio redondo e que definitivamente coloca um ponto final, sem abertura para questionamentos.

O final da jornada de Walter White marca a TV por trabalhar brilhantemente com a face de um homem que carece de moralidade e perde todos os seus valores ao longo do seu percurso. Breaking Bad sempre abordou essa quebra de ética do ser humano e costumeiramente colocava à prova seus personagens, com Walter sendo o símbolo máximo da ruptura com o bem. Afinal, eis aqui um homem que só se importava consigo mesmo, se tornando um monstro, como ele mesmo se refere no final da temporada. Contudo, se você não é crente que a humanidade é boa em sua essência, Walt é apenas o símbolo do que é o ser humano (ou o que há de pior nele).

Ao longo dos anos, Breaking Bad trouxe o cinema pra dentro de nossos lares – e fez até melhor do que atualmente se faz na tela grande. Os 62 episódios são exemplos excelência em trabalho técnico, desde a composição dos roteiros, a direção de fotografia (o calor de Albuquerque está lá através da saturação), som, música (as escolhas costumam ser perfeitas, como “Baby Blue”, que tem uma letra que casa perfeitamente com toda a situação), as interpretações fenomenais do seu elenco até a edição final e a direção de cada um deles. Breaking Bad ensinou como uma obra audiovisual deve ser feita, em narrativa e em composição. Talvez a principal lição que a série nos deixa é esta apontada pela crítica Ana Maria Bahiana: “confie na inteligência do público. Somos inteiramente capazes de acompanhar, entender e apreciar um drama complexo em tema e tom”.

O adeus à série é doloroso. A lacuna deixada por ela dificilmente será preenchida, contudo me satisfaço em ver um dos melhores seriados da história da TV se despedindo no seu auge.

Breaking Bad: The Fifth Season
EUA, 2012/2013
16 episódios
Drama

Criado por:
Vince Gilligan
Elenco:
Bryan Cranston, Anna Gunn, Aaron Paul, Dean Norris, Betsy Brandt, RJ Mitte, Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Laura Fraser, Jesse Plemons

Lista de episódios:
5×01: Live Free or Die
5×02: Madrigal
5×03: Hazard Paz
5×04: Fifty-One
5×05: Dead Freight
5×06: Buyout
5×07: Say My Name
5×08: Gliding Over All
5×09: Blood Money
5×10: Buried
5×11: Confessions
5×12: Rabid Dog
5×13: To’hajiilee
5×14: Ozymandias
5×15: Granite State
5×16: Felina

5 STARS

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