Jobs | Review

Ashton Kutcher surpreende, mas Jobs não é A Rede Social das biografias. 

jOBS

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EUA, 2013 – 127 min
Drama

Direção:
Joshua Michael Stern
Roteiro:
Matt Whitley
Elenco:
Ashton Kutcher, Dermot Mulroney, Josh Gad, Lukas Haas, J.K. Simmons, Lesley Ann Warren, Ron Eldard, Ahna O’Reilly, John Getz, James Woods, Matthew Modine

Criou-se um preconceito em torno da produção sobre a vida de Steve Jobs, criador da Apple, estrelando Ashton Kutcher. Compreende-se a resistência. Kutcher é um ator de comédia, que nem mesmo em seu gênero específico obtém grandes resultados. Em longas-metragens como Sexo Sem Compromisso Jogo de Amor em Las Vegas, e na série Two And a Half Men, na maior parte do tempo ele faz o bobão e fica sem camisa (ou totalmente sem roupa) quando tem oportunidade, uma forma de conseguir a simpatia do público feminino – afinal, este é o seu público – e compensar a falta de talento.

A única vez em que o ator mostrou que poderia ir além do seu mediano desempenho em comédias foi em Efeito Borboleta, filme adorado por muitos e que gosto. Ali dava pra ver que havia algo a ser explorado em Kutcher, mas nunca mais ele exibiu este lado. Ele até que tentou em Por Amor e Anjos da Vida, porém, falhou.

Por conta disso, é surpreendente ver o que Kutcher faz aqui. Se inicialmente era difícil relacionar a imagem do criador do Macintosh e iPod com o protagonista de Two and a Half Men, no decorrer do longa é árduo desfazê-la. A necessidade de provar-se deve ter feito com que ator fosse minucioso na hora de recriar a figura icônica de Steve Jobs. É possível enxerga-lo nos movimentos das mãos, nos discursos, na sua fala, até mesmo no olhar. Os trejeitos estão ali e Kutcher ainda compartilha o físico de Jobs, se assemelhando em diversos sentidos. Esta será a melhor releitura deste notório personagem da História? Certamente não, pois há muitas vertentes a serem trabalhadas em cima de Steve Jobs, mas é inegável que Ashton Kutcher é o que faz de Jobs positivo em algum sentido. E confesso que não esperava dizer isso.

Entremos em outro campo do longa-metragem, que não se relaciona com a atuação do protagonista. Jobs é um filme com cara de feito para a TV – ou nem isso, já que atualmente são feitas produções de alta qualidade pra televisão, como é o caso de Behind the Candelabra, que teve sua estreia no Festival de Cannes deste ano.  Jobs não larga os clichês do gênero do biografismo. Citando o livro “…Ismos: para entender o cinema”, vemos o protagonista arriscando tudo pelo sucesso, sofrendo quedas quando está no seu auge e faz um retorno triunfal depois de experimentar conflitos pessoas e/ou duras provações. Está tudo aí. Com isso, é possível fazer um bom filme, mas Jobs reclina-se às escolhas óbvias e monótonas. O primeiro erro é tentar de todos os jeitos injetar humor, trazendo piadinhas em momentos que não cabem. A primeira reunião de Steve e seus colegas com Mike Markkula (Dermot Mulroney) chega a ser embaraçosa. Steve Wozniak (Josh Gad) é quem protagoniza o alívio cômico, nunca bem vindo em cena. Enquanto Ashton Kutcher tenta provar-se com seriedade, lá vem Josh Gad e detona com o seguimento dando uma de engraçadinho. Não é culpa inteiramente dele. Os principais culpados são o roteirista Matt Whiteley e o diretor Joshua Michael Stern, já que o texto é pobre em diversos instantes por conta da necessidade de brincar quase o tempo todo e a direção erra ao se guiar por este caminho.

Esta escolha descontraída acaba destoando totalmente o longa-metragem quando ele tenta ser levado mais a sério. Há quebras na narrativa que não conseguem casar com o restante. O namoro de Steve é mal explorado e, do nada, recebe relevância, mas de uma forma pobremente amarrada. No meio do fio condutor, o roteiro resolve fazer um remendo péssimo. Ela retorna e diz que está grávida e Steve recebe muito mal a notícia. E, como se nada tivesse acontecido, a trama segue em frente, trazendo o assunto, novamente, bem adiante. Não sou um conhecedor minucioso da vida de Jobs, mas acredito que esta tenha sido uma parte de extrema importância. Contudo, não há aprofundamento aqui. O assunto é tratado levianamente, assim como a passagem rápida da briga entre Jobs e Bill Gates, da Microsoft.

Outra escolha recorrente em filmes do gênero biográfico, mas que não funciona aqui, é tentar transformar pessoas em vilões. Isso acontece e Steve Jobs praticamente se vinga de quem o tirou de sua própria empresa. Honestamente, não causa o efeito preterido.

O longa se foca na escalada do sucesso de Jobs e como ele se tornou o gênio da informática (e bilionário) que foi. De tão focado nisso, acaba se perdendo muitos aspectos da vida pessoal e da própria vida profissional de Jobs. Percebe-se que ele era um workaholic, perfeccionista, mas há muito mais em Jobs além do cara que queria fazer de suas criações extensões naturais do ser humano – aliás, esta frase é um dos clichês recorrentes do filme. Há uma mera tentativa de mostrar sua humanidade, todavia, a direção prefere seguir pelo caminho da construção do profissional brilhante.

Talvez eu tenha sido um pouco exigente com a película. Entretanto, uma figura com uma história tão rica e cheia de histórias como a de Steve Jobs não pode ter (e nem terá) em Jobs seu filme definitivo. Fico inconformado porque se usarmos como parâmetro A Rede Social, fita que conta a criação do Facebook, não há como enxergar em Jobs um trabalho eficiente em suas pretensões e completo em todos os sentidos cinematográficos, diferente do trabalho de David Fincher.

2 STARS

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