Os Deixados Para Trás | Review

por Leonardo Costa
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A cidade de Mapleton parecia pacífica e apenas mais uma das muitas cidades do mundo onde famílias viviam em paz e lidavam diariamente com seus problemas e questões simples, que, na mente dos homens, sempre ganhavam configuração mais ampla que deveriam.

Porém, depois da Partida Repentina, tudo mudou. Ninguém mais parece se preocupar com aumentos nas tarifas telefônicas; com atrasos ou a perda de horários, nem mesmo com a corrupção ou assassinatos nas ruas. As pessoas estão caladas. Algumas entraram em um mundo só seu, sem cores ou qualquer tipo de som. Ninguém os ensinou a superar perdas. Ninguém teve tempo de dizer adeus.

Eu diria que o americano Tom Perrotta foi ousado quando escreveu um livro tão interessante como Os deixados para trás, mas de forma tão subliminar e, às vezes, cansativa. Tendo como base para sua história os acontecimentos do 11 de setembro, Perrotta dá um rosto para as famílias que sofreram com as perdas nos atentados terroristas e nos apresenta às mais diversas situações que podem ser geradas pela falta de capacidade humana em lidar com acontecimentos trágicos e extraordinariamente fora do comum.

A história é uma narrativa linear a respeito da vida dos moradores de Mapleton, que, assim como pessoas do mundo todo, foram surpreendidas quando em um dia comum, alguns de seus amigos e familiares simplesmente desapareceram do mundo, a chamada Partida Repentina, mascarada no livro como uma forma de arrebatamento divino. Porém, longe de ser um livro sobre questões religiosas, Perrotta nos apresenta situações que envolvem quem ficou pra trás e tem que lidar com a perda.

Em meio ao choque, grupos de pessoas se unem em busca de resposta, outros se revoltam contra os poucos membros familiares que restaram, enquanto alguns ainda se retiram e resolvem fazer um voto de silêncio até o fim dos seus dias. Estes formam um ponto muito interessante do livro: os chamados Remanescentes Culpados. Um grupo de pessoas que se veste apenas de branco e não pronuncia uma palavra. Apenas andam pelas ruas com seu voto de silêncio tentando conseguir mais adeptos à essa peculiar forma de superação ao ocorrido. Enquanto alguns encaram os fatos de forma pacífica e particular, oportunistas se passam por líderes religiosos e vão às ruas pregar o fim do mundo e roubar dinheiro de fiéis com promessas de reencontro e libertação. Essa venda de ideias vai de encontro ao sentimento de não pertencimento de alguns, gerando consequências imensuráveis na vida daqueles que buscam paz após o 4 de Outubro, como é designada a data.

O autor consegue com a narrativa explorar até onde a condição humana está propícia a ser distorcida e vulnerável. A história consegue em algum momento fazer com que nos identifiquemos com algum dos personagens e suas atitudes. Desde Kevin Gravey – prefeito da cidade que quer fazer o possível para melhorar a situação de seus moradores, ao mesmo tempo em que lida com a partida repentina na esposa – até pais que perderam os filhos e adolescentes que perdem a noção de princípios porque perderam os pais. E, em meio a essa diversidade de personagens nos perguntamos várias vezes se não faríamos a mesma coisa, independente dos nossos valores, caso estivéssemos perante tal situação.

Os conceitos de certo e errado quase se desfazem nessa brilhante obra sobre a sociedade atual e a ligação que temos, mesmo que oculta, uns com os outros. O livro não apresenta uma leitura muito fácil e rápida. Há capítulos em que você se pergunta por que ainda está lendo sobre o dia a dia daquelas pessoas e ainda não encontrou o clímax da história. Bem, não espere por isso. O livro é o relato de uma sucessão de dias, da primeira à última página, sem grandes acontecimentos, clímax ou reviravoltas. Porém, é uma obra para ser analisada, pensada e, com certeza, estudada a fundo como referência para o melhor entendimento de nosso processo de perda e superação em relação a tudo que podemos considerar sagrado e importante em nossas vidas, pois como o autor prova, tudo isso pode ser retirado em um segundo, e nós ficaremos pra trás, muitas vezes sem reação, sem saber como seguir em frente.

O livro publicado no Brasil pela editora Intrínseca tem 317 páginas e conta com duas opções de capa (muito interessantes por sinal). Além disso, o autor, que já levou uma indicação ao Oscar por melhor roteiro adaptado com seu trabalho em Pecados Íntimos, está em processo de adaptação da obra para uma serie de TV da HBO. A série leva o mesmo nome do título original do livro, The Leftovers, e conta com a produção de Damon Lindelof (um dos responsáveis por Lost), tendo Liv Tyler como protagonista.

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